Últimas indefectivações

terça-feira, 15 de novembro de 2011

El Mago



" (...)

Antes não gostava de dar entrevistas. Agora tolera-as de vez em quanto. Foro do campo parece mais baixo e magro. Fala pausadamente, cumprimenta e despede-se com exemplar educação. Pede desculpa se grita com os colegas no campo e diz que ainda não fala português porque tem vergonha


-Pablo, para começo de conversa, trazemos-lhe as oitenta e uma primeiras páginas de A BOLA que têm uma fotografia sua. Destas, qual destacaria?

-Vamos ver, são muitas! Julgo que a do clássico com o Sporting, no ano em que ganhámos a Liga. Onde é que ela está? Tenho de procurar...

-É uma em que aparece ao colo do Luisão, em Abril de 2010, pode consultar pela data.

-Sim, está, cá está.

-Falando de capas, falemos de jornais. É fácil a relação de um grande jogador com os jornalistas?

-Terão de perguntar a um grande jogador (risos)...

-Por isso mesmo lho perguntamos a si...

-Bom, se a pergunta é para mim, digamos que há uns anos, quando era mais chico, esta relação era complicada. Mas era um erro, admito. Não entendia que futebolistas e jornalistas fazem ambos parte de um mesmo jogo e de um mesmo espectáculo. Não entendia as críticas, não as aceitava. Não percebia que aquelas pessoas, jornalistas como vocês, estavam apenas a trabalhar. Nessa altura lia tudo o que saía nos jornais.

-E agora?

-Agora é raro ler um jornal desportivo ou mesmo ler algo sobre desporto na internet.

-Mesmo quando sabe, por ter feito uma boa exibição, que as críticas serão positivas?

-Sim, mesmo nessa alturas. Há muitos anos que deixei de ler.

-Por achar que o se escreve é fiel a realidade?

-Não. Porque me parece difícil manter os pés na terra. Há, desde há alguns anos, uma sobre exposição de tudo e todos. Não só de futebolistas, de toda a gente. Com a internet, sobretudo, mas também com as televisões e os jornais, fala-se demasiado de tudo e de todos. Nunca me dei bem com isso, apesar de agora me dar um pouco melhor. Ser conhecido e ter fama não é a parte de que mais gosto por ser futebolista.

-De que gosta mais?

-De treinar e de jogar.

-Tem fama de não gostar de falar. Confirma?

-Em miúdo raramente dava uma entrevista. Um erro que comecei a corrigir. Não é que não goste de falar, mas a verdade é que nem sempre temos algo interessante para dizer. Não podemos estar a falar a qualquer hora e sobre qualquer assunto. Neste momento, no século XXI, há tanto assunto que é impossível sabermos de tudo. A verdade é que, por vezes, fazem-nos perguntas para as quais não há respostas.

-Como reage, no final de um jogo, às perguntas triviais mas também inevitáveis que os jornalistas lhe fazem?

-Fazem parte do futebol e era isso que eu não entendia. Fazem as perguntas que têm de ser feitas. Se estamos a falar de futebol, vamos perguntar o quê? Qual é a capital da Nicarágua?

-Dentro do campo, durante os 90 minutos, é um jogador falador com os companheiros?

-Sim, falo muito, falo muito. No campo falo realmente muito.

-Mesmo que seja algo menos agradável?

-Sim. Mas não são muitas as vezes em que tenho algo mais desagradável para dizer a um companheiro. São coisas que digo para tentar melhorar o rendimento da equipa. Corrigir o posicionamento de um companheiro ou algo assim. Mas não me recordo de ter tratado mal um colega. E, se algum dia o fiz, pois aqui lhe peço perdão.

-Por ser Aimar, sente-se muito pressionado? José Mourinho chegou a dizer aos jornalistas espanhóis que, por causa deles, tinha de ter cuidado com aquilo que punha no caixote do lixo. Sente o mesmo?

-Nunca senti isso. Mas estão a falar-me do melhor treinador do Mundo, a trabalhar numa das suas melhores equipas do Mundo e, a esse nível de popularidade, não sei o que se passa. Não passo, nunca passei, por aquilo que passam Cristiano ou Messi, por exemplo. É uma fama de nível mundial e não sei o que se passa na pelo deles.

-Mas Aimar também é mundialmente famoso.

-Sim, mas falo de outro nível. Falo dos melhores três ou quatro jogadores. Talvez dos melhores dez, vá lá. Excluindo esses, acho que se pode fazer uma vida perfeitamente normal.

-A pressão de um futebolista na Argentina, em Espanha ou em Portugal é idêntica?

-Sim, sim.

-A ideia que se tem em Portugal é que, na Argentina, a pressão dos adeptos é terrível, quase assustadora.

-Não. Num clube como o Benfica, que tem 200 mil sócios e não sei quantos milhões de adeptos, a pressão de ganhar é igual. No Valência e no Saragoça, as outras equipas em que joguei, é quase igual. A pressão de um médico, que tem de salvar a vida de uma pessoa, nada tem a ver com a pressão de um jogador. É muitíssimo superior.

-Porém, um jogador do Benfica, por exemplo, tem a pressão de milhões de pessoas a criticá-lo, a elogiá-lo, a ver todos os passos que dá e não dá.

-Mas comparada com as pressões reais, a nossa é muito menor.

-Pode considerar-se uma boa pressão?

-Sim. É uma motivação. Ser futebolista é algo maravilhoso.

-Olhando para 2008, qual a motivação que o levou a assinar pelo Benfica?

-Sentir que o Rui (Costa) foi a Saragoça falar comigo para me levar para o clube. Disse-me que queria que eu usasse o seu número. E quando ele me começou a falar do Benfica percebi alguma da grandeza do clube. Não sabia que tinha este estádio maravilhoso, não sabia que tinha tantos hinchas, confesso. E só agora, três anos depois, me apercebo, na perfeição, do impacto que o nome do Benfica tem em todo o Mundo.

-Correu muitos riscos ao vir para Portugal? Não por vir para o Benfica, mas por vir para uma liga de menor dimensão do que a espanhola?

-Quando vim para Portugal, pensava que vinha para uma liga menos competitiva. A verdade, porém, é que, tendo as duas melhores equipas do Mundo, como são o Real Madrid e o Barcelona, qualquer liga será menos competitiva que a espanhola, é bem verdade.

-Quando lhe deu o click para assumir que queria realmente vir para o Benfica?

-Todos temos ego, embora o possamos tentar negar. Por isso, quando vi uma pessoa tão importante no mundo do futebol, como Rui Costa, vir de Lisboa a Saragoça para falar comigo e me tentar contratar, o meu ego ficou inchadíssimo. Só quis retribuir-lhe a confiança que estava a depositar em mim.

-A confirmação como jogador do Benfica esteve longe de ser fácil.

-Sim, as coisas arrastaram-se durante algum tempo.

-É normal ser assim?

-Sim. Por vezes, os jornais começam a falar do interesse de um jogador em Dezembro e a contratação só se concretiza em Junho ou Julho. No meu caso, até foi mais rápido (risos).

-No Saragoça teve muitas lesões.

-Sim, sobretudo uma na púbis, que me obrigou a ser operado.

-Chegou a pensar que a carreira estava em risco?

-Sou uma pessoa que tenta viver um dia de cada vez. E, nessa fase, não estava a desfrutar da beleza de ser futebolista. Doía-me a púbis, doíam-me os adutores, doíam-me quase tudo. Se essa fase se prolongasse por muito tempo, teria de ver se valeria a pena continuar, mas nunca cheguei, verdadeiramente, a pensar nessa possibilidade. Quando perceber que as lesões não me largam ou quando já não sentir o prazer que agora sinto, tomarei a decisão de sair.

-Três anos depois, confirma que foi bom para si vir para Portugal?

-Sim. Estou muito contente, sobretudo por causa do carinho que sempre me deram os portugueses.

-Há pouco falou nas dores que sentia quando jogava no Saragoça. Até que idade pensa jogar?

-Até desfrutar. Gosto de treinar, gosto de jogar, gosto do momento de entrar no relvado, gosto de todas estas sensações. Imagino, porém, que um dia não será assim. Quando tinha 20 anos achava impossível haver um dia em que não gostasse de jogar. Agora, continuo a gostar, mas sei que haverá um dia em que o corpo dirá não.

-Muito longe ainda?

-Não sei. Não gostaria era de continuar a jogar por algum factor extra, isso não. Respeito quem o faz, mas gostaria de ter a lucidez ou a intelegência para ser eu a deixar o futebol e não permitir que seja o futebol a deixar-me a mim.

-A condição física continua a ser gerida com pinças?

