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quarta-feira, 8 de julho de 2026

Donald, Gianni e a batota a céu aberto

"Se com o diabo te deitas, com o diabo despertas. Se a FIFA partilha a organização do seu tesouro mais precioso e respeitado com países e/ou políticos totalitários, o resultado só pode ser tenebroso.
O recém Balogungate podia ser o extraordinário argumento de um episódio perturbador de Black Mirror, a mais incensada série de Sci Fi dos últimos anos, mas é um exemplo real (e escandaloso) da promiscuidade explícita entre a Casa Branca e o senhor Infantino.
A banalização da batota.
O futebol tem sobrevivido a provações dantescas. A condição de ópio de povo torna-o um espelho de comportamentos, um decalque do mundo em determinado momento político, mais ou menos extremo, mais ou menos polarizador.
Já em 1934, a Itália fascista de Benito Mussolini usou-o para propagandear o abjeto regime. Pressão política, favorecimento institucional, interferência no lado desportivo do torneio, arbitragens contestadas.
Soa a familiar? 92 anos depois, um mero telefonema foi capaz de juntar tudo isto numa só conversa. Donald e Gianni, mentor e servidor, manipulador e marioneta.
Este atentado ao coração do futebol abriu a Caixa de Pandora. Para onde nos leva este mundo de facínoras e vigaristas, orgulhosos trapaceiros?
Jurgen Klopp deu-lhes a resposta certa, ainda antes da Bélgica desenhar no relvado a chapada de luva branca ao desprezível Trump.
«Este jogo é nosso, não é deles. O jogo é do povo.»
Não há arte, nem tampouco saber, nestas sevícias chico-espertas. Há um dominador ignorante e um bajulador-mor, um imprevisível truculento e um peão disponível a agraciá-lo com ridículos prémios da paz ou favorzinhos encapotados.
A FIFA e o futebol a tudo têm resistido.
O mágico Brasil de 1970 recebia telefonemas ameaçadores do general Médici, a Argentina dos papelitos de 78 mostrou ao mundo um país irreal, um estado que nas sombras era sabotado pela ditadura de Videla.
Os EUA são em 2026 um estado pária, pelo menos no coração do novo Salão de Baile da Casa Branca, símbolo esdrúxulo do neo-parolismo reinante.
Este Mundial, que tão bom futebol nos tem oferecido, será tristemente lembrado pelo escândalo-Balogun, mas também pela deportação de Omar Abdulkabir Artan, o melhor árbitro africano, ou a trágica gestão logística imposta à seleção do Irão.
Querem arruinar-nos as memórias de infância, os heróis edificados a partir de cadernetas de cromos.
Nada de surpreendente, quando se adivinha o protagonista. O diabo não é particularmente famoso por ser bom conselheiro.

PS 1: a história individual de Folarin Balogun é o expoente máximo da incoerência trumpista. Filho de nigerianos a viverem em Inglaterra, nasceu por mera casualidade em Brooklyn, na casa de uma tia. Por não terem seguro de saúde, os pais não tiveram acesso a cuidados hospitalares. Balogun regressou ao Reino Unido, cresceu por lá, mas ficou no radar da US Soccer. Não tivesse jeito para o futebol, seria apenas mais um estadounidense malvisto pelos comparsas MAGA, por ter a origem e a cor de pele erradas. Podem ler AQUI o artigo sobre o perfil do rapaz que levou Trump a querer influenciar uma decisão disciplinar no Campeonato do Mundo.

PS 2: a eliminação de Portugal e o fim do ciclo-Martínez ficam para o Campo Pelado de amanhã. Por agora, sugiro o último episódio do Ataque Rápido e o Tema do Dia sobre estas questões."

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