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sábado, 30 de maio de 2026

Benfica e Sporting: a crise alastra em lideranças sem líderes


"Entre a paralisia na Luz e as desculpas em Alvalade, os grandes expõem a sua maior fragilidade: o vazio de rumo estratégico num dirigismo que governa, mas não lidera o jogo

Enquanto os rivais já vão chegando às suas primeiras metas estipuladas para o mercado, o Benfica, que até viu o seu arranque ser antecipado pela conquista da Taça por parte do Torreense, faz chegar aos jornais, de forma direta ou indireta, que acelera na preparação da nova época. Mais do que algo palpável, é a tal palmadinha nas costas, acompanhada de piscar de olho de chico-esperto, que apenas aparece para manter as coisas serenas. Criar pelo menos a dúvida à contestação. Lembra sem lembrar que a preocupação e a imagem de crise e caos são coisas de jornais e jornalistas, que há um timoneiro ao leme e que vai correr bem. E se correr mal, outra vez?
Não há dúvida de que toda a situação foi gerida à-Rui Costa, ou seja, com ausência comunicacional absoluta ou completamente desenquadrada do divulgado quase em uníssono por praticamente todos os órgãos, exceto o canal do clube. Chamemos-lhe realidade. Nomes têm sido muitos, talvez até mais do que o normal. Concretizações zero. Sem treinador, com uma oferta com nomes indisponíveis e poucas opções — ao contrário do que acontecia nos tempos de jogador, não esperem do presidente qualquer rasgo de génio —, também o melhor é que não se concretizem mesmo. A não ser que sejam nomes inequívocos, que joguem em qualquer sistema e façam sua qualquer ideia, todavia para esses não parece que haja assim tanto dinheiro.
Os líderes, os verdadeiros, não os empossados, mas aqueles que têm realmente vocação — e, sim, são raros os que viram presidentes de clubes ou políticos — conseguem olhar para lá do óbvio, ler nas entrelinhas, antecipar problemas e soluções, avistar cenários completos e não apenas o que está perto. Rui Costa teve a oportunidade de controlar a narrativa e o próprio destino. Para isso, precisava de ter a certeza da sua decisão. De ser capaz de encerrar ciclos. Não ao corresponder à abertura de José Mourinho em ficar no pré-Real Madrid, mas precisamente no abrir mão de um técnico que teima em ficar bem abaixo das expectativas que gera, desde que, precisamente, deixou a capital espanhola. A partir do momento em que não tomou o próprio destino entre mãos permitiu o colar de dois futuros, o da Luz e o outro, do Bernabéu, e do qual o emblema português nunca sairá a ganhar. Já está inclusive a perder, bloqueado no tempo, sem poder realmente avançar para a próxima temporada.
Afinal, por 15 milhões, o valor da rescisão (e eventualmente de uma contratação falhada aos dias de hoje), vale a pena abdicar de tanto?
Ridícula foi ainda a oferta posterior, quase em desespero, que só fortaleceu a imagem do Special One. Deteriorando ainda mais a do presidente, ao ponto, provavelmente, de já não se reconhecer no próprio reflexo.
O campeão não se faz só de mercado e o começar mal não quer dizer, só por si, que os encarnados terão mais uma época para esquecer. Só que o problema é esse mesmo «mais» na frase anterior. Rui Costa não chegou hoje, bem pelo contrário. As temporadas, exceção feita à primeira, com Roger Schmidt, e ainda assim com um inverno pouco equilibrado face às saídas, foram todas planeadas de forma insuficiente, com muitos negócios de oportunidade, em vez de apostas cirúrgicas.
Também há, na Luz, muita pressa no que diz respeito à afirmação de jogadores, o que precipita decisões erradas e comprometedoras do futuro. Hoje, se não fosse o Real Madrid, Schjelderup estaria em Bruges. Sem as exibições no Mundial juvenil, Prestianni andaria talvez por algum clube menor a ganhar músculo. A Sudakov, pasme-se, já lhe apontam a porta da saída tantas vezes quantas, antes de tempo, apontaram a Ríos. Falta realmente quem pense o futebol do Benfica.
No entanto, como escrevo há anos, falta antes de tudo um rumo. Que não virá com Rui Costa. Porque não olha para lá de amanhã, não vê além do Estádio da Luz e prefere que as coisas se resolvam por si só do que resolvê-las ele mesmo. Felizmente, Otamendi decidiu sair por si ou o argentino arriscaria bater todos os recordes de longevidade.
A confirmar-se, Marco Silva, cujo bom trajeto é inegável, ainda não percebeu bem onde se irá realmente meter. Quanto mais incapaz for ele próprio de preencher o vazio que irá de certeza encontrar, mais dificuldades terá em descobrir o caminho para o sucesso. Mesmo com Mário Branco, com quem já trabalhou, mas numa realidade tão distante que parece de outro planeta.
De fragilidade para fragilidade. Comunicacional. Mas também de liderança. Uns metros à frente, baixou a crise sobre Alvalade. Avisava eu, há umas semanas, que o Torreense iria determinar o quão fragilizado Rui Borges iria começar a nova temporada. E a festa azul-grená, no Jamor, juntando-se a uma temporada sem títulos e que teve como atenuantes apenas a boa campanha na Champions e o regresso, via 2.º lugar, à prova milionária, fez obviamente disparar a pressão em torno do técnico, que nunca foi realmente consensual para adeptos e críticos. Renovar com o mesmo naquela altura pareceu querer dizer que se confiava no processo independentemente dos resultados, o que não só nunca é verdade em Portugal, como ,depois de os mesmos não terem sido favoráveis, não elimina as questões sobre se mantém a confiança ou não no técnico principal. Fazê-lo agora, sim, seria uma afirmação.
Frederico Varandas veio também a público, naquele seu jeito sem jeito, abrir a porta a um verão movimentado no plantel. Num discurso muito anos-80 — na verdade, deixámo-nos iludir pela forma, o conteúdo infelizmente continua o mesmo —, o presidente do Sporting protegeu o treinador reconduzido e entregou os jogadores às feras, sugerindo já terem a cabeça no Mundial ou noutros lados, usando a palavra «atitude». Como se os futebolistas não tivessem querido ganhar a Taça ou não tivessem sequer querido jogar bem. Como se Pedro Gonçalves e Luis Suárez, aqueles que mais oportunidades tiveram, pudessem ter colocado mais vontade no prato da balança que diz «acertar».
Seria muito mais fácil para estes dirigentes se as suas equipas jogassem sozinhas, sem adversários do outro lado do campo. Aí não teriam mesmo como errar!"

1 comentário:

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