-Gosto de treinar, gosto de trabalhar, gosto de estar no grupo. O resto são decisões do treinador. Mas faço um trabalho normal, não trabalho isolado.

-Ainda estranha quando vê a placa com o número 10 levantada por volta dos 60/70 minutos?

-Não. Se há outro jogo nos dias seguintes estou habituado a que seja eu a ser substituído. Se for uma semana de um só jogo, penso que posso não ser eu a sair. São coisas normais que fazem parte da gestão das grandes equipas.

-E irrita-se quando é substituído?

-Não. Se seu substituído muitas vezes, por algo será. Não me queixo por sair mais do que os outros.

-Nem interiormente?

-Não. Talvez o meu jogo baixe de intensidade e tenha de sair.

-É fácil aceitar a substituição?

-Sim. Fazemos parte de uma equipa e a equipa é administrada pelo treinador. E um treinador quer sempre ganhar. Não conheço um treinador que queira perder. Vocês conhecem?

-Não.

-Às vezes leio afirmações de alguns jogadores que não entendem porque não foram convocados, por exemplo, para a selecção. Mas porquê? Os treinadores chamam aqueles que acham que os vão fazer ganhar o jogo. Por isso, se o treinador pensa que, por volta dos 70 minutos, a minha intensidade baixa, então é porque, provavelmente, a minha intensidade baixou mesmo.

-Pode acontecer pedir para sair?

-Não aconteceu muitas vezes, quase nunca.

-113 jogos, 26 golos. Poucos golos para quem joga a dez?

-Sim, são poucos. Gostaria de fazer mais golos.

-Consegue encontrar uma razão?

-Não. Há jogadores cuja relação com o golo é melhor do que a minha. Tenho muita participação na elaboração das jogadas de golo, mas finalizo menos. É um defeito, claramente. Um número dez tem de marcar mais golos.

-Rui Costa chegou a dizer que, por vezes, gostava mais de fazer uma assistência do que de marcar um golo. É assim consigo?

-Desfruto mais de marcar um golo. Gosto mais de marcar um golo feio do que fazer um passe lindo para golo.

-Não marcar muitos golos sempre foi uma característica sua?

-Talvez na Argentina marcasse mais do que na Europa, porque jogava mais perto do ponta-de-lança. Aqui, tenho mais responsabilidades defensivas.

-Há grandes diferenças entre o futebol europeu e argentino?

-Sim. Em Espanha, quando cheguei, estranhei um pouco a maior velocidade com que se jogava e o menor espaço de que as equipas precisavam para jogar. Mas a verdade é que os bons jogadores jogam em qualquer lado. Com espaço, sem espaço, com chuva, com velocidade, sem velocidade.

-Em Espanha o futebol é mais intenso?

-Não sei se é mais intenso, nem sei qual a palavra que melhor o define. Quando cheguei a Espanha a maior diferença que notei foi na velocidade; agora, porém, se voltasse a Espanha, não sei se voltaria a notar essa diferença na velocidade.

-Pergunta para a qual, provavelmente, não tem resposta; se FC Porto, Benfica, Sporting e SC Braga jogassem em Espanha, lutavam por um lugar imediatamente abaixo de Real Madrid e Barcelona?

-Voltamos a uma das minhas respostas anteriores: estamos a falar das suas melhores equipas do Mundo. Por isso, creio que se Chelsea, Manchester, Milan, Inter ou Bayern, por exemplo, jogassem nos mesmos campeonatos de Real e Barcelona, terminariam sempre abaixo deles. Mas volto a falar da perspectiva que tenho: no futebol tudo é possível. Se calhar, eram campeões ano sim, ano não.

-Que análise faz de Jorge Jesus?

-É um grande treinador.
-Exigente?

-Sim, mas um treinador de uma equipa grande tem de ser exigente.

-Quando Jorge Jesus assinou pelo Benfica, dizia-se que ele tinha um discurso muito agressivo e exigente nos treinos e nos jogos e que isso poderia não ser bem aceite pelos jogadores, sobretudo pelos mais cotados. Foi assim?

-Nunca senti nada disso. Jesus é um grande treinador e já lho disse. Os treinadores têm sempre de exigir muito aos seus jogadores, sobretudo os de equipas grandes. E Jesus, claro, não foge a essa regra.

-Parecido com algum que já o tivesse treinado?

-Na exigência e nos métodos é semelhante a Marcelo Bielsa.

-A sua relação com o Benfica já tem muito de emocional?

-Sim. Sinto-me muito bem no Benfica. Tratam-me com muito carinho e tenho amigos em muitas pessoas que trabalham no clube.

-O River Plate desceu e, no primeiro jogo da II Divisão, o estádio estava cheio. Se o Benfica caísse na segunda, era possível o Estádio da Luz encher?

-Sim, creio que sim. Esse amor da gente do River é uma prova de fidelidade e julgo que os adeptos do Benfica também são muito fiéis.

-Faltam sete meses para terminar o contrato e já disse que sete meses, aos 32 anos, é quase uma eternidade. Que lhe passa pela cabeça?

-O futuro, para mim, é amanhã. Se me sentir útil, se me sentir importante e se continuar a desfrutar de treinar e jogar, posso pensar um pouco mais longe, talvez no ano seguinte.

-Imagina-se, por exemplo, a voltar ao River?

-No outro dia, quando fiz anos, um jornalista do meu país telefonou-me e disse-lhe que, caso voltar a jogar na Argentina, algo que não posso garantir que aconteça, a minha prioridade é o River Plate. Mas não disse 'vou voltar ao River'. Se voltar a jogar na Argentina, a minha prioridade será jogar onde já estive e onde me trataram muito bem.

-Se fosse jogador do River quando o clube desceu de divisão ficaria?

-Tantas palavras que terminam em 'iria'... Seria, ficaria, teria... A verdade é que, não podendo garantir, acho que sim, acho que ficaria. Por outro lado, se eu disser: 'sim, teria ficado', parece uma crítica aos que saíram. Lamela, por exemplo, saiu quando o River desceu. Mas eu não estou a criticá-lo.

-Podemos vê-lo, um dia, como treinador?

-Falei com o meu pai no outro dia e disse-lhe: «Aos 20 anos dizes que é impossível vires a ser treinador, mas aos 30 anos a perspectiva muda». Não significa que o venha a ser, significa apenas que já não sou taxativo. Ser treinador? Talvez, quem sabe? A única coisa que tenho a certeza é que será impossível, quando deixar de jogar futebol, colocar o futebol completamente de parte.

-Segue a dicotomia Guardiola-Mourinho e Messi-Ronaldo?

-Quem pode não segui-la?

-E quem acha que é melhor?

-Sei duas coisas: que Messi está completamente ao nível de Maradona e que os golos que Cristiano marca são de outra era. Mais de 50 golos num só ano? É um absurdo; são de outra era. Não se pode marcar 50 golos todos os anos, mas Cristiano continua a marcar. São números de outros tempos.Não tenho qualquer dúvida de que, se não houvesse Messi, Cristiano seria o melhor jogador do Mundo com muita diferença para os restantes.

-Faz sentido a última pergunta que lhe fizemos?

-Não sei, talvez não. Não podemos dizer que, se Carl Lewis nascesse agora, não ganharia qualquer medalha, porque Usain Bolt as ganhava todas. A única coisa que sei é que Messi está à altura dos melhores de todos os tempos.

-Prefere o rendilhado do Barcelona ou o poderoso do Real Madrid?

-Quando está a jogar o Barcelona e o jogo é transmitido pela televisão, sento-me a ver; se é o Real Madrid, faço o mesmo.

-Que costuma fazer fora do futebol?

-Estar em casa com a minha mulher e com os meus filhos. Desfrutar a idade dos meus filhos, porque crescem muito depressa.

-Quantos filhos tem?

-Três.

-Joga futebol com eles?

-Sim, na sala.

-Mora em Lisboa?

-Não. Em Oeiras.

-Gosta da gastronomia portuguesa?

-Sim, mas é difícil ir a um restaurante, porque os meus filhos são muito pequenos e é difícil estarem quietos. Além disso, acordam cedo e deitam-se por volta das nove e meia.

-Que conhece de Lisboa?

-Não tenho muito tempo livre, mas quando tenho, vamos muitas vezes a Belém.

-Gosta dos pastéis de Belém?

-Sim, claro. Gosto muito. Era impossível não os ter provado.

-Preocupa-se com a imagem?

-Não, quase nada. Não é algo de que esteja dependente.

-Mas o cabelo grande e a barba parecem um visual estudado. É para lhe dar um ar mais agressivo?

