Últimas indefectivações

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Eterno

"No passado domingo acordei satisfeito. O Benfica fez (finalmente!) uma exibição agradável e conseguiu um resultado robusto frente ao Gil Vicente para a Taça de Portugal. Mas, pouco depois, sofri (sofremos todos) um grande choque. Faleceu o Eusébio! A sua saúde era débil, sabia-se. Já o víamos muitas vezes em cadeira de rodas - mas isso era devido à debilidade dos seus joelhos, tão massacrados ao longo das épocas em que nos maravilhou nos relvados. Mas não nos imaginávamos sem ele. Ainda na sexta-feira passada estivera com 'ele' no nosso Museu Cosme Damião - naquele maravilhoso espaço em que ele nos aparece como se estivesse ali a falar connosco.
Tive a sorte (e o enorme prazer) de ver Eusébio jogar ao longo das sua maravilhosa carreira no Benfica. Tínhamos uma grande equipa - José Águas, o grande capitão, o Mário Coluna, o José Augusto, o Simões (que linha avançada!), todos, desde o guarda-redes Costa Pereira ao infatigável Ângelo, passando por dois jogadores menos dotados mas que 'comiam a relva' (Mário João e Neto). Mas Eusébio era o Eusébio. Fomos campeões europeus sem ele, é certo. Mas, com ele, ficámos fortíssimos e, para além do título frente ao Real Madrid só não ganhámos mais por manifesta infelicidade... e por duas das finais terem sido jogadas no campo ou no país das equipas adversárias.
Eusébio era (é) inigualável, façam-se as estatísticas que se fizeram. E ainda agora dou por mim a recordá-lo sempre que tempos um livre a 30 ou 40 metros da baliza. Estou a vê-lo tomar balanço bem cá atrás, correr para a bola, chutá-la e ela ir direitinho para as malhas adversárias. E recordo grandes 'cavalgadas' dele rumo à baliza, golos em força, golos em habilidade, golos de toda a maneira.
Mas também o recordo, já retirado do futebol jogado, a representar o nosso Benfica um pouco por todo o Mundo, sempre respeitado, sempre admirado. Um grande embaixador.
Um grande embaixador que nem sempre foi bem tratado no Benfica. E não foi por acaso que, apesar de funcionário do Clube, surgiu a poucas horas da história votação que derrubou Vale e Azevedo a dar a cara pela candidatura de Manuel Vilarinho, no último jantar da campanha eleitoral. Até aí ele prestou um grande serviço ao Benfica.
Foi um domingo bem triste este. Que, no próximo, a nossa equipa possa homenagear Eusébio ganhando ao FC Porto. Como ele gostaria!..."

Arons de Carvalho, in O Benfica

A última vez que vi Eusébio

"Vi jogar o Eusébio vezes sem conta: é um privilégio da minha idade, que é também a idade de Eusébio da Silva Ferreira, da extracção de 1942. Naquele tempo, o Benfica era das poucas alegrias do povo e Eusébio veio acrescentar alguma coisa ao regozijo que era uma vitória com as cores do Benfica nas camisolas. Quem não viu jogar o Eusébio perdeu alguma coisa que jamais terá: quando ele pegava na bola e arrancava na direcção da baliza contrária começava a festa no Estádio, que frequentemente explodia no momento da concretização. Eusébio era o futebol no seu melhor: técnica, força, talento, habilidade, sentido do jogo e da baliza, potência e colocação do remate. Não há ninguém que se compare a Eusébio. Vi ao vivo ou pela televisão muitos dos melhores jogadores de futebol moderno, não vi ninguém como Eusébio.
A última vez que vi Eusébio foi há menos de dois meses. Lá estava ele, com a modéstia que só os melhores são capazes de ter, a falar das grandes paixões da sua vida: a mulher e as filhas, o Futebol, e o Benfica. Falava com a bonomia própria das grandes almas e contava histórias da sua vida e da glória do seu Clube, falava dos companheiros de equipa, do Senhor Coluna e dos outros, de adversários da sua constelação - Yashin, Di Stéfano, Puskas, Pelé -, contava episódios com grande sentido de humor, relatava acontecimentos com vivacidade plena da memória, nos quais convivia com naturalidade com grandes sucesso do Futebol.
Agora vou fixar esse encontro como a última vez que vi Eusébio. A última, até à próxima. Porque esse encontro, no qual Eusébio parecia mesmo que estava ali, aconteceu numa visita ao Museu Cosme Damião, onde Eusébio continua e vai continuar vivo."

João Paulo Guerra, in O Benfica

O nosso Rei

"Sabíamos que um dia teria de acontecer. Porém, nunca estamos devidamente preparados para ver partir aqueles que nos são queridos. Achamos sempre cedo demais, mesmo quando o tempo vivido foi suficiente para deixar uma marca profunda. Eusébio deixou uma marca profundíssima, quer no Benfica, quer no País. Pelo talento que fez dele um dos maiores jogadores da história do Futebol mundial, e também pela dimensão humana que sempre soube aliar ao sucesso que atingiu. Foi a conjugação dessas duas vertentes que o transformou numa lenda. É esse traço incomum que não deixa espaço a quaisquer comparações, podendo, e devendo, servir de exemplo a todos - dentro ou fora do Desporto.
Eusébio é Benfica escrito com sete letras diferentes. É, e sempre será, o nosso supremo Rei. Não foi ele que criou o Clube, mas foi ele que criou o Clube grandioso que a minha geração herdou. Um mero olhar estatístico permite facilmente reconhecer um Benfica antes, e noutro depois, do Pantera Negra.
Infelizmente, já não cheguei a tempo de o ver jogar ao vivo. É algo que lastimo, e que, confesso, me faz sentir de certa forma amputado no meu benfiquismo.
Também não privei com ele. Deu-me um inesquecível autógrafo em 1983, à porta do antigo Estádio da Luz; e apertei-lhe a mão, bastantes anos mais tarde, num ocasião de circunstância.
Mas não é preciso muito para se conhecer Eusébio, tal o seu gigantismo, tal a sua transparência, tal a sua simplicidade. O King foi, é, e continuará a ser, demasiado grande (e para se ser tão simples é preciso ser mesmo grande), como jogador, e como figura histórica nacional e internacional. Sobrepôs-se ao País. Sobrepôs-se até ao próprio Benfica. Foi único. É único.
Muitas palavras têm sido ditas, e escritas, nos últimos dias, a seu respeito. Dir-se-ão, e escrever-se-ão, muitas outras. Mas todas elas serão sempre insuficientes para traduzir fielmente o seu legado.
A fasquia que Eusébio nos deixa é altíssima. Teremos agora de saber estar à altura da sua memória. É esse o nosso desafio."

