Últimas indefectivações

segunda-feira, 30 de março de 2020

Mensagem do Presidente da Fundação Benfica, Carlos Moia

"Vivemos tempos de extrema complexidade que desafiam o país, o mundo e cada um de nós. É um verdadeiro teste à resiliência das pessoas, das famílias e das instituições. É também um tempo de verdade e de retoma de valores no qual a superficialidade vã e a falta de compromisso dos pequenos de espírito vêm ao de cima, elevando-se bem alta a generosidade dos grandes e a sua superação perante a adversidade.
É assim o Benfica, da excelência conquistada pelo esforço e merecida pela vitória.
"E Pluribus Unum"…
De todos um! O Benfica, claro!
O Benfica reagiu com força, músculo financeiro e dimensão. A Fundação Benfica actuou prontamente.
É admirável a grandeza deste Benfica, tantas vezes injustiçado, que, perante a enormidade deste embate universal, mobiliza todas as suas energias, dos jogadores e atletas aos colaboradores e dirigentes, e actua a uma só voz, directo, incisivo, Grande!
Para os que não são benfiquistas é difícil perceber o que nos une e faz vibrar, seja no campo, seja na vida normal, porque escapa à exclusiva esfera do raciocínio e é, isso sim, paixão, emoção e mística! Disse alguém que “só nós sentimos assim” e atrevo-me a acrescentar que “só nós agimos assim”. 
Cabe hoje à Fundação Benfica, a que tenho a honra de presidir, materializar a solidariedade benfiquista com a sua acção. Foi assim no passado com tantos e tantos projectos socioeducativos, de envelhecimento activo, de combate à exclusão e pobreza, de integração social. Foi assim nas crises humanitárias do Haiti, Madeira, Mali, Ilha do Fogo, incêndios de 2017 e recentemente Moçambique. Está a ser assim agora, aqui, connosco! E já dissemos pronto à chamada, adoptando uma postura responsável de colaboração com as autoridades e reforçando a sua acção onde é preciso. Comprando ventiladores e material de protecção, progressivamente mais e mais, entre fundos mais modestos da Fundação e um milhão deste generoso, enorme, Benfica. Procurámos os mais fracos de entre os fracos e levámos cabazes de alimentação a todos os cerca de 3000 idosos isolados e pobres do país em colaboração com a GNR. Levámos 5 toneladas de comida aos sem-abrigo através da Comunidade Vida e Paz com o envolvimento directo e patrocínio do plantel de futebol profissional.
Fizemos, fazemos e continuaremos a fazer tudo isto de forma responsável e com a ambição dos grandes, porque quando a Fundação faz, é o Benfica que faz, o clube, as estruturas, os sócios e os adeptos. Sentimos o peso reconfortante dessa responsabilidade.
Esta é uma prova difícil que juntos iremos vencer, somos campeões e sabemos superar-nos perante as adversidades. Por isso, os benfiquistas sabem que é preciso contribuir para a Fundação Benfica, não directamente, mas com a consignação de 0,5% do seu IRS. Também sabem que gerimos com critério e investimos em causas justas e urgentes, por isso confiam em nós, e eu aqui reitero, em meu nome pessoal e da Fundação, que todo o dinheiro será bem empregue!

Carlos Moia"

