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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Cabo Verde e o segredo do Mundial


"Quando a antropóloga Celeste Fortes explica aos alunos a raiz e a força do povo cabo-verdiano - o dela - e como ele se libertou da escravidão e do colonialismo fazendo do impossível um quotidiano viável, ela diz: "Somos crias de luta."
"Crias de luta." A expressão soa a águas de parto, a águas de vida, mas também a dias íngremes, sempre garantidos à nascença. Cabo Verde anda há muito tempo a ensinar-nos como se erguem imaginários a partir da prosa bruta do sofrimento e da invisibilidade. Agora fê-lo em direto planetário, exemplo do que pode um coletivo humano num Mundial de Futebol de casino, chips e árbitros robotizados.
As nuvens de sonhos do país, os desejos e quimeras aparentemente inalcançáveis, partem de sementes de resistência. "A luta é a nossa mãe", ensina Celeste Fortes aos estudantes. Di-lo para nunca esquecerem que a nação cabo-verdiana nasceu de um dos episódios mais violentos da História e aprendeu na pele, através de séculos, que lutar e resistir são palavras filhas da mesma mátria.
Nas redes sociais, muitos besuntaram de elogios as façanhas da equipa de Cabo Verde, unanimidade que nem o "Rei Sol" da dita "seleção de todos nós" alcança. A saga do arquipélago é feita de respeito, de dignidade e da herança de muitas lutas ainda inexistentes nos manuais escolares do antigo colono, mas para palmadinhas nas costas, likes e adoração a famosos, estamos cá sempre. Nada contra. Se isso servir para retirar da invisibilidade, em todas as versões e géneros, o Vozinha da caixa de supermercado, o Jovane da construção civil, o Steven Moreira da apanha de fruta, o Kevin Pina da empilhadora, o Jamiro das limpezas e o Pico da padaria, pelo menos já valeu a pena.
São existências esquecidas, precárias e agredidas, mesmo quando travam uma luta diária e subterrânea contra a exclusão, por paz, pão, habitação, saúde e educação. A democracia falhou-lhes. Do Estado, por vezes, só mesmo a fila de espera e a carga policial estão garantidas.
Na Cova da Moura, no Vale da Amoreira, nos bairros do Riobom e do Talude e em tantas outras "ilhas" cabo-verdianas de Portugal, festejam-se golos quotidianos de superação, como aquele que Sidney Cabral marcou à Argentina. O talento do jogador levantou um estádio global, enquanto outros compatriotas, sobreviventes de cada dia, não merecem sequer um rodapé a quem aplaude o esplendor de Cabo Verde no relvado.
E, no entanto, os invisíveis estão aqui: no café da nossa rua, na mercearia da esquina, na casa ao lado. São eles que nos mostram o país prometido que ainda não somos, o país que não repara nem se exalta com injustiças à sua porta, paredes-meias com a indignidade. Pudesse a já lendária seleção cabo-verdiana aproximar-nos dessas "crias de luta" que levantam sonhos todos os dias negados e talvez esse país inteiro e limpo dos versos de Sophia se realizasse. Para já, o poema soa melhor em crioulo."

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