Luís Fialho, in O Benfica

Uma bola, um país

"A vida é como é, somos o que somos e como somos, a história do nosso percurso. Aprendi a gostar de futebol com a autoridade do Artur, a impetuosidade do Taí, a fogosidade do Almeidinha e a liderança do Barbosa. O perfume do Alves, com as correrias do Queiró e do Palhares por perto. No imaginário, a classe do Júlio e as cambalhotas do Folha. A relva do Bessa era a mitologia que a infância e a primeira adolescência tinham por certa. Nesses sábados excitantes, lá vinha o passado de uma glória desconhecida. A falha num livre à entrada da área, o desperdício de um pontapé a “léguas” do alvo, e o desabafo dos “entendidos” da cadeira do lado: “Olha este, queria marcar um golo à Eusébio!” O regresso a casa trazia a explicação sobre o ícone, ainda tão perto e já tão longe.
Nunca fui de hiperbolizar mitos, seja em vida, seja depois do desaparecimento. Racionalizo e relativizo. Contextualizo e integro o relevo. Eusébio possui, todavia, o indiscutível dom da longevidade da memória: de um tempo e de uma identificação. Creio que Eusébio se ofereceu para uma espécie de “aquisição nacional”. Isso ultrapassou gerações. Agigantou-se, agigantou (de um certo modo) a pequenez de um país atrasado, fechado e diminuído e, depois, entregou-se à vida e ao que a vida lhe pudesse dar. Ultrapassou as fronteiras que se reservam (mesmo) a um predestinado. Mais tarde, quando saí do país para estudar, brilhavam o Sousa e o Rui Costa nas relvas italianas. Certo dia, um colega de residência franco-italiano, numa longa viagem de comboio, dissertava sobre os dons dos novos portugueses da “bola”, o início da geração de ouro. “Sem serem Eusébios, nota!” “Como assim, se nunca o viste a jogar?” “Muitos ficaram a gostar de futebol por causa dele. O que já vi e o que já li bastam-me. Não era bem um jogador, era mais um prolongamento de uma bola em campo. Fez muito por Portugal, não achas?” Surpreendido, acenei, afirmativo. Como se acena a algo de inexorável. Que se impõe por si.
A partida de Eusébio impôs novamente Eusébio. Redescobriu-se a sua dimensão. Sem que houvesse mesmo necessidade das metáforas infelizes, das tiradas senis e dos protagonistas de última hora. Mas, ao menos, como Eusébio bem merecia, sem que se notassem os fanáticos obsessivos das “cores”. E sem necessidade nenhuma de se discutir o Panteão. Isso é tema de políticos e de leis. Do que percebi ao longo dos anos, Eusébio não precisará disso. Consumiu-se em viver superiormente o escudo da bandeira. Foi por isso que o povo, longe da política e das leis, lhe deu o “panteão” da imortalidade."

Golo ao minuto 13, tinha de ser, não é?

"Eusébio não ouviu os que não respeitaram o 'seu' minuto de silêncio. Toda a gente sabe que vozes de burro não chegam ao céu...

Estádio da Luz cheio como um ovo para ver o clássico que encerrou a primeira volta da Liga 2013/14, ao mesmo tempo, dizer adeus a Eusébio (como se isso fosse possível...), ou seja, uma tarde de emoções fortes. Aos jogadores de Jorge Jesus a nação encarnada exigia uma vitória, em nome do Rei, e esta acabou por concretizar-se, categórica. Na tarde em que todos foram Eusébio (feliz a ideia de colocar em todas as camisolas benfiquistas o nome do King), nenhum jogador encarnado se cortou, primando (se calhar sem o saberem) pela entrega que esteve na base da expressão, velha de muitas décadas, jogar à Benfica.

O MINUTO 13
Rodrigo coloriu o placard, com um pontapé eusebiano, quando o relógio de Soares Dias navegava pelo 13.º minuto. Devia estar escrito nas estrelas que o número 13 tinha de ficar associado à tarde do adeus, na Luz, a Eusébio.
No Mundial de 19966 os números dos jogadores da Selecção Nacional foram sorteados e a Eusébio calhou o 12. O King não gostou e pediu a José Augusto, que tinham ficado com o 13, para trocarem. E assim foi, Eusébio não quis saber da crença de azar associada ao 13 e foi com esse dorsal que conquistou Inglaterra.
Ontem, foi ao minuto 13 que o Benfica passou para a frente no marcador, em homenagem, tenho a certeza, ao número 13 mais famoso de sempre: Eusébio.

O MINUTO 71
Passava o minuto 71 (foi com 71 anos que Eusébio se despediu da vida terrena) quando o estádio da Luz explodiu, cantando, «Tu és o nosso Rei, Eusébio». Foi mais um momento intenso, quiça para entrar na rotina dos adeptos encarnados, uma tradição que pode ter começado ontem, forma eficaz de homenagear o King em todas as partidas.

O MINUTO 90+3
Quando acabou o jogo, os futebolistas de Benfica e FC Porto, que durante a partida souberam respeitar-se, trocaram camisolas e cumprimentos, num exemplo de fair-play que só pode ter agradado a Eusébio. E nem algum ruído durante o minuto que se queria de silêncio deve ter incomodado o King, até porque vozes de burros não chegam ao Céu.

(...)