Benfica em Quarentena #21 - Diamantino

Benfica em Quarentena #20 - Sérgio Silva

O pacto das modalidades

"Tem se escrito muito sobre um eventual pacto nas modalidades entre Benfica-Sporting e Sporting-FC Porto. Algo que para muitos adeptos do Benfica tem parecido uma decisão “mansa” do Benfica. No entanto, na minha opinião, esta decisão pode fazer sentido. Vou tentar analisá-la ao pormenor aqui.
No passado recente (últimos cinco anos), que atletas foram “roubados” entre estes clubes?
a) Benfica - Sporting. O Benfica foi buscar Célio Coque, Afonso Jesus, André Sousa e Miguel Ângelo ao Sporting em Futsal e o Daniel Neves no Andebol. O Sporting contratou Gonçalo Nunes no Hóquei, Carlos Carneiro e Cláudio Pedroso no Andebol e Cláudio Fonseca no Basquetebol. Além destes atletas nas modalidades colectivas, houve uma série de trocas nas modalidades individuais. Os mais célebres foram no Atletismo, onde o Sporting contratou Nélson Évora, Hélio Gomes, Rasul Dabo, Tiago Aperta, Marcos Caldeira e Jorge Paula. Mas houve muitos mais. O Sporting também praticamente acabou com a equipa feminina de Atletismo e com a equipa masculina de Judo do Benfica, e ainda contratou nosso melhor jogador de Ténis de Mesa - o Diogo Carvalho, o que acabou por levar à despromoção do Benfica para a 2º Divisão da Modalidade. Já o Benfica foi buscar recentemente o Anri Egutidze do Judo e também contratou vários atletas de Atletismo ao Sporting, o mais popular foi o antigo medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, Rui Silva. Aliás, segundo consta até foi a mudança de Rui Silva que gerou isto tudo. O Benfica foi ainda contratar o peruano André Carrillo ao Sporting, mas no futebol.
b) Sporting - FC Porto. Telmo Pinto, Vítor Hugo e Alvarinho no Hóquei, Pedro Spínola no Andebol e o Diogo Araújo no Basquetebol saíram do FC Porto para o Sporting. Já o FC Porto foi buscar Rui Silva no Andebol.
c) Apesar de não ser parte do pacto, pelo menos até agora, fiz também o levantamento das trocas Benfica - FC Porto. O Benfica foi buscar José Silva no Basquetebol. O Porto contratou João Soares no Basquetebol (que pelo meio esteve emprestado um mês a uma equipa da 3º Divisão Espanhola), António Areia no Andebol (que o Porto acabou por ter que indemnizar o Benfica, visto que ainda tinha contrato com o Benfica) e Hugo Santos no Hóquei.
Há mais jogadores com passados em mais do que um clube, mas nunca foram directamente de um lado para o outro. O Roberto Reis no Voleibol por exemplo esteve um ano no Espinho antes de ir para o Sporting. O Gonçalo Alves no Hóquei depois de sair do Sporting passou três anos na Oliveirense antes de rumar ao Porto. São dois bons exemplos. E claro, houve mais trocas no passado. Por exemplo Gonçalo Alves, Bebé e Davi no Futsal saíram todos do Sporting para o Benfica, mas há mais de 10 anos atrás.
Se olharmos para os nomes que falei, a verdade é que não houve assim tantas mudanças que tenham feito muita diferença. O Sporting e o Porto conseguiram tirar duas das melhores promessas do Benfica no Hóquei, mas nem Gonçalo Nunes, nem o Hugo Santos renderam grande coisa nos seus novos clubes para já. O Nélson Èvora não acrescentou nada ao Sporting e até fez com que o Benfica tivesse que se inovar acabando por contratar o Pedro Pichardo. Os jovens todos que o Benfica foi buscar ao Sporting no Futsal também não têm acrescentado nada ao Benfica. As mudanças mais significativas a nível desportivo acabaram por ser Rui Silva e António Areia no Andebol para o Porto e o Diogo Carvalho no Ténis de Mesa para o Sporting.
Apesar de não terem existido assim tantas movimentações, os clubes subiram imensos os seus orçamentos nas modalidades na segunda metade da década 2010-2020. No caso do Sporting temos os valores oficiais graças à auditoria que foi feita às contas da Direcção de Bruno de Carvalho. O relatório é público e é fácil de encontrar na internet. O Sporting passou a gastar 176 mil euros no Carlos Ruesga no Andebol, 186 mil euros no Dieguinho no Futsal, 116 mil euros no Nélson Évora e 153 mil euros no Pedro Gil no Hóquei, quando três anos antes, os atletas mais bem pagos nestas modalidades eram Pedro Solha (Andebol, 58 mil euros), Alex Martins (Futsal, 77 mil euros). Rui Silva (Atletismo, 33 mil euros) e ngelo Girão (Hóquei, 73 mil). Além destes atletas, todos os outros foram bem aumentados. O salário médio no Sporting em Futsal subiu 69% em três anos, 116% no Andebol e 124% no Hóquei. Só que isto não aconteceu só no Sporting. Aconteceu também no Benfica.
O Sporting conseguiu levar o Nélson Évora, mas não se ficou por aí. Tentou levar outros jogadores, como o André Coelho no Futsal, o Carlos Nicolia no Hóquei, a Telma Monteiro no Judo e certamente que outros atletas foram abordados. Estes foram as propostas mais “populares”. Nesta situação, a única maneira que o Benfica teve para segurar os seus melhores, foi aumentá-los e oferecer uma proposta equivalente aquela que o Sporting oferecia. O Benfica passou de gastar 4.6 milhões de euros em gastos com pessoal das modalidades em 2016-2017 (com mais duas modalidades do que o Sporting, Voleibol e Basquetebol) para gastar quase 8 milhões de euros em 2018-2019. O prejuízo das modalidades do Benfica passou de 5.8 milhões de euros em 2016-2017 para 12.1 milhões de euros em 2018-2019 - atenção à palavra prejuízo.
Havendo pacto, o Sporting não irá abordar jogadores do Benfica e o Benfica não irá abordar jogadores do Sporting. Vai haver maior disputa entre os clubes por atletas a nível nacional antes de eles assinarem pelos clubes, mas a partir daí, se o atleta quiser receber mais, terá que ir para o estrangeiro ou para uma Oliveirense ou Fonte de Bastardo ou Modicus, que tradicionalmente não têm as mesmas capacidades que qualquer um dos grandes tem. Os clubes com o passar do tempo vão começar a baixar os seus orçamentos e eventualmente até poderão contratar estrangeiros melhores, mantendo a mesma base da equipa, gastando menos dinheiro. O pacto será positivo para aquele clube que souber melhor identificar talento e captá-lo.
Mas lá está, o impacto deste pacto só será visível daqui por algumas épocas. Os contratos não vão começar a baixar da noite para o dia. No entanto, para já, parece ser algo que poderá beneficiar-nos mais.
Este pacto não é uma decisão desportiva. É uma decisão financeira."

