"Espanha e Argentina: duas fórmulas distintas, mas de sucesso repetidamente comprovado
Naquela acesa e muito interessante troca de bolas com Ricardo Quaresma minutos depois da eliminação da Seleção do Mundial, e concorde-se ou não com o grosso dos argumentos que utilizou, Rúben Dias chamou a atenção para um facto relevante: Portugal não tinha, na sua essência, um conceito de jogo culturalmente enraizado como a Espanha.
Quem o tem – desde que suportado em talento, claro – estará mais vezes perto de ganhar. E é por isso que Espanha ganhou tantas vezes nos últimos 20 anos.
Mas se isso fosse condição única para o sucesso, Espanha e todas as equipas que se munissem de um número substancial de jogadores nascidos e formados em Espanha ganhariam sempre. Não haveria espaço para a arte dos franceses, ou para a alma inesgotável dos argentinos.
Espanha e Argentina são seleções muito diferentes, mas são igualmente representantes de escolhas que nos mostram caminhos distintos e igualmente eficazes para se atingir o sucesso. Uns, porque nunca abandonam as suas ideias vincadas de um jogo coletivo; outros, porque, mesmo quando tudo parece estar prestes a desmoronar, numa deixam de ser um grupo unido à volta de um homem.
Mas há algo em que se fundem: são equipas no sentido mais lato do termo.
Durante este Mundial, muito se debateu sobre as razões do fracasso de Portugal. E com teses situadas por vezes nos antípodas: houve quem alegasse que Cristiano Ronaldo era o problema e quem argumentasse que o problema estava nos restantes jogadores, que teriam boicotado o mais letal avançado do futebol mundial da última década e meia.
Não estou a dizer que Portugal devia ter seguido a receita da Argentina (mas alguma devia ter seguido). Até porque não há comparação possível entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo.
Um, aos 41 anos, precisa do trabalho e do talento de uma equipa.
O outro, aos 39, só precisa do trabalho, porque do resto ele ainda consegue tratar.
Podia ser um peso para quem partilha com ele o campo e para quem tantas vezes tem de correr quilómetros por ele, mas o que se vê – sobretudo desde o desbloqueio mental iniciado com a conquista da Copa América em 2021 e completado há três anos e meio no Qatar – é o contrário.
E isso diz muito sobre o tipo de liderança de uma super-estrela, mas também sobre como os outros a aceitam. Porque enquanto Lionel continuar a ser Messi dentro de campo, e a melhorar todos à volta dele, não há como não o aceitar.
A Argentina, depois de anos e anos de frustrações, percebeu como poderia potenciar-se enquanto seleção: à volta de um homem. Espanha, ao fim de 50 anos sem um título internacional, também: à volta de uma ideia.
Duas ideias, ambas válidas. Até ver, goste-se ou não, as melhores para se chegar a uma final de um Mundial.
Portugal também terá de escolher a sua."

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