EXEMPLO
Em todo o processo decorrente da morte de Eusébio, o Sporting comportou-se com inexcedível elevação. E o comportamento australopiteco de uma minoria, no Estoril, não deve beliscar, minimamente, a nação leonina. Aliás, como imagem prova, Eusébio sempre respeitou o Sporting (até mal-entendidos foram, em tempo útil, resolvidos). A ponto de não hesitar em envergar o jersey verde-e-branco, que trocou com o seu irmão Hilário da Conceição (uma das maiores figuras da história do Sporting), após uma final da Taça de Portugal.


Vale a pena lembrar e relembrar
«Eusébio não foi apenas um dos melhores jogadores de sempre. Foi um desportista, como provou ao aplaudir Alex Stepney pela sua defesa na final da Taça dos Campeões Europeus...»
Sir Bobby Charlton, ex-jogador do Manchester United
A três minutos do fim do tempo regulamentar da final da Champions de 1968, (Wembley, Manchester United-Benfica), Eusébio isolou-se e disparou fortíssimo. Stepney, guarda-redes dos red devils, fez a defesa de uma vida e o jogo foi para prolongamento (que os ingleses venceram). Naquele instante, que fez Eusébio? Bateu palmas a Stepney...

(...)"

José Manuel Delgado, in A Bola

Um triunfo categórico

"Os encarnados eclipsaram o FC Porto como há muito não se via.
Se a vitória do Benfica era desfecho a considerar, de entre as outras hipóteses que restavam, igualmente aceitáveis, já a forma clara como ela foi alcançada é que não estaria nas previsões gerais. O FC Porto sempre constituiu adversário de respeito e, mesmo em fases ditas de menor acerto, soube dar a volta à situação e, em muitos casos, impor a sua lei. Na Luz que fosse. Não foi, contudo, o caso de agora, como já não tinha sido no jogo de Alvalade, embora aí, com um "nulo" milagroso, tivesse conseguido evitar o desaire.
Depois de um minuto de silêncio, apenas interrompido pelos energúmenos do costume, deu-se início à função. As duas equipas apresentaram os "onzes" que, com ligeiríssimas alterações, já se esperava. No Benfica, Jesus manteve Oblak na baliza, Matic e Enzo foram o "pulmão" do conjunto, que contou com a ajuda de Markovic e Gaitán, nas faixas, além de Rodrigo e Lima, na frente. O FCPorto inovou apenas com a chamada de Otamendi (saiu Maicón), na defesa, conservando Lucho e Fernando no meio, Carlos Eduardo na posição de apoio a Jackson e Varela e Licá, nos flancos.
O Benfica mostrou desde logo maior solidez na manobra a meio-campo e se um centro de C. Eduardo ainda provocou algum alvoroço, Markovic depressa se encarregou de o fazer esquecer. O sérvio teve uma arrancada, como aquela que fizera em Alvalade, só que aqui, em vez de concluir com remate, terminou com um passe de génio para Rodrigo. Alguma lentidão de Danilo e um pontapé fabuloso do espanhol fizeram o resto. Aos 13', o Benfica passava a ganhar por 1-0 e a denunciar então o à-vontade necessário para se impor a um adversário muito encolhido e sem grandes ocasiões para servir com perigo o desamparado Jackson, ainda assim o mais perigoso dianteiro azul e branco.
Ambos os técnicos não mexeram nas equipas ao intervalo e seria o Benfica a reiniciar melhor o jogo, através de uma maior clarividência na zona intermediária, que permitia aos encarnados sair com mais frequência com a bola controlada. Markovic voltou a testar Helton e, da pressão então exercida, nasceu o 2-0, na sequência de um canto de Enzo. Foi seu autor Garay, antecipando-se a Mangala e Helton, muito mal na saída da baliza.
Toque a rebate no FC Porto. Entrou Quaresma, que assim regressava ao futebol português após longos anos de ausência, mas esteve longe de constituir solução. De resto, a partida atravessava nessa altura o seu momento mais efervescente. O árbitro, até então muito contido nos cartões, mostrou quatro de uma assentada, três dos quais para os jogadores visitantes.
Mas não podem estes queixar-se do excesso de cartolina, já que uma mão clara de Mangala, em plena área, ficou por assinalar, o que poderia ter tornado tudo ainda mais difícil para o FC Porto. Paulo Fonseca tentou ainda injectar frescura, com a troca de Lucho por Josué, mas a expulsão de Danilo, por acumulação (simulou "penalty" em lance com Garay), voltaria a deitar tudo a perder.
A ganhar por 2-0, o Benfica fez o que se impunha. Prescindiu de um avançado, no caso Rodrigo, entrando Rúben Amorim para reforçar o flanco e cortar de vez qualquer hipótese a um FC Porto, reduzido a 10, já sem grandes ideias nem capacidade física ou anímica para inverter a situação. Há já muito que o Benfica não ganhava ao FC Porto tão claramente na Luz."

