Últimas indefectivações
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
A síndrome Bruno de Carvalho
"Não tenho por hábito escrever sobre futebol e, na verdade, este não é um texto sobre futebol. Achei que depois de Bruno de Carvalho haveria bom senso e os principais agentes do mundo do desporto ganhariam juízo e sobretudo vissem o ridículo em caiem quando desatam a disparar para todo o lado.
Também pouco me importo quando isso acontece pois como diz o povo, cada uma sabe de si. O que me preocupa e, honestamente, aborrece e transtorna é este clima de suspeição e de terrorismo que vivemos nos dias de hoje no mundo do desporto.
Ao nível do futebol, somos campeões Europeus, temos o melhor jogador do mundo, os melhores treinadores e uma geração de novos grandes talentos a despontar. Em outros desportos temos campeões do mundo, da Europa e Olímpicos, que vão da canoagem ao atletismo e que, nos últimos tempos, são os únicos que não nos envergonham. Mas ao que parece, ficou por cá um vírus que tem vindo a afectar sobretudo quem não sua as camisolas e apenas delas vive – a síndrome Bruno de Carvalho.
A corrupção é um mal intrínseco na sociedade, mas nos últimos tempos, sobretudo no mundo do desporto, parece que não há limites na luta pelo poder.
Dirigentes desportivos que não medem as consequências dos seus actos e, sobretudo das suas declarações. Em constante terrorismo mediático, assessorados por profissionais da comunicação, outrora jornalistas de qualidade e respeito, mas que veem no mundo do desporto um aliciante financeiro que os media não conseguem acompanhar e, por fim, dirigentes, funcionários de órgãos públicos e políticos que se parecem deslumbrar pelo “vipismo” do mundo do desporto.
Vivemos em sociedade aberta e democrática e, como é normal, pessoas dos mais diferentes quadrantes interligam-se independentemente dos credos, convicções e orientações. O problema é que no meio disto tudo há sempre quem confunda os papéis e, para proveito próprio, usufrua das normais relações sociais, sujando-se e sujando todos os que estão à sua volta.
Depois de Bruno de Carvalho confesso que achei que as coisas pudessem acalmar – mas não! Dirigentes que avançam com providências cautelares, juízes a integrar órgãos sociais desportivos, jornalistas que divulgam informações furtadas e comentadores às paletes que a troco de meia dúzia de disparates têm o seu minuto de fama.
Vive-se um dos momentos mais deprimentes do desporto nacional. Um verdadeiro caos que parece estar ainda a começar.
Opina-se de forma infundada e com base na sempre irresponsável expressão do “diz-se que”! Gastam-se horas de espaço televisivo e de páginas de jornais com imagens sensacionalistas e acusadoras sem que, na verdade, haja qualquer acusação. Fazem-se pré-julgamentos e ditam-se sentenças em praça pública sem citações ou probatórias.
Tudo isto parece não ter fim! Parece não haver limites para a mediocridade humana. Ao contrário, o bom senso e a serenidade parecem esgotadas.
Como é evidente, na base de tudo isto, está o poder e sobretudo dinheiro. Muito dinheiro! O desporto e em concreto o futebol são uma poderosa indústria e com uma margem de progressão ainda desconhecida.
Talvez fosse o momento de repensar os actuais modelos. Não aqui, mas a nível europeu e mundial. As actuais regras do jogo apenas contribuem (tal como na economia) para aumentar o fosso entre clubes ricos e pobres e, por isso, vale de tudo para não perder o comboio e cair no fosso dos menos favorecidos. O fair play financeiro é uma anedota e só tem contribuído para promover mais corrupção e jogadas de bastidores.
Por muito que me custe admitir a síndrome de Bruno de Carvalho existe e vai ser muito difícil de combater e, por ventura, eliminar."
É possível esquecer o que vimos de João Félix?
"Não é um golo que o faz. Ou dois grandes golos que o transformam.
Não é a forma leve como pisa, a facilidade com que dribla por entre ruas apertadas e estendais de roupa estendida para atrapalhar, e como se movimenta na faminta procura dos espaços.
A inteligência a procurar os desequilíbrios, as palmas das mãos viradas para a frente a apontar para os pés, destino desejado de todas as bolas que ainda não lhe pertencem.
Mete!
A classe com que finaliza.
A maturidade com que se prepara antes de deixar que se manifeste.
Tempo. Espaço para receber, inspirar e olhar. Espreitar meio de lado, apenas para perceber o próximo passo. O seu e o do outro.
O guardião, que sai. E ele, que volta a desviar os olhos, e toma a sua decisão. Expirar.
Não é uma destas coisas, é tudo isto. Parcela somada a parcela numa conta sempre difícil de fazer.
