"Portugal foi eliminado do Mundial com um golo nos descontos contra a Espanha. Não há nada de escandaloso e vergonhoso nisto. Jogámos contra uma das melhores equipas do mundo e fomos competitivos até ao fim nesse jogo. E, no entanto, não terminámos todos isto com uma sensação de pouco por um lado, expetável por outro. E porquê? Por que é que não vibramos e sonhamos com este Mundial a 100 por cento? Quando temos dos melhores jogadores do mundo. No papel, das seleções mais fortes presentes nos Estados Unidos.
Nos anos 90 o país punha 120 mil adeptos na Luz para ver os juniores a serem campeões do mundo, ia à loucura com um golo de Rui Costa à Irlanda que nos dava apenas e só apuramento para um Europeu. Durante o Euro 2004 e o Mundial 2006, o Marquês enchia-se como se Benfica ou Sporting tivessem sido campeões em cada vitória do país nessas competições.
20 anos depois o país vê a seleção, torce, vibra, reclama, mas um dia depois da eliminação, já toda a gente encolheu os ombros e partiu para outra. E se calhar podíamos ser agora mais candidatos à vitória do que nessas gerações passadas.
Posso ser polémico? Vibrámos pouco porque na verdade sabíamos que isto não ia correr bem. E porque sabemos que Portugal não era uma verdadeira equipa neste Mundial. Não acho Roberto Martínez um mau treinador, também não é incrível, mas foi a pessoa adequada para dar seguimento ao «show Ronaldo». E antes de criticar a titularidade de Ronaldo, quero deixar claro que também não foi só por ele que fizemos um fraco Mundial. Mas já lá iremos, primeiro Ronaldo.
CR7 é indiscutivelmente uma das maiores figuras de sempre do futebol português. Poderá até ser o maior jogador de sempre e ter ultrapassado Eusébio. E é provavelmente o português mais famoso de sempre. Todo e qualquer um de nós que já foi ao estrangeiro, sabe bem que assim que dizemos Portugal recebemos como resposta Ronaldo. E isso enche-nos de orgulho. Enche-me de orgulho! O lugar na História ninguém lhe tira!
Mas ser titular de Portugal aos 41 anos é uma coisa completamente diferente e absurda. Não faz sentido. Não fez sentido. Basta ver o fraco rendimento que teve. Foi o avançado que menos correu nos 1/16 avos de final, passou o Mundial todo sem fazer um drible, apenas marcou dois golos ao Uzbequistão, mesmo fazendo os 90 minutos em todos os jogos, menos no da Croácia, em que saiu para dar lugar a um Gonçalo Ramos que poucos minutos depois marcou golo.
Reparem, Eusébio em 1977 jogava no Beira-Mar e já não era melhor do que Fernando Gomes, Manuel Fernandes ou Nené. O tempo é implacável, acaba com todos os jogadores, por enormes que tenham sido no seu momento. Ou quando acaba isto? Ronaldo também deve ser titular no Mundial 2030? Não temos então que ser gratos?
Ronaldo jogou por se chamar Cristiano Ronaldo. Se se chamasse João António, teria sido Gonçalo Ramos o titular. Mas é um produto financeiro enorme para a FPF e esta quer explorar o produto até à última gota. E o próprio tem um ego enorme e é incapaz de se olhar ao espelho e dizer «já não dá». Da mesma maneira que certamente está rodeado de familiares e amigos, e nem um tem coragem de lhe dizer «já não dá».
E depois está num país que valoriza muito a gratidão. Foi a mistura perfeita para termos um jogador de 41 anos na frente de ataque, que já pouco acrescenta à equipa, a fazer 90 sobre 90 minutos, enquanto todos os outros jogadores, umas décadas mais novos do que ele, iam saindo.
Amália Rodrigues tem um famoso último concerto no Coliseu dos Recreios em 1994 em que a voz já lhe faltava. Ficou famoso o quanto pedia ajuda ao público para cantar por ela enquanto dizia «obrigado». O tempo já lhe tinha tirado a magnífica voz e alguém lhe devia ter dito para já não fazer aquele concerto, mas pelo menos não estava a tirar o lugar a uma «Mariza» lá atrás. Não prejudicou ninguém. Acabou por ser carinhoso. O público agarrou-a e disse «amamos-te igual e deste tanto a nós, que agora damos nós a ti».
Mas esta insistência em Ronaldo acaba por prejudicar o próprio e toda uma geração maravilhosa de jogadores portugueses que nunca puderam ser uma verdadeira equipa. O futuro dirá quantas entrevistas estes jogadores darão lá mais para a frente quando forem velhotes e tiverem coragem para dizer o porquê de terem rendido tão pouco neste Mundial.
Tal como o Benfica com Rui Costa (e antes Vieira), Portugal confunde gratidão com racionalidade. Temos uma incapacidade enorme de fechar ciclos, de separar as coisas e de aceitar que há momentos e o tempo é implacável com todos. E aqui o que me revolta mais é que este fenómeno tão humano e global, mas que em Portugal é exacerbado, é aproveitado pelas cabeças maquiavélicas dos gabinetes da FPF para passar um pano limpo em algo não tão limpo.
É que Fernando Santos teve o seu destino traçado quando teve a coragem de pôr Ronaldo no banco em 2022 e Roberto Martínez é escolhido por saberem que ia continuar com a marca Ronaldo, o produto Ronaldo a gerar muitos milhões à empresa FPF. Há aqui interesses além do futebolístico. E pouca gente na nossa população refere isto porque ficam inibidos pela tal «gratidão» e muitos dos que sobram não têm coragem de dizer aos outros «o Rei vai nú!».
Este fracasso não apaga Ronaldo. Ronaldo fica na História do futebol português e de Portugal. Sugiro até o seguinte: façam uma estátua do Ronaldo no Estádio Nacional, tal como a que Eusébio tem no Estádio da Luz. Ele merece! Quando acabar a carreira, sejamos gratos nas homenagens. O Ronaldo de tantos golos, de tantas qualificações, do Euro 2016, das duas Ligas das Nações!
Agora talvez isto tudo lhe vá prejudicar um pouco a imagem final, tal como prejudicou na Amália ou em Elvis Presley. Estes momentos finais da carreira de Ronaldo não foram bonitos. E jogadores como Bernardo Silva, Gonçalo Ramos ou Bruno Fernandes devem-se sentir frustrados. Aliás, todo o país se deve sentir.
Que venha agora Jorge Jesus, que este siga em frente neste capítulo Ronaldo, exija mais qualidade e responsabilidade aos restantes jogadores (que também têm que a ter), que voltemos a jogar em equipa e com os 11 jogadores em campo a terem uma disponibilidade física e dinâmica fortíssimas e que a seleção consiga voltar a apaixonar os portugueses. E com Ronaldo a assistir da bancada e Eusébio lá do céu, seremos certamente «muita fortes», como diz o JJ."

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