Pequenos grandes sinais da vitória do Benfica

"Jorge Jesus não alterou a identidade da equipa. Porquê? Aprendeu? Quem fez a equipa foram os adeptos? Ou foi uma resposta a Vítor Pereira?
Não foi um Benfica – Porto igual a tantos outros! Foi muito diferente. Jorge Jesus não inventou! Por si só já seria a nota principal do derbie. Fica a dúvida se tem aprendido ou deixou-se ir pelos ‘pedidos’ dos adeptos. Ou como forma de reagir aos comentários de Paulo Fonseca ou Vítor Pereira. A verdade é que surtiu efeito. Benfica, ao contrário dos anteriores derbies, demonstrou mais querer. Melhor organização. E como costumava dizer o antigo jogador e treinador holandês Johan Cruyff, no futebol vence quem comete menos erros.
Vamos por partes. A carga emocional antes do jogo poderia beneficiar o Benfica? Poderia, mas não era garantido. Dependeria se Jorge Jesus iria ou não incutir essa vertente nos jogadores. Somos levados a crer que sim. E muito. Embora derbie seja derbie e o ponto motivacional estivesse certamente elevado para os dois lados. Nos anos anteriores, ser em casa do Benfica nunca foi sinal para que o Porto não apresentasse a mesma vontade de vencer que o Benfica. Ontem não aconteceu. O resultado do Sporting convidava o Porto a aceitar que o empate na Luz seria um mal menor? Parece. Se num Setúbal – Benfica critiquei Jorge Jesus por afirmar que o Benfica tinha apresentado uma dinâmica interessante quando o primeiro remate à baliza tinha sido aos 52’ de jogo, ontem o primeiro remate portista é feito no tempo de desconto da 1ª parte e em fora-de-jogo. Até lá apenas um lance na pequena-área dos encarnados mas sem remate ou algo parecido. E Paulo Fonseca falou em jogo equilibrado…
Seria interessante perceber porque nos últimos 15 minutos, com um homem a menos, o Porto teve mais posse de bola. E construiu alguns lances. Porque o Benfica optou por entregar constantemente a bola e chutar para a frente. Abdicou da sua identidade até ali. Nunca conseguiu de facto ‘matar’ o jogo. E Jorge Jesus, o Fejsa ia entrar aos 92’ para quê? Ser mais um André Gomes?
Jorge Jesus teve mérito na forma como alguns jogadores se entregaram para melhor? Gaitan e Markovic estiveram melhores a defender do que é usual. Carga emocional? Mediatismo do jogo? Mercado? A verdade é que são jogos diferentes, mas ao analisarmos as 14 jornadas anteriores e ao ver o jogo de ontem, estou convencido que ambas as equipas vão perder pontos. Ainda estão muito inconstantes. Benfica prepara-se para perder um ou mais jogadores. Porto busca ainda o equilíbrio e não saberemos se existirão mais entradas. A inclusão de Quaresma com poucos dias de treino e após uma longa ausência, é uma mensagem bem explicita para o balneário de descontentamento.
Neste momento temos um campeonato a três. Dá a ideia que temos um Benfica e Porto ainda aquém das expectativas e um Sporting que tem conseguido potenciar quase ao máximo as suas peças. Vem aí uma segunda volta agitada. Algumas saídas ou entradas e a juntar a isso, as competições europeias para o Benfica e Porto. Resta saber se na altura decisiva quem é que vai estar mais preparado emocionalmente."


PS: Coloquei aqui esta crónica essencialmente devido ao sub-título!!! É engraçado alguém reclamar que finalmente o Jesus não inventou num Clássico, como justificação para a vitória de ontem, quando na maior parte das vezes, a grande reclamação dos Benfiquistas com o Jesus, é exactamente a teimosia do treinador, de nos jogos 'grandes', não optar por uma estratégia mais conservadora (eu próprio já o fiz, algumas vezes...). Mais irónico ainda, é saber que esta conversa foi (e é) alimentada pelos últimos treinadores dos Corruptos, como justificação para os seus triunfos... tentando esconder as Proençadas, Xistradas e afins!!!
O único jogo dos clássicos que o Jesus 'inventou' - negativamente -, foi quando colocou o David Luís a defesa-esquerdo... e não devemos esquecer que para a Taça de Portugal, quando 'inventou' o César Peixoto ao lado do Javi Garcia a 'invenção' até saiu bem!!!
Ontem além de toda a carga emocional devido ao desaparecimento do King, a grande diferença no Benfica esteve na capacidade do Nico e do Markovic em fechar as alas; e no posicionamento do Maxi e do Siqueira que praticamente não subiram, e assim os Corruptos não aproveitaram as costas dos nossos laterais... como principal consequência o Matic e o Enzo, não foram obrigados a compensar as subidas dos laterais, algo que nos jogos anteriores faziam com frequência, abrindo espaço no meio... houve duas excepções na 1.ª parte de ontem, quando o Lucho recebeu a bola no meio, entre-linhas, completamente sozinho, e em ambas as situações, um dos nossos médios estava deslocado para a lateral...

domingo, 12 de janeiro de 2014

Justiça Divina !!!

Benfica 2 - 0 Corruptos

Grande vitória, grande ambiente, grande jogo, nem sempre bem jogado é verdade, mas com emoção, e muita raça... O Benfica, por todas as razões envolventes, foi muito superior, mas não é fácil jogar contra 14 !!! Invertendo as situações, com esta envolvência emotiva e técnica, jogando no Dragay, teríamos uma goleada histórica, com vários jogadores do Benfica expulsos...!!! Aposto...!!!

A(s) homenagen(s) ao Deusébio foram bonitas - o minuto de silêncio não foi totalmente respeitado pelos Corruptos, ao contrário do que está a ser veiculado, mas também não podemos ser muito exigentes... -, e o nosso Rei correspondeu!!! Pois, agora em novas funções, lá em cima, só pode ter sido o nosso Eusébio a dar um toquezinho - a quem tem responsabilidades no assunto... -, proporcionando um daqueles momentos de Justiça Divina: quando um penalty roubado ao Benfica (mais um...), foi transformado, na jogada imediatamente a seguir, num grande golo, após fuzilamento de cabeça, por parte do Garay!!! Lindo...!!! Deu até para gritar em jeito de desafio: anula este agora, anula...!!!
A grande dúvida era a utilização do Oblak e o joven Eslovaco não tremeu, também não teve muito trabalho, mas transmitiu segurança.
A defesa esteve implacável, a única oportunidade digna desse nome dos Corruptos, é um lance onde o Jackson está 1 metro em fora-de-jogo (mais uma vez!!!), mas desta vez a bola foi ao lado...!!!
O Matic soube responder à mentira publicada no Nojo (não sei como é que Benfiquistas continuam a comprar aquele papel higiénico!!!), até admito que o problema no joelho do Matic lhe tivesse a preocupar, agora ameaçar não jogar devido a suposto futuro contrato com o Chelsea, é absurdo. Grande jogo... Com o complemento perfeito Enzo: enorme!!!
Os alas tiveram menos participativos do que costume, as responsabilidades tácticas, equilibrando o número de jogadores no meio-campo assim obrigou... O Markovic no início andou um pouco distraído, mas com o decorrer do jogo, foi-se envolvendo mais no processo defensivo (com aquela excepção no início da 2.ª parte), e acabou por ser decisivo na ajuda ao Maxi... No golo do Rodrigo esteve fenomenal, o passe é de génio, de uma dificuldade enorme... Quando se apanha, com a bola controlada de frente para a baliza, é perigosíssimo, só tem que aprender a largar a bola no momento certo. O Nico talvez por não ter treinado durante a semana, retraiu-se um pouco ofensivamente, mas cumpriu...
O Rodrigo fez um jogo de enorme de esforço, correu, correu, correu muito, não foi só o grande golo, foi importantíssmo na marcação ao Fernando e nas subidas dos centrais dos Corruptos... O Lima continuou a demonstrar falta de confiança na finalização, mais do que qualquer outro, está a sentir a falta do 'amigo' Cardozo!!!
A arbitragem foi vergonhosa, como era esperado. O único lance que os Corruptos se podem queixar, é no erro em não ter dado a lei da vantagem, beneficiando o infractor, neste caso o Matic, mas a ânsia em mostrar um amarelo a um jogador do Benfica, cegou a visão periférica do Ladrão...!!! O fiscal-de-linha do lado do banco do Benfica, foi um grande aliado... a melhor oportunidade dos Corruptos é um fora-de-jogo escandaloso, que só por acaso não foi golo.. mas houve outros!!! Andou a perdoar amarelos, atrás de amarelos durante o jogo quase todo, é inacreditável como é que o Fernando só leva um amarelo nos descontos!!!

