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domingo, 5 de julho de 2026

E Cabo Verde veio em socorro de Infantino.


"O Mundial deveria ser a maior celebração da universalidade no desporto. A ideia de que o futebol tem a capacidade única de aproximar povos, derrubar barreiras e criar pontes onde a política tantas vezes constrói muros é uma narrativa poderosa. E, acima de tudo, uma narrativa comercialmente valiosa.
O problema é que a realidade da primeira semana do Mundial colidiu frontalmente com esse discurso.
A competição começou mal. Começou pesada, envolta em casos graves, problemas de vistos, restrições de entrada, constrangimentos com seleções, árbitros e adeptos, e com a FIFA a repetir uma explicação burocrática que tecnicamente pode ser verdade, mas que, reputacionalmente, é insuficiente. Um Mundial que se anuncia como universal não pode começar com a sensação de que nem todos entram pela mesma porta.
Perante estes incidentes, há uma questão que começa a ganhar relevância: até que ponto as marcas associadas ao Mundial estão dispostas a ignorar o problema?
Durante muito tempo, os patrocinadores limitaram-se a comprar exposição mediática. Hoje compram também valores. Ou, pelo menos, a associação a determinados valores. As grandes multinacionais investem milhões em campanhas construídas em torno da diversidade, da inclusão, da igualdade de oportunidades e da proximidade entre culturas. E, já agora (outro valor de referência) uma competição ambientalmente neutra, coisa que as múltiplas viagens diárias de Infantino contraria.
Neste caso as marcas são inevitavelmente arrastadas para o debate. Veremos qual será a reação destas para edições futuras.
Depois apareceu Cabo Verde.
E Cabo Verde devolveu ao torneio aquilo que a primeira semana lhe tinha retirado: emoção, pureza, surpresa e sentido. A sua campanha atenuou o impacto negativo porque obrigou o mundo a olhar outra vez para dentro do campo.
Naturalmente, um Mundial alargado continuará a produzir alguns jogos de menor qualidade. Isso é inevitável. Mas basta uma história como a de Cabo Verde para justificar a aposta. Porque o Mundial nunca foi apenas um campeonato para encontrar o melhor do mundo. Sempre foi também o palco onde países pequenos podem sonhar, surpreender e, durante algumas semanas, competir em igualdade com os gigantes.
A grande ironia é que aqueles que viam na expansão apenas um risco para a qualidade acabaram confrontados com a maior prova do contrário. O maior argumento a favor do Mundial de 48 equipas não veio de um dirigente da FIFA nem de um estudo estatístico. Veio de uma pequena nação com pouco mais de meio milhão de habitantes, que lembrou ao mundo que o futebol continua a ser o desporto onde a dimensão do sonho vale, muitas vezes, mais do que a dimensão do país."

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