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terça-feira, 14 de junho de 2016

Maior do que a morte

"Esta é a história do jogador que parou um Benfica-Sporting à procura de um brinco, que aparecia no Estádio da Luz de Jaguar e motorista, que levava um cão para os treinos e o amarrava a uma baliza, que não tinha medo de pôr a cabeça onde outros só punham os pés. Vítor Baptista teve tudo e tudo perdeu, na droga, na noite e em maus negócios

Eram quatro miúdos que se mexiam em bando. Onde um ia, os outros iam, e juntos metiam-se por atalhos e em trabalhos, porque se julgavam imbatíveis. Toda a gente os conhecia nos bairros de barracas de Setúbal por estas ou por aquelas razões — raramente boas, geralmente más. Não tinham medo de nada. De roubar maçãs, ameixas e laranjas das quintas da Camarinha, para serem comidas ou vendidas aos jogadores do Vitória por 10 tostões — e no entretanto escapar à GNR montada a cavalo. De andar à bulha, porque o tamanho não importava, mas sim a força com que se dava — e o Jaime, o Pedro e o Florival davam como gente grande. De apostar nas futeboladas feitas com bolas de pano, porque eles eram bons de bola — sobretudo, o Vítor era bom. E, se o Vítor não chegava para ganhar, tinham sempre o Pedro, o Jaime e o Florival para darem conta do recado. Ou as pernas para fugirem a oito pés. Descalços e calejados.
Dos quatro, o Vítor era o mais corpulento, mas também o mais calmo. Anos mais tarde, seria conhecido como “O Maior”.
Naquele tempo, o Vítor punha-se um bocadinho à margem das confusões daquele bando. Como daquela vez em que os quatro correram com sete ou oito rapazes do Campo dos Arcos para ocupar o largo. Ou da outra, junto à Praça de Touros, em que o Florival pegou num lavatório de rua e rachou-o na cabeça de um dos tipos que se metera com eles no cinema. Mais tarde, o mesmo rapaz que ficara a tremer e ensanguentado no chão pagou-lhes umas cervejas para saldar as contas. No Campo dos Arcos, o Vítor ficou a ver, e na noite do cinema apanhou o autocarro e foi para casa.
O que ele tinha era mau feitio. Era orgulhoso e refilão e odiava perder — chorava e chorava muito quando a coisa não lhe corria bem às cartas, aos matraquilhos ou no futebol. Não que isso acontecesse muitas vezes, é verdade, porque ele tinha pedalada para toda a gente.
“Não éramos nada ao pé dele.” É o Pedro quem o diz, mas poderia ser outro qualquer que se lembre de o ver jogar na rua com os pés nus e depois nos clubes de bairro. Num desses clubes, o Rio Azul, o Pedro, o Jaime, o Florival e o Vítor ganharam tudo, e o Vítor foi o que deu mais nas vistas, porque tinha aquele jeito dos predestinados. Era mais rápido, mais forte, mais habilidoso. Se alguém ia chegar longe e deixar a vida nas barracas para trás era o Vítor.

A CASA
Onde hoje está a Avenida Infante Dom Henrique estava a Azinhaga do Mal Talhado. Foi lá que o Vítor nasceu, a 18 de Outubro de 1948, filho de Sebastião Baptista, trabalhador na lota de Setúbal, e de Cecília Baptista, que ganhava a vida na indústria das conservas. O Vítor tinha dois irmãos, o Eduardo, dez anos mais velho, e o Idaliano, cinco anos mais velho. Viviam todos numa barraca cuja porta de entrada era uma folha de lata e madeira; tinha um só quarto, uma cozinha e uma pequena sala. Eram pobres. Passavam fome. Uma sopa de feijão com repolho e ossos de animais dava para uma semana inteira e havia festa nos dias em que se fazia um caldo com as amêijoas da Marinha. O Baptista mais pequeno era esquisito com a comida e fazia fita quando não gostava.
O Vítor, o Eduardo e o Idaliano puxaram todos à mãe, que era robusta, mulher para um metro e oitenta; o pai era frágil mas duro de quebrar e carregava o peixe à cabeça desde a lota até à praça. Um dia, morreu. “Foi do trabalho.” A explicação do Jaime é mais poética do que a dos irmãos do Vítor: para eles, Sebastião caiu na casa de banho e bateu com a cabeça no chão. Foi um ataque que o levou.
Para o Jaime, falar dos Baptista é como falar da família, porque o Vítor era como um irmão mais novo. Um mês e sete dias mais novo. “Nasci a 11 de setembro e ele a 18 de outubro. As nossas mães davam-nos de mamar uma ao lado da outra.”
O Jaime e o Vítor conheciam-se desde sempre e depois conheceram o Florival e o Pedro, do Bairro Carmona, onde jogavam à bola num campo que lá havia. Montavam ratoeiras e armadilhas, iam aos pássaros e à fruta. E faziam rimas. O Vítor costumava dizer esta: “Santo António comigo vai,/ São João comigo vem./ Quando eu estiver a roubar,/ Não quero que apareça ninguém.”
No dia em que o pai desapareceu, o Vítor tinha 10 anos, mas esse assunto nunca foi discutido com os irmãos. Era um miúdo fechado, calado e melancólico. E, quando a mãe se casou pela segunda vez, o Vítor tinha 14 anos. Saiu de casa e foi viver para a pensão da Ti Chica, que ficava num largo como quem vai para os Pachecos, junto à capela. Nessa altura, já o Vítor era jogador do Vitória, que tinha ficado impressionado com o que vira no clube Rio Azul — para trás ficava um emprego como electricista na Junta, ofício para o qual não tinha jeito. Nem paciência.
O Vitória instalou-o na Ti Chica e dava-lhe comida, dormida e 500 escudos por mês, porque os irmãos estavam no Ultramar. Todos os dias, o Vítor guardava os restos que lhe sobravam do almoço e levava-os aos três amigos, que esperavam por ele nas escadas de madeira da pensão — o Jaime, o Pedro e o Florival não tinham andamento para o Vitória e seguiram para o Independente, um clube popular.
Aos poucos, o Vítor fez-se senhor do seu nariz: órfão de pai, longe das saias da mãe, sem os irmãos por perto, ninguém tinha mão nele. Começou a fumar, a beber cerveja e a andar na noite antes de tempo. A vida era dele. E foi isso que o irmão Eduardo percebeu quando regressou da guerra.

OS IRMÃOS
O Eduardo casou com a Sofia e foram morar para um andar na Tobaida, que fica ali perto do hospital; o Vítor deixou a pensão da Ti Chica e juntou-se ao casal. Ele e a Sofia conheciam-se desde os tempos em que ela começara a namoriscar o Eduardo, tinha o Vítor 4 ou 5 anos. Diz a Sofia que aquele miúdo reguila e rebelde que ela vira crescer na Azinhaga do Mal Talhado se transformou num rapaz bonito e jeitoso. E vaidoso. Queria sempre andar aprumadinho, com a roupa da moda, e ela lavava-lhe as calças e passava-lhe a ferro as camisas e as t-shirts preferidas a troco de nada. Ela gostava dele e tratava-o como uma irmã trata um irmão. Mais tarde, quando o Vítor se meteu “naquilo”, a Sofia tratou-o como uma mãe trata um filho.
Ele era magnético, toda a gente gostava dele. “Lembro-me de ele chegar e perguntar por mim: ‘Ó Sofia Loren! Ó Sofia Loren. Estás aí?’ E quando ia a casa da minha mãe gritava: ‘Eh, Ti Noémia! Há aí almoço para mim?’ E ela respondia: ‘Vítor, já está ali o pratinho, está ali à mesa.’”
O Vítor não tinha horários, e o Eduardo deixava-o andar. O que é que ele podia fazer? Castigá-lo? Bater-lhe? O irmão já era homem e ganhava mais do que ele — o Eduardo também jogara pelos sadinos, como central, mas o Ultramar trocara-lhe as voltas à vida.
No apartamento da Tobaida, onde ainda hoje o Eduardo vive com a Sofia, o Vítor chegava, sentava-se, comia e saía sem pedir licença. Tinha dinheiro, mas não o emprestava ao irmão, mesmo que ele estivesse desempregado. E quando arrancou o namoro com a Mimi, uma boa moça, bonita, a Sofia começou a sentir-se usada de cada vez que levava o almoço a casa das futuras mulher e sogra do Vítor. Mas a Sofia desculpava-o: “Ele não fazia por mal.” O Vítor era mesmo assim.
O Idaliano também acha que ele era mesmo assim mas que aquilo não lhe ficava bem. Para o irmão do meio, que nunca teve jeito para a bola e gostava das artes, o Vítor não dava valor ao dinheiro — nem à família. E conta um episódio em que o Vítor estava num grupo de amigos e fingiu não o conhecer na Praça do Bocage. “Meteu-se comigo por ir de livros na mão. E eu disse-lhe: ‘Oiça, amigo, você é tão rico que não precisa de estudar. Mas daqui a uns anos, quando você não tiver nada e eu não tiver nada, serei mais rico do que você.’” Aquilo teve algo de premonitório.
Há outros momentos que mostram como ele vivia desligado da família. O Idaliano conta que o Vítor não foi ao seu casamento nem lhe emprestou o carro comprado com o salário do Vitória para levar a noiva. Mais tarde, passou o mesmo carro para as mãos de um amigo, que o espetou contra uma parede num acidente. “Não sei o que ele tinha na cabeça.”