Sei precisamente o que pensam, agora e aqui, sem sombra de dúvidas. É esta a altura em que atacam com acusações. Empolamento em palavras de ordem. Os habituais exageros da imprensa, críticas de que é sempre a mesma coisa.
Talvez seja. Ninguém sabe se sim, ou tem a certeza que não. É impossível sabê-lo. Talvez nim, talvez sim, ou infelizmente não. Nem toda a crisálida dá uma bela borboleta. O que sabemos, enquanto as palavras se constroem e desconstroem neste ecrã, é que já é impossível olhar para o lado. Não querer ver, não tentar perceber. Até não escrever.
Next. Big. Thing. Talvez, por que não? Tem tudo para sê-lo, disso não podem restar dúvidas. Dar-lhe tempo, acreditar, complementá-lo no que lhe falta. Assim a sorte o proteja, e o futebol acredite nele.
Mais um diamante encontrado na suja mina de carvão que é o futebol português.
Félix é, obviamente, a ideia por completar. Uma frase que ainda vai a meio. Falta-lhe verbo, falta-lhe complemento directo, circunstanciais de lugar e de tempo, e muitos advérbios. O que temos é pouco, não é quase nada, é verdade. Talvez apenas um Eu, em capitais, a começar.
Ajudo. Na frase, acrescento o verbo:
Eu vou...
Os complementos são consigo."
Recurso entregue e bilhetes à venda
"A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informa que, analisado o Acórdão da Federação Portuguesa de Futebol que confirmou a aplicação do castigo de um jogo à porta fechada no Estádio da Luz, interpôs e já entregou o recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) a impugnar a decisão e a requerer o decretamento de providência cautelar suspensiva dos efeitos do Acórdão.
É convicção firme da Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD que a razão lhe assiste e que o TAD reconhecerá os fundamentos da sua defesa.
Em todo o caso, a realização ou não do jogo Benfica-FC Porto, à porta aberta, no próximo dia 7 de Outubro, a contar para a Liga NOS, está dependente da obtenção de decisão em tempo útil por parte daquele Tribunal a decretar a suspensão dos efeitos da decisão proferida pela Federação Portuguesa de Futebol.
Contudo, na expectativa de uma decisão favorável por parte do TAD e de modo a salvaguardar a possibilidade de realização do jogo aberto ao público, a Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informa que irá iniciar hoje a venda de bilhetes para o mencionado encontro, bem como todas as demais medidas procedimentais necessárias para assegurar a organização do mesmo.
Qualquer alteração, em resultado de eventual decisão proferida pelo TAD, será de imediato comunicada."
Entre a Europa sem VAR e Portugal com VAR
"O argumento de que com este meio se vai gastar muito mais dinheiro faz-me rir... Coitada da UEFA, pobre e desamparada...
1. Esta é a minha última crónica a uma quarta-feira. A partir da próxima semana, passarei a escrever às terças-feiras. Como se diz em linguagem futebolísticas, tratou-se de «uma troca por troca» com, neste caso, Miguel Sousa Tavares. Aliás, pegando nesta expressão, confesso que sempre me fez confusão dizer troca por troca, quando sai um jogador de uma certa posição no campo e entra, em sua substituição, um outro atleta para a mesma posição. Segundo o Ciberdúvidas, esta frase até está dicionarizada, como expressão idiomática, mas com o significado de permuta de uma coisa por outra sem dar lugar a receber alguma quantia. Por exemplo: «não compararam nem venderam nada, foi tudo troca por troca». No caso vertente até será um pouco forçado dizer que se trata de uma troca pr troca. Para mim, como benfiquista e, certamente, para Miguel Sousa Tavares, como portista...
2. A semana foi a primeira semana europeia para os clubes portugueses que atingiram a fase de grupos. Tivemos os três resultados possíveis: vitória, empate e derrota.
O Benfica perdeu com alguma naturalidade perante os bávaros. Não é que tenha jogado mal, mas tenho de reconhecer que jogaram duas equipas de escalas diferentes. No fundo, defrontaram-se um sério candidato a ganhar a Liga dos Campeões e um putativo candidato a conquistar a Liga Europa, embora financeiramente seja melhor chegar aos oitavos da Champions. Renato Sanches foi a surpresa que baralhou a expectativa de alguma «arrogância» do Benfica, anunciada por Rui Vitória na conferência de imprensa antes do jogo. O ex-jogador do Benfica, que no jogo seguinte já não foi titular (contra o Schalke 04 também batido pelo mesmo resultado do SLB, 0-2), jogou bem, fez-me sentir saudades das suas arrancadas decisivas para o, na altura, tricampeonato e... marcou. O jovem português foi bastante discreto no meio do festejo de que se encarregaram os colegas e isso ficou-lhe bem. Bateram-se muitas palmas, desportivamente correctas. Eu, também a ver o jogo no Estádio, não o fiz, porque nunca bato palmas aos golos marcados ao meu clube, seja em que circunstância for. Agora e na segunda jornada, na Grécia, vem a melhor oportunidade de voltar a marcar golos e, pelo menos, não perder nesta importante competição, o que já sucede há 6 e 8 jogos, respectivamente.
