"Num papel secundário, CR7 até poderia ainda ganhar o Óscar, que nesta altura da carreira teria tanto ou mais valor do que o de ator principal.
Terminada a fase de grupos do Mundial e com os adversários que Portugal passou a ter no horizonte era mais fácil adivinhar a saída prematura da prova do que acertar no Totobola à segunda-feira. Era a crónica duma eliminação anunciada, destino percebido por todos os que nunca perceberam como esta equipa jogava. Um conjunto de estrelas planetárias sem brilho, e que também não saem ilibadas desta história, algumas irreconhecíveis, mal dirigidas pelo único que mesmo depois duma exibição paupérrima como foi a do jogo com a Colômbia conseguiu ver «um bom teste» para um novo Mundial que começava nesse dia mas que acabou por durar… apenas mais dois jogos.
Das estrelas planetárias de Portugal há uma que é mais do que isso, é universal e encheu a maioria dos estádios onde a Seleção Nacional jogou na América do Norte, adeptos fiéis, alguns de tão tenra idade que nunca viram a melhor versão de CR7 mas mesmo assim o seguem religiosamente, celebram as suas conquistas e choram as suas derrotas. É o efeito Cristiano Ronaldo, um fenómeno de escala tamanha que nunca nenhum cidadão português teve nem tão cedo voltará a ter.
O feito CR7 tem o magnífico dom de em qualquer canto do mundo saberem de Portugal, usarem uma camisola com o nome do país estampado, servir de aproximação e de simpatia para com o português. Mas tem também um efeito contrário e que se verificou neste Mundial em que Cristiano devia ter percebido que o seu papel deveria ser já outro, porque Roberto Martínez nunca teria a coragem de lhe dar papel secundário e era num papel secundário que CR7 até poderia ainda ganhar o Óscar, que nesta altura da carreira teria tanto ou mais valor do que o de ator principal.
Esse efeito contrário do efeito CR7 de que falo tem como consequência, por exemplo, o facto de termos estádio americanos cheios de adeptos com camisolas de Portugal mas que no fundo não querem saber de apoiar Portugal, daí que não me lembre de ter ouvido gritar o nome do país durante qualquer dos cinco jogos. Não eram adeptos de Portugal, eram adeptos de Cristiano Ronaldo e dum Cristiano que está a anos-luz do que foi e que não percebeu isso ainda e que por isso, aos 41 anos, se despediu sem glória dos Campeonatos do Mundo. Eram no fundo adeptos dum só homem, mas apoiantes ‘fake’ duma equipa cujo apoio soou sempre a enlatado, porque não lhe era diretamente dirigido.
Vem aí novo selecionador, se for Jorge Jesus não será um mero selecionador, como Martínez foi e que desperdiçou uma das melhores gerações nacionais como já tinha desperdiçado uma das melhores da Bélgica. Se for JJ, teremos também um treinador que pode devolver uma forma de se ser Portugal que na Seleção Nacional se perdeu há muito e nunca se encontrou com Martínez.
Mas ela não pode ser com CR7, porque se neste Mundial o queria como ator secundário, não faz sentido que o seja, mesmo que o aceite agora, no ciclo que se segue. Porque a dois anos terá 43 e menos condições para estar no Euro-2028.
E falar na Liga das Nações da UEFA, a prova que se segue e o título que Martínez ganhou e se vangloriou, é o mesmo que o treinador dum grande vir fazer peito por ganhar a Taça da Liga em época que nem consegue chegar à Champions. Sim, porque convenhamos que a Liga das Nações é o equivalente à Taça da Liga das seleções… E se é para começar novo ciclo, que seja mesmo de forma total. Perceber isso só faria de Cristiano Ronaldo maior ainda do que ele já foi. Porque apesar de tudo, no futebol português não há, não houve e muito dificilmente voltará a haver alguém tão grande."

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