O VITÓRIA
Na cabeça do Fernando Tomé está o Vítor no Vitória de 1966. Ele já era sénior e o Vítor ainda júnior, mas treinava com os adultos. Era tímido, por ser novo e o mais novo ali, mas não gostava de ser praxado pelos mais velhos. Respondia-lhes coisas como: “Então, mas eu não sou igual a vocês?” O que não faltava ao Vítor era moral.
Conta o Tomé que os dirigentes perceberam que estava ali um craque ao qual faltava o petit nom do futebolista — ficou simples, Vítor Baptista, nome próprio e apelido. Mas Vítor Baptista era uma pessoa bem diferente do Vítor. Como a saúde é da doença. Ou o dia é da noite. O Tomé não se esquece da conversa que teve com ele lá mais para o fim: “Ele dizia-me: ‘Eh, pá, estes gajos são uns burros. Então não me passaram uma carta de condução, olha lá, irmão, até 2012? Não sabem que o mundo vai acabar em 2000?’”
Para o Vítor, o mundo acabou em 1999.
Mas antes sequer de o Vítor tirar a carta, era à boleia do Fernando Tomé que ele andava. O amigo ia buscá-lo a casa do irmão Eduardo no carro emprestado pelo pai, João Tomé, também ele antigo jogador do Vitória. Tornaram-se confidentes do peito, daqueles que o Vítor tratava por “meu irmão”. Comiam na casa dos Tomé, normalmente peixe ao almoço porque à tarde havia treino, e passeavam pelas terras de Setúbal. Uma vez, num Carnaval, foram ambos a um baile de máscaras em Algeruz, chegaram às duas da manhã, e o pai do Fernando disse-lhe: “Se queres fazer esta vida, pegas na mala e vais-te embora.” O Vítor ter-se-á rido. Noutra vez, a polícia prendeu o Vítor por andar a jogar futebol com amigos na praia de Troia e por se embrulhar com o cabo do mar. A polícia esperou por ele na cidade, levou-o preso e pô-lo a dormir na esquadra. No dia seguinte, o Vítor foi a tribunal, pagou 80 escudos e saiu; ninguém tocou nos amigos. Em Setúbal, conheciam-lhe a cara e já lhe tinham tirado a pinta. Para o bem e para o mal. Não seria a última pernoita numa cadeia.
Dentro do campo, as coisas corriam bem. Vítor Baptista era internacional júnior quando foi lançado a titular pelo treinador Fernando Vaz — a quem chegou a vender laranjas que roubava na Camarinha — na mais longa final da Taça de Portugal da história. Aconteceu a 9 de Julho de 1967: o Vitória de Setúbal e a Académica jogaram durante 144 minutos (90 minutos e dois prolongamentos) e os sadinos ganharam por 3-2.
Do outro lado da trincheira estava Toni, que guarda duas lembranças daquela tarde: a coreografia das claques e um puto do Setúbal que tinha cabedal e técnica para outras andanças. O puto era Vítor Baptista, e os destinos de ambos cruzar-se-iam no Benfica. Mas, antes disso, o Vítor tinha um encontro marcado com a fama.
É a cunhada, Sofia, que relembra: “Quando jogou a final da Taça de Portugal contra a Académica, fez um jogão. Chegou aqui, e a casa estava cheia de gente, e ele todo inchado.”
De lá saiu inchado para um restaurante, onde pediu uma imperial e uma lagosta. O Vítor percebeu que os clientes estavam a olhar e decidiu dar espectáculo — bebeu a cerveja de penálti, comeu um bocado da lagosta e mandou-a para trás, como quem diz: como lagosta todos os dias.
Ali estava “O Maior”, e “O Maior” não tinha tempo a perder e tinha dinheiro para gastar. E tinha outras alcunhas. Como “Meu Deus”, que o Fernando Tomé ouviu pela primeira vez num estágio na Pousada de São Filipe, em Setúbal. Acontece que ele, o Vítor e o Pedras, o trio do meio-campo, ficaram juntos num quarto onde só havia duas camas e um divã — e o Vítor ficou no divã. Na manhã seguinte, acordou mais cedo do que os outros, pôs-se a fazer poses ao espelho e soltou: “Ó, meu Deus, porque me fizeste tão belo?” O Pedras e o Tomé ouviram tudo, desmancharam-se a rir e espalharam a história por toda a gente. 

O EFEITO PEDROTO
O que ficou para a história são os golos do Vítor, mas o que muita gente se esquece é que “O Maior” começou no meio-campo e só se tornou ponta de lança com José Maria Pedroto. Em duas épocas com Pedroto (1969/70 e 1970/71) fez 33 golos e disputou o título de melhor marcador com Artur Jorge, do Benfica, em 1971. Ganhou estatuto e um isqueiro de ouro a Pedroto. “Quere-lo? Se marcares dois golos, é teu.”
Naquela tarde de verão de 1970, o Vítor fez o que tinha a fazer ao FC Porto, nas Antas, e estendeu a mão para Pedroto. O que estava prometido era devido, e ele devia estar prometido para algo maior do que Setúbal. Em Lisboa, havia já quem o namoriscasse.
António Simões lembra-se das conversas que havia no Benfica sobre o “homem robusto e atrevido” do Vitória de Setúbal. À época, só entravam portugueses na Luz, e os que lá andavam não eram uns quaisquer: Jordão, Nené, Artur Jorge, Simões, Torres... e Eusébio. Mas o Vítor tinha o que os outros não tinham: era louco o suficiente para pôr a cabeça onde os outros apenas punham o pé. Não tinha medo da dor nem dos adversários.
O clube da Luz ultrapassou o Sporting e contratou-o ao Vitória de Setúbal em 1971, dando em troca José Torres, Matine e Praia — e três mil contos. Na altura, foi a maior transferência de sempre do futebol português. O Vítor tinha 23 anos e o mundo a seus pés. E a tropa à perna.

O BENFICA
Foi parar ao quartel de Elvas com o Fernando Tomé. Lá, o Vítor portava-se mal, era posto de castigo, e muitas foram as vezes que o Tomé saiu para ir à vida dele e o amigo ficou dentro. O Vítor era insolente e descarado, mas com a tropa não se brinca, e ele lá andou de cabelo à escovinha a contar os dias para se juntar ao Benfica. Mas, quando entrou na Luz, descobriu que ali também não se brincava.
Diz Toni: “O Jimmy Hagan era exigente, e o Vítor ou trabalhava como os outros ou não calçava.”
Jimmy Hagan foi o primeiro treinador do Vítor no Benfica, de 1970 a 1974. Teve outros três: Milorad Pavic, em 1974/75, Mário Wilson, em 1975/76, e John Mortimore, de 1976 a 78. Em sete épocas no Benfica (e ele era benfiquista), o Vítor Baptista fez 150 jogos, marcou 62 golos, conquistou 5 campeonatos e uma Taça de Portugal. Era rijo e potente e habilidoso, e as defesas não davam conta dele — quando ele jogava. E no futuro o Vítor não jogaria sempre nem jogaria sempre bem. Iria lesionar-se, fingir-se lesionado, seria dado como desaparecido.
A carreira do Vítor Baptista começou a ser escrita pelo próprio e por linhas tortas, que ele endireitava sempre que entrava no campo. Lá dentro, o Vítor não precisava nem de conversas nem de palmadinhas nas costas. Era o jogo que o motivava, e ele jogava o jogo pelo jogo, indiferente às porradas que levava ou ao adversário que lhe aparecia pela frente. Ele sabia o que valia e dizia ser “O Maior.” “Mas o que é que tu queres, pá? Sou ‘O Maior’, pá.” Que é como quem diz: vocês ao pé de mim não são nada.
Toni tem uma história ou outra para contar sobre o Vítor Baptista; Simões também. E ambos garantem que o Vítor tinha um ego incontrolável, que jogava e falava como os melhores; e que julgava estar a um passo de ser o segundo Eusébio.
Nos primeiros anos, o Vítor Baptista foi aquilo que ele dizia ser e andou certinho e certeiro com a baliza: em 1971/72 fez 41 jogos e 14 golos; em 72/73, 16 jogos e 6 golos (esteve lesionado); em 73/74, 39 jogos e 11 golos; e em 74/75, 32 jogos e 3 golos. Hagan e Pavic punham-no a avançado ou a médio e ele rendia nos dois lugares. Se fosse sempre assim, o resto era irrelevante. Mas não foi sempre assim.

A DROGA
O Vítor já tinha episódios mal explicados no currículo. Um deles é o corte no pé com uma garrafa (de água, disse ele), na digressão ao Brasil em 1971/72, que o fez aterrar em Lisboa numa cadeira de rodas. Toda a gente achou aquilo estranho, porque a acompanhar a versão dele (há quem defenda que aquilo aconteceu numa rixa com Eusébio) vinha o seu relato incrível em “A Bola”: “O Maior” viu um assalto no aeroporto do Galeão, no Rio, e safou-se arrastando-se de rabo pelo chão com o pé ferido no ar.
Mais incrível ainda foi o facto de a história do pé ter cruzado o Atlântico e aterrado num posto médico do Montijo, onde o irmão Idaliano recebeu tratamento de estrela porque alguém o confundiu com o Vítor. “Eu tinha uma fractura na perna e ele tinha cortado o pé no Brasil. Abriram os corredores todos, as portas, porque pensavam que era o Vítor Baptista que ali estava. ‘Eh, pá, não sou o Vítor Baptista, sou o irmão!’” 
Esses eram os dias em que a mãe e os irmãos não lhe punham a vista em cima, apesar de viverem todos na mesma cidade. O Vítor saía de manhã para Lisboa e para o Benfica e regressava tarde para o pé da primeira mulher — e dos amigos. Ele exibia-se perante eles, mostrava-lhes que tinha chegado longe, convidava-os para almoçaradas e jantaradas, para experimentarem o carro novo. Ou a erva nova que comprara.
O Pedro, um dos quatro do bando da Azinhaga do Mal Talhado, chama-lhe ‘parpalhos’ e sabe que Vítor os fumava antes de ir para o Benfica — e antes de o Benfica saber. E o Benfica só ficou a saber na digressão por Angola e Moçambique, no verão de 1974, depois da Revolução de Abril. Numa dessas noites africanas, Simões entrou no quarto que partilhava com o Vítor e sentiu o cheiro a qualquer coisa que ele não sabia o que era. Apalpou a nuvem de fumo que por lá andava. “Eh, pá, ó Vítor, o que é isto? Assim não consigo dormir.”
Abriram as janelas, dormiram no terraço, falaram os dois durante a noite, e na manhã seguinte falaram a três: ele, Simões e Fernando Neves, que era o chefe do departamento de futebol do clube. Aquilo ficou por ali, varrido para debaixo de um tapete. Era o primeiro sinal.
Simões via o Vítor como a família do Vítor o via: um bom rapaz, que não fazia por mal, que era mesmo assim. E também o desculpava como a cunhada o desculpava. Mas não esquecia. Porque é difícil esquecer que no início dos anos 70 houve um futebolista português que comprou um Jaguar e o equipou com um motorista para o guiar de Setúbal a Lisboa só porque sim. E que esse futebolista usava sandálias de tacão alto, jeans rasgados, camisas abertas, brinco, cabelo e barba compridos, quando todos os outros vestiam fato e gravata. E que esse futebolista fora do tempo era o mesmo que trazia couves e batatas da quinta dele para distribuir pela malta.
Simões nunca tinha visto alguém parecido com o Vítor Baptista, a não ser Barry Gibb, dos Bee Gees. Qualquer trapinho lhe assentava bem, e os homens e as mulheres adoravam-no. E ele fazia rir os colegas com aquelas maluqueiras e excentricidades que saíam da cabeça dele — até que aquelas maluqueiras e excentricidades se transformaram em manias. E ninguém atura maníacos.
O Vítor tinha o rei na barriga e achava-se intocável. Em Março de 1975 disse a Mário Wilson que não estava para ser suplente contra o Vitória de Setúbal — o seu Vitória — e mandou o treinador, os colegas e o clube às urtigas. Passaram-se cinco semanas sem que o Vítor fosse visto com a camisola do Benfica. Começou a disparar para a imprensa que ganhava pouco, que queria mais e que era por isso que não treinava — o Vítor dizia que dispensava o treino, porque as outras equipas estavam cheias de coxos a quem podia ganhar ao pé coxinho.
O Benfica pôs-lhe dois processos disciplinares em 1976, e é nesta altura — em que está suspenso e sem salário — que dá a entrevista a “A Bola” em que se diz o “melhor futebolista português”. Havia muitos, mas ele era “O Maior”, e os outros teriam de habituar-se à ideia. E é também nesta altura que é expulso da selecção por chamar “estúpido” ao seleccionador Juca antes do jogo de Portugal com Chipre. Fez apenas 8 jogos e 6 golos pelo Benfica e acabou a época 1976/77 acabado — para renascer no fim do verão. É um padrão na vida do Vítor: ele tentaria ressuscitar várias vezes até ao último fôlego.