Vibrações...

Que jogos devo rever nesta Quarentena? SL Benfica 2-1 Gil Vicente FC



"A época 2013/2014 do SL Benfica foi uma das melhores da História recente dos encarnados. Uma temporada marcada pelo triplete a nível nacional e por um voo alto na Europa – que culminou numa chegada à final, onde perdeu nas grandes penalidades contra o Sevilha FC.
Vindo de uma época em que perdeu a Taça de Portugal contra o Vitória SC, a Liga Europa para o Chelsea FC e o campeonato para o FC Porto, a continuidade de Jorge Jesus ao comando dos destinos da equipa foi muito criticada, pelo que era imperativo que os encarnados respondessem às críticas com títulos.
No entanto, na primeira jornada da Liga, os encarnados perderam frente ao CS Marítimo, por duas bolas a uma, fazendo com que os fantasmas da época passada voltassem a pairar sobre a equipa e os adeptos. Não obstante, as coisas iriam mudar no próximo jogo.
No dia 25 de Agosto de 2013, numa tarde de domingo solarenga, começava verdadeiramente a época de sonho das “águias”. Rolava a bola na segunda jornada da Primeira Liga, e os encarnados recebiam o Gil Vicente FC, à época orientado por João de Deus – actual treinador adjunto de Jorge Jesus -, num encontro que se adivinhava complicado para os homens da casa.
As “águias” entraram com vontade de ganhar vantagem no marcador cedo, mas os esforços embatiam ora no guarda redes gilista, Facchini, ora nos ferros da baliza. A equipa visitante não criou qualquer perigo às redes de Artur Moraes, que fora um autêntico espectador na primeira metade do encontro. O nulo persistia ao intervalo.
Na segunda parte, a tomada de jogo manteve-se igual: os encarnados com o controlo do jogo, e os homens de Barcelos sempre a espreitar o contra ataque para tentar chegar ao golo. E foi isso que aconteceu ao minuto 70’, quando Maxi Pereira, com um erro grave, perde a bola para Diogo Viana que, na cara de Artur, faz a bola abanar as redes encarnadas.
Apesar de ter o controlo do jogo, os comandados de Jorge Jesus estavam agora em desvantagem. O tempo passava rapidamente, e a bola teimava em não entrar na baliza dos visitantes. Até que chegávamos ao minuto 90’ quando, na cara de Facchini, Markovic restabelecia a igualdade na partida.
O que se seguiu após o golo foi um autêntico furacão que arrasou por completo a equipa visitante. Com as bancadas da Luz a apoiar como nunca, os encarnados, ao fatídico minuto 92’, através de Lima, davam a cambalhota no marcador. E com estes autênticos “dois minutos à Benfica” estava dado o mote para aquela que seria a primeira de quatro épocas de muitas conquistas.