Campeões Nacionais... vários títulos !!!


Hoje, em Elvas, foram vários os Benfiquistas da nossa secção de atletismo, a festejar o título de Campeão Nacional de Estrada: o Rui Pedro Silva, e Dulce Félix venceram os títulos individuais, mas ambas as nossas equipas - masculinos e femininos - também se sagraram Campeões colectivos... Os Juniores masculinos também estiveram em grande, com vitória individual do André Pereira...


Vitória


Benfica 77 - 58 Algés
18-17, 23-10, 19-11, 17-20

Vitória esperada, e decidida cedo, evitando sobressaltos... Foi o regresso de vários Benfiquistas à Luz, alguns mais bem amados do que outros!!!

ADENDA: Espero que a lesão do Jobey Thomas não seja grave...

Bom jogo...


Benfica B 4 - 2 Beira-Mar

Mais um jogo agradável da equipa B, demonstrando mais uma vez as qualidades do nosso plantel, onde às vezes os jogadores se esquecem de jogar simples, complicando o fácil... parece que estão a jogar para a bancada (o Calado referiu exactamente isso...).
Defensivamente também confirmámos as nossas debilidades, e por isso o resultado esteve em aberto até aos descontos (4.º golo marcado aos 93 min.), até porque no ataque voltámos a falhar golos feitos, em catadupa, com especial destaque para o Cavaleiro!!!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Alma

Boa entrada em 2014


Ac. Espinho 0 - 3 Benfica
20-25, 21-25, 14-25

Bom regresso ao Campeonato, com uma vitória esperada sem sobressaltos...
A notícia deste novo ano, foi a contratação do Marcel Gil, para precaver a ausência do Zelão. É um bom jogador, para o nível médio do Campeonato Português, mas para a Final do Campeonato vamos ver...!!! Vi os recentes jogos da Selecção, e o Marcel pareceu-me ter melhorado no Bloco, mas continua pouco móvel, algo natural devido à altura...

Desilusão


Oliveirense 4 - 3 Benfica

Péssima entrada na 2.ª parte, a equipa perdeu organização, começou a atacar sem cabeça, com muitas jogadas individuais, e muitos erros de passe... Juntando a isto, voltámos a falhar todas as oportunidades de bola parada...

A partir do momento que se soube qual seria a dupla de arbitragem, era óbvio que só um Benfica super-inspirado poderia ganhar, e não foi isso que se viu... Os jogadores e a equipa técnica já têm experiência suficiente para saber como é que isto funciona... Mais uma vez, o adversário do Benfica, não chegou à 10-ª falta, como acontece em quase todos os jogos, mesmo quando a principal arma defensiva contra o Benfica é o excesso de agressividade!!! Nada de novo... Agora espera-se é que a equipa do Benfica saiba reagir em campo, a isso...

Digam o que disserem, tanto nas bolas paradas, como na finalização, nota-se e muito a ausência do Luís Viana!!!
Ainda é muito cedo, mas com esta derrota (e os dois empates...) corremos o risco de ficar afastado do título ainda na 1.ª volta!!!

Má entrada em 2014


Leões de Porto Salvo 3 - 2 Benfica

Muito má primeira parte, 3-0 ao intervalo espelham bem a má exibição da equipa... E quando além de não se jogar bem, juntamos péssimas decisões na finalização, o resultado não pode ser bom...
A perder apostámos no 5x4 cedo (não fosse a absurda expulsão do Hemni, provavelmente a aposta teria sido ainda mais cedo!!!), chegámos ao golo de penalty (mas teve que ser o 2.º árbitro a marcar porque outro...), e ainda marcámos o 2.º, mas já não deu... Apesar destes dois golos, continuamos a ser muitos previsíveis a atacar o 5x4!!!
A já referida expulsão do Hemni, o amarelo ao Joel, e a capacidade do Leões em não fazer a 6.ª falta, são episódios ridículos (mesmo assim o banco do Leões passou o jogo todo a 'chorar'... pressionando os árbitros de forma nojenta), mas o Benfica tem que jogar melhor... É verdade que este Leões têm boa equipa... na semana passada estavam a vencer os Lagartos em Loures a 40 segundos do fim, e só perderam com um golo depois da buzina final... Mas repito, o Benfica tem que jogar melhor.
A paragem de Natal, parece que fez mal à equipa...

Ouviam-se em Toumba gritos contra os coronéis...

"Em 1973, o Benfica visitou pela primeira vez a Grácia. Dispoutou e venceu o Torneio de Salónica contra o Olympiakos e Aris, mas não se encontrou frente a frente com o seu adversário europeu de Fevereiro.