O FC Porto teve um generoso resultado perante um inesperado vice-campeão alemão, com muita força física e uma falta de jeito bem visível, actualmente último classificado da Bundesliga com 4 derrotas em 4 jogos, e que está a anos-luz do campeão. No seu grupo, o adversário do pote 1 (Lokomotiv de Moscovo) levou 3-0 de um regenerado Galatasaray. Por fim, um árbitro penalteiro possibilitou à equipa portuguesa duas oportunidades para empatar ou ganhar o jogo. Uma curiosidade: imaginemos que a segunda penalidade assinalada (e convertida) tinha acontecido por cá, a favor do Benfica. Parece que já estou a ouvir o que diriam os anti-benfiquistas durante uma época inteira...
O Sporting venceu justamente um clube azeri com um nome estranho e que, por cá, andaria certamente na segunda Liga. Mas, ganhando, contribuiu para a soma de pontos necessários para melhorar o ranking.
Uma última nota sobre as competições europeias. Num tempo em que quase todas as competições em cada país (com excepção da Inglaterra) já dispõem de VAR, a UEFA não só insiste em não o ter, como continua a dar guarida a uns árbitros-turistas que se colocam na linha de cabeceira e dobram as costas como se estivessem a desempenhar um grande papel. A expulsão de Cristiano Ronaldo é manifestamente forçada e resultante de um sussurrar aos ouvidos do árbitro principal por uma dessas «múmias paralíticas» da linha de cabeceira. Bastaria haver VAR para que a decisão justa (talvez um amarelo) não provocasse qualquer celeuma. O certo é que a teimosia da UEFA se mantém, ainda que agora mais pressionada. É que, desta feita, não foram os «pequenos e médios» clubes da Champions que form prejudicados, antes um jogador como Ronaldo e um clube como a Juventus. Por isso, embora com prejuízo para o jogador português, assim se retirou um efeito positivo com vista a acelerar a dispensa daqueles auxiliares e a introdução do VAR. O argumento de que com este meio se vai gastar muito mais dinheiro, faz-me rir... Coitada da UEFA, pobre e desamparada...
3. Confesso que tive de fazer «revisões, chamadas» para me lembrar como estava o campeonato quando foi interrompido há algumas semanas. Depois deste largo soluço na competição, eis que com os jogos também regressaram as trocas espúrias de graçolas e parvoíces entre uma pretensa «conta» da comunicação do Benfica e uma outra protagonizada por um Jota do Porto. Assim se espicaçam os pobres de espírito, que ainda os há nos dois clubes, com este farto lixo tóxico que, aliás, tem um efeito «boomerang». Confesso que já não tenho paciência para estas derivas adjacentes aos jogos e só lamento que os jornais, nos quais se inclui A Bola, lhes dêem guarida e espaço a toda a hora. Deixem-nos falar sozinhos e apenas para os consumidores viciados nas mentirolas e cobardias das redes sociais.
Falando de futebol, gostei do meu Benfica. Contra o Desportivo das Aves e com uma assistência que não caberia em qualquer outro estádio português, viu-se futebol harmonioso e bem construído, ainda que demasiado perdulário. Soluções não faltam, sobretudo do meio-campo para a frente. Vejamos essa parte do plantel: Pizzi, Gedson, Gabriel, Krovinovic, Zivkovic, João Félix, Rafa, Cervi, Salvio, Jonas, Castillo, Ferreyra e Seferovic, dos quais Rui Vitória tem necessariamente de optar por apenas 5 (ou 6) para serem titulares. João Félix mostra quão prodigioso é, assim mantenha a cabeça imune às idolatrias da futebolândia. Continuo a apreciar a serenidade, discrição e maturidade do guarda redes Odysseas Vlachodimos que pegou de estava e dá estabilidade ao próprio quarteto defensivo.