Onzes Iniciais e Substituições:
SL Benfica: Artur Moraes; Maxi Pereira, Luisão, Garay e Bruno Cortez; Salvio (Markovic, 61’), Enzo Pérez, Matic e Gaitán (Sulejmani, 68’); Lima e Rodrigo (Djuricic, 68’).
Gil Vicente FC: Adriano; Gabriel, Halisson, Danielson, Luís Martins; João Vilela, Luan e César Peixoto; Paulinho (Brito, 46’), Bruno Moraes (Nwankwo, 71’) e Diogo Viana. "

Benfica After 90 - Cooking, Drugs, Bandaids

O impacto do destreino: as consequências inevitáveis para os futebolistas

"Na discussão dos timings do retorno do futebol à competição será importante considerar o impacto que este período de paragem teve no condicionamento físico dos atletas. Muitas têm sido as partilhas nas redes sociais de atletas de futebol em regime de treino individual no seu domicílio. Estas rotinas, meritórias uma vez que evidenciam sentido de responsabilidade não só por parte do atleta e preocupação por parte do clube, e com benefícios sobretudo se aliadas a um planeamento nutricional, são no entanto insuficientes para evitar as consequências do destreino num período em que os atletas entram na terceira semana afastados dos relvados.
Declínios da performance em realizar sprints repetidos, agilidade e mudanças de direcção, associados à diminuição da sua capacidade metabólica serão inevitáveis a partir deste momento, juntamente com alterações estruturais e funcionais em tendões por exemplo, estruturas dependentes de um intervalo de cargas óptimas para se manter funcionais.
Ou seja, se os atletas mantiverem suspensa a sua prática de futebol num período superior a três semanas, são esperadas repercussões significativas no seu condicionamento específico para a prática de futebol, com risco de impacto futuro não só nos seus níveis de performance, mas também no risco de incidência de lesões.
Serão necessárias algumas semanas de preparação para que os atletas realizem o equivalente a um regime de treino de pré-época sendo as necessidades em duração deste período maiores quanto mais tempo os atletas permanecerem fora dos relvados.
Da mesma forma, repensar o intervalo mínimo entre jogos no retomar das competições para três dias é essencial para permitir aos atletas uma adequada recuperação ao esforço e preparação do jogo seguinte. Isto porque o calendário de jogos, e a presente indefinição com um possível curto intervalo de tempo entre o final da presente temporada e o início da seguinte, poderá potenciar o risco de lesão além da diminuição de performance, o que gera por sua vez indisponibilidade para treinar e jogar, com repercussões desportivas e financeiras para os clubes."

Perguntem aos pássaros

"Já vi este filme. As imagens repetem-se: não passa ninguém nas ruas, a cidade ficou deserta, e os pássaros tomaram o seu lugar nas bordas dos telhados, nos parapeitos das janelas, nos fios de electricidade. Pássaros e pássaros e pássaros. De todas as espécies. Na minha varanda, três gaivotas observam o correr do rio numa ansiedade de peixes. Há um silêncio tão profundo que pode ser que o mundo tenha acabado sem a gente dar por ela, fechados na prisão mais larga de todas as prisões, esta prisão que, de repente, passou a ser a Terra inteira, sem uma esquina onde possamos esconder-nos. 
No filme que vi, tantas vezes aliás, nunca percebi se o mal estava nos pássaros ou em nós. Ou se era um mal absorvido pela própria inconsciência de que ele existe em qualquer lugar onde haja homens e pássaros. Da minha varanda não consigo ver esse mal invisível, inimigo insidioso, mas vejo os pássaros que fixam o Sado em silêncio. Estou cá no alto da torre da resistência, no meu posto, procurando os anjos tortos, esses que vivem na sombra e, como dizia Drummond de Andrade, não tenho teogonia, não tenho parede nua onde me encostar, nem cavalo preto para fugir a galope. Recordo-me das aulas de Física: “Um lugar tão infinitamente compacto que fica sem dimensão chama-se singularidade”.
A singularidade dos pássaros. Sacodem as penas e olham-me como se a culpa fosse minha. Talvez, como no filme, consiga sair de casa num mutismo completo, meter-me no carro e partir para longe. Só que, desta vez, o mal que nos assoberba não tem longe nem distância: está em todos os espaços de todos os espaços, principalmente inserido nas feridas da nossa solidão, que é a de não nos permitirem acarinhar os que vivem no movimento de rotação do nosso amor irrevogável. Drummond outra vez: 
“Que pode uma criatura senão
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?”
Não sei responder. Perguntem aos pássaros..."