O BRINCO
O Vítor Baptista reapareceu porque precisava de dinheiro, e o Benfica aceitou-o de volta porque estava convencido de que o jogador sabia que tinha de trabalhar. Mas a época começou descamisada.
Conta Toni: “A 28 de Setembro de 1977 íamos jogar a Moscovo para a segunda mão da Taça dos Campeões contra o Torpedo. E o Vítor aparece com chinelas de tacão alto, camisa de meia manga branca e calças de ganga — e nós de fato e cobertos para o frio russo. Eu era o capitão e falei com o [treinador] Mortimore, mas ele estava irredutível. O Vítor com aquela roupa não seguiria viagem. Mas lá lhe arranjámos um casaco, e o Mortimore condescendeu.”
Não ficou por ali. À noite, o Vítor disse a Toni que tinha “um toquezinho” e que não estava em condições para jogar e que eles teriam de ganhar sem ele. Naquele jeito gingão e marialva, “O Maior” foi igual a ele próprio: “Eh pá, ó Toni, sei que é difícil sem mim, mas vocês vão ganhar, não te preocupes.” Toni riu-se — não podia fazer mais nada.
A lesão caiu na imprensa, e a imprensa caiu em cima do Vítor. Os jornais não o largaram mais, porque o lado privado começou a rondar o público como um abutre sobre uma presa. Mas o Vítor foi jogando e marcando (21 jogos e 12 golos, segundo melhor marcador da equipa atrás de Nené), abafando os rumores (noitadas, mulheres e droga) com a bola nos pés e as bocas na língua. Ninguém o calava, nada o parava — mas ele era capaz de parar um jogo.
Aconteceu a 12 de Fevereiro de 1978, e Toni diz que foi mais ou menos assim: “Naquele célebre jogo contra o Sporting na Luz, ele faz um golo na baliza sul em que domina a bola com o peito, roda e sem deixar cair a bola faz um golo de bandeira (Botelho era o guarda-redes de Alvalade). Depois, a primeira reacção não foi festejar o golo, mas andar à procura do brinco. Que não era pechisbeque, mas um brinco a sério.”
O dérbi parou enquanto o Vítor, Toni e outros andaram de rabo para o ar à cata do brinco, que se perdeu para sempre na relva da Luz — o dito custara-lhe 12 contos, mais dois do que o prémio de jogo. Dois dias depois, o Vítor assinou pelo Vitória de Setúbal, porque o Benfica não lhe pagava os 650 contos por mês nem lhe dava o Porsche que ele tanto queria. Foi castigado e depois despedido em Abril e regressou à casa de partida por 100 contos por mês, um valor impossível para os de Setúbal, que fizeram uma colecta entre os comerciantes para pagar ao filho pródigo. Em homenagem à cidade, o Vítor decidiu organizar uma tourada... mas esqueceu-se de arranjar os touros. Já para o fim, seria junto à praça de touros que o Vítor andaria a pedir trocos para o vício em dias de corrida.
Em Setúbal, o jogador desbaratou o dinheiro numa quinta no Faralhão, em vivendas, espatifou um Jaguar, pagou bebidas para ele e para os amigos e abriu restaurantes que deram para o torto porque contas não era com ele. Confiava a gestão a amigos de ocasião enquanto se entregava ao jogo e às apostas. A família ficou sempre fora deste círculo.
“Não me lembro de algum dia ele me ter pagado uma cerveja.” O Idaliano não gostou que o Vítor nunca tivesse falado com um dos irmãos para trabalharem com ele. Afinal, eram sangue do mesmo sangue e podiam tê-lo ajudado com o restaurante que ele perdeu à batota. Só havia um caminho para o Vítor Baptista. E esse caminho era sempre a descer.

OUTRA VEZ O VITÓRIA
No Vitória de Setúbal, o feitio e a pinta de estrela pioraram, e o Vítor tornou-se insuportável até para quem gostava dele. Como Jimmy Hagan, treinador que apanhara no Benfica e que agora o treinava em Setúbal. Um dia, farto das estroinices de “O Maior”, Hagan atirou-lhe uma bola à cara. Ele foi buscar uma pedra e disse-lhe: “Agora, faz lá o mesmo com isto, se tiveres coragem.” Já não era o mesmo dentro de campo: lento e preguiçoso. A droga falava e jogava por ele. Quando se encontravam no café, o Vítor dizia ao Fernando Tomé que “queria experimentar tudo”, e iria viver segundo estas palavras até ao fim.
Os amigos de infância Pedro e Jaime acreditam que “ele começou a dar naquilo” no Benfica, com a malta do espetáculo e alguns atletas da Luz, como o Barros. O Pedro conta um episódio num hotel de Lisboa em que o Vítor e outros ter-se-ão metido numa orgia de drogas e “meninas” e que a uma delas lhe queimaram os mamilos com pontas de cigarro — o Benfica abafou a coisa. E em Setúbal viam-no com a cabeça sobre os tampos das mesas das tascas, com prostitutas encostadas à sua volta à espera do que caía da carteira. Por esta altura, já se separara da Mimi, a primeira mulher, que se cansara dele. O Vítor andava livre, em roda livre, e foi então que o Boavista lhe pôs a mão no colarinho e o trouxe para o Bessa, em 1980. 
Valentim Loureiro, o presidente que o foi buscar, lembra-se bem do Vítor: “Ele mandava uns petardos... Só tinha visto o Eusébio a fazer aquilo. E no Boavista ele era o craque e gostava de dar bolas a marcar ao Folha. Dava-lhe gozo, aquilo.”
Valentim Loureiro levou-o para o Porto numa carrinha Volvo azul que mais tarde seria do Vítor, porque ele gostara dela. Mas não gostou da mobília da casa na Foz onde o instalaram, pediu outra, e o major lá lhe fez a vontade — se o homem estivesse bem, melhor ficaria o Boavista, que acabou a época em quarto lugar. Mas, sem avisar, o Vítor deixou o Bessa e o Boavista e o Porto. Fê-lo por dinheiro que o major supostamente lhe devia; e por amor a uma rapariga que namorava e que o tinha abandonado para voltar ao sul. A rapariga, a segunda mulher, já tinha um filho, chamado Alexandre, que o Vítor perfilhou. No dia do funeral, o Alexandre apresentou-se a Toni como filho do Vítor.
Mas o segundo regresso a casa durou pouco. António Simões entrou em cena com dólares na mão, porque se vivia o boom do futebol nos EUA. O soccer andava a contratar velhas glórias da Europa, e Simões, que era diretor desportivo do San Jose Earthquakes, convenceu os americanos de que o Vítor Baptista era o tipo certo. E lá foi ele.
“Viu um Corvette branco e não descansou enquanto o clube não lhe deu o carro. O Vítor perdia-se na cidade e vinha atrás do meu automóvel porque queria guiar com o cabelo ao vento. ‘Simões, eh pá, estou na América!’”
A aventura nos States durou pouco, mas o suficiente para deixar clara a mensagem a Bill Foulkes, o treinador — ele era “O Maior”. “Ó Simões, diz ali ao homem que ele deve estar maluco se pensa que vou para a barreira. As estrelas não vão para a barreira.”
Depois dos EUA, o Vítor ficou-se pela margem sul, no Amora (1980/81) e no Montijo (1981/82). Seguiu-se o União de Tomar (1982/83), onde jogou ao lado do amigalhaço Florival, um dos do bando de quatro da infância, e ambos seriam despachados como os Templários pelo Papa Clemente V. O Vítor arrastar-se-ia pelos campos por mais dois anos: no Monte da Caparica (1983/84) e no Estrelas do Faralhão (1984/85), da 2ª distrital de Setúbal, cujas bancadas se enchiam só para o ver. A ideia do Faralhão partira dos setubalenses, que viam na bola a única salvação para o Vítor. Porque estava gordo, estranho, desprendido, largado por ele próprio.
Não resultou. A heroína tomara conta dele, viciado por outra namorada, que o arrastou para as barracas do Bairro da Liberdade. Foi lá que o Tomé, o Jaime e o Pedro o encontraram à vez — e contam que aquilo era desumano e sujo. Falar com o Vítor era como falar para uma porta que não se abre por estar ferrugenta e gasta pelo tempo. E pelo mau uso.