4. Ao fim de 10 anos, foi interrompido «guerra» Ronaldo/Messi, por vezes demasiado obsessiva e doentia, medida em troféus de melhor jogador do ano. Desta vez o croata Luka Modric, da idade de Cristiano e mais velho do que Messi, venceu. Neste caso noutros casos, há sempre alguma justiça e há sempre alguma injustiça, a primeira das quais foi, para mim, o argentino não estar entre os melhores. Confesso que não me entusiasmo muito com este tipo de distinções, resultantes de factores bastante aleatórios ou até enviesados, seja na votação popular, seja nos treinadores e jogadores votantes. E sendo um título individual, o que acaba por o determinar é o sucesso colectivo. Por isso, qualquer grande jogador que não actue na Europa e nos 5 ou 6 clubes mais poderosos e vitoriosos não tem possibilidade de levar o troféu. E, quase como um regra intransponível, o escolhido tem de ser avançado ou médio de ataque, pois que sendo guarda-redes ou jogador recuado não tem chance nenhuma. Desde 1991, só um defesa F. Cannavaro o conquistou, neste caso, curiosamente, de um modo bastante discutível. Pena que Cristiano Ronaldo não tenha sido capaz de ter sido um senhor na (não) vitória, faltando à cerimónia da atribuição da distinção a um seu ex-colega no Real Madrid...
Contraluz
- Escolhas: Costuma-se dizer que, na política, o que parece é. No futebol, às vezes, dão-nos pretextos para quase se fazer essa dedução. No jogo Vitória de Setúbal - FC Porto, havia necessidade de o árbitro ser da AF do Porto e o VAR idem aspas? E o sempre poupado Felipe muito pode agradecer não ter visto o cartão vermelho. Creio, aliás, que foi por isso que o juiz Manuel Oliveira nem sequer assinalou a falta, não fosse mesmo ter de o expulsar. Rapaziada toda muito esperta...
- Vermelho: Também o central do Benfica Rúben Dias foi poupado a um cartão vermelho por cotovelada despropositada sobre um adversário. Trata-se, inegavelmente, de um jovem com grande futuro à frente, mas tem de aprender a conter-se em situações como a do jogo de domingo. Prejudica a equipa e prejudica-se a si próprio.
- Campeão: O Belenenses, volvidos 10 anos, volta a ser campeão nacional de râguebi. Neste desporto dominado pelos «clubes universitários» apreciei ver os azuis vencerem a prova."
Bagão Félix, in A Bola
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Bons indicadores...
Avanca 22 - 36 Benfica
(13-16)
Primeira parte cinzenta, mas com o regresso do Seabra no 2.º tempo, tudo foi diferente...
O Nyokas também voltou após lesão, e estreou-se a marcar... e com uma excelente atitude.
Na próxima jornada vamos ter o derby com os Lagartos, que estão a jogar melhor do que na Supertaça, mas como ficou provado, temos equipa para eles...
Sabe quem é? Anarca e sindicalista - Manuel da Conceição Afonso
"Não foi só presidente do Benfica, foi pedra no sapato de Salazar; Tiraram-lhe emprego, morreu em A Bola
1. Nasceu algures por 1890 e ao ir como encadernador para a Imprensa Nacional envolveu-se na União Operária que, em 1919, se transformou na Confederação Geral do Trabalho, criando, pelo caminho, A Batalha jornal lido em voz alta nas cantinas (para que os operários analfabetos pudessem apanhar a sua política mensagem).
2. Por entre a fama espicaçada de sindicalista (e de anarca), ao abrir-se a campanha para o financiamento da construção do Estádio das Amoreiras, correu a inscrever-se como sócio do Benfica, gastando as suas poupanças nos «títulos para ajuda à missão». Foi em 1923, deram-lhe o número 4595 - e, sem grande tardança, o clube indicou-o para a direcção da Federação Portuguesa de Hóquei e Patinagem.
3. Notável pela fluência e pela paixão dos seus discursos, em 1926 subiu à vice-presidência da Assembleia Geral (por lá se manteve dois anos). Em 1930 tomou a presidência da Associação de ,Atletismo de Lisboa (e, claro, não deixara de ser o que se esperava que fosse: um feroz opositor de Salazar...).
4. À polémica com a FPF, a AFL exigiu que os seus filados boicotassem o Campeonato de Portugal, Ávila e Melo, o presidente do Benfica, concordou - os demais directores não por julgarem imoral que o clube não defendesse o seu título, opuseram-se. Ávila demitiu-se, para o lugar lançou-se a escrutínio Félix Bermudes. Recolheu 275 votos, achou-os expressão de «alguma desconfiança», recusou tomar posse. Como operário anarca e sindicalista, colhera 409 votos para vice de Bermudes, subiu ele à presidência (estava-se em Agosto de 1930).
5. Arthur John perdeu o campeonato de Portugal de 1930/31 e como ele se recusou pagar-lhe o que o Sporting lhe oferecera: 16 pontos por ano - John foi para o Lumiar. Ribeiro dos Reis, seu vice-presidente, regressou a treinador - sem receber um tostão do clube.