O antes e depois...

"Tivemos a felicidade de ver Garrincha transformar um pequeno guardanapo num latifúndio, segundo as palavras de Armando Nogueira (completam-se hoje 10 anos sobre o falecimento deste)…
Fomos felizes por termos tido a oportunidade de termos visto uma nota dez ser atribuída a Nadia Comaneci, por termos tido a possibilidade de assistirmos aos desempenhos de Ayrton Senna e de Michael Schumaker e por termos visto Michael Jordan suspenso no ar (I believe I can fly).
Yelena Isinbayeva, Usain Bolt e Michale Phelps, fizeram-nos delirar… tal como a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016.
Josep Guardiola e os ‘mind games’ de José Mourinho mostraram-nos que nem só da ‘taktiké’ dos gregos vive o futebol…
E poderíamos também considerarmo-nos felizes por termos sido contemporâneos de Livramento, Agostinho, Eusébio, Damas, Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernando Chalana, Manuela Machado, Aurora Cunha, Jorge Fonseca, Telma Monteiro e tantos outros…
Foi preciso um ser minúsculo, na fronteira entre o ser vivo e o ser não-vivo, para transformar o nosso ‘status’ de espectador… e se nada será como dantes, talvez tudo passe a ser como dantes tomando novas qualidades como diria Camões. Foi preciso um ser minúsculo para o futebol dar conta que não poderia existir sem os espectadores, para as televisões descobrirem que não poderiam passar sem os comentadores desportivos e as suas guerras, para a imprensa desportiva dar conta que começava a ter falta de sensacionalismo.
Foi preciso esse ser minúsculo para receitas de publicidade, direitos de imagem e de direitos televisivos no futebol decaírem… Como escreveu ontem Jorge Valdano – outro génio com quem convivemos –, num artigo com o título «o vírus contou a verdade ao futebol», “o coronavírus arrebatou a atenção, a preocupação e os heróis. Os aplausos foram dos estádios para as varandas.” Foi preciso o aparecimento do mesmo, o seu alastramento e a declaração de pandemia para o COI se aperceber que não domina tudo, que não se move impunemente entre grandes cifras, que não dita as regras…
Muito se afirma que nada será como dantes após esta fase, após esta época que atravessamos, que o desporto a isso não escapará e aponta-se para uma grande evolução para formas “desportivas” em que predominarão as ancas no sofá e o comando na mão. Morreu o rei, viva a rainha, quer seja a Playstation quer seja a Xbox. Disso foi exemplo o facto de o Braga ter “transferido” o seu jogo com o Santa Clara para a Playstation e ter convidado o público a assistir através da internet – de um lado Diogo Salomão, do outro Ricardo Horta. A Liga Portuguesa de Futebol pegou nesta ideia e reproduziu a jornada anterior através de duelos individuais de FIFA20, à semelhança do que já havia sido anunciado em Espanha e Itália.
Os e-Sports vieram para ficar. Definitivamente! Mesmo sem a componente “movimento” que é parte integrante do desporto. O lançamento de um livro, entretanto adiado, pelo Comité Olímpico de Portugal, intitulado “e-Sports: O desporto em mudança?” irá levantar uma ponta do véu. A outra ponta do véu já está levantada: em Espanha, os prémios monetários e as audiências online (o Bétis – Sevilha, organizado por estes clubes há duas semanas teve 62 mil espectadores nas plataformas digitais) mostraram-se surpreendentes.
A Allianz, a Red Bull, os M&Ms e a Kia deitaram mãos à obra e não deixaram os créditos por mãos alheias. A publicidade e as mensagens subliminares continuarão a marcar presença nesta nova forma “desportiva” e continuaremos a ser manipulados como consumidores.
Mas os mesmos não estarão isentos, para além destes, de outros perigos. O doping, a fraude e a corrupção poderão marcar presença, tal como a própria exploração infantil e até o suicídio, a violência, a morbilidade ou a morte súbita. Recordamo-nos que em 2005, um casal na Coreia do Sul deixou morrer acidentalmente o seu filho à fome porque, curiosamente, estavam completamente absortos num jogo em que tinham de cuidar de uma criança virtual. Em 2007, na China, um homem morreu depois de jogar 50 horas seguidas ‘World of Warcraft’. Em 2012, em Taiwan, um homem de 23 anos foi encontrado morto num ‘cybercoffe’ após ter jogado durante 10 horas seguidas imediatamente depois de ter terminado um longo turno no seu trabalho.
As novas qualidades de que nos falava o poeta continuarão enfermas e submetidas ao capital. Novas virtudes (?), velhos vícios!"