O FIM
O Vítor deixou de falar com os irmãos, com a cunhada e com a mãe. Viviam todos na mesma cidade, mas não conviveram durante os anos de glória do jogador, e o Idaliano diz que o irmão era capaz de atravessar a estrada de um passeio para o outro apenas para não ter de o ouvir. “Ó Vítor, já foste ver a mãe?” O Vítor só foi ver a mãe quando já não lhe restavam alternativas. Arrumou as trouxas — a roupa que trazia no corpo —, bateu à porta, e Cecília abriu-lhe a casa para o tratar e depois enxotar, porque os vizinhos e o padrasto não o queriam por ali.
A Sofia, a mulher do irmão Eduardo, conta que chegou a dar com um pacote “daquilo” na casa de Cecília e que deitou “aquilo” tudo para o esgoto. Dias depois, uns quantos malandros assaltaram o apartamento da Sofia e do Eduardo na Tobaida e levaram-lhes o ouro e os cheques — fora o Vítor a dar-lhes a dica.
Da casa da mãe, foi para a do Idaliano, mas não demorou muito a sair. O Idaliano não gostou de ser avisado pela mulher de que o Vítor levara com ele um tipo de mau aspecto para o pé dos seus filhos e lá foi “O Maior” para a rua novamente. Voltava, de vez em quando, para pedir umas botas ou um casaco ao irmão, mas esquisito e vaidoso como era ou os recusava ou vendia-os a quem lhe desse mais. “Eu nem me vestia mal e até havia quem dissesse que eu era peneirento. Mas o Vítor, mesmo na desgraça, tinha aquela vaidade. Queria botas de tacão inclinado e pronto. Não havia nada a fazer.”
Vítor meteu-se em más companhias, ficou a dever dinheiro a quem não devia, passou a roubar salões de beleza, autorrádios, carros, vivendas, apartamentos, até mesmo fornos eléctricos. Roubava-os numa rua e tentava vendê-los na seguinte. Foi detido algumas vezes, chegou a ser representado em tribunal por Odete Santos, mas nem a histórica do PCP e uma alegada inimputabilidade por problemas psicológicos o livraram da cadeia — em Janeiro de 1989, o Vítor foi para a prisão em Sintra. Foi lá dentro que tatuou um relógio no pulso, com os ponteiros marcados às 12h15, porque era “a hora da paparoca”, disse ele numa reportagem a “A Bola”. “O Maior” dava autógrafos aos presidiários, tinha a simpatia dos guardas e alimentava a esperança de voltar a ser jogador de futebol. Se perdesse uns quilinhos e se se deixasse das drogas, a coisa ia lá, mas a família (a mãe, o irmão Eduardo e a cunhada Sofia) que o visitou nunca acreditou muito naquilo.
Quando saiu, o Vítor voltou a perder-se no caminho entre Setúbal e o Casal Ventoso, onde ia procurar a dose com o dinheiro que conseguia nos biscates, nos pequenos roubos, nas esmolas. Outras vezes pedia aos amigos de outros tempos para lhe arranjarem comida, doces, roupa, e Toni deu-lhe uns equipamentos do Benfica que ele vendeu para comprar droga. O próprio Pinto da Costa ofereceu-lhe um blusão numa visita do FC Porto a Setúbal, e o Vítor pô-lo logo no prego para o vício. Não havia nada a fazer. O Tomé, o Jaime e o Pedro quiseram organizar jogos de beneficência e de exibição, a ver se o amigo se recompunha, e ele, aqui e ali, aparecia para depois desaparecer. O Vítor andava pelas ruas, gritava, ria-se, falava alto, fugia de quem vinha cobrar as dívidas dos esquemas em que se metia.
A última saída para o labirinto foi um emprego como cantoneiro no Cemitério da Paz, em Setúbal. Ainda hoje estão lá pessoas que trabalharam com ele e que o descrevem como preguiçoso e “relaxadão”, que pouco fazia por ali a não ser varrer o chão. Foi nesse lugar que os jornalistas o apanharam para as suas últimas entrevistas, quando a fala já se arrastava e os dentes perdidos nos maus hábitos escasseavam. Aquele peito largo onde ele matava a bola antes de rematar ainda lá estava, mas o corpo volumoso e duro perdera amplitude.
Voltou à casa da mãe. E morreu.
Na passagem de ano de 1998 para 1999, Vítor Baptista faleceu no hospital para onde foi levado depois de um AVC. O antigo jogador do Benfica sofria de hepatite C, cirrose, e vestia na pele as marcas dos males a que se sujeitou. Apagou-se a estrela, ficou o mito. Maior do que a morte."

Ameaças e desporto

"Festival Internacional de Ginástica de Burstadt, Alemanha, 1979. Cerimónia de abertura no exterior do pavilhão. O fogo-de-artifício era a apoteose daquelas horas de excitação e felicidade para todos os participantes. Junto à Classe Especial de Homens do Ginásio Clube Português, de que eu era o responsável, muitas das 40 integrantes da delegação israelita, entre os 16 e os 18 anos - após esta idade elas e eles iam cumprir serviço militar - choravam de medo, agarradas umas às outras. Disseram-nos depois que o rebentar dos petardos as remetia para as bombas e tiros frequentes no seu país. Todos nós, portugueses, especialmente os jovens ginastas, constatámos que havia um mundo bem diferente e perigoso do que conhecíamos em Portugal.
Na noite anterior, as delegações de Israel e Portugal, onde também estava a conhecida classe sportinguista Canarinhas, tinham estado juntas numa festa. Permanentemente alerta, vigiando o local e o exterior, andavam dois israelitas, simpáticos e de trato fácil, sempre com um saco ao ombro. Estabeleceram-se amizades internacionais e trocaram-se camisolas. Passados dois dias viam-se portugueses com camisolas israelitas e vice-versa. À noite, um dos homens do saco chamou-me à parte, dizendo-me que, sendo nós já amigos, ele tinha a obrigação de avisar-me do perigo que corriam os portugueses ao usarem ali as T'shirts com símbolos hebraicos. Pediu-me que apenas o fizessemos em Portugal. Estávamos no pós-massacre dos atletas israelitas nos Jogos de Munique-1972.... Agradeci-lhe, dando-lhe uma pancada amigável nas costas onde senti uma arma por baixo da camisa que usava por fora das calças...
Na época era uma situação extraordinária quase limitada aos israelitas. Passados 37 anos, qualquer evento desportivo internacional é rodeado de um ambiente de alerta e risco constante. Atletas e público estão sob ameaça. O mundo piorou. É assustador. Mais ainda porque tendemos a habituar-nos."

Sidónio Serpa, in A Bola

O processo classificativo

"Como nos clubes, as actuações dos árbitros são avaliadas durante a época. E é nas contas finais que se define quem fica no topo e quem fica no fundo da tabela. Que se define quem é promovido ou despromovido e quem é indicado à FIFA. Na prática, não há grandes diferenças entre quem dirige e quem é dirigido. Ambos põem em campo empenho, motivados por objectivos que só valorizam a competição. Mas nas equipas o ranking final resulta do mérito ou demérito das actuações, para os árbitros a avaliação é substancialmente diferente.
Sou da opinião que os árbitros devem ser avaliados, apenas e só, pelos desempenhos em campo. Devem fazer provas físicas e escritas sim, mas só para atestar a condição física e conhecimentos teóricos. Porque essas variáveis são um meio para atingir um fim, não um fim em si. O fim é arbitrar bem. Se continuarmos a permitir que esses testes contem para a avaliação, corremos o risco de estarmos a potenciar bons atletas e excelentes teóricos, mas não necessariamente bons árbitros. A preparação física e psicológica deve ter como foco principal a criação de condições para bem dirigirem os jogos. Apenas isso. É no campo que provam o valor. É lá que exercem a arte de arbitrar, de lidar com jogadores e emoções fortes. É lá que gerem a pressão, o grito do atleta, a intolerância do treinador ou o insulto do adepto. É lá que mostram gualidade, coragem e competência. É lá que adquirem a experiência e se tornam melhores. Mais credíveis e mais respeitados. O que acontece é outra coisa. Tão complexa quanto desnecessária. A realização de várias provas com carácter avaliativo aumentou de forma comprovada, o número de lesões, porque obriga-os a semanas de preparação específica e treino intensivo, longe do habitat natural: o relvado. Mas, além destes, os árbitros estão sujeitos a outros factores de avaliação que não asseguram o princípio da igualdade. Exemplo? Os graus de dificuldade atribuídos a certos jogos. Nem todos os árbitros dirigem jogos de grau máximo, embora sejam todos da primeira categoria. Faz sentido? Um factor profundamente diferenciador usado de forma tão subjectiva? Não. Outro exemplo? As classificações finais poderem variar em função do posicionamento da Secção de Classificações, que tem a premissa de pedir as revisões de notas que entender, com base em critérios que, na verdade, os árbitros nunca perceberam. Subjectividade a mais. Tudo isto é seguramente bem intencionado, mas tornou-se evidente que é demasiado falível para ser justo. As classificações dos árbitros não são meros procedimentos burocráticos. São um assunto sério, que define carreiras, expectativas profissionais, pessoais e familiares. É urgente que passem a obedecer a parâmetros claros, objectivos, factuais e transparentes. Todos devem ser avaliados em igualdade de condições, do mesmo modo e forma. Com os mesmos meios. A única interferência humana deve pertencer ao próprio árbitro, na sua actuação.
Compete à nova estrutura da arbitragem resolver este imbróglio que, diga-se, existe desde sempre. E só por isso permitiu que tantos erros e injustiças fossem cometidas nos últimos anos. Com benefício imerecido de uns e prejuízo desnecessário de outros. O compromisso empenhado dos árbitros merece que, no final, seja dado mérito a quem teve mérito. E honra a todos os que o tentaram. Basta isso. Só isso.»"

Duarte Gomes, in A Bola

Benfiquismo (CXXXIV)

Este era o projecto inicial...

35

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Aguenta coração !!!

