"Não discuto o gosto pelo futebol de Luís Montenegro. Nem sequer discuto que um primeiro-ministro possa assistir a um jogo da Seleção Nacional. O problema começa quando aquilo que devia ser excecional se transforma em rotina. E quando essa rotina choca com o contexto que o país vive.
Um primeiro-ministro não é um adepto. Também não é um comentador desportivo, nem um acompanhante permanente da Seleção. A sua presença deve ser reservada para momentos verdadeiramente excecionais, porque é precisamente a excecionalidade que lhe confere significado.
Quando um chefe de Governo viaja para assistir a três jogos de um Mundial, sem que qualquer deles seja uma meia-final ou uma final, a mensagem deixa de ser institucional. E, pior, transmite a ideia de que o exercício das suas funções pode adaptar-se ao calendário desportivo.
É precisamente por isso que a contenção também é uma forma de comunicação.
Lembrei-me imediatamente de Jorge Sampaio, com quem trabalhei durante os seus dois mandatos.
Sei bem o quanto gostava de futebol. Vibrava com o jogo, no entanto, durante o Europeu de 2000, realizado na Bélgica e nos Países Baixos, não foi a um único encontro. Entendia que a presença do Presidente da República devia estar reservada para um momento verdadeiramente excecional: a final. Portugal acabou eliminado nas meias-finais pela França, num prolongamento decidido pelo célebre penálti de Zinedine Zidane, no regime do "golo de ouro". E Sampaio nunca viajou. Como também não o fez no Mundial de 2002.
A diferença não está no futebol. Está na ideia de função. Jorge Sampaio percebeu isso há 26 anos. Montenegro ainda não, tal como Marcelo Rebelo de Sousa. E não, Hugo Soares não tem razão: um primeiro-ministro não é "um amuleto da sorte", como ontem ficou bem demonstrado."

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