Benfiquismo (MCDLXXXVII)

Respeito...

domingo, 29 de março de 2020

Cadomblé do Vata (Rennie em casa...!!!)



"Taça dos Clubes Vencedores das Taças - Quartos de Final - 2a Mão -15/03/1994 - Estádio Ulrich-Haberland
Bayer Leverkusen 4 - 4 SL Benfica 
1. Quando o árbitro escocês apitou para o final do jogo, estava 4-4... entretanto, enquanto escrevo isto, podem já ter sido marcados mais 2 ou 3 golos.
2. Ser eliminado depois de um jogo destes, deve dar uma azia do caraças... felizmente foi o Bayer a ir de vela... ao menos têm Rennie à borla.
3. A biqueira do pé direito do Kulkov é foda? Não sei, perguntem ao Franco.
4. Só vou festejar o apuramento para as meias finais, depois da UEFA homologar este jogo... tenho medo que entretanto alguém repare que o SLB disputou os 2 jogos em casa.
5. Numa noite de rigoroso inverno norte europeu, o guardião alemão jogou de calças e o guarda redes cabo verdiano de calções... dento das 4 linhas, a lógica é menos certeira do que as primeiras 8 tentativas de golo do Isaías."

Não vá.Telefone! - Samaris

Que jogos devo rever nesta quarentena? Bayer Leverkusen 4-4 SL Benfica



"Um jogo que terminou empatado não seria, à primeira vista, um daqueles para recordar. Mas o famoso “4-4 com o Leverkusen” não é apenas um empate e não é apenas um jogo. É daqueles que ficam na história do clube, uma epopeia além-fronteiras, que se juntou a outras tantas noites europeias “à Benfica”. Após um empate a um golo na Luz no jogo da primeira mão, as águias estiveram a perder por 2-0 em Leverkusen mas acabaram por dar a volta ao jogo e à eliminatória com uma exibição de raça e muito querer, traduzida num imprevisível e improvável empate 4-4.
Vamos então ao filme do jogo. Estamos no dia 15 de Março de 1994, no estádio Ulrich-Haberland, em Leverkusen. Segunda mão dos quartos-de-final da extinta Taça das Taças. Na primeira mão, no estádio da Luz, empate a um com golos de Markus Happe para os alemães e de Isaías para os encarnados.
A cronologia dos golos nesta fria noite de Março é a seguinte: Ulf Kristen marca primeiro para os alemães à passagem do 24º minuto e Bernd Schuster (sim, esse mesmo) aumenta a vantagem para 2-0 aos 58’. O Benfica não demora a reagir e reduz no minuto seguinte num remate fantástico de Abel Xavier, após assistência primorosa de Rui Costa.
Ainda o Bayer se está a refazer do golo sofrido e já o Benfica empata o jogo. Canto teleguiado de Rui Costa e João Pinto antecipa-se à defesa alemã, cabeceando com oportunismo e fazendo o 2-2 ainda com meia hora de jogo pela frente.
Com este resultado, o Benfica está na frente da eliminatória pela regra dos golos fora, o que faz com que o Bayer se lance com tudo para o ataque em busca do golo que permita virar o tabuleiro a seu favor. A recta final do jogo é electrizante, como o comprova a marcha do marcador: aos 78’, Kulkov faz o 3-2 e coloca o Benfica a vencer pela primeira vez esta noite, concluindo um contra-ataque rápido após (mais um) grande passe de Rui Costa.
Por esta altura já as águias sentem que têm o pássaro na mão mas a verdade é que quase o deixam fugir em apenas dois minutos. Kristen bisa no jogo aos 80’ e Pavel Hapal coloca o marcador em 4-3 a favor dos alemães aos 82’.
Com este resultado, o Benfica está fora da Taça das Taças. Mas os encarnados ainda tinham uma palavra a dizer nesta eliminatória e, a cinco minutos do fim, João Pinto coloca Kulkov na cara do golo, com o russo a bisar no jogo e a colocar o placar num improvável 4-4.
Até final, o Benfica tranca os caminhos para a sua baliza e festeja a passagem à ronda seguinte com os cerca de dez mil portugueses presentes no Ulrich-Haberland. O empate 4-4 permite ao Benfica seguir para as meias-finais da Taça das Taças, onde cai aos pés do Parma FC de Gianfranco Zola, Tomas Brolin e Faustino Asprilla.

