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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Mundial da boçalidade


"Já se sabia que este Campeonato do Mundo seria diferente, o maior de sempre. O acumular de episódios pouco edificantes faz com que fique na memória, também, como uma competição polémica, cheia de casos para esquecer – ou para relembrar, para que não se repitam.

Bem pode Donald Trump, no alto da sua exuberante arrogância, dizer que este é, de longe, o melhor Mundial de sempre e elogiar o «muito respeitado Gianni» (Infantino) que lhe presta uma subserviente veneração.
Bem pode o presidente da FIFA, na sua ubíqua presença em estádios e cerimónias, apregoar a independência do organismo que lidera.
A verdade é que a reputação da FIFA sai deste Mundial com graves danos.
Este é o Mundial de Trump. Estava na presidência dos Estados Unidos quando a organização foi atribuída à candidatura conjunta americana; é Presidente dos EUA quando a prova se desenrola.
Mas, mais do que isso, açambarcou para si mesmo todo o protagonismo, reservando a Infantino (que é, insiste em dizer – não vá alguém esquecer-se - «o chefe, muito respeitado») um papel secundário, de sorridente e submisso «ajudante», e praticamente ignorando as responsabilidades do Canadá e do México, parceiros de organização.
O Mundial de Trump - e do trumpismo – revelou-se nos piores aspetos: no tratamento escandalosamente injusto e privado de fair-play dado à seleção do Irão, na entrada recusada ao árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, na forma discricionária como foram rejeitados vistos a adeptos com bilhetes comprados e, sobretudo, na descarada interferência nos regulamentos da FIFA.
O caso Balogun foi gritante, obsceno. Desde logo, pela jactância da ignorância em estado puro: «como pode um jogador ser punido num jogo que ainda não aconteceu?» - perguntou Trump, depois de admitir que tinha pedido a intervenção da FIFA para rever o castigo aplicado ao jogador (quando também disse que nem sequer sabia o que era um cartão vermelho). Ou seja: acabe-se já com os jogos de suspensão, que isso não faz sentido algum!
Mark Rubio, chefe da diplomacia americana, conseguiu acrescentar que a Bélgica não quereria «ganhar um jogo sem que o melhor jogador da equipa adversária estivesse em campo». O senador Ted Cruz elogiou a interferência de Trump e disse que «por alguma razão o troféu do Mundial tinha estado tanto tempo» na Sala Oval da Casa Branca.
Tudo junto, um tratado de boçalidade!
Trump revelou um total desconhecimento dos regulamentos e da noção de independência das instituições (se bem que este aspeto, nele, só seja novidade aplicado ao futebol) e colocou em causa a credibilidade da FIFA, no seu todo, e de Gianni Infantino, em particular.
Para piorar, só falta a FIFA dar a Trump uma distinção de Fair-Play, depois do inédito Prémio Fifa da Paz…
O mundo do futebol reagiu a tudo com incredulidade e indignação. Pede-se a revisão dos regulamentos da FIFA, a demissão de Infantino, a retirada de cartões vistos neste Mundial por outros jogadores de outras equipas, a intervenção do Parlamento Europeu…
Se calhar era bom parar para pensar. No futebol que queremos e no que queremos para o futebol.
Uma coisa é certa: Portugal, enquanto coorganizador do Mundial de 2030 – com Espanha e Marrocos – tem, desde já, uma missão: respeitar a reputação da competição que mais faz sonhar os jogadores e os adeptos. Aqueles que gostam de Futebol."

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