6. Herdara 650 contos de dívidas e letras para além dos 43 (e preço médio dum carro andava pelos 18 contos) - e, em Setembro de 1931 e em Agosto de 1932, reelegeram-no por «aclamação e braço no ar». Largou a função com a dívida esquartejada (não, não chegava a 950 escudos - apesar dos 60 contos que gastara em benfeitorias nas Amoreiras, dando-lhe duches de água quente e até telefone no balneário.
7. Chegou 1934 e apesar de bombas a rebentarem, de linhas de comboio a cortarem-se e da instalação de um «soviete» na Marinha Grande (que ao desfazer-se atirou de operários para campo de concentração de Angola), Salazar conseguiu o que queria: em vez de sindicatos atrevidos, dóceis «corporações». Ele, livrando-se da prisão e do desterro, teve ideia (que foi uma finta): transformar o Sindicato do Pessoal da IN em Grupo Desportivo e Recreativo da IN para que assim não perdesse a sede e os haveres. Criou-lhe uma secção desportiva e uma cultural (com palestras até com Alves Redol já proscrito pelo regime).
8. Em Novembro de 1936, regressou à presidência do Benfica - ganhou dois campeonatos da Liga. Ao passá-la a Ribeiro da Costa, voltara a amortizar a dívida em mais de 117 contos (e colhera pela primeira acima de 800 contos em quotas). E 27 contos de lucro deu o futebol, apesar de ferida cada vez mais aberta dentro de si: «O clube está deficientissimamente instalado nas Amoreiras. As receitas do campo são insignificantes em comparação com outros adversários, o público foge de lá Amoreiras porque de antemão sabe que ali não tem comodidades - e nem sequer já boa visibilidade...»
9. A sexta eleição para presidente foi a 19 de Janeiro de 1946 na sequência de demissão de Félix Bermudes - e de pronto solicitou a Augusto Cancela de Abreu, o Ministério das Obras Públicas, medidas para «resolução do problema do estádio». Sugeria-se que fosse nas cercanias do Hospital Júlio de Matos, não era o que queria, conseguiu que o ministro lhe prometesse: «O Benfica é de Benfica e para Benfica deve voltar!» (Sim, voltou...)
10. Em Julho de 1947, com o Benfica já de caminho garantido para a Luz, ele passou a presidência a João Tamagnini Barbosa. Afastado pelo governo de Salazar da Imprensa Nacional. Para que não ficasse desamparado e sem emprego - Cândido de Oliveira levou-o para os serviços administrativos de A Bola e organizar o seu arquivo fotográfico foi das últimas devoções da sua vida (e em Maio de 1966 morreu)."
António Simões, in A Bola
Luisão, o adeus 538 jogos depois...
"Luisão pendurou as botas. O peso dos anos e a implacável concorrência acabaram por ditar o fim de uma carreira que fica gravada a letras de ouro na história do Benfica. Desde a fundação, em 1904, só um jogador vestiu mais vezes a camisola do clube da Luz que Luisão, o eterno, incontornável e irrepetível Nené. Mas o que torna mais especial ainda o percurso do Girafa em Portugal é o facto de ter permanecido na Luz num contexto de liberdade contratual, ao contrário dos seus antecessores até 1974, no âmbito nacional, a 1995, no plano internacional, que estavam limitados pela famigerada lei da opção. É certo que por vezes fez um braço de ferro com Luís Filipe Vieira, mais no género de agarrem-me senão vou-me embora do que propriamente baseado numa vontade firme de partir. No fim das contas, são 15 anos de ligação ininterrupta, 538 jogos disputados (127 dos quais na UEFA, mais 50 do que o segundo dessa lista, Veloso) e seis títulos nacionais, num palmarés sem rival nas últimas três décadas da vida benfiquista. Nos dias que correm, casos de permanência alargada num clube português de topo, como o de Luisão, são cada vez mais improváveis. Quando se vislumbra um jovem de grande potencial, vindo da formação, a pergunta que se faz não é se vai sair, mas sim quando sairá. Mas que ninguém duvide que jogadores como Luisão, com estatuto, autoridade e muitos anos de casa, são fundamentais para unir as equipas e fazer crescer os mais jovens. São âncoras inestimáveis que impedem que as naus naveguem à deriva. Luisão vai continuar, noutras funções, na Luz. O Benfica sabe que os clubes que não respeitam o passado não têm futuro."
José Manuel Delgado, in A Bola
Recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto de Lausanne
"A Sport Lisboa e Benfica – Futebol, SAD informa ter recebido no dia de hoje a decisão proferida pela Dispute Resolution Chamber (Câmara de Resolução de Disputas) da FIFA no processo que envolve o despedimento com invocação de justa causa do seu ex-atleta Bilal Ould-Chikh. Por não se conformar com a decisão proferida, requereu de imediato os fundamentos da mesma com vista a interpor recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) de Lausanne.