-Não, a barba grande às vezes é preguiça. Quando fica muito grande corto.

-Percebe-se que, como jogador, é bastante emocional. E como homem?

-Sou muito relaxado e homem de família.

-Tem saudades de viver na Argentina?

-Sim, sobretudo da família. Gosto muito da cidade onde nasci, cresci e vivi até aos 15 anos. E é lá que, um dia, voltarei a viver. Quero estar com a minha família e se ela estivesse noutra cidade, seria aí que eu viveria.

-Essa saudade é, de algum modo, colmatada pela presença do seu grande amigo Saviola?

-É um grande amigo, praticamente um irmão.

-Considera-se supersticioso?

-Não nada. Sou religioso, creio em Deus, mas não seu sepersticioso. Não entro com o pé direito em campo, por exemplo, entro com aquele que calhar.

-A Argentina parece ser um país de grandes mitos: Evita Perón, Jorge Luís Borges, Juan Manuel Fangio, Carlos Gardel, Che Guevara, Maradona. Há algum acima dos demais?

-Não sei responder. Há 40 milhões de argentinos e todos terão o seu mito.

-Sabia que o escritor argentino Jorge Luís Borges tinha ascendência portuguesa, de Torre de Moncorvo?

-Não, sinceramente não fazia a mais pequena ideia. É curioso.

-Aceite, já agora, como presente de A BOLA, esta 'Bola' de cristal e também um exemplar do livro Ficções, precisamente de Jorge Luís Borges, cuja obra o Pablo garantidamente conhece; mas assim fica com a edição portuguesa, para ler mais em português... Já agora, por que razão ainda não fala publicamente em português?

-Bem, vou aproveitar para vos contar a verdadeira razão para isso. No meu primeiro ano em Portugal, o meu irmão, Andrés Aimar, esteve cá a jogar no Estoril. Certo dia, numa conferência de imprensa do Benfica comecei a falar em português. Quando regressei a casa, o meu irmão disse-me que tinha desligado o som da televisão porque o meu português lhe dava vergonha (risos). Pediu-me, por favor, para nunca mais falar em português. Disse-lhe que, por jogar em Portugal, a minha obrigação era falar em português, mas ele insistiu e disse-me que falava realmente muito mal, pediu-me para não voltar a fazê-lo.

-Consigue dizer uma frase em português?

-Consigo, mas para isso teriam de desligar os gravadores (risos). Recordo-me de que, quando estava em Saragoça, um jornalista de A Bola esteve lá e, um dia, eu disse-lhe que ainda não podia hablar do Benfica. Foi essa a capa: «Ainda não posso falar do Benfica». Houve tradução, claro. Mas quando entrei no Benfica, alguns jogadores, como o Maxi, gozaram-me por causa dessa frase: «Ainda não posso falar do Benfica»; porque na prática, ao dizer aquilo, já estava a hablar do Benfica. A falar do Benfica.

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«Melhor golo no Benfica foi ao Sporting»

Os melhores momentos na Luz; a análise à Liga; a defesa de Javi; a possibilidade da Champions


-Como vê FC Porto, Sporting e SC Braga? Quem está mais forte?

-Há um ano, perguntaram a um jogador, não me lembro qual, o que achava do adversário Benfica. E ele disse: «Acho que está mais fraco». Não gostei de ler essa frase e é por isso que não falo dos outros. Digo, apenas, que o Benfica está bem e pode lutar de igual para igual com os outros três candidatos. São quatro candidatos a ganhar o título. Importante é olharmos para o nosso interior e ver que estamos bem.

-Nos jogos em Braga acontecem, como diz Artur, coisas do outro Mundo?

-São jogos complicados porque o SC Braga é muito boa equipa, porque tem bons jogadores que sabem o que querem. Têm um estilo de jogo que os fez ser finalistas da Liga Europa.

-O golo ao Paços de Ferreira em Outubro de 2010, pegando na bola antes do meio-campo, fintando três jogadores e fazendo o 1-0 foi o seu melhor no Benfica?

-Não

-Não?

-Aquele de que mais gostei foi e que marquei ao Sporting.

-Porquê?

-Não estávamos a jogar bem e necessitávamos de ganhar para darmos um passo muito grande rumo ao título. Além disse, foi um golo bonito porque fugi a um defesa, não o via mas intuía que vinha atrás de mim, passei pelo guarda-redes e, quando o defesa chegou, levantei a bola e fiz golo.

-Acredita que Javi Garcia proferiu as frases racistas durante o jogo em Braga, como acusa Alan?

-Conhecemos muito bem Javi, sabemos quem é o que pensa e sabemos que não tem qualquer problema desse tipo. Há limites para tudo. Aceito que tu digas que eu sou um desastre. Faz parte do jogo e do futebol. Se falarmos de outras coisas, bem graves, como essa do racismo, é mais complicado. Não acredito nisso.

-Qual o sonho que gostaria de cumprir de águia ao peito? Ganhar a Liga dos Campeões?

-O futebol é uma actividade que permite sonhar. Todos podemos sonhar. O futebol permite querer tudo. Mas não nos podemos esquecer de que, neste caso, estamos a falar de ganhar uma competição em que estão também as duas melhores equipas do Mundo da actualidade: Real Madrid e Barcelona.

-Mas há outras equipas...
-Sim, mas Real Madrid e Barcelona são diferentes. São as duas melhores do Mundo dentro do campo e fora dele, nos papéis, no dinheiro, nos adeptos. Mas claro que, mesmo assim, todos sonhamos.

-Ganhar a Champions é um sonho ou uma utopia?

-As duas coisas. Ninguém pode garantir nada. Sonho? Utopia? Quem sabe? Milhões e milhões de pessoas jogam no... não sei como se chama em Portugal. É prode na Argentina e quiniela em Espanha..

-Totobola.

-Sim. É como jogar nisso.

-Nos seus primeiros tempos na Luz chegou a dizer que ganhar um título pelo Benfica era o sonho que lhe falatava. Campeonato ganho em 2009/10, que se segue?

-Mais títulos. Quando estás no Benfica só há uma forma de pensar: ganhar, ganhar, ganhar. Feio e desagradável é jogar numa equipa em que nada te exigam.

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«Pensei que nunca veria outro Maradona»

O que é isso de ser, hoje, número 10?; os filhos da Argentina; o potencial de Witsel e Gaitán


-Jogadores como você, números 10 puros, já não existem?

-Gosto de jogar como 10, mas joguei cinco anos e meio no Valência como segundo avançado. E gostava. Quando cheguei ao Benfica voltei à minha posição original, mas joguei algumas vezes encostado à linha. E gostava. Mas onde mais gosto, claro, é como número dez.

-Witsel ou Gaitán, por exemplo, podem ser números dez no Benfica?

-Sim, têm todas as condições. São diferentes, mas têm todas as condições.

-Como catalogaria Lionel Messi; dez, nove, 11, 7 ou pouco de tudo?

-Bem ele organiza e finaliza... Faço-vos uma pergunta: Maradona era um dez?

-Era.

-...mas não só. Organizava, finalizava, fazia tudo.

-E Messi?

-Messi? Sinceramente, nem sei o que é Messi. Só há uma coisa que sei: Messi joga de Messi.

-Quando chegou ao Benfica, em entrevista a A BOLA, o Aimar disse que Maradona não tinha sucessor. Três anos depois, com esta avalancha de Barcelona e de Messi, podemos dizer que é ele o sucessor de Maradona?

-No coração dos argentinos e no coração de quem gosta de futebol, há lugar para os dois.

-É uma discussão sem sentido?

-Sim, de certo modo.

-É como ter um segundo filho?

-Sim, sim, é uma boa analogia. Mas deixem-me dizer o seguinte: durante anos e anos pensei que nunca mais apareceria um jogador como Maradona. E agora vejo que Messi está à sua altura.

-Quando Maradona acabou, surgiram muitos candidatos à sucessão: Aimar, Riquelme, D'Alessandro, Ortega, Gallardo, Saviola. Ficaram todos muito longe?

-Adoro um desses que mencionaram: Riquelme. Uma maravilha de futebolista. Mas nenhum desses chegou ao nível a que chegou Maradona. Ainda mais se falarmos não apenas nos desempenhos no campo mas também no que significaram no coração dos argentinos. Maradona é único.

-Você é um dez e é o jogador do Benfica que mais faltas comete: 23. Sabia?

-Sou? Não, não sabia. Mas sei bem que faço faltas.

-É uma contradição haver um dez que comete tanta falta?

-Não sei. Talvez seja um defeito que tenho de corrigir. Terei de melhorar a técnica defensiva (risos).

