"A geração Z pode não conseguir imaginá-lo, mas num tempo não muito distante havia poucas coisas tão cansativas como ser português em dias de Mundial.
Ninguém queria saber de nós. Porque não existíamos. Éramos o comparável na atualidade a uma Itália, por exemplo.
Raramente íamos a uma grande competição e, quando o fazíamos, só tínhamos dois resultados possíveis: ou perdíamos com dignidade ou conseguíamos uma vitória moral.
Há uma geração inteira que foi educada para a desgraça. É por isso que a glória pura e simples ainda nos desorienta.
Hoje, por exemplo. Depois de chegar por volta da meia noite ao hotel, tive de acordar cedinho para voar para Miami. Saí à rua ainda o dia mal tinha nascido e já os canadianos me davam um banho ao ego absolutamente delicioso.
Há dias em que acordar português devia dar direito a passadeira vermelha à porta de casa. Ou, no meu caso, do hotel.
Hoje é um desses dias.
Se estivéssemos um pouco mais a sul, nos Estados Unidos, a coisa passaria ao lado. Para o americano comum (aquele que não tem costela de emigrante), o soccer continua a ser apenas uma atividade extracurricular dos filhos.
No Canadá, porém, é diferente. O canadiano não é apenas educado. O canadiano percebe e vive o Mundial: vê os jogos, sabe quem é quem e entende a grandeza do que está a acontecer na terra dele.
E é por isso que hoje o nosso peito se enche de um orgulho desmedido. No balcão do check-in levas com um sorriso rasgado: «What a game yesterday!» Vais comprar qualquer coisa para comer: «Congratulations. Portugal was great!». Chegas à porta de embarque: «Portuguese? You must be happy today. Let’s go Ronaldo!»
E nós? Nós aceitamos os parabéns com a maior das vaidades, acenando com a cabeça como se tivéssemos sido nós a cabecear aquela bola de Gonçalo Ramos.
É um elogio maravilhoso à nossa portugalidade: hoje somos nós que aquecemos as ruas com este sorriso feliz que não nos sai da cara. É uma vaidade boa que nos abraça tão longe de casa.
Para quem se habituou a tão pouco, dêem-me uma espada que hoje sinto-me capaz de conquistar novamente Ceuta aos espanhóis."

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