A SL Benfica – Futebol, SAD mantém a convicção de que o despedimento do referido atleta se justificou face ao comportamento desportivo e social deveras censurável e, como tal, é legalmente sustentável, não deixando, por isso, de reclamar a devida indemnização junto do Tribunal Arbitral do Desporto de Lausanne."
A moda do disparate
"No Benfica, gente a gabar-se de boas ideias é o que mais se vê, mas quando cheira a problemas fica só o presidente para os resolver
O Benfica tem estado no olho do furacão, numa zona de aparente acalmia em consequência das questões que se conhecem e a justiça investiga. É normal num Estado de Direito e apesar de o presidente ter dito já mil vezes que não lhe pesa a consciência e o bom nome da águia vingará, a verdade é que aos 'juízes de tasco', os mestres da propaganda ardilosa, tudo serve para debitarem sentenças nas vielas da má-língua.
Surpreende, por isso, que, servindo-se de uma conta 'SL Benfica Press', a comunicação encarnada, presumivelmente oficial, acerca do Vitória de Setúbal - FC Porto, tivesse lamentado o «golo limpo» que o árbitro anulou à equipa sadina. No meio de tão rica troca de galhardetes entre rivais ainda deve sobrar paciência para avaliar o grau de asseio dos golos que cada um marca, sendo certo que, em rigor, esse foi mesmo pouco limpo.
A isto chama-se mensagem ridícula e ineficaz. Como não tem identificação de autor, compromete o próprio emblema, porque é o Benfica que diz e não um funcionário irresponsável, alegadamente, por ele. Quando João Gabriel era o defensor da imagem do Benfica isto não acontecia. Era ele quem dava a cara, sempre. Com escritos curtos, irónicos, mas certeiros. Não como agora, em que parece dar-se mais importância à moda do disparate.
O que, segundo fonte bem colocada, suscita outro tipo de dificuldade para Vieira de maneira a salvaguardar o prestígio da instituição que lidera: no Benfica, gente a gabar-se de boas ideias é o que mais se vê, mas quando cheira a problemas fica só o presidente para os resolver.
(...)
A realidade não engana. O extinto Saraiva nunca fez falta em Alvalade, assim como o truculento Marques no Dragão ou o omisso Bernardo na Luz, tal como actuam, se tornam figuras dispensáveis.
No futebol que desejo, verdadeiramente importantes são o Paulo Cintrão no Sporting, o Pedro Amorim no FC Porto, o Ricardo Lemos no Benfica, o André Viana no SC Braga e todos os que executam idênticas tarefas em emblemas de menor dimensão, com o mesmo denodo e a mesma preocupação de fazer bem."
Fernando Guerra, in A Bola
O cão do Jorginho dos view-masters
"Os antigos contam sobre ele histórias extraordinárias e eu nunca duvido da palavra dos antigos. Os antigos são o meu pai e os seus amigos lá de Águeda que conheceram o Hernâni ainda garoto. Muito tempo antes de eu ser, pela minha vez, garoto de Águeda, do adro ao rio, da Venda Nova ao Alfusqueiro, e ter visto jogar o Fanfas, o Telha e o Manuel Joaquim, e o Pincho de Timor dos confins do Império - onde ficava o Pico Ramelau, o ponto mais alto de Portugal com 2963 metros de altitude - e o retinto Tito Lívio, negro azeviche no alto do seu orgulho tímido de historiador de Roma e dos Tarquínios.
O rapaz da Dona Aurora corria à desfilada com a bola de trapo nos pés e, de repente, num passo de bailarino, entalava-a entre os calcanhares e fazia-a passar sobre a cabeça e sobre a cabeça do adversário. Era, até certo ponto, uma magia. E os antigos viram e contam.
«Filho único a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera
‘O menino da sua mãe’».
Era Balreira do pai, mas ficou da Silva Ferreira, apelidos que o futebol português conjugou, depois, em Eusébio da Mafalala, Ferreira da Silva, como se fizesse questão da brincadeira, do calembour. Francisco Duarte, o pai do Manuel Alegre, levou-o a Coimbra e não o quiseram. Murmurou: «Enganaram-se...». Levou-o a Lisboa e ao Benfica, e responderam-lhe que igual a ele havia por lá muito. Cerrou os dentes e rumorejou: «Enganaram-se outra vez!».