-Durante o jogo, pela forma como sorri para algumas decisões dos árbitros, parece que os contesta. É assim?

-Contestar os árbitros também é um defeito. Os árbitros estão a fazer o seu trabalho e temos de respeitá-los. Já muitas vezes disse a árbitros que deve ser dificílimo ver aquilo que eles têm de ver. Nós, os não árbitros, só à quinta repetição televisiva em câmara lenta temos a certeza: 'Ah! Sim. Foi mão...'

-Então porquê tanta contestação da sua parte, por exemplo?

-Porque os jogadores estão a um nível de pulsação tal e um nível de intensidade tão grande que, por vezes, torna-se impossível analisar essas decisões dos árbitros com isenção. Como, por exemplo, o adepto que insulta um jogador que falhou um golo. Ele também está nervoso e ansioso. Toda a gente vive o futebol, não só quem joga.

(...)"


Rogério Azevedo e Miguel Cardoso Pereira, in A Bola

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Terra Prometida

"Esta foi a semana em que jogadores agridem em campo sem punição, outros acusam, outros refutam e contra-acusam; em paralelo, circulam os “vídeos”. Pergunta-se novamente: o que esperar da Comissão Disciplinar (CD) da Liga? Bastará confirmar o regresso ao passado da justiça desportiva, empenhada desde Junho de 2010 em obter a “acalmia” num “meio” difícil: quem atua, julga e, se for caso disso, condena nunca será bem quisto no futebol, habituado por longos anos a posições benignas e “a contento”. Como questionava um presidente no tempo de Hermínio Loureiro, “sensibilizado” com os castigos da CD: “então a Liga não é feita pelos clubes e para proteger os clubes?”; “afinal, quem manda aqui?” É esta a mentalidade dominante que, indiferente aos poderes públicos do Estado delegados nas federações e nas ligas e ao caráter técnico-jurídico da função, explica o suficiente.
Hoje parece evidente que se tomou um caminho “não jurídico” para evitar… instabilidade. O órgão disciplinar da Liga:

(1) deixou de promover por sua iniciativa os processos disciplinares para averiguar a prática de ilícitos, refugiando-se em terminologias do Regulamento Disciplinar (RD) e esquecendo a lei: diz o regime jurídico das federações e das ligas que cabe aos órgãos disciplinares desportivos “apreciar e punir, de acordo com a lei e os regulamentos, as infrações disciplinares em matéria desportiva”; não diz a lei que os processos se instauram quando o órgão disciplinar quer ou só quando lhe chega uma queixa (a prática do pretérito recuperado) ou a descrição nos relatórios do jogo…;

(2) suavizou as punições dos castigos “correntes” (agressão física, jogo violento, injúrias), sem reprimir e prevenir os mais graves (sirva de ilustração: duplo amarelo = cabeçada a adversário sem disputa de bola = 1 jogo!);

(3) esqueceu os “processos sumaríssimos”, mesmo com o RD a impor inequivocamente que a CD atue “oficiosamente” (por iniciativa própria);

(4) deixa arrastar e não julga em tempo útil os processos;

(5) não explica as decisões finais nem faz publicitar com rigor a sua “fundamentação” (muito menos se publicam os acórdãos mais significativos).
E para quê cumprir a lei e ser transparente e célere? Para quê instaurar mais de uma centena de processos por ano? Para quê esclarecer os critérios de atuação? Para quê julgar entre 1 a 2 meses? Para quê propor sumaríssimos e aplicar os princípios do RD? Para quê castigar diferenciadamente jogadores em razão da gravidade das condutas? Para quê fiscalizar permanentemente as declarações de dirigentes? Para quê explicar, por exemplo, a suspensão de 5 meses de um delegado do Estoril por factos ocorridos há mais de meio ano? Para quê tudo isto se só nos convém mexer quando a “coisa” mexe (muito) nos jornais (como no caso “Jesus-Luís Alberto”)? Para quê julgar todos por igual e não deixar impunes os que não são denunciados e não são alvo do “alarido” da imprensa?
Para quê trabalho, escrutínio e incómodo? Ao que parece, nos tempos que correm, não é por esse caminho e com esse “perfil” que se ganham eleições!"



Vacas Magras

"Parece ter vindo para ficar, e por mais que a tentemos esquecer, ela não nos larga. Falo da profunda crise económica e financeira em que o País, e pelo menos parte da Europa, estão mergulhados, e que ninguém sabe ao certo até onde nos vai levar.
Não cabe aqui dissecar as suas origens, encontrar os culpados, ou discutir as melhores formas de a combater. No âmbito deste espaço, interessa sobretudo perceber que efeitos directos ou indirectos pode ela trazer ao mundo do futebol, e particularmente ao nosso Clube. Interessa também saber o que podemos fazer para atravessar este período com o menor dano possível, sabendo-se que, aconteça o que acontecer, o mundo não irá acabar - e o futebol também não -, existindo, apesar de tudo, um futuro para além da densa escuridão deste tempo presente.
Enquadrando o panorama económico-financeiro dos principais clubes portugueses no actual contexto de crise, ressalta desde logo à vista um elevado nível de endividamento, em larga medida ainda resultante dos efeitos da construção dos estádios do Euro-2204. A recente diminuição das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu pode ser uma boa notícia relativamente a esses Passivos. Contudo, a falta de liquidez no sistema bancário, e a consequente dificuldade na obtenção de crédito, vai provavelmente obrigar-nos a rever algumas práticas, desde logo quanto ao modelo de abordagem ao mercado de transferências que tem sido genericamente seguido ao longo dos últimos anos.

Busca de talentos
Sem crédito, não há investimento, pelo que é natural que se torne muito mais difícil e clubes como o Benfica desenvolver uma política de contratações alicerçada na busca de talentos sul-americanos para valorização e venda, como aquela que tem sido seguida, com sucesso, nos anos mais recentes. Para dar alguns exemplos, poderia mencionar nomes como Di Maria, Ramires (já vendidos com imponentes mais-valias financeiras e desportivas), Cardozo, Gaitán, Bruno César ou Garay (entre aqueles que constam do nosso plantel, e cuja cobiça dos mercados garante largo retorno no caso de eventual cedência). Neste conjunto aleatório de jogadores está somado um investimento de mais de 40 milhões de euros, habilmente tornado possível e concretizado pela sagacidade dos dirigentes benfiquistas, mas que nas actuais circunstâncias, e com as crescentes dificuldades de acesso ao crédito, dificilmente poderemos ver repetido. Esta será pois uma das mais prováveis consequências da crise financeira em clubes como o Benfica, a qual irá obrigar a recentrar a nossa política desportiva em parâmetros alternativos - nomeadamente num melhor aproveitamento dos jovens oriundos da formação (e já vamos vendo alguns casos, como Nelson Oliveira, Miguel Vítor, David Simão, Luís Martins, Ruben Pinto ou Roderick), e provavelmente também num regresso ao mercado nacional, e à aposta em jogadores afirmados em território doméstico, coisa que, embora de forma ainda tímida, também já se vai verificando (vejam-se por exemplo, as recentes apostas em Jardel, ex-Olhanense, Artur Moraes, ex-Sp.Braga, Mika, ex-U.Leiria, e André Almeida, ex-Belenenses).

Tempos difíceis
Para além de uma diminuição da capacidade de investimento, também as receitas de bilheteira irão, necessariamente, sofrer quebras acentuadas. Por muito que os benfiquistas amem o seu clube, teremos de estar preparados para, nos próximos tempos, ver mais cadeiras vazias no nosso estádio (...e nos restantes) do que aquilo a que estávamos habituados. A situação actual obriga muitos portugueses a prescindir das despesas não essenciais, e por muito que o Benfica, com as vitórias que todos esperamos, constitua uma preciosa vitamina emocional para ajudar a ultrapassar um quotidiano extremamente complicado, a verdade é que, para muitos de nós, a ida ao estádio terá de deixar de ser uma rotina para passar a ser uma excepção. É natural que as receitas de quotização apresentem igualmente alguma quebra, pois também nesse caso, a depauperada carteira de muitos benfiquistas não deixará, infelizmente, muitas opções.
Por fim, mas não menos importantes, há que ponderar uma inevitável diminuição dos patrocínios, resultante do contexto difícil que, de igual modo, enfrentam muitos dos nossos parceiros comerciais. O próximo ano será de forte recessão, sendo que a publicidade é naturalmente uma das primeiras rubricas a sentir-lhe os efeitos.
Por tudo isto, mais do que nunca, a nossa equipa de futebol tem uma acrescida responsabilidade nas suas costas. É a ela, em primeiro lugar, que cabe atenuar (com vitórias, títulos, entusiasmo, valorização competitiva e atracção do público) todo este elenco de dificuldades que o horizonte próximo vai inevitavelmente colocar no nosso caminho."

Luís Fialho, in O Benfica

70%

"From: Domingos Amaral
To: Alan

Caro Alan
O que mais me chocou nas tuas declarações não foi a denúncia do suposto insulto racista com que Javi García te terá brindado, no qual não acreditei. O que mais me chocou foi teres dito que “70 por cento dos adeptos do Benfica eram negros”. Isso sim, foi um choque. Ó Alan, importas-te de repetir? É que, sabendo que existem 6 milhões de benfiquistas, 70 por cento dá o espantoso número de 4 milhões e 200 mil negros! Leste bem. Ora, asseguro-te que não existem 4 milhões e 200 mil negros em Portugal. Serão talvez 600 mil, não mais, e obviamente não são todos do Benfica. Em que benfiquistas estarias tu a pensar? Nos que vivem no Canadá, nos Estados Unidos, no Luxemburgo, em França, na Alemanha? É impossível saber. Penetrar nas profundezas do teu cérebro é difícil, há muita missanga a empatar. Assim sendo, suspeito que, além de seres um ignorante no que toca a percentagens e talvez devesses voltar à escola para aprender a fazer contas de cabeça, o mais grave em ti é veres a realidade de uma forma sempre distorcida. Pobre Alan, a tua mente anda tão torcida quanto as tuas tranças! O ano passado, Javi tocou-te no peito e tu agarraste-te ao pescoço! Este ano, depois de uma noite bem dormida, inventas insultos e proclamas barbaridades sobre o Benfica. Antigamente, à arte que tu tão bem praticas chamava-se falsificação. É o que tu és, um falsificador. Mas, para teu azar, és um falsificador incompetente, e a esses ninguém respeita. Até a aldrabar convém sermos bons, e tu és apenas medíocre. Ou melhor, és 70 por cento medíocre. O resto, que são os pés, até são razoáveis."


Tomba-gigantes

"Há muito tempo que os baptizaram com o inspirado cognome de 'tomba-gigantes'. São em regra pequenas equipas não profissionais, sem historial nacional nem responsabilidades especiais, que se agigantam quando têm em presença um adversário de peso e conseguem obter resultados que contrariam as previsões e as estatísticas.

Se porventura existisse uma ciência exacta para explicar estes fenómenos, por certo apontaria como causa para tão inesperadas vitórias a força interior que permitiu a David derrotar Golias, deitando por terra não só o gigante mas sobretudo o seu favoritismo.

Nas eliminatórias da Taça, alguns destes 'tomba-gigantes' já mostraram bem do que são capazes e dos verdadeiros milagres que a força anímica é capaz de produzir.

Em regra, não se encontram em causa, nestas situações, 'cachets' de monta ou inusitadas promoções desportivas.

O que está verdadeiramente em jogo é o amor à camisola, o brio, a vontade de vencer e muitas vezes até o bairrismo ou o regionalismo que tornam mais forte e irradiante o amor a um emblema e a uma terra. Muitos destes vencedores de circunstância trabalham a semana inteira em ofícios que pouco tempo lhes deixam para os treinos que os tornam aptos para os jogos decisivos. Mas fazem das tripas coração e correm atrás daquilo que amam, daquilo que mais profundamente os realiza. E levam com eles entusiásticos grupos de apoiantes, claques calorosas que fazem de cada um destes jogos decisivos uma página única das suas vidas.

É como se todos vestissem o fato domingueiro para estarem à altura de um cerimonial que não se compadece com a informalidade do improviso. E é assim que nascem verdadeiros heróis locais cujos feitos passam, pelos canais da memória colectiva, de geração para geração. É bom que estes exemplos frutifiquem entre os profissionais experientes, pois em matéria de entrega e de dádiva plena convém sempre aprender alguma coisa com quem deixa falar mais alto o coração."


José Jorge Letria, in O Benfica

Futebol incolor

"O tema já foi levantado nestas páginas pelo Manuel Arons de Carvalho, mas parece-me oportuno trazê-lo aqui de novo.

Sabemos que os novos tempos são marcados por um mercantilismo radical, e que a imagem (de pessoas, de países, empresas ou clubes) é hoje explorada até à exaustão.

Entende-se pois que os equipamentos alternativos sejam uma forma de rentabilizar a imagem dos clubes, traduzida, em grande medida, nas suas camisolas. A utilização de cores, eu diria, criativas, é pois um mal, não só aceitável, como necessário. Já o exagero nessa utilização me parece mais difícil de compreender.

Um destes dias assisti pela televisão a um Marselha-Arsenal, da Champions, e confesso que até aos minutos finais senti dificuldades em interpretar o jogo, pois o Arsenal sendo vermelho, surgia vestido de azul, ao passo que o Marselha, sendo azul, equipava estranhamente de vermelho. Na mesma competição, também não percebi porque motivo o Benfica não equipou de vermelho nos jogos de Bucareste e de Basileia, pois não creio que a nossa cor tradicional perturbasse a necessária distinção entre as equipas em campo. Recentemente, até no Hóquei em Patins, e em pleno pavilhão da Luz, deparei com um Benfica vestido de amarelo(?), justamente na primeira partida que disputou esta época.

A paixão por um clube é algo difícil de racionalizar, e nessa medida os símbolos são o que resta de um desporto marcado por grande volatilidade de atletas e técnicos (outrora figuras geradoras de afectos e fidelidades, de que o nosso Eusébio terá sido o mais expressivo paradigma). Por este motivo, entendo que as camisolas, assim como os emblemas, são algo que não podemos tratar com ligeireza, sob pena de empurrar o objecto das nossas paixões para o espaço de uma mera abstracção.

Há ocasiões suficientes, creio, para que a necessidade de utilizar equipamentos alternativos se possa cruzar com a oportunidade de os mostrar ao público, rentabilizando-os. Ir para além disso, parece-me perigoso e contraproducente."


Luís Fialho, in O Benfica

domingo, 13 de novembro de 2011

O circo chegou à cidade

"É frequentemente apanhado pelas repetições televisivas a atirar-se para o chão, a ludribiar o juiz da partida e a simular agressões que o fazem contorcer-se na relva com esgares de sofrimento extremo. Exibe extensões de cabelo enfeitadas e já alinhou pelo FC Porto. Não deve ser confundido com a personagem de Espaço 1999, Alan Carter, piloto das «Águias», mas é de facto um jogador de Futebol com queda para a dramatização. Ainda na temporada passada deu uma amostra do seu talento ao garantir que Javi Garcia ia para o balneário mais cedo, depois de uma cena dramática capaz de o candidatar aos óscares de Hollywood.

Pois bem, é esta mesma figura que pretende ser levado a sério e vem agora queixar-se de insultos xenófobos no decorrer do último Sp. Braga/Sport Lisboa e Benfica. Aponta o dedo novamente a Javi Garcia para que, em duas épocas consecutivas, o possa catalogar como reincidente. A esperteza saloia do actor leva-o a denunciar um único mau da fita e faz originar um julgamento público. O veredicto é encontrado, apenas, com base nas questionáveis declarações de um futebolista que gosta de iludir os homens do apito, pasme-se. Diria que isto serve apenas para desviar as atenções do que realmente importa. É que neste momento já ninguém fala dos três apagões, intrigantes imponderáveis testemunhados na 'pedreira' quando se registava um empate a zero no encontro. As manobras de diversão, fazendo uso das declarações de Artur Moraes e das alegadas ofensas de Javi Garcia dão muito jeito para que se olvide a parte gaga das quebras de energia. Três apagões, três, num jogo contra o Benfica, oportunos em véspera de jogos das selecções, tendo o Benfica vários internacionais no plantel. O adiamento penalizar-nos-ia muito mais, eles sabiam-no. Onde está a verdade e a mentira de tudo isto? E o circo que se montou à volta vai ficar estacionado até quando?"


Ricardo Palacin, in O Benfica

Truques

"O técnico do Benfica, Jorge Jesus, fez votos para que o jogo em Braga decorresse 'dentro da normalidade', sem 'casos fora do jogo' e 'sem truques'. Mas, por muito que saiba do Mundo do Futebol e dos truques do Sistema, Jesus não teria provavelmente imaginado o truque das luzes, evento que obscureceu o futebol no Estádio Municipal de Braga. Talvez estivesse a prever o truque do penálti. Afinal, aquele árbitro é repetente em penalties inventados contra o Benfica e não aprendeu nada quando foi para o jarrão por causa de um penálti que só ele viu de Yebda sobre Lisandro, cuja conversão evitou ao FC Porto uma derrota em casa frente ao Benfica. Mas o truque das luzes não teria passado pela cabeça de ninguém.

