"Se a temporada se iniciar com a liderança da arbitragem sob investigação e procurando fazer de conta que o clima de suspeição que a visa não está desde já inculcado nas mentes de adeptos, dirigentes, jogadores e treinadores, o Carnaval não durará três dias, mas 34 jornadas. Que cada um saiba assumir responsabilidades…
É impensável começar a época de 2026/27 do futebol profissional sob o signo da suspeição. Se tal suceder, aberta que foi a caixa de Pandora, a anarquia instalar-se-á e a credibilidade das instituições ficará minada pelo ‘bicho’ da suspeição.
Precisa-se, pois, de ações céleres, quer de quem investiga, quer de quem está em xeque. Iniciar a temporada com este clima irrespirável será a suprema irresponsabilidade. Luciano Gonçalves, eleito presidente do Conselho de Arbitragem depois de uma disputa nas urnas com Jorge Sousa, possui legitimidade própria para o exercício de funções. Porém, após as várias posições vindas a público e a entrada em cena do Ministério Público, é fácil constatar que se encontra numa posição demasiado fragilizada para proceder a nomeações e gerir o setor.
Esta situação não pode passar ao lado da Liga Portugal, que tem o dever de garantir a integridade das competições que tutela, nem sequer dos clubes, que não podem estar sujeitos a movimentarem-se num terreno armadilhado, onde todos desconfiam de todos.
E há, também, a questão dos árbitros, pouco interessados, decerto, em darem a cara dentro das quatro linhas enquanto tudo não estiver em pratos limpos. Porque serão eles, ao primeiro deslize, a subirem ao pelourinho para serem escarnecidos pelos adeptos e vilipendiados pelos clubes.
Já não estranhamos quando, lá para março, começam as queixas dos que querem ser campeões e dos que não querem descer de escalão. Todavia, viver uma situação-limite como esta antes de a competição se iniciar é inédito e não pode ser tolerado, sob pena de o Carnaval, em vez de ter três dias, durar 34 jornadas.
Creio que interessará a todos que as dúvidas sejam dissipadas e, a partir do que se concluir, tomar decisões. A única coisa que não pode suceder, se não quisermos ser alvo da chacota interna e externa, é atirar os árbitros às feras e os clubes à incerteza. Todos os anos são mobilizadas centenas de milhões de euros no futebol nacional e o mínimo que se exige é que os investimentos dos diversos emblemas não fiquem à mercê de situações dúbias. Estou mais do que certo de que, se nada for feito e a decisão passar por vivermos no faz-de-conta, assobiando para o lado, o que demasiadas vezes corre mal irá correr pior.
Vivemos um momento de tal forma delicado que até pode vir a transformar-se numa força regeneradora, assim todos saibam assumir as suas responsabilidades.
No caso vertente, apesar de a Justiça estar a fazer o seu caminho, apurando factos, são os clubes, através da Liga, que estão obrigados a tomar uma posição firme, sob pena de se verem metidos num ninho de cucos.Haverá, pergunto, quem discorde que é impraticável iniciar uma época com a liderança da arbitragem debaixo do fogo certeiro de quem conhece o setor como as próprias mãos, que sempre manteve limpas?
Falta pouco mais de um mês para o ‘kick-off’ da Liga e, até lá, deverá haver uma solução sólida e definitiva. A política de empurrar as coisas com a barriga, que nunca é boa, neste caso, falando-se da arbitragem, será ainda pior.
Tratando-se de um órgão com legitimidade eleitoral e escasseando tempo para que os sócios da FPF possam intervir, deverão ser os clubes a exigir o mínimo dos mínimos, que é a normalidade. Se não o fizerem, se a época começar em regime de ‘bagunça’ na arbitragem, sujeitam-se a ser apanhados numa bola de neve que nunca poderão controlar.
CARTAS
ÁS
Diogo Costa
Antes do início do Mundial, num programa de A BOLA TV, coloquei o guarda-redes do FC Porto como a minha aposta de destaque para a competição. Quatro jogos volvidos acredito ter acertado na ‘mouche’. Estamos perante um dos melhores do Mundo na posição mais ingrata do futebol.
ÁS
Duarte Gomes
O antigo diretor-técnico da arbitragem disse, internamente, tudo o que tinha de ser dito, e, por pudor, foi mais sucinto no comunicado que produziu. Ter, em lugares importantes, homens livres, é meio caminho andado para que quem persiste em andar no arame sem rede se estatele.
DUQUE
Pierluigi Collina
Se é absurdo colocar, num Campeonato do Mundo, árbitros sem qualificação para tal, quando se nomeia para um Paraguai-França de mata-mata o incipiente Andrey Tsapenko, do Uzbequistão, atinge-se o nível da irresponsabilidade. Felizmente os ