Últimas indefectivações

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Cada vez mais pequenos e periféricos

"Mark Twain, pseudónimo de Samuel Clemens, escreveu no século XIX que "uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça os sapatos". Clemens morreu em 1910, sem conhecer a internet, o e-mail ou as redes sociais, caso contrário teria escrito o mesmo com proporções garantidamente bem distintas daquelas que nos deixou.
Pelo que fui e pelo que sou, funcionário antes, adepto e sócio agora, sou parte interessada no que a seguir passo a escrever, como interessados são, embora com posições diferentes, todos aqueles que do outro lado da barricada se reclamam justiceiros e monopolistas da virtude.
A primeira instância da justiça passou a ser feita na comunicação social, culpa do voyeurismo dos nossos dias, da vertigem dos factos e, naturalmente, do tempo da decisão judicial. Na fronteira cada vez mais ténue entre a justiça e a comunicação, a presunção de inocência perde sempre. E é com base nesta fraqueza dos nossos dias que assenta a estratégia do FC Porto no caso dos e-mails.
De facto, não interessa a verdade, mas a percepção da mesma. Não interessa o apuramento rigoroso dos factos pelas entidades competentes, mas, sim, a gestão dos media, a divulgação total ou parcelar, sem contexto ou enquadramento, de correspondência que já foi privada.
O que na verdade interessa é condicionar os agentes desportivos (o último jogo do FC Porto é o melhor exemplo disso), manchar a reputação de uma marca, denegrir pessoal e profissionalmente pessoas cuja presunção de inocência se vai perdendo numa estratégia de poder sem decência e sem limites.
Tudo isto, convém lembrar, tem na base um crime e conta com o aval da justiça portuguesa, para quem, por decisão de um dos seus agentes, a "justiça" pode continuar a ser feita nos media.
Em Espanha, num caso muito semelhante em que um conhecido escritório de advogados foi hackeado, um tribunal demorou uma semana a impor duras sanções a quem, nos media, se aproveitasse desse crime.
Os e-mails deixaram de ser apenas um instrumento de trabalho, são um veículo privilegiado de partilha em que, muitas vezes, nos excedemos, desabafamos, celebramos ou nos lamentamos de decisões ou momentos do nosso dia-a-dia. Devem esses e-mails ser usados numa lógica de confronto e revanche? Não creio, nem penso que isso aproveite quem o faça.
No meio desta frenética batalha em que o que menos interessa é a salvaguarda da credibilidade do futebol português, convém respeitar certos limites e, se esses forem ultrapassados, importa que a comunicação social saiba distinguir o que realmente tem interesse público e aquilo que apenas serve para amesquinhar.
Não está em causa qualquer ilícito, mas, sim, a ética e a privacidade a que cada um de nós deve ter direito, e tem, mesmo que esse direito nos seja negado por quem prevarica semanalmente e caucionado por quem tem precisamente o dever de o evitar.
Seria interessante perguntar ao juiz que indeferiu a providência cautelar interposta pelo SL Benfica se gostaria de ver os seus e-mails publicitados semanalmente, sem filtro e sem contexto. Seguramente que não, mas, negando qualquer conflito de concorrência e tornando abstracto um conceito bem concreto como é o da privacidade, este juiz consentiu na continuação de uma prática ilegal e, pior do que tudo, imoral.
O FC Porto tem todo o direito de pedir que se investigue o que acha que é ilícito, mas não tem o direito de persistir num crime que, mais cedo ou mais tarde, será reconhecido.
O futebol português precisa de rivalidade entre os seus principais clubes, mas dispensa a hostilidade e o ódio com que semanalmente se vai alimentando a imprensa e os adeptos. Essa é uma estratégia que nos prejudica a todos, mesmo que alguns achem o contrário.
Persistindo na via do "quanto pior, melhor", estaremos condenados a ser cada vez mais pequenos e mais periféricos.
Uma nota final que quero aqui deixar: saí do Benfica por desgaste e por cansaço, orgulhoso de ter podido partilhar oito anos com uma equipa de excelentes profissionais. Um desabafo tirado do contexto não altera nada nem muda a amizade e o respeito que prevalecem mais de um ano e meio depois.
Ao presidente Luís Filipe Vieira todos os benfiquistas devem a radical transformação que o clube sofreu nestes últimos 14 anos. É bom ninguém se esquecer disso! Em relação a Domingos Soares Oliveira, foi e continua a ser peça fundamental na estrutura do clube, e os seus méritos não podem ser questionados. A terminar, gostaria de individualizar uma terceira pessoa: Paulo Gonçalves, meu amigo e um profissional dedicado, vítima de um ataque injusto numa fase difícil da sua vida. A ele, a minha palavra de admiração e gratidão."

Eusébio e o adeus do Feiticeiro...

"Surgiu um novo filme sobre Stanley Matthews: «The Original n.º7». Tempo para recordar o seu jogo de despedida, em Stoke, ao qual não faltou a grande estrela do Benfica. Um daqueles momentos especiais da história do futebol...

'For he's a jolly good fellow...', cantavam mais de 40 mil pessoas no velho estádio do Stoke City, o Victoria Ground.
Stanley Matthews: o Feiticeiro do Drible.
Uma figura! E que figura!
Acabou agora se surgir nos ecrãs do cinema um filme sobre ele: 'The Original n.º7'. Sim, ele foi o primeiro grande número 7. Primeiro jogador a receber a Bola de Ouro. 'Ele foi o homem que nos ensinou a jogar futebol', disse Pelé.
Dia 28 de Abril de 1965: Eusébio estava lá. Podia alguma vez faltar?! Era o adeus de Matthews ao futebol. 32 anos de futebol!
Já tinha completado os 50 anos. Aliás, reparem: jogou a sua última parida oficial no campeonato de Inglaterra com 50 e 5 dias. No final diria: 'Sinto que o meu abandono ainda é pouco precoce'.
Foi para Malta. Continuou a jogar lá na ilha do Mediterrâneo até se fartar de vez.
Mas eu estava no tal dia 28 de Abril de 1965. O adeus do Feiticeiro.
Ele próprio destacou na sua autobiografia 'The way it was', infelizmente não traduzida em português. 'Os jogadores que se deslocaram a Stoke para a minha despedida deixaram-me radiante - da velha escola, contava com Di Stéfano, Ferenc Puskás, Raymond Kopa; da nova tinha Eusébio, Denis Law e Jimmy Greaves'.

Eusébio não marcou
Quando Eusébio não marcava golos, era uma notícia.
Enfim, o jogo era mais de entretenimento. De festa. Havia, de um lado, a Equipa do Stan (escolhida por Matthews), e do outro a Equipa do Resto do Mundo. Era nesta que jogava Eusébio, claro.
'Todos os jogadores internacionais que compareceram eram de formidável categoria! E o público devotou a cada um deles ovações dignas da sua classe. Nesse aspecto foi admirável!'
Sim, só pode ter sido. Havia Eusébio, Di Stéfano, Puskás, Kopa, mas também Yashin, Schellinger, Masopust, Popluhar, Uwe Seeler, Overath, Gento e Kubala, por entre outros.
Golos, golos e mais golos!
A festa dos golos!
A Equipa do Resto do Mundo venceu por 6-4. Seis a quatro! Um luxo!
Na equipa de Stan, estavam Denis Law, Jimmy Greaves, Bobby Charlton, Roger Hunt.
O povo nas bancadas delirou.
'No final do jogo', escrevia Stanley Matthews, «todos os jogadores se reuniram no centro do terreno, dispostos em círculo. O público cantava 'Auld Lang Syne' e eu sentia um arrepio na espinha à medida que as lágrimas me corriam pela cara. Yashin e Puskás ergueram-me em ombros. Levaram-me pelo meio de todos os enormes jogadores presentes em direcção ao túnel e ao meu adeus. Não voltaria a jogar no meu armado Victoria Ground».
Sir Stanley Matthews morreu no dia 23 de Fevereiro de 2000, com 85 anos.
Na sua campa, ficou registado um poema de escritor incógnito:
'Do not stand at my grave and weep
I am not there. I do not sleep
I'm a thousand winds that blow
I am the dimond glints in snow'.
Antes desse seu adeus definitive, houve o adeus de Victoria Ground.
Eusébio esteve presente: o Grande Futebol não passava sem ele..."

Afonso de Melo, in O Benfica

As cartas de Manuel Goularde

"O mister só queria três bolas em condições para os treinos, mas a fraca qualidade da borracha furou-lhe os planos.

Na sua altura Manuel Goularde seria, provavelmente, conhecido como o homem dos sete ofícios. Era empregado da Farmácia Franco, assumia as funções de tesoureiro do Clube e foi o primeiro técnico da equipa 'encarnada'. Tudo isto em simultâneo. Reza a lenda que também foi o criador dos famosos '15 minutos à Benfica': reservar energias para, nos últimos 15 minutos, surpreender o já derreado adversário.
Meses depois da criação do Grupo Sport Lisboa, do qual Goularde foi, também, fundador, o material básico e indispensável aos treinos começou a escassear. Proactivo, o mister pegou esferográfica e escreveu uma carta, no seu melhor inglês, endereçada a A. W. Gamage Ltd, uma loja londrina de vendia desde brinquedos a artigos de desporto, para encomendar o material em falta. Datada de 28 de Setembro, a carta ia acompanhada de um cheque para liquidar a encomenda. Eram três bolas, um apito para o árbitro e um livro sobre regras de futebol, se faz favor. No final, sublinhava que a equipa precisava do material com urgência e agradecia que a encomenda lhe fosse enviada o mais brevemente possível.
A 12 de Novembro chegava a remessa a Belém. Podiam recomeçar os treinos! Mas... as coisas não foram assim tão fáceis. O apito estava afinado e o livro era muito útil. Dali saíram, certamente, ideias brilhantes para melhorar a táctica dos jogadores. O problema era as bolas que estavam sempre a furar-lhe os planos. Ao fim de 20 minutos de treino o primeiro esférico rebentou, 'o que nos desiludiu bastante'. O segundo não rebentou porque já vinha rebentado, ou melhor vinha com um furo que  tornava impossível de encher, por mais vigor que se pudesse na tarefa.
A 25 de Novembro Goularde escreve nova missiva a avaliar o material. A primeira bola foi o que se viu e os restos mortais da segunda foram reenviados ao fornecedor para averiguar qual seria o problema. 'Só pode ser da má qualidade da borracha'. O último pneumático da remessa era o único que estava em condições. À terceira foi mesmo de vez: 'Já jogámos bastante com ele e continua bom'. Dos três apenas um se safou. De facto, a média não é brilhante, mas os treinos e as vitórias deles resultantes compensaram a pouca sorte.
Pode saber mais sobre estas cartas na área 18 - E Pluribus Unum, no Museu Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, in O Benfica

Insinuação torpe

"Anda por aí gente, há pouco tempo chegada ao futebol, que mais não tem feito do que contribuir para o descrédito da modalidade mais querida dos portugueses.

As insinuações torpes dirigidas aos jogadores do Sporting de Braga, que no estádio José Alvalade quase iam repetindo a façanha do ano passado no mesmo recinto, não passaram de um ataque gratuito e irresponsável de quem deveria começar por ter respeito por si próprio.
Dir-se-á que estes são os novos tempos do futebol, carregados de desmandos e sem respeito por pessoas e por valores. Mas também por isso, não são aceitáveis tais comportamentos.
Os dirigentes bracarenses já reagiram e irão certamente mais longe para que haja consequências por tudo aquilo que foi dito.
Para evitar males maiores talvez esteja a caminho um “mea culpa” da parte de quem foi responsável por tão inaceitável e condenável acto. É o mínimo que se espera e exige.
Ainda assim, seria bom que alguém de direito colocasse um travão neste clima que se sente cada vez mais pesado à volta do futebol português para assim poder evitar que um dia destes estejamos perante situações ainda muito mais lamentáveis."

Futebol? Adoramos o cheiro a napalm pela manhã!

"Consegues cheirá-lo, rapaz? É napalm, filho! Nada no mundo cheira assim. Adoro o cheiro a Napalm pela manhã!
Colonel Bill Kilgore tem de estar a falar do futebol português depois de mais uma jornada. O nosso Apocalypse em rectângulo à beira-mar plantado, repetido vezes sem conta, até não haver mais nada para queimar, nem sequer a própria pele, entre apitos finais e pontapés de saída.
O meu futebol mistura-se com os perfumes das castanhas assadas embrulhadas em papel-de-jornal-desportivo-para-espreitar-depois e da terra molhada. Com os sorrisos traquinas de mãos dadas aos dos pais. A olhar constantemente para cima, à espera de que os coloquem aos ombros e lhes permitam ver o resto do mundo, para lá do que sempre conheceram. Os carros estacionados nos montes, e a peregrinação lenta, degustativa, para as bancadas. As famílias à conversa, o local de encontro, os comentários de treinador de circunstância. Os lamentos. As memórias. O orgulho.
As bocas, sim. Havia bocas. Normal.
Lembro-me. Ainda me lembro das imitações feitas nos pelados, às vezes em alcatroados, outras rugosos e assassinos passeios de calçada. A corrida escadas-abaixo a desafiar a gravidade, d.M. Depois de Maradona.
Viram? Vocês viram aquilo?
O génio. Que se lixe a mão de Deus. Esse puño apretado, gritando por Argentina.
Aí, depois do quem-escolhe-quem e do pedra-papel-tesoura, não havia video-árbitro. Ou árbitro, sequer. Não havia super-slow-motion, ou apenas slow motion. Nem repetições. Apenas uma bola, o gostar de a ter nos pés, e o repetir do que se sonhava, e que nos fazia adormecer tranquilos.
O travo a napalm, sentem-no? A terra queimada, a cultura desportiva destruída. A falta de respeito constante, involuímos em vez de evoluir. Implodimos em vez de explodir.
Não poderíamos ser inocentes para sempre. Não poderíamos nunca morrer puros, mas deixámos escapar o que nos fazia gostar do jogo. A beleza, a arte, a qualidade, o génio. Tornámo-nos resultadistas por convicção, a todo o custo.
As famílias desagregaram-se, por cautela. Substituímos adeptos por facções armadas, com e sem uniforme. Trocámos o golo pelo penálti não marcado, a jogada pelo fora-de-jogo, a grande defesa pelo frame. O nosso futebol é feito de super slow motions constantes, imagens paradas, jogos intermináveis. Duram dias sem fim. 
A verdade desportiva que tanto se defendeu é apenas uma meia-VARdade. De que vale tentar levantar uma casa sobre areias movediças? Que verdade pode existir sem cultura desportiva?
O cheiro a napalm nas redes sociais. Bots e trolls, trolls e bots, a tentar influenciar, a passar a mensagem. Ai de quem! Perdeu-se o interesse de pensar pela própria cabeça, as ideias já nos chegam mastigadas. Dirigentes a substituir treinadores nas salas de imprensa, presidentes e directores de comunicação ao desafio no Facebook, contas restritas para fazer chegar posições estratégicas aos jornais. A terra um deserto de cinzas, onde nada florescerá tão cedo. Mais do mesmo, onde cada vez é mais difícil respirar.
Futebol? Ainda sinto um cheiro leve a castanhas assadas."

Erros em excesso

"Uma situação nova nesta temporada tem a ver com o facto de o VAR se ter tornado o grande responsável por alguns dos erros registados.

Acabamos de viver a jornada mais errática do actual campeonato da primeira Liga, do qual apenas está cumprido o primeiro terço.
Com a introdução do VAR abriu-se este ano uma nova frente que, aliás, tem sido aproveitada para alguns desmandos provenientes, sobretudo, dos directores de comunicação dos três clubes grandes do futebol português, com ainda ontem, por exemplo, aconteceu. Houve erros a mais nos jogos disputados por Benfica, Sporting e Futebol Clube do Porto.
No entanto, também as nomeações de árbitros foram objecto de reclamação na noite de domingo. Por exemplo, não é fácil entender o critério dos nomeadores que decidem colocar o mesmo árbitro (Carlos Xistra) para os três desafios em que os minhotos defrontaram Benfica, FC Porto e Sporting. 
Uma situação nova nesta temporada tem a ver com o facto de o VAR se ter tornado o grande responsável por alguns dos erros registados. Ou seja, os árbitros têm estado assim mais protegidos, com o novo instrumento a ver recair sobre si a maior responsabilidade.
No jogo do Dragão, ficaram por marcar dois castigos máximos a favor da equipa visitante, o Belenenses que, a serem assinalados, poderiam ter alterado o curso do desafio.
Em Alvalade, queixou-se o Sporting de Braga de lapsos tanto da autoria do VAR como do próprio juiz da partida. E, também neste caso, o desfecho do jogo e a distribuição de pontos, talvez pudesse ter sido diferente.
A paragem de duas semanas que se segue poderá vir a ser benéfica no sentido de ajudar a corrigir esta situação.
O silêncio que se segue deve por isso ser aproveitado para uma séria introspecção de todos os agentes que gravitam à volta do futebol, para que venhamos a ter mais tranquilidade nas jornadas que se seguem."

Há os que erram e há os que pensam que acertam!

"Há ainda quem consiga fazer algo de positivo pelo futebol português. Os clubes profissionais, em particular os mais profissionalizados, continuam a gerir, proteger e promover o nosso futebol.

A futebol português não vive um momento feliz. Os muitos erros dos diversos agentes do futebol, nomeadamente os ligados à arbitragem, estão a estragar o negócio e a magia deste desporto-espectáculo.
Árbitros e árbitros assistentes têm tido erros importantes em muitos jogos. Erros que muitas vezes alteram aquilo que deveria ser a verdade do jogo. Só neste fim-de-semana, nos jogos dos ditos três grandes, tivemos golos mal invalidados, pontapés de penálti por sancionar e jogadores que erradamente terminaram o jogo em campo quando deveriam ter sido expulsos. Isto são erros graves que prejudicam o futebol.
Para além dos erros destes agentes da arbitragem temos, desde a presente época, também, os “erros” do VAR. Os erros do VAR não se somam aos erros dos árbitros. São, no máximo, um corroborar do erro inicial do árbitro. Mas havendo VAR há mais um alvo para disparar quando é necessário apontar o dedo a um pretenso erro de arbitragem.
Depois temos os erros do Conselho de Arbitragem. Os mais visíveis e identificáveis prendem-se com alguns critérios pouco sensatos na gestão das nomeações. É compreensível a estranheza de um clube quando vê o mesmo árbitro nomeado para dirigir os seus jogos contra FC Porto, Sporting e Benfica. É também, no mínimo, ter pouco cuidado na protecção dos árbitros quando se nomeia para VAR de um jogo de determinada equipa um árbitro que na jornada anterior teve “problemas” com essa equipa (tenha sido como árbitro ou como VAR). O actual quadro de árbitros é curto para as necessidades de um campeonato que implica a nomeação de videoárbitro. O CA assumiu o risco de não aumentar já este ano o quadro por ainda ser um período de testes do VAR. Concordo com essa decisão. Exige-se, no entanto, que para o futebol profissional haja um cuidado, também ele profissional, na gestão das nomeações.
A APAF também já contribuiu com o seu “errozinho” na presente época. Talvez empurrada pela própria Federação e, seguramente, com o apoio e união dos árbitros, anunciou uma greve. Alegou que a principal razão para aquela tomada de posição estava relacionada com o clima que se vivia em torno dos árbitros. APAF e Liga reuniram-se, algumas promessas devem ter sido feitas, alguns acordos alcançados e cancelou-se a greve. No momento em que escrevo este texto ainda não foi anunciada qualquer greve dos árbitros. Acredito que venha a sair um comunicado nas próximas horas, porque o clima provocado pelos clubes em torno dos árbitros neste fim-de-semana foi tão ou mais grave que aquele que se vivia quando a APAF fez o “aviso de greve” ...
Felizmente, nem todos erram. Há ainda quem consiga fazer algo de positivo pelo futebol português. Os clubes profissionais, em particular os mais profissionalizados, continuam a gerir, proteger e promover o nosso futebol.
Os dirigentes dos principais clubes e SADs continuam a saber gerir financeiramente as suas instituições. A maior parte dos clubes são empresas bem geridas, com resultados positivos, sem dívidas ao fisco e com passivos perfeitamente controlados e baixos...
Outros que não erram são os directores e gabinetes de comunicação dos clubes. Não erram, à partida, porque falam muito pouco da sua instituição. Estão mais focados nos outros. Situação perfeitamente normal e instituída no mercado. Quando uma empresa contrata um director de comunicação é, obviamente, para falar quase em exclusivo do que se passa na concorrência...
Para além de não errarem, estes protagonistas do futebol português têm outra qualidade fundamental: alertam os outros agentes desportivos dos erros que estes vão cometendo nas suas funções. É como uma consultoria/avaliação externa focada na melhoria da estrutura e dos seus resultados. A estrutura que pretendem ajudar é a da arbitragem. Os resultados que querem melhorar, são os das suas equipas..."


PS: Apreciei a ironia, por isso publiquei a crónica.
Mas que fique claro: este cronista, é mais um daqueles, que pensa estar a 'defender' a arbitragem e o futebol, agindo corporativamente, escondendo semanalmente os erros premeditados ou por incompetência... principalmente quando quando são contra o Benfica!!!

Benfiquismo (DCL)

Outra... 1964

Chama Imensa... Tugão = Tragédia-cómica se não fosse tão grave !!!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Lixívia 11

Tabela Anti-Lixívia
Benfica ........ 26 (-2) = 28
Corruptos... 31 (+3) = 28
Sporting ..... 27 (+6) = 21

A pouca-vergonha não tem limites... mais uma jornada aberrante!!! A coacção continua a dar pontos, à descarada...

No Dragay, 2 penalty's óbvios, com 0-0 na 1.ª parte, contra os Corruptos, com a respectiva expulsão do Central (o costumeiro Felipe). Se o erro do árbitro é claro, a não actuação do VAR é o cumulo do absurdo... Luís Ferreira, o homem do Benfica-Boavista e do Corruptos-Tondela do ano passado!!!
Num jogo, onde os Corruptos tiveram vários ausentes por lesão, alguns a desmanar as bombas da Champions, a jogar com 10, a perder por 0-2, nunca lá chegariam...!!!

No Alvalixo, o Xistra 'voltou' em grande: golo mal anulado ao Braga, penalty mal assinalado a favor do Sporting... critério disciplinar absurdo, com vários Amarelos perdoados ao Sporting, sendo que o André Pinto tinha que ser expulso... além do Coates que acabou o jogo, mais uma vez, sem Amarelos!!!
No golo mal anulado, a teoria que o Xistra apitou antes da bola entrar, é mentira!!! O próprio fiscal-de-linha só levanta a bandeirola quando a bola está a caminho da baliza...
No penalty ao minuto 94, falta clara do Doumbia sobre o Ricardo Ferreira, antes da falta do Horta. O Xistra tem visão completamente desimpedida, a cotovelada é mesmo à sua frente... mas partindo do principio que lhe escapou a agressão, o VAR tem a obrigação de avisar o árbitro que o penalty é antecedido por falta...
Os dois penalty's 'pedidos' pelos Lagartos não existiram: no primeiro o Bruno César é empurrado por um colega de equipa... sim, um colega de equipa!!! No outro lance, o Podence e o Raul acabam por 'chocar', longe da bola, sem qualquer intenção... o mais 'frágil' acabou a queixar-se, mas o futebol é um desporto de contacto...!!!
ADENDA: Com tantos erros esqueci-me do penalty do Bataligla sobre o Danilo ao minuto 57...

Em Guimarães, penalty óbvio sobre o Salvio não assinalado (o Freitas Lobo, afirmou que o defesa do Vitória, 'ganhou o espaço'!!!). Tal como o penalty do André Almeida é claro, apesar de ambos serem completamente desnecessários...!!!
Fora-de-jogo mal tirado ao Jonas, quando este seguia isolado para a baliza...
O Amarelo ao Svilar foi justo, aquela não é uma circunstância de Vermelho... o avançado não está enquadrado com a baliza, e nem estava isolado!!!
Vários ataques do Vitória após faltas não assinaladas: logo a seguir ao golo do Vitória, o Samaris é albarroado perigosamente, e nada foi marcado... e o ataque foi mesmo bastante perigoso!
Faltas junto da área do Virória, não existiram... ainda na 1.ª parte o Digui é derrubado em zona frontal, e nada foi marcado...

Sobre a carga policial sobre os Vitós: a culpa foi do Benfica!!! Pois é, a conclusão é óbvia: como acontece todos os anos, quando os adeptos do Benfica chegam ao Estádio do Guimarães, uma 'onda' de pseudo-holligans acéfalos, saem a correr das bancadas do Estádio (sim, já estavam dentro do Estádio, mas saem...), começam a 'despejar' tudo sobre os adeptos do Benfica (que estavam 'protegidos' pela PSP), e depois 'finalmente' a PSP (pela primeira vez...) faz a sua obrigação, e efectua uma carga policial em cima dos agressores... Estes agressores, entram em pânico, voltam para dentro do Estádio (aparentemente sem qualquer controle de torniquetes...) e assustam os que já lá estavam...!!! Conclusão: a culpa é do Benfica!!!

Anexos:
Benfica
1.ª-Braga(c), V(3-1), Xistra (Verissímo), Prejudicados, (4-1), Sem influência no resultado
2.ª-Chaves(f), V(0-1), Sousa (Tiago Martins), Prejudicados, (0-3), Sem influência no resultado
3.ª-Belenenses(c), V(5-0), Rui Costa (Vasco Santos), Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Rio Ave(f), E(1-1), Hugo Miguel (Veríssimo), Prejudicados, Impossível contabilizar
5.ª-Portimonense(c), V(2-1), Gonçalo Martins (Veríssimo), Prejudicados, (4-0), Sem influência no resultado
6.ª-Boavista(f), D(2-1), Soares Dias (Esteves), Beneficiados, Prejudicados, Impossível contabilizar
7.ª-Paços de Ferreira(c), V(2-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
8.ª-Marítimo(f), E(1-1), Sousa (Godinho), Prejudicados, (1-2), (-2 pontos)
9.ª-Aves(f), V(1-3), Almeida (Vítor Ferreira), Beneficiados, Prejudicados, Sem influência no resultado
10.ª-Feirense(c), V(1-0), Godinho (Xistra), Prejudicados, (2-0), Sem influência no resultado
11.ª-Guimarães(f), V(1-3), Soares Dias (Malheiro), Prejudicado, (1-4), Sem influência no resultado

Sporting
1.ª-Aves(f), V(0-2), Tiago Martins (Pinheiro), Nada a assinalar
2.ª-Setúbal(c), V(1-0), Paixão (Hugo Miguel), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
3.ª-Guimarães(f), V(0-5), Hugo Miguel (Sousa), Nada a assinalar
4.ª-Estoril(c), V(2-1), Godinho (Tiago Martins), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Feirense(f), V(2-3), Soares Dias (Tiago Martins), Nada a assinalar
6.ª-Tondela(c), V(2-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Nada a assinalar
7.ª-Moreirense(f), E(1-1), Godinho (Pinheiro), Beneficiados, (2-0), (+1 ponto)
8.ª-Corruptos(c), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
9.ª-Chaves(c), V(5-1), Rui Costa (Esteves), Beneficiados, Prejudicados (5-2), Sem influência no resultado
10.ª-Rio Ave(f), V(0-1), Sousa (Capela), Beneficiados, (0-0), (+2 pontos)
11.ª-Braga(c), E(2-2), Xistra (Rui Costa), Beneficiados, (1-4), (+1 ponto)

Corruptos
1.ª-Estoril(c), V(4-0), Hugo Miguel (Luís Ferreira), Nada a assinalar
2.ª-Tondela(f), V(0-1), Veríssimo (Malheiro), Beneficiados, Impossível contabilizar
3.ª-Moreirense(c), V(3-0), Manuel Oliveira (Tiago Martins), Prejudicados, Beneficiados, Sem influência no resultado
4.ª-Braga(f), V(0-1), Xistra (Esteves), Beneficiados, Impossível contabilizar
5.ª-Chaves(c), V(3-0), Rui Oliveira (Hugo Miguel), Nada a assinalar
6.ª-Rio Ave(f), V(1-2), Sousa (Godinho), Nada a assinalar
7.ª-Portimonense(c), V(5-2), Luís Ferreira (Sousa), Nada a assinalar
8.ª-Sporting(f), E(0-0), Xistra (Hugo Miguel), Nada a assinalar
9.ª-Paços de Ferreira(c), V(6-1), Manuel Oliveira (Veríssimo), Beneficiados, (5-1), Sem influencia no resultado
10.ª-Boavista(f), V(0-3), Hugo Miguel (Tiago Martins), Nada a assinalar
11.ª-Belenenses(c), V(2-0), Veríssimo (Luís Ferreira), Beneficiados, (0-2), (+3 pontos)

Jornadas anteriores:
Épocas anteriores:
2016-2017
2015-2016

Aproveitar a paragem para reflectir

"Tolerância com o VAR em ano zero não deve prejudicar a transparência. Só assim será possível evoluir. À atenção do CA da FPF.

O vídeoárbitro (VAR) veio para ficar, é um elemento poderoso na demanda por uma maior verdade desportiva e em boa hora a FPF decidiu patrocinar uma causa que coloca o futebol nacional no pelotão da frente no contexto internacional, a ponto de ser uma equipa de arbitragem portuguesa, com VAR, a dirigir o próximo Inglaterra-Brasil, em Wembley. Dito tudo isto, e lembrando que estamos no ano zero, o que deve aumentar a tolerância e a compreensão, há que dizer ainda que o Conselho de Arbitragem (CA) da FPF deve vir a público assumir e explicar algumas insuficiências que se têm verificado. Até ao VAR, pode-se-ia dizer que o árbitro não vira o lance, ou que tivera de decidir numa fracção de segundo. Essa realidade pertence ao passado e as equipas de arbitragem que veem tudo e não devem ser penalizadas. E os adeptos têm o direito, em nome de transparência, de conhecer todo o processo. Só assim se evoluirá para os patamares de excelência que a tecnologia permite. Propositadamente não vou fazer referência a qualquer caso específico, para evitar que a clubite acéfala inquine aquilo que pretende ser uma abordagem construtiva. Assim, a bola fica, para já, do lado do CA da FPF.

Primeiro terço em tons de azul
O campeonato nacional atingiu o primeiro terço (paragem agora para a Selecção e para a Taça, só regressando a 12.ª jornada daqui a três semanas, numa calendarização altamente lesiva do interesse da prova) e pode dizer-se que decorreu essencialmente em tons de azul-dragão. O FC Porto de Sérgio Conceição tem pode na venta, ao contrário da versão descafeinada de Julen Lopetegui e da abordagem eminentemente calculista de Nuno Espírito Santo. Resta saber se tem plantel para as necessidades de uma época vivida por cá e na Europa. E se tem argumentos de tesouraria para ir às compras em Janeiro. Bem jeito lhe dava...
Quanto aos outros dois candidatos ao título, agora separados por apenas um ponto, a percepção que está presente é a de um Benfica mais equilibrado dentro das quatro linhas, em crescendo e um Sporting precocemente desgastado e marcador por um surto de lesões musculares. Jorge Jesus tem três semanas para devolver à equipa uma saúde física essencial para o futebol que quer praticar.

Ás
Jonas
54 anos que o Benfica não tinha um jogador a marcar em nove jornadas consecutivas do campeonato. Ontem, em Guimarães, Jonas igualou Eusébio (63/64) e também Julinho (49/50), ganhando direito a um lugar especial na história encarnada. Em boa hora, para o Benfica, o Valência decidiu dispensar o Pistolas...

Ás
Pep Guardiola
Não será abusivo, de tal forma a evidência é forte, afirmar que o Manchester City possui, ao dia de hoje, a melhor equipa do mundo. À liderança confortável na Premier League (oito pontos de vantagem) junta-se uma Champions irrepreensível e ainda um futebol de fino recorte, que é um bálsamo para quem gosta do jogo bonito.

Ás
Abel Ferreira
Belíssima exibição do SC Braga em Alvalade! A forma como os arsenalistas lutaram contra as adversidades, a maneira como surgiram frescos na fase final do encontro, provocando a cambalhota no marcador e a personalidade que revelaram, merecia melhor sorte do que o ponto com que regressaram a Braga.