Veio Soares dos Reis e o Porto foi o destino. Em Águeda fundara um clube, o FC do Adro, entre a escola, a igreja e o cemitério, campo de nós todos, antigos e não antigos, fazendo balizas do lado do cruzeiro onde havia um castanheiro-da-Índia com os seus ouriços que se transformavam em projeteis dolorosos depois dos jogos e no momento de assaltar o muro que ficava no fundo do meu jardim a dar para a Casa do Adro e à sombra sinistramente branca do edifício do CEFAS.
Alguém, não sei quem, chamou-lhe um dia O Furacão de Águeda. Hernâni cumpriu o futuro que lhe liam nos astros. Jogou na selecção, na civil e na militar, esteve no Estoril enquanto cumpria o maçador dever da tropa, um campeonato inteiro por dez contos, ele próprio o contou numa daquelas revistinhas que saíam ao domingo pela mão de Mário de Aguiar com o título de Crónica Desportiva.
O Recreio de Águeda nunca foi um dos clubes de Hernâni, apesar de ele sempre ter confessado essa paixão. Passou por lá num repente tão repentino como as suas fintas velozes de entontecer defesas inóspitos. Correu sobre o pelado do Campo de São Sebastião, já sem a trapeira, para lá do muro de tijolo onde se dependuravam os curiosos que não se sentavam nas bancadas periclitantes de madeira encaixadas à força metálica de ferros pouco críveis. Havia o lajedo do basquete atrás da baliza leste e o baldio onde cresciam vinhedos selvagens no fundo da rua dos bombeiros. Havia a capela que nunca-pode-sair-do-seu-lugar porque traz consigo uma maldição qualquer. Havia a fábrica Silva & Irmãos. Havia a mercearia do Jaime. E havia o cão do Jorginho dos view-masters.
Águeda foi sempre uma terra muito rica em cães. Cães distintos, quero dizer. O Tom Mix, do tenente-coronel Lobão, um pastor-alemão tão militarizado que poderia ter servido nas Waffen-SS, sempre às ordens da caninha do dono, ora sentado, ora em pé, mas em pé mesmo, as patas dianteiras subidas e assente nas de trás, ou em marcha lenta acompanhando o trote ordenado que foi sendo cada vez menos firme até morrerem os dois. O Black, cão dos Searas, reconhecido como pastor-do-Biafra, esmifrado de fome e maus tratos mas jupiteriano dono do largo da Venda Nova onde também habitava o Chico, o corvo do café do Mário dos Táxis, a raspar o chão numa inquietação de vermes, as asas cortadas nas pontas para não voar, tropeçando nos sapatos dos clientes por debaixo das mesas a debicar migalhas de pão, cascas de tremoço e amendoins e a crocitar de quando em vez um - «Olá!» - roufenho que alguém lhe ensinou vá lá saber-se a que custos da paciência.
Não sei como se chamava o cão do Jorginho dos view-masters. Sei que de cada vez que o Recreio ganhava, subia ao seu trono de águas-furtadas e, lá de cima, equipado a rigor, com a camisola grená com o emblema em brasão, a bola de futebol castanha de travessas no centro, a cruzeta branca e azul num fundo de cor de vinho, as letras em redor - RDA, Recreio Desportivo de Águeda - ladrava um discurso petulante de amor ao clube e esperança renovada num futuro de glórias imarcescíveis.
Os domingos de Hernâni, a quem chamaram o Furacão, talvez também tivessem latidos como os que me canhoneiam a memória. Mas duvido que tenham sido sentidos como os que, pelo fins da tarde, vigiados pelo olho maldoso de um corvo paraplégico, se espalhavam a toda a largura de um céu de águas-furtadas."
O génio da bola que não gostava de marcar golos
"Na biografia agora publicada, o que me impressionou, para além do trágico final de Garrincha, foi sobretudo a sua forma de entender e jogar futebol.
No único Mundial de Futebol em que Portugal deu cartas e esteve a um passo de vencer, o de 1966, não me lembro de ter visto jogar Garrincha. Recordo-me, mais pela caderneta de cromos do que pela televisão, de Pelé, literalmente trucidado pelo nosso Morais, do guarda-redes Manga, muito responsável pelo primeiro golo português, e do então jovem Jairzinho que haveria de revelar-se mais tarde no Mundial do México.
Soube agora que Garrincha esteve sentado no banco de suplentes. Havia jogado contra a Bulgária e contra a Hungria, terminando aí a sua participação no mundial britânico e na selecção brasileira. Nessa época, o genial jogador das pernas tortas e bicampeão do mundo havia iniciado a sua fase descendente marcada pela bebida e pelas mazelas físicas.
