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sexta-feira, 10 de julho de 2026

Portugal saiu de Dallas pela rua que obriga a recomeçar


"Foi um mês e um dia a correr a América do Norte, do Sul de Miami a Toronto. Agora que deixo Dallas, a caminho do aeroporto, para voltar a casa e aos meus, no meio de tantos pensamentos, descubro que há ruas que parecem ter memória.
Por exemplo, a mesma avenida onde a Seleção portuguesa fez as malas para regressar a casa foi também o palco do último percurso de um presidente americano. Foi ali na Main St, junto à porta da garagem por onde saíram os jogadores, que arrancou a viagem de John F. Kennedy, que depois virou para Elm Street, antes de dois tiros congelarem o mundo a poucos metros, na Dealey Plaza.
Nesta altura lembro-me da Tina, uma taxista que nos levou de Arlington para Dallas. Tinha um daqueles carros que só com muita imaginação podíamos pensar que era conduzido por uma portuguesa. Mas era. Por detrás das borboletas suspensas no teto, dos brilhantes e dos veludos, estava uma menina que saiu em de São Miguel com 16 anos. Era para ter chegado em 1963, mas o assassinato de Kennedy deixou o país virado do avesso e fechou as fronteiras. Veio com a irmã dois anos mais tarde.
É curioso como as cidades têm esta estranha mania de sobrepôr histórias. No futebol, felizmente, ninguém morre. Morrem apenas ilusões. Morrem planos desenhados em guardanapos de papel. Morrem os títulos que já estavam escritos na cabeça dos jornalistas e os festejos que os adeptos ensaiavam em silêncio.
O autocarro segue, o avião levanta voo, as camisolas voltam às malas. A vida continua.
Quando o Mundial começou, parecia impossível imaginar que a aventura portuguesa terminasse precisamente aqui, numa cidade que fez da despedida um dos capítulos mais conhecidos da História. Talvez seja apenas coincidência. Ou talvez esta coisa maravilhosa a que chamamos futebol escolha sempre um cenário à altura dos seus finais.
Portugal parte de Dallas derrotado. A cidade fica igual. Porque aprendeu, há muito tempo, que nenhum fim consegue travar o mundo. Apenas o obriga a seguir caminho por outro lado. Agora é altura de Portugal seguir o seu caminho.
Um caminho novo. Diferente. Reinventado. Por outro lado. Um caminho que não deixe os nossos sonhos morrer tão novos."

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