Segurança nos Estádios
O V. Guimarães-Benfica de ontem esteve interrompido durante cinco minutos por incidentes nas bancadas que colocaram em causa a integridade física dos espectadores. Enquanto as autoridades competentes não assumirem que há, em diversas franjas, uma radicalização criminosa e não agir em conformidade, quer impedindo o acesso dos marginais aos estádios, quer punido severamente os clubes, o risco vai permanecer. O futebol quer-se uma festa, os estádios querem-se seguros e isso é incompatível com o 'hoologanismo' crescente em Portugal, associado à cobardia de quem devia impor a ordem e nada faz. Estão à espera de quê? Não aprenderam nada com os últimos meses? Ou será que preferem nomear comissões de inquérito para apurar responsabilidades, em vez de evitar as tragédias? O caso é demasiado sério para tanta irresponsabilidade.

Barça na pele de actor político na Catalunha
O Barcelona tem sido um 'player' importante no processo independentista da Catalunha e essa realidade voltou a revelar-se no último sábado, durante o jogo dos 'culés' com o Sevilha, em Camp Nou. A imprensa desportiva de Barcelona que defende a independência exultou, como se vê pela capa...

Um depoimento que vale a pena ler com atenção
«Sentir-me-ei sempre responsável pela morte de Ayrton Senna. Culpado não.»
Adrien Newey, engenheiro
Adrien Newey, para muitos o engenheiro mais importante da história da Fórmula 1, lançou uma biografia a que deu o título de 'Como construir um carro', na qual não esquece a morte de Ayrton Senna, ao volante de um Williams FW16, na curva Tamburello de Monza, em 1994. «O carro era artodinamicamente instável; Ayrton tentava fazer impossíveis e dessa vez não foi capaz»."

José Manuel Delgado, in A Bola

4x3x3 com Jonas é para ficar

"A entrada de Jonas para único ponta de lança foi a grande novidade táctica

Equilíbrio e criatividade
1. Perante uma equipa sempre difícil e, ainda para mais, motivada depois de uma excelente vitória na Liga Europa frente ao Marselha, Rui Vitória, ao dispor o seu onze numa estrutura táctica de 4x3x3, com o pivot defensivo Fejsa e dois criativos à sua frente, Krovinovic e Pizzi, procurou maior equilíbrio defensivo com três homens a preencherem essa zona e, simultaneamente, dar mais criatividade neste espaço, privilegiando uma maior circulação de bola no seu miolo. Se esta opção não é estranha, a entrada de Jonas para único ponta de lança foi a grande novidade táctica dos encarnados neste jogo da Cidade Berço.

Direita a funcionar
2. Entrou bem o Benfica com o meio-campo a preencher bem os espaços e a criar dificuldades defensivas ao Vitória pela mobilidade dos seus elementos mais ofensivos: Krovinovic, Jonas e Salvio, canalizando mais o seu jogo de ataque pelo lado direito. Por isso, não admirou que o golo surgisse daí, na melhor jogada de entendimento, sempre ao primeiro toque, entre Krovinovic, André Almeida e Jonas. Após o golo, o V. Guimarães definiu melhor as marcações, ocupou mais racionalmente e os espaços e foi reequilibrando, tirando ao Benfica tempo e espaço para a organização. Foi tempo de duelos, das bolas perdidas e do jogo muito dividido, sem, contudo, criar oportunidades ou tirar o controlo ao Benfica.

O momento chave
3. Na segunda parte, o Vitória entrou melhor, mais subido no terreno, com melhor circulação de bola e a jogar mais no meio-campo encarnado. Durou 25 minutos. Perante este cenário, Rui Vitória trocou Pizzi por Samaris para dar mais força ao meio-campo e Pedro Martins retirou Rafael Miranda e colocou em jogo Rafael Martins na procura de dar acutilância ao seu ataque. Ao desfazer a dupla de médios mais defensivos, o Vitória deu maior espaço entre-linhas ao Benfica e foi por aí que Samaris encontrou o caminho para o golo e Salvio fez o mesmo três minutos depois, Pedro Martins sabia os riscos que corria, mas optou, com coragem, na procura do golo. O Benfica teve a argúcia de aproveitar os espaços criados por essa substituição. Foi o momento chave para abrir o jogo - o Benfica soube aproveitar.

Também marca sozinho
4. Num jogo bem disputado, com grande riqueza táctica e com a entrega total dos jogadores, o Benfica ganhou bem e deu sinais claros que o 4x3x3 com Jonas veio para ficar. Afinal, Jonas também marca quando joga como único ponto de lança."

Henrique Calisto, in A Bola

As Regras dos Jogos... Incompetências, Ameaças (concretizadas) e o Direito ao Disparate !!!

Ainda há muito campeonato

"Voltou a ser uma jornada aziaga para a arbitragem. Desta vez não houve falhas no vídeo-árbitro mas faltou competência e coragem para tomar decisões que poderiam ter mexido com os jogos. A pressão (e não só) a que os árbitros têm estado sujeitos é capaz de os fazer hesitar quando têm de agir perante determinadas situações. É aceitável que assim seja? Não, de todo, estão lá para decidir em função do que vêem e de acordo com as leis do jogo. Mas honestamente será que estão em condições de se abster do clima que está instalado no futebol português? Só eles o poderão dizer.
Nesta jornada, houve equipas que se sentiram prejudicadas. Em anteriores, foram outras. O problema é que a cada ronda que passa, aumenta o volume da indignação e agrava-se o tom dos protestos. Em muitos casos, é difícil não admitir que têm razão; noutros, é puro oportunismo. Seja o que for, o quadro é preocupante e inspira as mais rebuscadas teorias. O trágico é que com tanta desconfiança o adepto comum começa a acreditar nelas. Pior: algumas até podem ser verdadeiras.
O campeonato vai de férias. É bom e mau. Bom, porque baixa a adrenalina e apela à reflexão. Mau, porque as emoções estão ao rubro e a Liga não está fechada. Sim, ainda há muito campeonato para disputar. Para o bem e para o mal…"