Quando eu era miúdo, dizia-se Tissalónica. Mas a verdade é quando eu era miúdo também se dizia Glásgua, Francoforte ou Mogúncia. Assim vão as glórias do Mundo...
Em Agosto de 1973, o Benfica chegava pela primeira vez à Grécia, depois de já ter calcorreado os sete cantos do planeta. Aceite-se. A Grécia estava ainda longe de ser um país do Futebol, embora, curiosamente, tenha sido à Grécia que os holandeses foram buscar muitos dos nomes dos seus clubes, como o Ajax ou o Heracles, por exemplo. Entusiasmo havia muito; qualidade rareava.
O Benfica foi convidado então para disputar o Torneio de Salónica, como agora se diz mais prosaicamente.
Capital da Macedónia, da outra Macedónia, não da agora independente que fez parte da antiga Jugoslávia, mas a Macedónia de Alexandre o Grande, aliás, meio irmão de uma tal de Tissalónica, casada com o rei Cassandro. E assim se explica o nome da cidade que o Benfica visitará outra vez em Fevereiro de 2014, quarenta anos e alguns meses após a tal visita inaugural.
Segunda cidade da Grécia, local onde se situa a famosa Torre Branca, também ela sinal de poder de um país a seu tempo reunificado, recebeu nesse Verão ao qual já fizemos referência o tal torneio em que o Benfica participou, defrontando primeiro o Olympiakos, no dia 31 de Agosto, e em seguida o Aris de Salónica, no dia 2 de Setembro.
Duas vitórias sem espinhas, como sói dizer-se. Contra o Olympiakos, houve o episódio meio célebre de ver Humberto Coelho jogar a avançado-centro, a par de Nelinho e Moinhos, de início, e depois com Nené no lugar de Moinhos. Humberto marcou um golo. Um dos três (3-1), cabendo os outros a Nelinho e Nené.

Paladinos da resistência
Diziam as crónicas da altura que o troféu para o vencedor do Torneio de Salónica era uma belíssima taça, mas de latão. Não sei, nunca a vi. Talvez esteja hoje em dia no Museu, prometo que se estiver lhe vou dar uma olhadela atenta. Ao que se consta, igualmente, cada jogador recebeu como prémio pela vitória no torneio a verba de 19 contos de reis, soma nada dispicienda para os tempos que se viviam.
Seja, adiantei-me. Antes de meterem ao bolso a maquia, os jogadores do Benfica tiveram de bater a outra equipa grega, o Aris de Salónica que viria mais tarde a causar amargos de boca aos 'encarnados', aí já a doer, numa eliminatória europeia.
Humberto Coelho, o «capitão» voltou a jogar no ataque, desta vez com Nelinho e Artur Jorge como companhia inicial, para depois entrarem para os lugares destes Moinhos e Nené.
Os golos (2-0) foram de Messias e de Pedroto, uma estria na primeira equipa, Bernardino Pedroto, como está bem de ver, e não José Maria, de quem sempre se disse ser filho, até o próprio o assumiu em entrevista à velha «A Bola» mas sem confirmações por aí além.
Pedroto não teve grande futuro no Benfica, não tardaria a rumar a Guimarães, viria a ter um futuro interessante, isso sim, como treinador, sobretudo em Angola. O Benfica, esse, tem um passado fantástico e terá sempre o futuro que os seus adeptos quiserem. Para já, no futuro futuro imediato, vem aí o Pan-Tessalonican Athletic Club Constantinopolitans, o PAOK, herdeiro do antigo Hermes, fundado pela comunidade grega de Pera, em Istambul, em 1877. Com o advento da guerra greco-turca, os gregos da Turquia viram-se obrigados a regressar a casa. Os que se instalaram em Salónica, fundaram o AEK, que não tardou a mudar de nome para PAOK. Os que preferiram Atenas fundaram o AEK, que não em deu PAOK e se manteve orgulhosamente AEK de Atenas.
Nesse ano de 1973, no qual o Benfica visitou Salónica, mas não defrontou o PAOK, este vivia a sua fase de afirmação no Futebol grego, pondo em causa o domínio dos clubes atenienses de uma forma como os seus conterrâneos Aris e Iraklis nunca foram capazes de fazer.
E mais ainda: no tempo da ditadura da junta militar, instalada na Grécia entre 1967 e 1974, mais conhecida pelo Regime dos Coronéis, o PAOK tornou-se um paladino da resistência. O Estádio de Toumba, um bairro do leste da cidade, foi testemunha de slogans anti-regime que fizeram dos adeptos do PAOK um exemplo de força e de coragem.
Por isso, por mais fanáticos que sejam, merecem todo o respeito."

Afonso de Melo, in O Benfica

O grande clássico

"Todos esperam com enorme expectativa o clássico de domingo. Conjugou-se tudo para preparar um grande desafio: as equipas têm vindo a melhorar, estão empatadas no topo da Liga e golearam os seus adversários no último jogo.
Mas há muito mais ingredientes a apimentar o clássico. Logo à partida, as dúvidas sobre os guarda-redes: no Porto jogará Helton ou Fabiano? E no Benfica jogará Oblak ou Artur? São decisões difíceis, até porque muitos portistas gostariam de ver Fabiano na baliza – e conhecem-se as reservas de Jesus em relação a Artur (que cometeu sempre erros nos jogos contra o FC Porto).
E depois há as dúvidas que pesam sobre os dois treinadores. Paulo Fonseca ainda não convenceu os portistas mais exigentes; e Jesus perdeu a confiança dos benfiquistas mais cépticos, que dizem que o seu prazo de validade acabou.
Assim, se o Porto perder, Paulo Fonseca ficará em maus lençóis. E Jesus está obrigado a ganhar, até para não se dizer que falha sempre nos momentos decisivos. O certo é que tem sido infeliz em ocasiões capitais, e este ano continua a não ter sorte: bastava o Benfica ter Cardozo e o Porto não ter Jackson para a música ser outra.
Como condimento suplementar, este clássico acontece 15 dias depois de um Sporting-Porto em que os lisboetas vulgarizaram a equipa nortenha. Há muito que não se via o FC Porto ser dominado com tanta clareza. Portanto, ainda há essa curiosidade: o Benfica conseguirá ou não fazer melhor do que o seu vizinho da Segunda Circular?
Com tantas dúvidas e interrogações, o clássico promete imenso. O que não significa que seja um grande jogo. O medo de falhar pode inibir as duas equipas – e assistirmos a um desafio sensaborão, com grande aglomeração de jogadores a meio campo e pouca emoção junto às balizas.
Há um ano previ uma vitória do Benfica e enganei-me. Agora não faço previsões, mas digo: ao Benfica só interessa ganhar. Para ser um candidato credível ao título, tem de mostrar que é capaz de bater o Porto na Luz. Até para dedicar a vitória a Eusébio – que, onde quer que esteja, está a torcer pela sua equipa do coração."