Sporting 1 - 2 Benfica
(1-1)

Justíssima, mas muito sofrida. Muito sinceramente, não estava à espera de tanto equilíbrio nesta Final, mas fazendo uma síntese dos dois primeiros jogos, até podemos concluir que em 'jogo jogado' o Benfica foi sempre superior; falhámos ontem nas reposições de bola defensivas; fomos inofensivos no 5x4 ontem...; mas hoje, e ontem, fomos sempre a equipa que criou mais perigo em 'jogo jogado'! Hoje, tivemos muito mais concentrados nas reposições de bola defensivas, marcámos numa reposição de bola (algo normal no Benfica)... e fartámos de falhar golos... inclusive quando o Sporting tentou o 5x4! Sendo que nos últimos minutos o Juanjo foi fundamental... (quando penso num Benfica sem Juanjo fico logo mal disposto!!!)

Nada está decidido, o factor casa nesta Final, é pouco importante... mas os próximos dois jogos são na Luz! Temos que jogar no limite, durante os 40 minutos de cada jogo, a defender e se possível, temos que desperdiçar menos...!!!

PS1: Estou parvo com as conferências de imprensa do Porco Lagarto a.k.a. Jotacão do Futsal !!! Até parece uma pessoal normal, com declarações normais...!!!! O homem deve andar medicado!!! Ou então alguém lhe disse, que o comportamento normal dele, só ajuda a motivar a equipa adversária!!!

PS2: Todos nós sabemos a cor do Rascord, mas existem limites! Ontem, o título da noticia falava de uma 'vitória natural'; hoje para eles, o Benfica aproveitou 'um Sporting perdulário'!!! A falta de profissionalismo desta gente mete nojo...

'Hooligans' de volta e não por acaso!

"Teme-se mais crimes do Daesh, agora nos supermediáticos palcos do Europeu de futebol. Porém, a bestialidade que marcou os primeiros dias não veio daquela organização terrorista, sim do terror incendiado por bárbaros da Europa dita civilizada. Eis o regresso do hooliganismo que tanto se aproveitou do futebol há duas décadas. Aliás, regresso anunciado por um dos líderes de 2 dias de tenebrosas batalhas campais a pretexto de Inglaterra-Tunísia, também em Marselha; garantiu lá voltar agora; já com 50 anos, para o mesmo fazer! A Europa - vénia sobretudo à Inglaterra -, que então soube banir tais vândalos, não quer agora perceber, politicamente desmiolada num ultraliberalismo de tremendas roturas sociais, o vastíssimo pasto que tem vindo a oferecer a revoltas que são maná para eficaz sementeira de galopantes extremismos. Partir do princípio de que centenas de ingleses e russos - neste caso - espoletaram destruição porque estavam bêbados é enfiar cabeça sob efémero manto de areia. Olhem à volta, quase país a país: sim, os extremismos, vagueando entre anarquia e brutal desumanidade, galopam!

França à tangente. Inglaterra nem isso. Ao 7.º jogo, Alemanha 1.ª equipa a superar diferença mínima, mas só num contra-ataque ao minuto 90+2. Está renhido. Opinião: Alemanha mais convincente - linha de jogo bem definida, global segurança, carrossel ofensivo pautado por Kroos-Khedira-Ozil, meio campo de luxo! 
Hoje, entram em acção mais 3 candidatos à glória: Espanha e, num confronto bem aliciante, Bélgica-Itália. Amanhã, finalmente, será a vez de Portugal mostrar que não lhes fica atrás."

Santos Neves, in A Bola

Benfiquismo (CXXXIII)

O King a visitar a Queen !!!

domingo, 12 de junho de 2016

Renato Sanches é para já

"Renato Sanches não tem estatuto de titular na Selecção e ficou claro, nos últimos três jogos de preparação, que Fernando Santos não conta com ele para entrar de início no onze de Portugal. Mas também ficou claro que há uma equipa a jogar com o médio de 18 anos contratado pelo Bayern Munique e outra, de futebol mais lateralizado, lento e de menor tracção, sem ele.
Viu-se Portugal a melhorar bastante frente à Noruega, quando Adrien tomou o lugar de João Moutinho. A fluidez do jogo aumentou e a equipa tornou-se mais clara nas suas intenções, mas a chegada aos famosos 'últimos 30 metros' em aceleração só aconteceu quando o médio ex-Benfica esteve em campo.
O único jogador, a par do CR7, que Matthaus aprecia na Selecção Nacional gozou de uma vantagem: quando entrou o jogo já estava distendido, aberto, marcado pelas muitas alterações introduzidas pelos seleccionadores; faltou avaliá-lo enquanto titular, com as duas equipas compactas e o jogo mais fechado. Mas mesmo assim, face às opções disponíveis e ao momento de forma de cada uma delas, Fernando Santos já tirou as suas conclusões e quando em causa está entrar num Europeu para ganhar, apesar da história respeitável de cada um e dos bonitos currículos, os estatutos são para esquecer, em nome do interesse colectivo. A verdade é que Portugal joga melhor com Renato Sanches.
Menos problemática será a decisão do seleccionador em substituir Nani por Quaresma na frente do ataque. RQ7 está melhor e tal evidência resulta muito do trabalho que Fernando Santos fez na recuperação de um génio a precisar de confiança. Com os melhores em cada lugar, Portugal pode ganhar."

Complicado...

Sporting 3 - 0 Benfica
(1-0)

Esperava um mau resultado, mas não esperava sofrer 3 golos em reposições de bola!!! O Benfica o ano passado, nos jogos equilibrados fez muitas vezes a diferença nas 'bolas paradas', este ano nem aí conseguimos ter superioridade... e neste caso, é uma questão de concentração!
No resto até chegámos ao intervalo com mais remates, mais remates à baliza... mas eficácia nula! A diferença foram mesmo as reposições de bola!

A revalidação do título, nas actuais circunstâncias, é quase impossível... Só um Benfica muito superior ao Sporting, poderá ser Campeão, e com o super-investimento feito este ano (e já prometido para o ano) pelos Lagartos (um clube insolvente recorde-se...), será muito complicado...

PS1: Realizou-se este fim-de-semana o 1.º SL Benfica Athelitics Meeting, em Lisboa. Excelente ideia, espero que seja para continuar, de preferência com mais atletas internacionais. O principal objectivo eram os mínimos Olímpicos, para alguns atletas, mas mesmo sem o passaporte para o Rio, deu para bater alguns recordes pessoais...
Lisboa merecia um grande Meeting de Atletismo, mas a fraca adesão do público torna isso praticamente impossível, por isso é que nunca teremos um grande Campeonato de Atletismo no nosso solo, é pena...!!!
Nota pelo boicote efectuado pela Direcção do SCP ao Meeting. Numa altura onde todos procuram minimos, esta atitude, é só mais um exemplo do tremendo atraso mental que a Direcção do SCP enferma...!!!
Por isso, até é normal, no Futsal, durante 90% do tempo ouvirem-se cânticos ofensivos e só em 10% do tempo é que apoiaram a 'sua' equipa... isto para gáudio da RTP!!!

PS2: Estou com pouco tempo, além disso o Record decidiu fazer uma entrevista ao Presidente 'gigante', com muitas páginas!!! Sendo assim em vez da habitual transcrição, deixo aqui os Links para o Record de Sábado e o de Domingo!

Dois futebóis

"Em França já há bola a rolar, enquanto por cá se joga nos gabinetes uma guerra para tentar que ninguém se magoe.

É de um campeonato da Europa, mais até do que de um Mundial, que se pode esperar por futebol de excelência, embora o alargamento do número de equipas, em estreia nesta edição, seja uma pequena traição à chancela de qualidade que tem marcado a generalidade dos Europeus, cujos participantes na fase final eram passados por crivo de malha apertada. Teremos de esperar para ver se a prevalência do negócio lesou muito ou pouco a componente que já foi a mais importante. O primeiro impacto foi animador. A prova arrancou com um só jogo e já vimos um golaço candidato a melhor da prova. Enquanto em França tentam cativar o mundo com o futebol dos relvados, por cá continuam as tramas que são especialidade da casa: as batalhas do futebol de gabinete.
O anunciado recurso do Belenenses ao processo que recolocou o Gil Vicente na I Liga, pondo a decisão em causa, terá o verdadeiro objectivo escondido por detrás do barulho mediático da ameaça pura e dura de virar tudo do avesso. Depois de a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga terem decidido não recorrer e dar cumprimento imediato à sentença do tribunal, a discussão evoluiu para o patamar das consequências públicas: necessidade de alargar o campeonato principal e discutir a fórmula para o fazer. Do que não se falou foi das consequências particulares, daquelas de que António Fiusa fala a toda a hora e que podem incluir vários tipos de reparação. A paz estará dependente da diplomacia de Fernando Gomes e Pedro Proença. Terão de conseguir um compromisso do qual ninguém saia escaldado. E não será fácil."