Três temas que são afinal quatro

"O Benfica continua a melhorar na Liga, subindo de rendimento e mantendo-se como forte candidato ao título – afinal, o Sporting tem apenas mais um ponto. E isso acontece porque, para consumo interno, as saídas não compensadas de jogadores nucleares são disfarçadas pelos múltiplos recursos que sobraram e pela ‘engenharia futebolística’ de Rui Vitória, que tudo aceita com generosidade e tudo resolve com voluntarismo. Mas a Champions é outra coisa e aí o desinvestimento não pode ser maquilhado: quatro jogos, quatro derrotas, um só golo marcado e até a Liga Europa está em risco. A moral da história é velha: não há milagres.
Recordo-me bem do que se escreveu e disse sobre Felipe, após as suas primeiras semanas no FC Porto. Da capacidade técnica modesta ao ataque à bola a destempo, passando pelo mau posicionamento em campo, sobraram críticas. Mas o tempo confirmou a qualidade do central brasileiro, este ano até com valor acrescentado: os árbitros ficam sem sopro nos apitos quando ele faz faltas na grande área. No sábado, no Dragão, cometeu duas para penálti, que o juiz não assinalou e que se tentou mesmo garantir que não tivessem existido. Mas honra para Jorge Faustino, que no Record de ontem não se encolheu e foi bem claro. E a verdade é que, a ter sido cumprida a lei, o Belenenses desfrutaria, cedo no desafio, de duas oportunidades para alterar o marcador a seu favor. E uma certeza: como das faltas resultariam dois cartões amarelos, o excelente Felipe teria sido expulso aos 24 minutos e eventualmente a sorte da partida seria outra. Ou não, concedo, que o FC Porto está a jogar horrores.
Parece incrível como ainda há pouco tempo Real Madrid e Barcelona dominavam o futebol europeu e como rapidamente perderam esse estatuto. Com o Manchester United a tardar em alcançar o nível que sempre se espera das equipas de José Mourinho, os grandes monstros da actualidade são o Manchester City, de Pep Guardiola, e o PSG, de Unai Emery, que somam goleadas umas atrás das outras. No caso dos ingleses, só algo de outro mundo os impedirá de ser campeões. Já no que respeita aos parisienses, existe o perigo do excesso de vedetas e de alguma falta de neurónios. Mas a fase final da Champions promete, talvez com a Juventus a fechar o sexteto galático.
No último parágrafo, o quarto tema de hoje: Lito Vidigal. Em boa hora regressado ao futebol português, o treinador apanhou logo pela frente Benfica e V. Guimarães, e perdeu. Sabiam os seus admiradores, e entre eles me incluo, que era uma questão de dias para que recuperasse fora o que perdera em casa. E assim aconteceu, o Aves foi ganhar a Setúbal e pode finalmente respirar. Lito é um exemplo daqueles treinadores que deixam marca por onde passam, sendo que por vezes são incompreendidos por gente burra, que percebe tanto de futebol como de viagens ao espaço."

A 'ciência' do futebol

"O futebol, como qualquer outra modalidade desportiva é, para mim, uma das formas da motricidade humana - como é lógico! Embora a pretensa cientificidade de muitos comentadores do futebol seja proporcional à sua desumanidade, quero eu dizer: quanto mais falam de futebol menos humano se revela o seu discurso. É verdade que, desde os inícios do pensamento moderno, mormente com Galileu e Descartes, o “homem” e a “ciência” sempre se constituíram como duas realidades estranhas uma à outra: a inteligência, a personalidade, os sentimentos humanos não podiam pesar-se, medir-se, quantificar-se – não eram, com toda a certeza, científicos. Demais, a ciência moderna nasce e desenvolve-se mecanicista. O universo é uma imensa máquina, composta por um enorme conjunto de máquinas cujas leis importa conhecê-las. E, por isso, Deus é o divino engenheiro, omnipotente criador de um universo que pode ser estudado, matematicamente. Não é de estranhar assim que os filósofos e os cientistas de mais ampla inteligência teorizadora tenham comparado o Mundo a um relógio.
O homem-máquina de La Mettrie (1709-1751), filósofo materialista e médico que pretende ensinar que, no mundo todo, só matéria se encontra e é dessa matéria que o ser humano (e tudo) nasce e de que o ser humano é feito – La Mettrie, minucioso e irónico, não abandona o mecanicismo, apontando as leis mecânicas que regem, segundo ele, as funções do corpo de um ser vivo. Um ponto a realçar: a partir desta altura, o sábio deixa de ser o clérigo aristotélico-tomista e passa a ser um leigo, uma pessoa que sabe que não tem a verdade, mas que imparavelmente a procura, pela razão e pela reflexão e pelo método experimental. No meu modesto entender, a história das ciências, que vai de Copérnico (1473-1543) a Newton (1643-1727) é de um progresso admirável e prepara o Iluminismo e informa, claramente, a Revolução Francesa…
Não surpreende portanto que Ciência, Razão e Progresso caminhassem de mãos dadas e que, quando pela primeira vez, no século XVIII, a expressão Educação Física (que integrava a Ginástica, os Jogos e os Desportos) tenha surgido, no vocabulário científico, os exercícios ginásticos se destinassem ao homem-máquina, a um corpo-instrumento que a Razão esclarecia. Vale a pena reler a Proposta de Lei, de 25 de Fevereiro de 1939, apresentada à Assembleia Nacional para a criação do INEF (Instituto Nacional de Educação Física) português, onde assim se define a Educação Física: “é uma acção intencional que o homem, devidamente dirigido, exerce sobre si mesmo, pela prática racional, sistemática dos exercícios físicos - ginástica, jogos, desportos – metódica e conscientemente executados, como complemento essencial dos restantes meios educativos e higiénicos e tendo como objectivos imediatos a saúde, beleza, força, resistência, disciplina, prontidão, espírito de solidariedade, optimismo, confiança em si, domínio de si próprio, coragem, prudência, caráter, personalidade, tornando o corpo o digno instrumento de uma vontade esclarecida”.
Como se vê, uma antropagogia, ou teoria da formação do ser humano, assente no corpo-instrumento e apontando para uma antropologia declaradamente dualista. Enfim, a dicotomia corpo-mente, sentimentos-consciência, natureza-cultura emergia da educação física até meados do século XX. Muita gente que pontifica, no desporto nacional e internacional, ainda não ultrapassou, nem o mecanicismo cartesiano, nem o solo epistemológico do positivismo. Ousaria mesmo escrever que, no futebol, há muita gente que pensa que sabe explicar o futebol, sem nunca o ter compreendido. Compreendido? Sim, porque ao nível do humano nada escapa à ordem dos valores e das significações, mesmo como exigência do rigor metodológico.
O que eu aconselharia aos “agentes do futebol”?... Digo isto, após uma severa autocrítica (porque, à boa maneira socrática: só sei que nada sei): um corte epistemológico, em relação à pré-ciência de um senso comum que analisa o futebol, sem descontinuidade, nos problemas e na linguagem. O curso de um conhecimento verdadeiramente científico não é linear, o seu grande objectivo é respeitar o Passado, mas construir o Futuro, o que implica pôr de lado e rejeitar muito do que a tradição nos oferece. “A exigência de objectividade, no sentido de objectivação, leva-nos necessariamente a descartar o carácter meramente acumulativo e continuista do saber, bem como a fazer da ideia de progresso descontínuo a espinha dorsal de toda a cientificidade. Se é assim, também esse progresso precisa ser pensado em termos de ruptura” (Hilton Japiassu, Nascimento e Morte das Ciências Humanas, Francisco Alves editora, p. 145). Ruptura, em primeiro lugar com uma organização apressada e desleixada dos clubes. Há dirigentes desportivos de exemplar amor pelos seus clubes, mas sem especialização bastante para, actualmente, organizarem um clube com alta competição, ou alto rendimento. Já é clássica a definição de Peter F. Drucker: “Uma organização é um grupo humano composto por especialistas que trabalham numa tarefa comum (…). Uma organização é sempre especializada. Define-se pelas suas tarefas (…). Uma organização só é eficaz, se se concentrar numa tarefa. Uma orquestra sinfónica não tenta curar doentes, toca música. Um hospital cuida dos doentes, mas não procura tocar Beethoven (…). A sociedade, a comunidade e a família são; as organizações fazem (Sociedade Pós-Capitalista, Actual Editora, Lisboa, 2003, pp. 61/62). E, para as organizações fazerem, é imprescindível o contributo de direcções competentes.
Donde, logicamente se conclui que organizar é tornar produtivos os conhecimentos. Mas, no âmbito das ciências humanas, um especialista é tanto mais eficaz quanto mais tiver em conta a complexidade humana, presente em todos os elementos que a constituem. Num treino de dominância física, o jogador de futebol (o atleta) é um ser de sentimentos. E se ele se encontra incompatibilizado com o treinador?... E, se nesse dia o pai está gravemente doente?... E se um dos filhos ficou em casa, com febre alta?... É evidente que, assim, o treino se transforma num espaço de insanável aborrecimento e, nalguns casos, de aversão.
Não passo sem sublinhar as palavras de António Damásio à revista do Expresso, de 2017/10/28: “Os humanos não têm apenas a inteligência, têm por exemplo a linguagem. E temos uma socialidade muito mais complexa do que a de outras criaturas. E os impulsos criativos. E, analisando estas respostas, vemos a ideia. A ideia forte é a de que tudo o que há de bom e de bem, tudo o que ajudou instrumentalmente a criar culturas nunca teria acontecido se não tivéssemos sentimentos. Sentimentos, ora de dor e sofrimento, ora de plenitude e prazer”. E diz mais adiante, numa entrevista superiormente conduzida por uma jornalista com dotes notórios para o jornalismo (o que nem sempre sucede) e pessoa culta, que se topa no seu infatigável interrogar: “O sentimento é a representação do imperativo homeostático”. O que é peculiar no jogador, por ser homem, é secundário e acaba por reduzir-se às necessidades primárias da táctica, nos “estudos” de alguns pseudo-especialistas. Não, eu não digo que a táctica não é importante, o que eu digo é que não é essencial. Só podemos esperar respostas humanas dos jogadores, se os respeitarmos (e estudarmos) como homens. Só assim podemos fazer ciência… nas ciências humanas! Mas eu vou continuar com este tema."

