"A poucos dias do arranque do Mundial 2026, é notório o contraste entre a visão de unidade que lhe deu origem e a realidade geopolítica que agora o envolve.
Quando a FIFA atribuiu o Campeonato do Mundo de Futebol Masculino de 2026 aos Estados Unidos, Canadá e México, a proposta vendia uma ideia de união inédita: três países, um continente, um torneio. Oito anos depois, o mundo que receberá o apito inicial é outro. Obviamente, esta continuará a ser a primeira Copa do Mundo alguma vez organizada por três países diferentes, mas a poucos dias do seu início, é notório o contraste entre a visão de unidade que lhe deu origem e a realidade geopolítica que agora a envolve.
Entre 2018 e 2026 aconteceu quase tudo aquilo que ninguém previa: uma pandemia que paralisou a mobilidade global, a guerra que regressou à Europa, o Médio Oriente que voltou a transformar-se num palco de confrontos e rivalidades estratégicas entre grandes potências que atingiram níveis esquecidos no passado. Paralelamente, assistimos também ao crescimento do protecionismo, ao endurecimento das políticas migratórias e ao fortalecimento de discursos nacionalistas em várias democracias.
O Mundial de 2026 partilhado por três países chega, ironicamente, num contexto em que a circulação de pessoas já não é vista apenas como uma oportunidade económica ou cultural, mas como uma questão de segurança, de controlo e de soberania. Como se tudo isto não bastasse, a própria relação entre os três anfitriões mudou: se a candidatura vencedora assentava numa narrativa de integração regional cada vez mais profunda, hoje o ambiente político é bem mais complexo e divergente.
Mas a prova final do Mundial ainda está para vir e essa consiste em saber se o futebol conseguirá criar, de facto, um espaço temporário onde as divisões políticas perdem protagonismo e onde, durante algumas semanas, milhões de pessoas partilham uma emoção comum independentemente da nacionalidade, da religião ou da política.
Nunca o futebol mereceu tanto esta missão de reunir pessoas que, fora dos estádios, dificilmente se encontrariam.
É evidente que a realidade lá fora não desaparecerá e que qualquer incidente político poderá rapidamente ganhar uma projeção global; e é evidente que as restrições de entrada nos Estados Unidos continuarão a ser um fator de preocupação para muitos viajantes com algumas seleções e adeptos a enfrentar processos de visto mais complexos do que noutras edições, o que explica, por exemplo, que o impacto na aviação tenha sido menos visível do que noutros campeonatos: existem algumas aeronaves com pinturas especiais de apoio às equipas, bem como alguns reforços pontuais de capacidade e voos diretos adicionais para determinadas cidades anfitriãs, mas não se prevê um crescimento extraordinário do tráfego por cause deste torneio.
Do mesmo modo e à imagem do que se passa na aviação, não creio que este campeonato mudará o rumo do mundo, nem reduzirá as tensões nas relações internacionais, mas poderá demonstrar que ainda existem momentos em que milhões de pessoas conseguem reunir-se muito antes de os seus governos encontrarem forma de se entenderem. E, nos tempos que correm, isso já não é coisa pouca."

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