Oito mil milhões

"Oito mil milhões de telespectadores será, acredita-se, a audiência total deste Europeu que na passada sexta feira, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, arrancou em Paris. No próximo mês dez estádios de França acolherão cinquenta e um jogos. E, no final, também em Paris, decerto com um Estádio esgotado, terão sido cerca de oitocentos mil espectadores a terem o privilégio de assistir, ao vivo, os jogos das vinte e quatro selecções apuradas para esta edição de uma prova que, nascida em 1960, vem ganhando crescente atenção e atractividade desportiva global. Daí que a prevista audiência global seja quase que equivalente à actual população deste nosso planeta. O que significa que o futebol se universalizou, conquistou milhões de adeptos e suscita múltiplas paixões. Recordo bem o Europeu de França de 1984. Acompanhei a nossa selecção em França. E o nosso primeiro jogo face à então República Federal da Alemanha - capitaneada por Rummmenigge, o atual principal responsável do Bayern de Munique e, logo, um do artífices da transferência de Renato Sanches! - terminou com um empate a zero. Depois conheci bem Marselha. Lá empatámos com a Espanha. E lá, num sábado, perdemos nas meias-finais, e no prolongamento, frente à França com o golo derradeiro a ser marcado, mesmo no último minuto, por Platini! E foi, nesse Europeu, como recordei anos mais tarde em fraternos convívios e em recordações desportivas que a minha memória jamais apagará, que vi jogar pela Roménia o meu querido amigo Lazlo Boloni - campeão no Sporting - no jogo em que, em Nantes, vencemos a Roménia com um golo, já no final do jogo, do Nené. Não esqueço esse Europeu. Foi o meu primeiro grande momento de acompanhamento da nossa seleção. Só não marquei presença, ao vivo, no Mundial do México e no Mundial da Coreia e do Japão. Em todas as outras competições cantei, com fervor, o hino nacional, abracei quem se sentava a meu lado quando Portugal marcava um golo, sofria quanto a bola entrava na nossa baliza, partilhava a alegria irradiante antes dos jogos, sorria ainda com o meu bigode e com muito mais cabelo no final e, nas horas que antecediam as partidas, sentia nas praças das cidades que nos recebiam as nossas comunhão e identidade como Povo que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa tão bem expressou no seu discurso do 10 de Junho no emblemático Terreiro do Paço. Nesses momentos percebi que, tal como a selecção desse tempo - em que só Vítor Damas, José Carlos e Jordão não pertenciam ao Benfica e ao Futebol Clube do Porto - os clubes ficavam, à porta dos momentos, digo sublimes, de representação da camisola, sempre de cores diferentes, das quinas. Percebi, desde logo com o saudoso Senhor Fernando Cabrita, que a selecção em França se uniu. E, depois, Toni e José Augusto, também membros da equipa técnica - a par do também saudoso Senhor António Morais - ajudaram-me a perceber que nos relvado não havia cores de clubes. Havia a vontade de vencer! Havia um espírito de conquista. Que tão bem me foi retratado, em diferentes momentos de vida, pelo Diamantino e pelo Álvaro, pelo Veloso e pelo Carlos Manuel, entre outros. Sem esquecer a alegria do saudoso Manuel Bento a recordar algumas das suas fantásticas defesas e de não esquecer que o portista João Pinto integrou, nessa competição, e para a UEFA, o onze do Europeu. Mérito igualmente conquistado por Luís Figo no Europeu de 2000, por Ricardo Carvalho no de 2004, por Fábio Coentrão no de Europeu 2012 e, naturalmente, por Cristiano Ronaldo nos Europeus de 2004 e de 2012! Depois de amanhã frente à estreante Islândia iniciamos um novo percurso num Europeu de futebol. Com legítima ambição. Mas tendo presente as palavras que escutei, num canal televisivo, a uma sorridente emigrante ao proclamar que Portugal é a «minha raiz e a minha paixão»! Sim: o futebol, a nossa selecção e os nossos jogadores - por excelência nos últimos tempos Cristiano Ronaldo e, também os nossos principais clubes - motivam orgulho. O futebol ajudou, e muito, a nascer, em muitos lugares, e particularmente em França, uma nova geração descomplexada. Geração que vai para a escola com a camisola da nossa selecção e busca o corte de cabelo ou o penteado equivalente a alguns dos nossos grandes jogadores. E sabendo nós, agora, que a mãe do avançado de França - e do Atlético - Griezmann é portuguesa e o seu Avô jogou no Paços de Ferreira. É neste ambiente que vamos arrancar face à Islândia. Trinta e dois anos depois espero regressar a Marselha, palco de uma meia final. E espero que a 10 de Julho esteja sentado, perto das oito da noite, no Estádio Saint-Denis. E esteja a cantar o hino nacional. Com fé e fervor. E sabendo que esta equipa dirigente da Federação, esta equipa técnica e estes jogadores tudo farão, a cada minuto, para levar bem longe o nome de Portugal. Para sua glória e nosso orgulho. O mesmo, aliás, que, testemunho, leva a nossa respeitada e competente Embaixadora na Noruega e na Islândia, Clara Nunes dos Santos, a ser admirada pelas e pelos seus pares. E o mesmo que sentimos, qualquer que seja a nossa cor ou ideologia, com a presença, bem mais que simbólica, dos nossos Presidente da República e Primeiro Ministro em França nestes dias. E é esta medida de orgulho que, estou certo, Ronaldo e os seus vinte e dois companheiros nos vão proporcionar. Agora, em 2016, em que, ao contrário de 1984, já não tenho bigode, que quase não tenho cabelo, em que os que restam são, em maioria brancos, e sou, de verdade, um verdadeiro Pai com mel - logo Avô - de três lindos rapazes. E, assim com esta minha memória vai um tempo de vida. Desta nossa vida. Em que o futebol tem espaço. O seu espaço! E que, em audiência total, nos pode levar ao oito mil milhões de telespectadores deste Europeu de França! Impressionante!"

Fernando Seara, in A Bola

A morosidade da justiça

"Por sugestão de um leitor, abordamos um tema clássico mas sempre actual. Casos recentes retomam um problema que não é, contudo, exclusivo da justiça desportiva: a sua excessiva morosidade. Comenta o leitor que o recurso das decisões para os Tribunais Estaduais permite uma alteração de decisões tomadas por quem mais se encontra habilitado a decidir (os órgãos federativos) e contribuir para uma maior lentidão.
Há uma crucial diferença entre o esquema de recursos de actos das instâncias jurisdicionais desportivas existente antes da entrada em vigor da Lei do TAD em Outubro de 2015, e aquela que existe actualmente. Anteriormente, dos actos das instâncias desportivas cabia recurso para os Tribunais Administrativos, excepto quanto às questões estritamente desportivas que deviam manter-se no âmbito federativo. Estão ainda pendentes muitos processos judiciais nos Tribunais Administrativos, intentados antes da entrada em vigor da Lei do TAD. Como se sabe, os Tribunais Administrativos têm uma sobrecarga de processos pelo que inevitavelmente a justiça tarda.
Actualmente, tais recursos são apresentados junto do TAD, um tribunal arbitral pensado para o desporto. Os litígios desportivos são agora decididos por árbitros criteriosamente escolhidos, os prazos processuais são bastante curtos e prevê-se uma maior celeridade, mesmo se as partes recorrerem da decisão arbitral para os Tribunais Estaduais.
O futuro dirá se a pretendida alteração do registo clássico da resolução de litígios desportivos colherá os frutos da celeridade."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Benfiquismo (CXXXII)

Os resistentes...!!!

sábado, 11 de junho de 2016

A época ainda não acabou!

Benfica 7 - 9 Oliveirense

É preciso mudar o chip para a Taça de Portugal, esta descompressão pós-título Europeu e Bicampeonato, é perigosa, muito perigosa, porque isto de mudar o chip, nem sempre resulta... É verdade que o Pedro Henriques, não é a mesma coisa que o Trabal, mas sofrer 9 golos em casa, é prova que a equipa está a defender mal...

Bom demais para ser verdade

"Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo apareceram inspirados no joguinho com a Estónia. O resultado foi volumoso e abrilhantado com golos do mais fino recorte empolgando o público e a generalidade da imprensa que não perdeu tempo a concluir que "este ano é que é". E seria um feito notável visto que nunca a nossa Selecção principal conquistou um troféu deste quilate.
No dia seguinte as estações de televisão transmitiram a partida da Selecção e ouviu-se muito repórter consternado com a "falta de adesão" do público que era suposto comparecer patrioticamente no aeroporto e que não compareceu por uma questão de bom senso e, certamente, por ter mais que fazer. Quando está a Selecção em causa repete-se um fenómeno curioso. Libertos das amarras da isenção a que estão obrigados, os jornalistas perdem as estribeiras transformando-se em adeptos mais desaustinados do que os adeptos propriamente ditos que, por sua vez, vestem a pele de analistas fleumáticos dos acontecimentos dando tréguas à clubite que a todos infeta sem limitações éticas durante o ano inteiro.
Friamente analisado, o desempenho da Selecção foi bom demais para ser verdade. Não esquecendo também o perigo de se terem gasto os golos todos que nos estavam reservados para este Junho. Pelo que viu, para além das camisolas 1 e 7 que estão entregues, teremos ainda mais três titulares indiscutíveis: João Mário, Renato Sanches e Ricardo Quaresma. Quanto aos outros, Fernando Santos que decida pelo bem geral e sem que ninguém se aborreça. E que a fleuma da nação triunfe sobre o histerismo da comunicação que já cansa e isto mal começou."

Benfiquismo (CXXXI)

Nas Antas...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Juvenis - 3.ª jornada - Fase Final

Benfica 3 - 1 Corruptos
Embalo(2), Dju


Sem os 'juniores' Zé Gomes e Jota, foi o 'iniciado' Umaro Embalo, a decidir o jogo!!!
Bom jogo do Benfica, talvez o melhor que vi este ano da equipa de Juvenis... com os sectores mais compactos!
Além do Embalo, são vários os jogadores que se destacam nesta equipa, além dos mais 'conhecidos'... destaco o João Félix: muita personalidade com a bola...

Só uma nota: o Gedson tem que jogar no meio-campo, até porque temos 2 defesas-direitos de raiz que tomam conta do assunto!

Com 7 pontos no final da 1.ª volta, estamos na frente, e com vantagem sobre os nossos adversários, vencer em Braga e vencer o Sporting no Seixal deverá ser suficiente... para celebrar o título!!!

PS: Parabéns para os Iniciados B, que se sagraram hoje Tricampeões Distritais!!! O Benfica continua a dominar os escalões mais 'baixos'...

É inevitável vender

"Sempre que é alienado o passe de um atleta querido pelos adeptos, logo é evocada a inevitabilidade dessa operação. Na larga maioria dos casos é, de facto, inevitável recusar ofertas de "tubarões" do futebol europeu, não só pela necessidade do clube de obtenção de receitas elevadas, mas também pela vontade dos jogadores: Os que são transferidos, porque passarão a auferir ordenados mais elevados; E os que permanecem, pois, caso se entendesse cobrir as ofertas salariais de outros emblemas de forma a evitar a saída dos jogadores mais assediados, os restantes exigiriam maiores contrapartidas, as quais, de forma a manter o necessário equilíbrio no plantel, teriam que ser atendidas. Esta é uma questão estrutural do futebol português, que dificilmente será solucionada. Os principais clubes nacionais terão que continuar a notabilizar-se pela formação e scouting, servindo de tubos de ensaio de jogadores de nível europeu.
No contexto actual, só o Benfica, pela capacidade de captação de receitas operacionais, poderá contrariar este fado. Para tal necessitará de preservar a tendência de crescimento da facturação e a competência na formação e scouting, além de mitigar o constrangimento que o passivo oneroso representa. A revitalização desportiva e financeira da Benfica, SAD, alavancada em capitais alheios, desde o ano 2000, assim o determinou, reflectindo-se, no presente, em custos financeiros pesados. A SAD benfiquista tem meios para reduzir drasticamente os custos financeiros, mas não o poderá fazer no imediato porque perderia competitividade no curto prazo. A redução suave do passivo é o caminho certo, o tricampeonato assim o demonstra."