E, no entanto, foi com jogos de luzes que o Estádio Municipal de Braga quebrou o ímpeto, o ritmo e a concentração do Benfica - equipa com jogadores mais tecnicistas que os «guerreiros» bracarenses - alterando a Verdade Desportiva, às escuras. Três longas interrupções, por inexplicadas quedas de iluminação, mergulharam o Futebol em mais um apagão do Sistema. Claro que vão surgir tentativas de explicação: que foi falha técnica, erro humano ou bruxedo. Mas, se fosse possível perguntar a Sherlock Holmes porque razão as luzes do Municipal de Braga se apagaram três vezes nos primeiros 45 minutos de jogo, ele interrogar-se-ia sobre quem tirou proveito dos factos. E a verdade é que com o que se passou em Braga aproveitaram a mentira desportiva organizada, o Sistema e os seus mentores, padrinhos e afilhados. E o único que perdeu com as trevas de Braga foi o Clube da Luz."


João Paulo Guerra, in O Benfica

Apagões e soluções

" 'Sempre que o Benfica se desloca a Braga acontecem coisas estranhas'. A declaração foi proferida por Artur, guarda-redes 'encarnado', transferido esta temporada justamente do clube nortenho. 'O mais engraçado é que, quando o Braga marcou, a luz não voltou a apagar-se', também adiantou Artur, sugerindo marosca na coisa.

Os três apagões no reduto bracarense, na primeira parte do embate, foram inadmissíveis. Houve ou não acção voluntária? Ainda que não houvesse, as suspeitas são legítimas. Claro que tão bizarro acontecimento não explica, na totalidade, o empate averbado pelos comandados de Jorge Jesus. Ainda assim, o técnico do Benfica, no rescaldo do despique, explicou bem quão condicionantes foram as três pausas no rendimento global e individual do colectivo benfiquista.

Que dizer da igualdade registada em Braga, poucas horas depois do FC Porto ter deixado dois pontos em Olhão? O resultado, não sendo o melhor, até serve as nossas aspirações. Bastará recordar que, nos últimos dois anos (inclusive na temporada do título de 2009/2010), o Benfica baqueou sempre no terreno arsenalista. Foi assim nos dois jogos a contar para a Liga nacional, foi assim na partida da meia-final da Liga Europa.

Na liderança repartida com o FC Porto, a recepção que se avizinha ao Sporting recrudesce de importância, tanto mais que o arqui-rival de Alvalade está apenas separado por um ponto. O triunfo no jogo, desfecho de todo questionável, poderá traduzir-se num importante elixir com vista ao futuro competitivo da turma vermelha na mais importante das provas domésticas. Depois do apagão de Braga, a solução é mesmo um luminoso triunfo perante o Sporting."


João Malheiro, in O Benfica

Muito mau...



Sporting 26 - 17 Benfica



Não vi o jogo, quando liguei para a RTP 2 o jogo estava empatado a 3, mas quando vi a cara dos árbitros, mudei de canal, não valia a pena, o Benfica ia perder... Provavelmente, hoje, as razões até foram outras, mas mesmo se os jogadores do Benfica estivessem a jogar bem (o que parece não ter sido o caso), o resultado final seria parecido. O mais extraordinário é que 1/3 dos jogos do Benfica são apitados por estes meninos!!!

Numa semana complicada, este foi o pior 'começo' possível, agora a vitória com o Águas Santas é obrigatória, com pena de a meio da 1ª fase, ficarmos fora da corrida... A equipa nas últimas jornadas até estava a jogar bem, a inconstância tem sido uma marca desta equipa, mas desta vez espero que o problema tenha sido a paragem do Campeonato (para os jogos particulares da Selecção), sendo que se exige uma reacção energética!!!

sábado, 12 de novembro de 2011

Com seriedade (e qualidade), ganha-se prestígio, simples...!!!



Galatasaray 0 - 2 Benfica



Com competência, sem desiludir, com entrega e eficiência... Que bonito ver a braçadeira de capitão no Saviola... continuo a gostar das indicações do Mora (protege muitíssimo bem a bola de costas para o defesa)... o David Simão teve inconstante... Não é dos jovens mais 'falados', mas o Cafú entrou muito bem no jogo (um jogador que tem feito a formação ora jogando a trinco, ora a ponta-de-lança!!!)... tenho muitas esperanças no Paulo Teles, gosto de ver jogadores a jogar de cabeça levantada... tenho pena que o Rúben Pinto continue a não ter oportunidades para jogar alguns minutos na sua posição natural... Missão cumprida.

Invencibilidade

Guimarães 60 - 93 Benfica


Com o adversário, mais uma vez, a apostar tudo nos triplos, respondemos com ainda mais triplos!!! Só houve equilíbrio no 1º período, jogo bastante agradável... Os 33 pontos de diferença até sabem a pouco, tal a diferença, só uns últimos minutos em descompressão explicam vantagem tão curta!!!

Isolados no comando...



Benfica 4 - 1 Braga

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Lamentável

"1. Lamentável. Como é que um estádio (e para mais moderno) de um dos principais clubes nacionais sofre uma avaria na electricidade que aparece e desaparece várias vezes? Culpa do clube? Culpa da autarquia? É, pelo menos, lamentávle, tanto mais que as condições atmosféricas estavam normais. O haverá algo mais?

2. Lamentável também. Enquanto o jogo estava interrompido, a claque bracarense repetiu até à exaustão os insultos ao Benfica que são habituais nas claques do FC Porto. Não apoiam o seu clube, insultam o adversário. Nada a que não estejamos já habituados. O triste é que em Braga se sigam os maus exemplos de um clube que é internacionalmente conhecido pelos piores motivos.

3. Lamentável igualmente. Mais uma vez o árbitro Pedro Proença marcou um penálti forçadíssimo (quase diria inexistente) contra o Benfica e não marcou um outro (sobre Luisão) que a transmissão televisiva mostrou claramente. Mais uma vez fomos fortemente prejudicados.

4. Lamentável ainda. A falta de comparência da formação espenhola do Liceo da Corunha à final da Taça Contimental do Hóquei em Patins, frente ao Benfica. Conquistámos o título mas sem o sabo que constituira uma vitória em campo. Um clube campeão europeu deveria ter mais respeito pela modalidade, a principal prejudicada com esta ausência.

5. Regressando ao Futebol. Um ponto apenas separa os três grandes, concluindo que está o primeiro terço do Campeonato. Mas o Benfica já foi ao Porto e a Braga (para além da sempre complicada Choupana). E, para além do FC Porto-Benfica e do SC Braga-Benfica, ainda faltam todos os restantes jogos entre os quatro primeiros dos últimos campeonatos... As perspectivas são optimistas mas a equipa terá que o confirmar em campo, onde não tem estado tão bem como na primeira fase do Campeonato e em alguns jogos europeus..."


Arons de Carvalho, in O Benfica

Pode ter sido o ponto do título

"O empate em Braga teria sido positivo, mais ainda depois do Porto ter empatado em Olhão, não tivesse sido obtido num jogo tão manhoso. Este Braga, embora organizado, não está tão forte como nas últimas épocas. Aos três minutos houve uma expulsão perdoada ao jogador do Braga, aos 13 penalty sobre Luisão não assinalado, no 30.º minuto de desconto da primeira parte existe penalty muito discutível que marca a atitude de um árbitro cujo critério mais conhecido é prejudicar o Benfica para mostrar isenção. Lamento porque tinha tudo para ser dos melhores árbitros da Europa.

Se não tem condições para arbitrar o Benfica, Pedro Proença pode pedir escusa dos jogos encarnados, é melhor que fazer uma carreira com erros grosseiros e sistemáticos em prejuízo do clube de que se diz adepto. Eu se fosse árbitro não teria capacidade de isenção para arbitrar o Benfica, reconheço, digo isto na profunda convicção que Pedro Proença é dos melhores árbitros portugueses e um homem sério.

Estiveram menos de 18 mil adeptos em Braga, a maior parte dos quais adeptos do clube minhoto, esta realidade é o corolário da derrota da estratégia seguida pelo clube da Cidade dos Arcebispos, sistematicamente satelizado nas suas atitudes e criando um clima de guerra e intimidação constantes nas deslocações do Benfica a Braga. A verdade e que se o Braga tem conseguido resultados desportivos, (o Benfica vinha de três derrotas em Braga) também é verdade que Braga passou a ser um sítio onde a generalidade dos benfiquistas não gostam nem querem ir, um lugar onde o futebol deixou de ser uma festa. Como diz Artur, em Braga «acontecem coisas», ora o túnel é armadilhado, ora os jogadores simulam faltas, ora não há luz, ora falta água quente, ora o speaker irrompe os jogos com provocações. É tudo por acaso, mas também por acaso há quem não acredite. Tenho pena porque gosto do Braga desde pequeno. Espero que este tenha sido o ponto do título."