Onzes Iniciais e Substituições
Bayer Leverkusen: Dirk Heinen, Foda, Christian Worns, Markus Happe, Lupescu, Tolkmitt (Fischer, 66’), Pavel Hapal, Ralf Becker (Paulo Sérgio, 66’), Bernd Schuster, Andreas Thom e Ulf Kristen.
SL Benfica: Neno, Abel Xavier, Hélder, William, Kulkov, Vítor Paneira, Stefan Schwarz, Rui Costa (Hernâni, 85’), João Vieira Pinto, Yuran (Rui Águas, 89’) e Isaías."

O legado de Jorge Jesus no Benfica

"São dias estranhos os que vivemos. Isolados, escondidos, assustados...e no final unidos numa guerra dura contra um inimigo invisível. No espaço de uma semana as nossas vidas mudaram 180º graus e entrámos numa espécie de "3ª guerra mundial" de consequências imprevisíveis. Nas outras guerras seríamos enviados para uma terra desconhecida com uma arma na mão e o coração na outra. Nesta pedem-nos que fiquemos momentaneamente em casa, sentados no sofá a engordar e a ver séries. Se queremos salvar-nos a nós e ao próximo, é o melhor que podemos fazer. E o futebol? Parou, estagnou, quebrou. Dizia-se que era "a coisa mais importante das coisas menos importantes", mas neste momento nem isso é. Só que o bichinho está cá sempre...no meio de "mitigações", "distâncias sociais", "achatamentos de curva", várias vezes vem à cabeça...e o futebol? Quando voltará ninguém sabe, por isso sobra olhar para trás. Recordar, reviver, relembrar.
Em conversas com amigos por whatsapp, skype e demais plataformas, há um assunto sempre polémico ao qual fujo sempre um pouco, mas porque não falar agora dele? Sim, ele mesmo. A figura. A personagem. The one and only: Jorge Jesus. Figura que ainda hoje, cinco anos depois de ter saído, divide o Benfica e os Benfiquistas. O legado dele foi bom? Devia ter continuado? Tem perdão a saída para o Sporting e as declarações que teve? Deve voltar? Sim, sim, talvez, talvez. Explanemos os argumentos de quem está terminantemente contra:
"Jorge Jesus esteve 6 anos no Benfica e só ganhou 3 campeonatos!" - E quantos campeonatos venceu o nosso Glorioso no passado recente antes de ele chegar? Em 15 anos...um título. Foi neste cenário dantesco que Jorge Jesus entrou e disse que íamos jogar o dobro e o dobro se calhar era pouco. Venceu também 1 Taça de Portugal, 5 Taças da Liga e 1 Supertaça. Levou o clube a duas finais da Liga Europa. Jogávamos todos os anos futebol de altíssima qualidade. E quanto ao "3 em 6"...Sven Göran Eriksson, indiscutivelmente um dos grandes treinadores da História do clube venceu 3 em 5. Taças de Portugal? 1 em 5. Finais europeias? Levou o clube a duas, também as perdeu. E é um grande! Um dos maiores! E Guardiola? Alguém duvida que é o melhor treinador da actualidade? Em 4 anos no City vence "apenas" 2 campeonatos. Já nem vou aos títulos de Klopp, também ele porventura o melhor treinador do mundo. Um treinador não pode ser só definido pelos títulos.
"Jorge Jesus teve sempre grandes equipas e grandes investimentos" - E o rival não teve? Recordo: os 3 campeonatos que Jesus perdeu (um deles porque aconteceu Kelvin caído do céu) foi para um FC Porto que nesses 3 anos, em 90 jornadas perdeu 1 jogo! Fez dois campeonatos invictos! Era o FC Porto de Hulk, Falcão, Lucho, Moutinho, James Rodriguez...um clube que só em dois laterais (Alex Sandro e Danilo) chegou a gastar 26 milhões de euros (em 2011!). O Benfica também investiu forte e feio, embora talvez não tanto como o FC Porto, mas e então? Isso faz um treinador menor? Guardiola e Klopp quanto dinheiro já gastaram em jogadores no City e Liverpool? Mérito dou eu a treinadores que exigem reforços e grandes equipas e não colegas como Rui Vitória ou Bruno Lage que aceitam o que a "estrutura" lhes dá, sem agitar as águas.