A força do Bruno

"O Sporting e Bruno de Carvalho (BdC) deram a novidade antes de fechar 2013: a elaboração de um documento para a revisão da legislação desportiva e dos regulamentos do futebol profissional, entregue aos partidos na Assembleia da República, ao ministro da Administração Interna, ao secretário de Estado do Desporto, à FPF, à Liga e aos seus clubes. A iniciativa é de louvar, tendo em conta que BdC chegou há muito pouco tempo ao contacto directo com as “nuances” jurídicas das competições e os regimes das contratações. É ainda de louvar quando BdC assume que o documento pode ser motor de uma discussão futura: não é um produto acabado, mas um ponto de partida para construir consensos com os outros clubes e dar uma importante achega nos empreendimentos agendados pelo Governo para o regime jurídico das federações desportivas, para a profissionalização da arbitragem, para a disciplina legal do treinador e para as apostas “on line”. “Ouço dizer que falo e não apresento soluções – já o fiz”, disse BdC, com o propósito subjacente de trazer liderança ao Sporting, como “grande”, nos processos de decisão do futebol português. 
Não tive acesso ao conteúdo, o que me impede de ir mais longe para além do que BdC revela. De todo o modo, parece-me inequívoca a actualidade dos temas e das propostas: 1) regulação da intervenção dos “fundos de investimento” (muito importante a lógica de uma parceria “win-loose” e da partilha pelos fundos dos custos salariais dos jogadores); 2) modificação das regras sobre os proveitos dos “empresários” de jogadores; 3) alteração da fiscalidade para aumento da competitividade com os demais campeonatos; 4) revisão dos princípios de tutela laboral dos clubes formadores e de seguros dos atletas; 5) combate à opacidade na nomeação e classificação dos árbitros. E, sendo actuais, por que não aproveita a Liga este balanço para desafiar os clubes a completar as ideias do Sporting e a marcar a “agenda”, em especial com aqueles clubes que sempre andam com as “reformas” na boca?
BdC não gosta do “sistema” que encontrou. Afirmou: “Não posso aceitar que há 30 anos se diga que campeonatos são decididos antes de começarem! É um sistema opaco, obscuro e andamos todos contentes. É o mesmo que ir jogar Football Manager, entrar com quatro treinadores, derrubar outros três e ser campeão – é assim que está o futebol português. As novas gerações deixarão passar? Não, garanto. Primeiro muda-se o regulamento, depois as pessoas e deixa de prevalecer a cultura do medo”. BdC está com força e testa a sua força. Conseguirá? A acompanhar em 2014..."

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Eusébio

"Passamos grande parte da nossa vida a desejar ser mais novos. Eu na passada segunda-feira, ao ouvir os relatos dos jogadores que jogaram com ou contra Eusébio, desejei ser mais velho. Como devia ser bom ir ao estádio e ver aquilo, ou talvez daquilo.
Percebi que para muitos era desporto, para outros era poesia, para outros era ballet mais para todos era arte. Eusébio já era imortal, mas nós comuns mortais gostávamos muito de com ele conviver, e por isso foi com tristeza que nos despedimos dele.
A decisão de trasladar o corpo de Eusébio para o Panteão Nacional foi recheada de polémica sem sentido. De facto, tal justifica-se numa tentativa de dar prestígio ao Panteão Nacional, que ganhará universalidade.
O arrepiante minuto silêncio de Old Trafford, com a bandeira das quinas a meia haste comoveu-me. A evocação em Santiago Bernabéu, mais esperada pela forte ligação dos dois clubes, e de Eusébio a Di Stéfano foi bonita.
Real e Man. United não são os maiores clubes do Mundo só porque ganham mais vezes, são também porque respeitam de forma singular aqueles que fizeram este desporto rei.
Muitos temos histórias, razões e sentimentos partilhados com Eusébio. Eu que não vi o monstro do futebol, deixo a minha sincera lembrança de homem afável e gentil, de como se pode ser tão grande e tão simples, de como se pode amar um clube, amar um País, e amar um desporto, sem odiar ninguém. O Benfica homenageou Eusébio com amor, tanto como ele tinha pelo clube.
Portugal viu partir Eusébio com irrepreensível respeito, tanto como ele tinha pelo País. O mundo do futebol despediu-se de Eusébio com paixão, tanta como ele tinha pelo seu desporto. Estaríamos empatados não fosse esta arreliadora e eterna saudade de ti Eusébio.
Este fim-de-semana há futebol mas morreu Eusébio..."

Sílvio Cervan, in A Bola

Quatro homens, uma paixão

"Quando tantos falam de Eusébio e alguns como se fossem os seus melhores amigos, recordo homens simples de tão simples amizades.