Sílvio Cervan, in A Bola

O aeroplano

"Certamente todos vocês se recordam daquele filme enlouquecido de perfeito 'nonsense' que levou o nome de 'Airplane', em português 'O Aeroplano', realizado por Jim Abrahams e pelos irmãos Zucker. O 'American Film Institute' considerou-o o décimo filme mais engraçado de todos os tempos. Ora, se os senhores do 'American Film Institute' tivessem visto a versão recente da obra levada à cena há uns dias, sem Leslie Nilsen mas com D. Palhaço numa interpretação inesquecível, talvez o elegessem como o filme mais grotesco de todos os tempos. É verdade que a fita só foi vista pelos próprios actores e que as versões divergem quanto ao conteúdo. Há até quem diga que chegou a ter minutos de suprema pornografia, senão visual pelo menos vocabular, com insultos a esmo e, tal e qual como na versão original de 1980, peixe estragado a ser servido aos passageiros.

A sarrafusca foi de tal ordem que, de repente, o Madaleno começou a esvaziar como um balão. Lembram-se do filme? Lembram-se de Otto, o piloto automático insuflável? Pois eis que o passageiro do lugar 2A começa a largar ventosidades e nem por isso agradavelmente perfumadas. Pânico a bordo! Três pessoas acorrem em auxílio do arfante; as restantes continuam a ler jornais, a dormir ou a jogar às cartas, já enfastiadas de tanto flato por parte da atolambada figura. Entra então em cena a marafona que, tal como a Eleine do filme, trata de lhe soprar flebilmente no pipo que o pândego esconde no umbigo. Há quem vire a cara, enojado, à medida que a jovem flausina arfa no seu esforço de o devolver às medidas convencionais. É um espectáculo deprimente. O Madaleno ganha, finalmente, cor. Aquele tom amarelado de quem tem a bílis a percorrer toda a corrente sanguínea.

Quando desembarca já é chamborgas do costume, cheio de goela e bazófia. Mas todos nós sabemos que é apenas um bufão insuflável."


Afonso de Melo, in O Benfica

Coisas estranhas

"Antes do início do jogo, o treinador do nosso Benfica pediu apenas que, desta vez, em Braga, não ocorressem “coisas estranhas”.

Findo o jogo, constatámos que todo ele foi feito, mais uma vez, de coisas estranhas. Estranhamente faltou a luz por três vezes, durante a primeira parte do jogo. A EDP terá declinado responsabilidades, quem tem responsabilidades em organizar o jogo diz que é alheia a qualquer responsabilidade, o presidente da Liga de clubes demite-se de responsabilidades e de apurar responsáveis – nada de novo, vindo de quem vem – e o próprio Braga, num comunicado que poderia fazer parte do anedotário nacional, ainda acaba por ameaçar quem ousar questionar as suas hipotéticas responsabilidades no sucedido. Pela minha parte, quando as coisas são estranhas, questiono e não é com ameaças mais ou menos veladas que deixarei de as questionar. As coisas estranhas começam a acontecer com uma tal recorrência naquele estádio, aquando das visitas do nosso Benfica, que seria cegueira não as questionar.

Por falar em cegueira, pergunto-me o que terá levado o árbitro do jogo, o inefável Proença, a não querer ver uma grande penalidade sobre Luisão, uma agressão de Djamal a Gaitan, uma entrada violentíssima de Alan sobre Javi Garcia e a querer ver uma muito discutível grande penalidade do Emerson. Não incluo a exibição do senhor Proença no rol das coisas estranhas, pois a sua carreira habituou-nos a decisões deste teor, sempre extremamente criteriosas, que fazem dele um digno sucessor de árbitros da estirpe de Jorge Coroado ou Fortunato Azevedo.

Para finalizar, deixo ainda uma palavra a Alan e à sua indignação perante as palavras que, supostamente, Javi Garcia lhe teria dedicado. Alan habituou-nos a duas coisas: a enganar, através da simulação de agressões, a verdade desportiva; e a obedecer, de forma solícita, às orientações que lhe são dadas pelos seus superiores. Logo, não estranho as suas declarações, estranho o crédito que alguns lhe dão."


Pedro F. Ferreira, in O Benfica

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Foi um extraterrestre que apagou as luzes (ou Artur e as «coisas do outro mundo»)

"Para Artur explicar «coisas do outro mundo» que acontecem em Braga terá de provar que quem desligou a luz foi um alienígena ou um saco de ectoplasma vindo do Além


DE todas as coisas inacreditáveis que se passaram e se disseram em Braga desde que o Benfica foi lá jogar, a mais inacreditável de todas é, por sorte, logo a única que está documentada.

Sim, sim temos foto!

A coisa que seria mais improvável de ocorrer em nome do bom senso, da harmonia e do progresso da civilização, a coisa verdadeiramente mais chocante triunfando sobre as demais nos capítulos da intolerância e da estupidez, é a única coisa que disponibiliza a imagem em flagrante do abuso cometido.

Certamente, será alvo de um inquérito não da Liga dos Clubes, que organiza os jogos de bola, mas do Ministério da Educação que organiza o resto, ainda que menos importante.

Na terça-feira, o bom do Mossoró, que joga no Sporting de Braga, visitou a escola EB 2-2 de Celeirós, uma freguesia bracarense, e um aluno «foi aconselhado a não assistir à sessão de autógrafos, não fosse a sua presença ser confundida como uma provocação», como se podia ler ontem neste jornal. E não só ler.

Ver também porque A BOLA publicou uma fotografia - que aposto que não é forjada - de um rapazinho com uma camisola do Benfica encostado a uma parede a ouvir as explicações, depreende-se, de uma senhora mais velha que não se sabe quem é. Poderá ser uma professora, uma mãe, uma funcionária ou mesmo alguém que goste de aparecer em fotografias.

O rapaz tem um sorriso maravilhoso.

Não mostra o menor temor pelo acto de segregação de que está a ser alvo nas instalações de uma escola do Estado português.

Está a sorrir de frente para eles.


A Comissão de Disciplina da Liga decidiu multar esta semana o Sporting na quantia de 1700 euros por causa da pancadaria entre elementos de uma claque sua e as forças policiais no jogo de Alvalade com o Benfica, a contar para o campeonato de 2010/2011. O tal episódio de violência, amplamente documentado pelas câmaras, ocorreu a 21 de Fevereiro deste ano. Está quase a fazer um ano e a demora da decisão praticamente fez esquecer o despautério infelizmente comum nos nossos bonitos campos.

Assim sendo, ainda bem que a Liga não vai abrir nenhum inquérito às três falhas de luz que obrigaram a interromper o jogo por três vezes numa primeira parte que, por isso mesmo, teve 37 minutos de tempo de compensação.

Aparentemente, ouvindo o presidente da Liga e futuro presidente da Federação a falar, foram mais do que suficientes as explicações fornecidas em pleno camarote VIP do estádio Axa para que Luís Filipe Vieira e o próprio Fernando Gomes se considerassem esclarecidos sobre o invulgar episódio eléctrico.

No entanto, é bem possível que a Liga abra um inquérito às acusações trocadas publicamente entre Artur e Alan.

Artur, por exemplo, está tramado com a analogia que escolheu. Agora vai ter de provar aos juízes da Liga que em Braga, sempre que o Benfica lá vai, «acontecem coisas do outro mundo». Não vai ser fácil para Artur, neste mundo, justificar o que afirmou sobre a recorrência das manifestações anti-benfiquistas do além. Para se safar ao castigo terá de provar, para além de qualquer dúvida razoável, que quem fechou por três vezes a luz do estádio foi um extraterrestre ou um saco de ectoplasma ou um alienígena ou uma alma penada, enfim, qualquer coisa «do outro mundo».

Alan também se desgraçou um bocadinho com a analogia que escolheu em defesa da inocência dos cortes da luz. «Falha de electricidade é um erro técnico o que acontece. Quando o FC Porto foi à Luz ligaram o sistema de rega», disse.

Disse e esticou-se.

Porque não há ninguém que acredite que a ligação do sistema de rega (quando o tal jogo tinha acabado, o que já faz a diferença) na Luz «foi um erro técnico» que aconteceu, pois não?