"Jorge Jesus não apostava nas camadas jovens. O projecto do Seixal ia morrer" - É verdade. Jesus cometeu muitos erros no Benfica (David Luiz a defesa esquerdo no Dragão...ainda hoje me arrepio com isso!) e um deles foi esse. Não ver o talento de Bernardo Silva é inexplicável. Tal como Cancelo ou talvez Gonçalo Guedes. Não vejo muitos mais jogadores desse tempo no Seixal que ele tenha desperdiçado. E acredito que com tempo ele ia acabar por potenciar esses jogadores, tal como potenciou outros. Quem eleva o jogo de Matic ou Enzo Pérez, não ia fazer igual a Lindelof ou Renato Sanches?
"Jorge Jesus saiu do Benfica para o Sporting!" - É verdade. E bem o "odiei" por isso durante algum tempo, principalmente naquele campeonato 15/16. Mas passado algum tempo, depois da poeira assentar...de quem foi a culpa? Cada vez mais percebi que foi a "estrutura" que o expulsou e não o contrário. Exactamente porque queriam um treinador fácil de manejar e que prometesse maior aposta nas camadas jovens.
"Jorge Jesus não é Benfiquista e é um sacana!" - Também é verdade. Teve atitudes deploráveis, a maior de todas o "safanão" que deu ao Sr. Shéu. Essa é muito difícil de perdoar! O Sr. Shéu (nunca consigo escrever só "Shéu") é uma lenda do nosso clube e merece ser tratado com a maior das vénias. 50 anos a servir o clube! Nem Vale e Azevedo ousou tocar nesse Benfiquista com B grande. Mas acredito que Jesus tenha pedido desculpa e o Sr. Shéu, como grande pessoa que é, tenha aceite. Mas ok, Jesus não é puro...não é um Toni. Não é Benfiquista. Não é um cavalheiro. Isso bloqueia-lhe o regresso ao clube? Quem acha que sim, já olhou mais para cima? Para o Presidente dos últimos 16 anos? Está ali um cavalheirismo e um Benfiquismo intocáveis? Se aceitamos um, porque não aceitamos o outro?
"O ciclo de Jorge Jesus no Benfica acabou. Não deve regressar" - Não e talvez. Na minha opinião, deixar sair Jesus do Benfica foi um erro histórico. Não desastroso, porque o Benfica é tão grande em Portugal que vários treinadores o podem fazer campeão, mas acredito plenamente que se tem tornado num Alex Ferguson nacional neste momento tínhamos vencido tanto ou mais do que vencemos e a nossa hegemonia seria bem mais clara. Porto e Sporting estariam muito para trás. Deve regressar? Aqui está a minha grande dúvida. Que o clube ia melhorar muito o futebol jogado, não duvido. Mas ele ganhou tantos anti-corpos entre os nossos adeptos que não sei como seria após o primeiro empate ou derrota. Como iria o estádio da Luz reagir? E sim...ele é um sacana. E desrespeitou o Sr. Shéu. E foi para o Sporting. E normalmente regressos nunca correm tão bem como a primeira vez. E a primeira vez já não foi perfeita.
Como todas as grandes figuras, Jorge Jesus é polémico. É polémico no Benfica, é polémico no Sporting e se ficar lá mais tempo, talvez também no Flamengo venha a ser polémico. Mas Jesus é já uma figura enorme no futebol Português. Alias...bom, o mundo virou bananas, portanto vou arriscar dizer isto, o que tenho a perder? Foi Jorge Jesus quem destronou Pinto da Costa. Pronto, está dito. Se alguém destruiu a hegemonia do Porto, se alguém quebrou a dinâmica esmagadora de Pinto da Costa (mesmo que momentaneamente, o futuro o dirá) foi Jorge Jesus. Ok e a idade do decano presidente Portista também contribuiu. E Vieira tem os seus méritos. Mas o Benfica muito deve a Jesus. E Jesus muito deve ao Benfica. Depois do divórcio, deviam voltar a casar-se? Talvez sim. Talvez não. A polémica continua e não fui eu que a resolvi neste artigo."

Benfica de Quarentena #19 - Simões

Fever Pitch #35 - Séries de Futebol...

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