Eusébio morreu e como morreu, morreu também um bocadinho de todos nós, porque Eusébio foi o português do século XX que mais tocou transversalmente os portugueses, o que mais disse respeito a todos, como fica amplamente confirmado pela onda de consternação e admiração que a sua morte provocou. Nesse sentido, Eusébio foi e é um português culturalmente marcante. Eusébio era dos portugueses e ra como era, não era como alguém queria que fosse ou como alguém o queria fazer.
Eusébio não se deixou moldar nem seguiu estratégias; nunca se aproveitou da grandeza que teve e viveu com a intensidade com que jogou e viveu com a simplicidade com que jogou. Nunca foi mais nem menos do que ele próprio.
Às vezes duro e tantas vezes meigo, às vezes azedo e tantas vezes terno e gentil, às vezes com o rosto meio fechado de antipatia e quase sempre verdadeiro, amável e simples. Eusébio foi tão enorme que a Eusébio tudo se perdoava, mesmo quando não era fácil a relação com ele.
Como singelamente declarou esse brasileiro tão português que é Carlos Mozer, a única verdade que a maioria de nós pode testemunhar é que Eusébio sempre teve tudo o que esperamos de um ídolo. Foi tocante e admirável.
Mas nesta hora em que todos falam de Eusébio como se fossem os seus melhores amigos, sinto apenas vontade de recordar quatro homens, quatro homens simples que fizeram parte da vida simples de Eusébio.

Emílio Augusto Andrade Júnior é mais conhecido por Ti Emílio. Nasceu em Lisboa a 2 de Abril de 1921, é o proprietário dos restaurante Tia Matilde, na capital, e terá sido verdadeiramente o pai que Eusébio quase não teve.
Ti Emílio é um grande benfiquista no sentido da devoção mas sempre recusou fazer parte de qualquer direcção do clube. Foi sempre um benfiquista de ajudar e não de aparecer nas fotografias. Acompanhou a equipa encarnada anos e anos por todo o mundo e deu-lhe tantas vezes de comer que se tornou inseparável do emblema.
É de homem destes que se fazem os grandes clubes.
Ti Emílio vai fazer 93 anos, e desses anos todos muita da sua energia da sua generosidade e do saber foram dedicados a Eusébio.
Ti Emílio não precisa de dizer uma palavra sobre o seu filho negro. Todas as palavras do mundo seriam poucas para falar de tanta coisa.

É com o auxílio de um artigo do PORTUGUESE TIMES  de New Bedford, cidade próxima de Boston, no estado norte-americano do Massachusetts, região de muitos portugueses, que aqui recordo a figura de Vítor Baptista, o homem que ofereceu a Eusébio e ao Benfica a estátua que permanece no Estádio da Luz e que por estes dias se transformou no santuário à memória do 'pantera negra'.
Vítor Baptista é, pois, um emigrante português nos Estados Unidos, natural de Angra do Heroísmo, da açoriana ilha da Terceira, um emigrante de Boston, desde 1973, aonde chegou aos 18 anos, e foi ele o primeiro a lembrar-se de uma grande homenagem pública, e em vida, ao grande Eusébio. Não foi o Benfica, como por aí se ouviu.
O amor de Vítor Baptista pelo futebol, pelo Benfica e, em particular, a sua paixão por Eusébio, levou-o a tomar a iniciativa de mandar construir a estátua do maior jogador português do século XX, para deixar a figura às gerações seguintes.
«Recordo as grandes alegrias que Eusébio deu ao meu pai (precocemente falecido aos 40 anos), quando o Benfica na segunda Taça dos Clubes Campeões Europeus e de tantas outras tardes de glória nas décadas  de 60 e 70 tornou mais feliz a vida dos portugueses», disse, um dia, àquele jornal, Vítor Baptista, que explicou que a estátua que mandou erguer não deixou, também, de ser «uma homenagem a meu pai e a todos os portugueses que se identificam com os valores que Eusébio representava quando envergou a camisola do Benfica e da Selecção».
Dizia Vítor Baptista que Eusébio «era naquele tempo a única nota positiva do País, e o único que nos dava orgulho de sermos portugueses, com tantas e tantas alegrias que nos proporcionou atravás das vitórias que conseguia para Portugal no estrangeiro».
Confessou ainda que o facto de ser benfiquista teve pouca importância no projecto da estátua. «Admirava Eusébio pelas suas qualidades de atleta. Segui muito de perto a sua carreira. Vi-o jogar várias vezes e pelos contactos que tive com ele posse testemunhar que é um homem excepcional. Admiro-o pelas suas qualidades de carácter e pela sua honestidade como atleta. Eusébio mostrou sempre uma conduta irrepreensível dentro das quatro linhas, portando-se sempre correctamente com companheiros e adversários, raramente discutindo as decisões dos árbitros».
Foi este homem, que tão deliciosamente descrevia Eusébio, como se vê, que cumpriu em Janeiro de 1992 o sonho de oferecer ao 'pantera negra' e ao Benfica a estátua agora transformada em santuário. A 25 daquele mês daquele ano Eusébio fez 50 anos e Vítor Baptista quis apenas o que sempre quiseram muitos de nós: admirá-lo!

O nome de José Morais dirá menos aos portugueses do que os Ti Emílio ou Vítor Baptista, porque por uma ou outra razão, Ti Emílio e Vítor Baptista estão ligados a aspectos mais conhecidos da vida de Eusébio.
Amigo e confidente, companheiro, assessor e secretário, amparo e motorista, paciente e sempre presente, íntimo e permanente, quase da família e para sempre, José Morais é talvez o homem que, conhecendo há muito o 'pantera negra', mais de perto - tão perto, tão perto... - o acompanhou nos últimos dez ou quinze anos, se não estou em erro, para todos os cantinhos, mas mesmo todos os cantinhos do mundo.
Fosse Eusébio chamado a uma festa na África do Sul, ou convidado para homenagem na Polónia ou a uma palestra nos Estados Unidos ou a inauguração benfiquista no Canadá ou a um jogo de beneficência na Coreia do Sul, ia, sim, mas não ia sem José Morais.
E José Morais tudo fez para manter gigante a dignidade que o carácter, a figura e a dimensão de Eusébio mereciam.

Por último, lembro ainda o nome de Alcino António, provavelmente o maior e mais pessoal amigo que Eusébio teve nas direcções do Benfica desde o final da década de 80.
Como eu os admiro."

João Bonzinho, in A Bola