Ora, tudo isto resulta da leitura da extraordinária biografia de Mané Garrincha, de Ruy Castro, editada agora em Portugal mas já com quase 25 anos, intitulada “Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha”. Extraordinária a duplo título: pela vida extraordinária de Garrincha e pela qualidade da escrita de Ruy Castro. Quase tão boa como essa obra-prima biográfica que é a vida de Nelson Rodrigues, também escrita por Ruy Castro. O registo é similar: uma narração cativante, viva, que solta a anedota e o drama e faz prevalecer o discurso directo.
O biografado é-nos apresentado no verdadeiro contexto social e cultural da época em que vive, sem particulares tons apologéticos mas recheado de pormenores do dia-a-dia. Porém, o que me impressionou, para além do trágico final de Garrincha, foi sobretudo a sua forma de entender e jogar futebol.
Para a época a sua atitude seria rara, mas apesar de tudo plausível. Hoje soa a ficção científica. Não é tanto a questão do estatuto, do prestígio, da fama ou do dinheiro. Ou melhor, da ignorância e inocência com que Garrincha lidava com essas questões. Também isso está a anos-luz dos nossos Ronaldos e Messis. Garrincha encarava o jogo da bola – fosse no Maracanã, no Pacaembu ou nas peladas na sua terra natal – de forma idêntica.
E o impensável acontecia, como naquele Botafogo-Vasco em que Garrincha perante um defesa esquerdo vascaíno continuou em fintas e dribles sucessivos muito para além das linhas de jogo, já na pista de acesso ao exterior. E só parou porque o árbitro lhe chamou a atenção. Como se o seu único objectivo no futebol fosse fintar uma e outra vez o adversário esquecendo-se dos golos.
Em outra situação, num particular entre o Brasil e a Fiorentina, Garrincha fintou toda a defesa italiana, guarda-redes incluído, e entrou tranquilamente com a bola na baliza. Não festejou sequer. Agarrou a bola com as mãos e transportou-a para o centro do terreno para poder rapidamente recomeçar o que verdadeiramente lhe dava prazer: driblar os adversários!"
Aplaudir o Renato?
"Recupero o apelo que Nélson Rodrigues deixou aos jovens: "Envelheçam depressa." Uma recomendação condenada ao fracasso que, na verdade, o dramaturgo brasileiro dirigia a si próprio, com a esperança de se libertar da dependência pueril do futebol. Nas bancadas, não envelhecemos e estamos sempre atentos a qualquer sinal de uma representação suspensa da infância.
Não me esqueço do lugar onde estava no dia 4 de dezembro de 2015. Na Luz, mais um jogo do nosso Benfica, uma equipa que se reerguia lentamente, depois de ter agonizado durante um par de meses. Em campo, o Renato havia transfigurado o jogar do Glorioso: bola na frente, corridas em repelões, a insolência tresloucada de quem não quer envelhecer. Num final de tarde de inverno, jogo contra a Académica e, já bem no final da partida, um remate portentoso, vindo de um lugar desconhecido e bola no fundo das redes. Para a memória de quem viu na televisão, fica o sorriso pueril do Rui Costa, a incredulidade dos colegas no banco e a antecipação da conquista de um tri que, então, parecia impossível. Na bancada, ainda a tentar restabelecer-me da felicidade infantil com que celebrei o primeiro golo do Renato na Catedral, logo amadureci para, em tom paternal, confirmar ao meu filho que tínhamos de aproveitar. Era certo: no verão, o Renato seria vendido.
Três anos volvidos, a mesma Luz intensa. Longos meses de desaparecimento do Renato, que todos vamos seguindo semanalmente, na esperança incontida de que, lá fora, nos devolva o futebol de rua, imponderado e capaz de desarranjar todos os arranjos tácticos, os do adversário e os da própria equipa. Pois nada. O Renato foi desaparecendo, ora entregue ao futebol de régua e esquadro em que não se sente confortável, ora preso a irritantes lesões, que lhe retiraram o vigor físico de que depende. Pois na quarta-feira, vislumbrámos um lampejo do Renato que se anunciou na Luz. Arrancada no meio-campo, uma correria incontida e, no fim, o golo, sem celebrações.
Desta vez, como era de esperar, o golo era contra nós. O Vicente, que há três anos celebrou o remate contra a Académica, levantou-se para aplaudir. O pai, que sente cá dentro o espectro das palavras do Nélson Rodrigues e quer envelhecer devagar, seguiu o exemplo e, timidamente, primeiro aplaudiu, para depois se pôr de pé. Mas a Maria Leonor, que só agora se estreia de Red Pass, com a maturidade feminina própria dos 9 anos, logo se ergueu para, num gesto eficaz e silencioso, lançar as mãos sobre os braços do pai e do irmão e conter os nossos festejos. "O nosso destino é o de vencer" e na Luz só se celebram os nossos golos. Se a questão é saber quem tem razão, não restam dúvidas."
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