Alan terá levado longe de mais o seu esforço na ânsia de grande profissional que quer defender o bom nome da sua entidade empregadora mas que, por excesso de voluntariedade e pouco tino, acaba por cometer um lapso de analogia que era absolutamente dispensável.


ALAN não fez uma exibição muito inspirada contra o Benfica e até parece que só acordou para o jogo 24 horas depois de Pedro Proença ter apitado para o fim da contenda. Acordou e acusou Javi Garcia de lhe ter chamado «preto», a ele que «preto eu, não, é negro».

A frase é confusa, admita-se.

Não é claro se Alan está a querer dizer que não é preto, que é negro. Ou se Alan está a querer simplesmente explicar-nos em que língua é que Javi o insultou, visto que em língua castelhana não existe «preto», só se usa o «negro».

Este vai ser um inquérito difícil para os juízes da Liga. Até porque todos sabemos que não há prova documental dos insultos visto que Alan acabou com o suspense afirmando que o jogador espanhol do Benfica «pôs a mão à frente da boca» quando falou. Para ninguém lhe poder ler os lábios, estão a perceber?

Lá mais para os Santos Populares teremos notícias destes inquéritos.


A selecção começa amanhã o seu mano-a-mano com a Bósnia Herzegovina. Hélder Postiga, que tem sido titular indiscutível na equipa de Paulo Bento, disse no início da semana que «atrapalha mais a chuva» do que as declarações de Bosingwa, o lateral-direito do Chelsea que o seleccionador preteriu em favor de João Pereira e de Sílvio.

Postiga saberá com certeza do que está a falar e bem pode ter razão. Quem lá está dentro é que sabe, como se costuma dizer. Mas a verdade é que se todas as equipas e selecções inevitavelmente se renovam, no caso da selecção portuguesa nos últimos largos tempos não houve renovação que não tivesse o seu quê de contencioso ou de purga, desde o cortejo de abandonos por vontade própria ao vigoroso índex dos malquistos por vontade alheia. Que amanhã não chova para vermos se isto acaba tudo em bem e ao som do Hino Nacional.


O seleccionador da Bósnia-Herzegovina diz que a selecção portuguesa defende mal. É verdade que sim, defendeu muito mal nos últimos jogos. Aliás foi por aí que engrossou o maior caudal de críticas à equipa de Paulo Bento.

Os adeptos portugueses foram logo os primeiros a apontar essa fraqueza e os comentários foram na generalidade produzidos com a maior sem-cerimónia para a qualidade e entrosamento dos nossos jogadores mais recuados.

Agora veio um senhor bósnio-herzegovino dizer exactamente a mesma coisa e o país sentiu-se ofendido. Somos assim. Para dizer mal de nós, estamos cá nós primeiro. Aos outros, exige-se respeito, muito respeitinho.


NAS próximas eleições para a Federação Portuguesa de Futebol o Sporting joga deliberadamente ao ataque em dois tabuleiros. E, portanto, sairá sempre vencedor o que tem as suas virtualidades.

Godinho Lopes reitera a cada momento o seu apoio a Fernando Gomes, de acordo com as notícias de todos os jornais. Luís Duque, de acordo com o Correio da Manhã, mantém-se inabalável na campanha por Carlos Marta ao ponto de «ameaçar mandar regressar a Alvalade já em Dezembro» os jogadores que o Sporting emprestou aos clubes da Associação de Futebol de Lisboa que assinaram a convocatória da assembleia-geral que visa destituir Marta, o actual presidente da AFL.

Estas eleições da FPF estão como o universo, em expansão. Não só vão decidir quem vai suceder a Madaíl na presidência do referido organismo de utilidade pública, como também vão decidir quem manda nos árbitros e nos delegados e, como se já não bastassem tantas decisões num acto só, vão também sufragar quem é que verdadeiramente manda no Sporting.

Atenção, portanto, ao dia 10 de Dezembro."


Leonor Pinhão, in A Bola

Mãos fortuitas

"Os penáltis são golos quase certos. Portanto, os árbitros não podem assinalá-los por dá cá aquela palha ou em lances duvidosos.

Um dia destes, num jogo decisivo – pois decidia o último classificado –, vi o árbitro punir uma mão casualíssima (que ditou o vencedor), ainda por cima 5 minutos depois da hora!

No domingo, em Braga, vi um avançado centrar, um jogador do Benfica virar as costas, a bola bater-lhe num braço encostado ao corpo e o árbitro assinalar penálti. O resultado estava em 0-0.

Hora e meia depois, em Alvalade, vi um jogador do Leiria estender a perna à bola, cortar, a bola raspar-lhe na mão e o árbitro marcar penálti.

Uma vez o árbitro Pedro Henriques explicou que uma bola que ressaltasse do pé do jogador para a mão nunca podia ser penálti – porque o penálti exigia intencionalidade e a distância entre o pé e a mão é demasiado curta para isso. Mas a toda a hora marcam-se faltas destas!

Ora isto, senhores árbitros, não pode acontecer! É um desrespeito para com os jogadores – que andam 90 minutos a correr e veem esse esforço tornar-se inglório por um erro vosso –, um desrespeito para com o público e um desrespeito para com a verdade.

Senhores árbitros: tal como os juízes no tribunal, os árbitros dentro do campo não podem ser executores cegos das leis. Têm de ter bom senso. Não devem transformar mãos fortuitas (e lances inofensivos) em golos quase certos! Só devem marcar penálti quando tiverem a certeza da gravidade da falta e de que houve intenção. Não falseiem os resultados. Isso não dignifica o futebol e não contribui para a verdade desportiva!"


José António Saraiva, in Record

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Caldeirada

"Um plano televisivo sem legendas mostrava-nos os presidentes do Braga, do Benfica e da Liga, firmes, hirtos e com caras de estarem sentados sobre uma almofada de punaises. No relvado, o espetáculo tinha parado por falta de corrente elétrica, enquanto nas bancadas da Pedreira energia era o que não faltava, fazendo ecoar por todo o país os sons da falta de civismo que grassa no reino.

Imaginar o que passava pelas mentes daqueles três Césares à varanda do Circus Maximus transporta-nos para o domínio do surreal, ao invés da premissa de dignificação de um espetáculo de qualidade, credibilidade e seriedade. O estádio de Souto Moura, oitava maravilha da arquitetura desportiva, entrava no anedotário das histórias mal contadas, por negligência do eletricista, com a sua caldeira topo de gama a oferecer aos visitantes o prazer de um duche frio em cima da banhada tática que lhes custara a liderança isolada do campeonato.

Os caprichos de um fusível ou de um termoacumulador não entravam no imaginário do “outro mundo” a que aludiu o guarda-redes Artur Moraes, sem menosprezar o seu conhecimento de causa, mas enfileiram agora na galeria das distrações a que um determinado sector recorre por sistema.

Porém, a falta de água quente que suscitou uma defesa da honra pela SAD minhota e um salomónico esclarecimento do chefe da Liga, testemunha da caldeira danificada, nada significa quando dois dos intervenientes no jogo acusam um adversário de insultos racistas. É uma situação extremamente grave que carece tomadas de posição firmes de cada um dos caudilhos da tribuna Axa, embora tenda a evoluir à revelia das instituições a caminho do poço sem fundo dos processos disciplinares hipócritas em que estes dirigentes normalmente expiam suas gafes e incongruências.

Liga e Federação vêm há anos encolhendo os ombros ao recrudescimento do fenómeno decorrente das manipulações em torno da famigerada Regionalização que foi colocando os genuínos em pé de guerra contra “mouros” e “espanhóis”, consoante as cores das camisolas. Os insultos contínuos, histriónicos e provocadores animaram a banda sonora daquele jogo até ao primeiro apagão, gritando seu ódio agudo para todo o país ouvir e se amedrontar.

Apesar da aposta declarada numa divisão dos portugueses em azuis e encarnados como forma de fortalecer as lideranças, ninguém, até ontem, associara tal antagonismo regionalista em sementes de racismo, perturbadores da sociedade. As hostes “organizadas” com o patrocínio dos clubes e SAD violam a lei antiviolência com assustadora frequência sem que, até hoje, esse mecanismo, dos mais avançados da Europa, tenha sido acionado por quem de direito, custando milhões ao erário público em operações de segurança pública.

Nenhum dos candidatos a presidente da Federação mostra preocupação com o perigo de explosão desta caldeira de intolerância que vem transformando as confortáveis bancadas das nossas pérolas de arquitetura desportiva em trincheiras para uma comandita alienada. A caldeirada que os desassossega é diferente, embora também vista de preto."