João Tomaz, in O Benfica

Modalidades

"A gloriosa saga do ecletismo encarnado de 2015 era difícil de repetir. Então, só o Andebol escapara ao pleno dos campeonatos nacionais entre as modalidades mais significativas. Foi o melhor ano de sempre a este nível. Em 2016, se Futebol e Hóquei repetiram o título (no caso do Hóquei acompanhado de brilhante conquista europeia), e se Futsal e Atletismo mantêm em aberto essa possibilidade, Basquetebol, Andebol e Voleibol falharam o principal objectivo - pese embora a conquista de Taças e Supertaças.
Os casos são diferentes, bem como o contexto e as expectativas que rodeavam cada uma das equipas. Se a de Andebol era, à partida, a menos favorita, a forma como deixou fugir o campeonato acabou por ser, porventura, a mais dolorosa.
O meu grau de benfiquismo não me permite aceitar com naturalidade derrotas como a do último Sábado, quando, com quatro golos de vantagem a pouco mais de três minutos do fim, o título estava no bolso. A não repetir. Também o Basquetebol desiludiu. O Benfica era o grande favorito à conquista do penta. Mantinha a estrutura e reforçara-se com nomes sonantes. Mas durante os play-offs percebeu-se que as coisas iriam correr mal. Jogámos pouco. As sete (!) derrotas com o FC Porto obrigam necessariamente à reflexão.
O Voleibol foi, sobretudo, infeliz. Perdeu no último set da última partida, depois de 24 vitórias em 25 jogos até chegar à final. Creio que nesta modalidade recuperaremos o título rapidamente. De Futsal falarei no fim do campeonato. E o Hóquei, pela estrondosa época que fez (ainda falta a Taça). merece um texto inteiro, assim que a oportunidade espreitar."

Luís Fialho, in O Benfica

A verdadeira siuação patrimonial do Sporting

"Com que então são os outros que estão em falência técnica, sendo certo que o conceito de falência técnica já foi por mim explicado dezenas de vezes, mas é verdade que "quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita"! Neste caso "burro velho não aprende línguas"!
Vejamos o célebre relatório do 3.º trimestre da Sporting SAD na - que em bom da verdade é apenas um relatório trimestral, assim como que, punçado de alguns membros.
Ora, ou preciso de óculos ou o capital próprio é negativo em 10.133 milhões de €.
Depois, se tirarmos as tais Vmoc's que são de 127,925 milhões de €, ficariamos com 138 milhões negativos! É que as Vmoc's estão mesmo a dar jeitinho para compor o valor do capital próprio que mesmo com Vmoc's ainda é negativo!
Sendo de 138 milhões de €, nem sequer é falência técnica - é insolvência purinha, como água cristalina! (...).
Depois o que é ainda mais extraordinário - foi ventilado aos sete ventos (seria sete Mares se fossem os Sétima Legião), que a Sporting SAD teve lucro de 1 milhão. Ouvimos amiúde estas declarações da boca do Digníssimo presidente do Sporting.
Mas não está correcto numa perspectiva ética. E porquê? Porque logo a seguir foi escrito no Relatório da Sporting SAD, que "... os resultados dos primeiros nove meses do exercício são negativos em 17,106 milhares de euros!
Palavras para quê?! É um artista Português, como dizia o outro. Mas mais: O que o Sporting devia informar os seus accionistas era disto (...).

As Marchas Populares
As Marchas Populares de Lisboa remontam a 1932, sendo uma das mais antigas e crescentes tradições da cidade de Lisboa (às marchas, "juntaram-se" em 1958, os Casamentos de Santo António).
A minha avó materna trabalhou vários anos na Cordoaria Nacional, onde ajudava a tecer as fardas dos marinheiros. As mesmas fardas que por vezes foram utilizadas como adornos dos marchantes.
As marchas populares não são um exclusivo de Lisboa.
Também em Setúbal e em muitos outros pontos do País, a tradição das Marchas Populares tem forte expressão, agregando colectividades de toda a cidade e arredores. No entanto, cada marcha tem a sua peculiaridade.
Muitas vezes confundem-se marchas populares com "tangas populares".
Aproveitando as modernas políticas de controlo de massas, consegue-se manobrar as vontades exteriores em proveito próprio. Só que o resultado pode ser igual ao daquele Rei que caminhava nu e apenas uma criança reparou em tal facto.
O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, não é assim tão nítido.
É verdade que a psicologia individual diz respeito ao homem individual e explora os caminhos pelos quais ele busca encontrar satisfação para seus impulsos institucionais; no entanto, só por excepção, a psicologia individual se acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objecto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. É o apologismo da máxima da exploração das ideias e emoções dos outros, pelo uso das palavras de forma sinfónica, mas que dissecadas, não correspondem a nenhuma realidade.
Ao fim e ao cabo, é mais uma marcha popular - a de Alvalade!"

Pragal Colaço, in O Benfica

Velhos tiques

"A Liga é contra a liberdade de expressão. A frase, nua e crua, pode parecer excessiva. Talvez seja, mas todos os que não gostam de mordaças estarão assombrados com a decisão que saiu da última AG: o «aumento de forma muito clara das sanções» a agentes e comentadores ligados «directa ou indirectamente» a clubes e «que ponham em causa a imagem do futebol».
Isto é: goste-se mais ou menos de algo, saiba-se mais ou menos sobre os bastidores ou tenha-se opinião mais ou menos favorável sobre um tema, a Liga já decidiu: se puser em causa a «boa (?) imagem», haverá punição severa.
Vamos lá ver... Além de ser completamente inconstitucional, desde quando é que associações privadas têm autoridade para sancionar acções de pessoas que não são suas associadas? Como dizia ontem um amigo, «isto é o mesmo que a minha associação de condomínio querer multar as pessoas da rua de cima por dizerem que o meu prédio é feio».
Que a Liga fale de «agentes desportivos» é uma coisa; agora, os «indirectamente ligados a um clube» são quem? Infelizmente, há coisas feias no futebol. Continuam a existir e tão cedo não serão arredadas. Veja-se os escândalos na FIFA, ou os casos das apostas, do tráfico de jogadores, dos fundos, etc, etc. São situações tristes, feias, sujas e que mancham o futebol, quer a Liga queira, quer não; quer goste, quer não. E, naturalmente, continuará a ser obrigação de todos os que gostam deste desporto denunciá-las, falar delas, comentá-las até à exaustão. Para que os que mandam no futebol (federações, ligas, clubes) possam, esses sim, fazer uso do seu poder para modificarem a má imagem. Tapar o sol com uma peneira, amordaçar ou atirar o lixo para debaixo do tapete, fingindo que tudo é belo e radiante, nada resolverá... E se se sentirem ofendidos com opiniões têm um bom remédio e este é constitucional: recorrer aos tribunais em defesa do seu bom nome ou honra. Tudo o resto são tiques com mais de 40 anos que ninguém deseja ver de volta."

João Pimpim, in A Bola

Benfiquismo (CXXX)

Classe...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Nem sempre ganhou quem quis... mas nunca ninguém ganhou sem querer!!!

"Fernando Gomes foi corajoso ao escolher Fernando Santos, e o seleccionador é o homem certo no lugar certo para Portugal

Em Outubro do ano passado, neste mesmo espaço semanal, deixei cinco elogios a três sócios do Benfica, um sócio do Porto e um do Sporting.
Neles, estavam incluídas duas pessoas que, hoje, e sobretudo com o aproximar do Campeonato Europeu, faço questão de voltar a elogiar, por diferentes motivos, mas com um fim comum: Fernando Gomes e Fernando Santos. Dois homens, que além possuírem a ambição necessária às nossas obrigatórias aspirações, querem - tanto quanto cada um dos portugueses - ganhar. Um, com um projecto com ambição, e outro, com a ambição como projecto! 

Fernando Gomes... um projecto com ambição
Fernando Gomes foi reeleito, no passado dia 4, para um novo mandato enquanto presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), até 2020, tendo tomado posse na passada terça feira (... nada é por acaso... ).
Curiosamente, ao contrário do que aconteceu nas eleições anteriores, neste ato eleitoral Fernando Gomes obteve 70 votos dos 76 delegados que exerceram esse mesmo direito. Desta vez, com apenas uma lista candidata, foram só 6 os votos em branco. Ao invés, em 2011, obteve 46 votos - contra os 36 do outro candidato - ganhando, assim, as eleições pela diferença de... 10 votos apenas.
Foi, por isso, eleito com a dificuldade que só quem acompanhou essa eleição saberá avaliar devidamente. Ainda assim, poder-se-á dizer que, em 2011, Fernando Gomes ganhou as eleições, sendo eleito presidente da FPF, mas deixou o futebol português dividido (quase) em partes iguais. 
Apesar - diga-se, em abono da verdade - de ter, nessa maioria, clubes que acabaram por fazer a diferença. E que diferença essa diferença fez! Aliás, ao longo do seu mandato, várias foram as vezes em que Fernando Gomes arriscou e ganhou, consolidando a sua posição à frente da FPF, ainda que isso lhe custasse alguns reparos.
Decidido a recandidatar-se, apresentou-se praticamente com a mesma equipa, com excepção para criticadas presidências (apenas constato factos) do Conselho de Arbitragem e do Conselho de Disciplina, sobretudo ao longo da época passada.
Independentemente disso, a verdade é que o seu mandato poder-se-á considerar muito positivo. Pelos resultados, mas, também e até, pela coragem com que o fez. Pelo seu rigor, pela imparcialidade, mas também pela audácia em criar um protejo com ambição. Protejo esse composto por ideias claras e definição de objectivos atingíveis. Estou certo que, face a isso, esta tenha sido a reeleição do reconhecimento e da unidade. Fazendo com que, por um lado, a diferença de ideias tenha servido para valorizar a vitória conseguida - então - à tangente e, por outro lado, o seu percurso tenha servido para ser - agora - o candidato do consenso.