Alvorada... do Júlio

Carreira de treinador: gerir o factor urgência

"A carreira de treinador não está imune às alterações que a sociedade incute e empurra os vários mercados a tornarem acções esporádicas em hábitos. A presente Liga portuguesa vai na 11.ª jornada e, a este ritmo, o número de despedimentos ou alterações das equipas técnicas vai ficar ou muito próximo da época anterior ou mesmo superar os números da época 2016/17.
O sentido de urgência é algo que os treinadores e empresas vão colocando na agenda de um treino ou de uma formação, com o objectivo que os atletas, gestores, todos nós, tenhamos a ideia do que é gerir o tempo, as várias fases de um projecto, de um jogo, o que é prioritário e como se deve gerir as emoções e as razões em momentos onde há menos ou mais tempo para pensar e decidir. Mas as últimas épocas desportivas, neste caso específico, têm alterado e adulterado tudo o que é racional ou aceitável na gestão de um planeamento ou objectivos de uma época desportiva e consequentemente, dos objectivos individuais, colectivos, desportivos ou de gestão.
Os dois eixos, que se cruzavam e estavam sempre dependentes um do outro, sendo que um representava o projecto desportivo e o outro o projecto de gestão, deram lugar a um eixo que está quase ou totalmente dependente dos resultados desportivos. Em que não interessa muito o investimento humano e estratégico para dar resultados daqui a uns meses ou épocas desportivas. Basta perceber o número de treinadores que completam duas épocas inteiras no actual futebol português para perceber que esta análise não é alarmista. É real.
E este fenómeno é tão ou mais evidente quanto mais se vai baixando na classificação. E por muito que isto nos pareça lógico, o passo seguinte é perceber que a substituição pura e dura de treinadores não resolve os problemas de fundo, que geralmente estão nas condições e na qualidade de planeamento com que se inicia uma pré-época. E isto traz ao treinador a necessidade de dominar uma competência para a qual o treinador não recebe ensinamentos durante a sua formação: estar preparado para mudar aquilo que são os seus pressupostos e bases de uma carreira de treinador, estar preparado para abdicar momentaneamente (ou regularmente?) daquilo que para si é prioritário em termos de conceitos de treinar para estar sempre a pensar no presente, que na verdade, passa a ser vencer semanalmente com a ameaça de que, aos primeiros resultados menos positivos, a decisão de terminar a relação laboral se faça sentir.
O problema, não sendo novo, é cada mais evidente. E já o tinha escrito aqui, qualquer pausa actualmente no calendário desportivo, como vai ser esta das selecções, é uma ameaça para os campeonatos profissionais."

Benfiquismo (DCXLIX)

Magriços...

Cadomblé do Vata

"1. Esta é a minha 3.ª tentativa de escrever uma crónica sobre o Vitória - SLB... nas outras duas, o Svilar saiu da baliza e cortou-me o texto.
2. Confesso-me muito desiludido com a exibição do nosso guarda redes... no lance do 1-0 teve que ser o Jonas a desviar para golo, porque o servo-belga ainda não tinha chegado à grande área adversária.
3. Estratégia altamente equilibrada de Rui Vitória... por um lado optou pelo 4-3-3 para mostrar aos jogadores que este era um jogo difícil; pelo outro meteu o Jonas dizendo-lhes que não era complicado o suficiente para podermos abdicar do melhor jogador.
4. Jonas confirmou que não sabe jogar sozinho na frente... só um golo e uma assistência faz-nos ter saudades do Sokota.
5. E aquele pontapé que o Samaris deu no Vitória aos 75 minutos... parecia o Binya se o camaronês fosse jogador de futebol."