Fernando Santos... uma ambição como projecto
tinha  dito, aqui, que Fernando Gomes tinha sido suficientemente audaz ao apostar em Fernando Santos. Fernando Gomes foi extremamente corajoso ao escolher Fernando Santos, por, essencialmente, se tratar de uma aposta de risco, uma vez que se encontrava em vésperas de poder vir a cumprir um castigo muito pesado.
Ainda assim, e convicto da sua escolha, Fernando Gomes teve a capacidade de definir uma estratégia - como o foi fazendo com os diversos assuntos com que se foi deparando ao longo do seu mandato - escolhendo gente competente para defender as suas escolhas.
E a verdade é que... ganhou.
Como com Fernando Santos... um homem com uma ambição, com um projecto. Aliás, um homem que tem uma missão com um projecto. E nisso, está em perfeita sintonia com Fernando Gomes, ainda que tenha tido um percurso contrário. De facto, Fernando Santos é um homem que, não obstante ter passado pelos três maiores clubes portugueses, enquanto treinador, não fez o alarido de muitos outros, falando o seu passado de águas calmas por si.
Também por isso, não levantou problemas na sua designação como seleccionador, tendo recolhido a (quase) unanimidade das opiniões expressas na altura da sua entrada em funções. Mas - face a essa personalidade calma e não conflituosa - foi uma excelente surpresa ter ouvido Fernando Santos afirmar que já está na altura de Portugal ganhar um título numa grande competição. E como tem razão... Até porque... tal como ele e muitos outros... eu penso que isso não é impossível.
Já tivemos muito perto desse acontecimento... mas perdemos, na final, para a Grécia, em 2004... quando ninguém colocou a hipótese de que poderiam ser eles os campeões.
Foi uma boa surpresa Fernando Santos assumir essa postura, de querer ganhar. E estou certo de que irá lutar por isso. Uma postura contra o que costuma ser o tradicional português (invejoso, pequenino, sempre com desculpas, por não atingir o que devia, por ter medo de assumir o que quer). Por isso, só posso elogiar o facto de ser bastante ambicioso. Hoje, com Fernando Santos ao comando da nossa selecção, e com o Europeu mesmo ao virar da esquina, finalmente temos a ambição que devíamos ter sempre! Nada mais que a nossa obrigação! Por cada um de nós, portugueses, mas, sobretudo, por consideração ao valor individual e colectivo da nossa equipa.
Temos o melhor jogador do mundo - ou um dos dois melhores - que é, por maioria de razão, o melhor jogador da Europa. Temos uma equipa experiente, com jogadores de reconhecida qualidade - até pelos clubes onde jogam - ainda que nem todos sejam da mesma galáxia que Cristiano Ronaldo. Por isso, além de assumirmos sem rodeios os nossos legítimos objectivos, temos de estar focados, mais do que nunca, deixando de parte os falatórios, cheio de episódios, que habitualmente emergem, junto da selecção, nestas fases decisivas. E um desses exemplos recentes foi a campanha que fizeram contra Renato Sanches, num claro, injustificável e mesquinho síndrome de clubite. Como se o facto de se ser jovem demais fosse impedimento de alguma coisa...
Quis o destino que fosse Fernando Santos o escolhido para liderar uma equipa de grandes talentos, nesta fase da competição.
E ainda bem que assim é, porque, efectivamente, é o homem certo no lugar certo, o único - neste momento - capaz de gerir essas campanhas, de manter a equipa concentrada, e de... sonhar.
Ou melhor, ambicionar.
E nisso os dois Fernandos, tanto o Gomes como o Santos, são parecidos. Ambos se encontram unidos no projecto... e na ambição!
Para podermos festejar, por Portugal,... no Marquês (se os outros não levarem a mal)."

Rui Gomes da Silva, in A Bola

Modalidades 'play-off' e Illiabum

"1. As modalidades colectivas têm sido injustificadamente marginalizadas pelas televisões em canal aberto. É futebol, futebol e futebol e quase mais nada. A televisão pública ainda transmite o Futsal (parente do futebol), mas quase nada de basquetebol, hóquei, voleibol e andebol. Tudo metido para canais por cabo ou para televisões ligadas a clubes (é o caso do basquetebol). Incompreensível e sobremaneira gravoso sobretudo para os clubes com menos recursos.
2. Com a excepção do hóquei, as modalidades têm um play-off para apurar o campeão depois da fase regular. Tenho muitas dúvidas sobre a justiça deste método, ainda que o compreenda do ponto de vista de esticar a temporada e aumentar a emoção. Este ano, está a verificar-se uma situação quase inédita: o vencedor da fase por pontos não se sagra campeão. Em basquetebol, o Benfica dominou e depois perdeu na final. Em voleibol, o mesmo Benfica superiorizou-se na competição, mas o campeão foi o Fonte Bastardo. No andebol, o crónico campeão Porto ficou pelo caminho, substituído pelo ABC. Só falta saber no futsal: se vence o Sporting, o primeiro na fase regular, ou o Benfica.
3. O clube da minha terra - o Illiabum - sagrou-se campeão da Proliga de basquetebol, depois de assegurada brilhantemente a promoção à Liga principal. Como seu sócio 137 e actual presidente da AG, fiquei muito feliz. A cidade de Ílhavo e a direcção do clube merecem este sucesso. Aliás, na sua história de 73 anos, o Illiabum tem muitas e significativas vitórias em diferentes torneios e escalões e até uma Supertaça derrotando o... Benfica."

Bagão Félix, in A Bola

Arbitragem e arbitrariedades

"Começam a vir a público algumas das acções do antigo Conselho de Arbitragem (CA), e assim vamos também percebendo a reacção dos árbitros ao longo da época, como a sistemática recusa à realização dos obrigatórios testes escritos e físicos (art.º 20º, alínea h do Regulamento de Arbitragem), cujas notas deveriam ter reflexo na classificação final. Mas a fila anda: como justificar também o incumprimento em matéria de designação dos nomes para as insígnias da FIFA, num evidente desrespeito regulamentar (Carlos Xistra nos últimos dois anos, Hugo Miguel na última época...)? Como validar para a classificação as imagens vídeo da empresa contratada pela Liga e haver entretanto jogos em que o sistema, por acaso, até falhou, beneficiando uns e prejudicando outros? Como aceitar que árbitros lesionados sejam reconduzidos sem nota final quando as normas são explícitas e dizem que a falta de elementos de avaliação determina a descida de categoria?... Finalmente, para não atulhar a caixa de críticas, que devem aliás ser estendidas a todo o antigo CA e não apenas a Vítor Pereira, detenhamo-nos nesta realidade tão absurda quanto ilegal, só possível numa casa sem ordem e num futebol de faz de conta(s): do quadro dos 24 árbitros da Liga (sem contar com os assistentes, portanto), só nove foram realmente tratados como profissionais - os internacionais. De facto, este restrito lote, além das verbas tabeladas para cada jogo, e comuns a todo o grupo, recebeu um bónus mensal de três mil euros, suportado pela FPF, a título de compensação pela exclusividade. Não entrando na discussão da chocante falta de paridade, já parece serviço de amador proceder depois à avaliação dos 24 sem a devida equidade, uma vez que uns podem treinar-se diariamente e outros não!... E não canso mais. Mas pergunto: vamos continuar assim?!..."

Paulo Montes, in A Bola

10 porcos e 10 vitelos

"Anda o presidente do Gil Vicente rejubilante com este maná caído do céu, mais concretamente do Tribunal do Círculo Administrativo de Lisboa, que anulou a despromoção do clube, a ponto de prometer um festim, na cidade, de porcos e vitelas e a animação de Quim Barreiros.
Não é caso para menos. Diremos que, no meio desta exuberância pecuária, só falta mesmo a vaca que voa... Mais um caldinho, a atormentar a já débil credibilidade do futebol português, com esta realidade singular: no espaço de três anos, a Liga vai ter de alargar duas vezes o número de clubes na primeira divisão, por via de reversões judiciais, que anularam decisões dos órgãos disciplinares da Federação e da Liga (que, nestes casos, ainda exercia esse poder).
A somar às suspeições decorrentes, do 'fixing' e que já levaram à prisão preventiva de vários arguidos, ressurge agora esta batata quente, que, desde 2006, andava esquecida nas catacumbas do nosso contencioso administrativo.
Bem andou a Federação ao atalhar caminho neste imbróglio, renunciando ao recurso e encarando a questão de frente, mas com um desfecho reputacional e desportivo desastroso; realmente em Portugal acontecem coisas que não há em mais lado nenhum e a Primeira Liga, que não era já um modelo de competitividade, vai ser alargada com um (ou mesmo dois) clubes, que, em rigor, não vão acrescentar nada.
Os mitos urbanos, em que o nosso futebol é pródigo, pululam de histórias de membros de órgãos jurisdicionais, que, sob a capa de uma aparente independência, se prestam a fretes e a jogadas de bastidores. Não quero nem saber, porque, em minha opinião, o problema não é esse.
O problema está na qualidade das pessoas que vêm integrando sucessivamente esses órgãos e que falham, por sistema, em questões fulcrais, quando submetidas ao escrutínio judicial. Logo, há que ter os processos mais bem instruídos, de forma absolutamente transparente e decididos por gente mais capaz e dedicada.
Talleyrand dizia dos Bourbons, que estes nada esqueciam, mas também nada aprendiam. Desde o famoso caso N'Dinga que, nos anos 90, opôs Guimarães e Académica, que esta máxima parece aplicar-se aos órgãos jurisdicionais do nosso associativismo, onde vejo sempre os mesmos nomes, 'pase lo que pase'."

Benfiquismo (CXXIX)

Levantar... e seguir em frente!!!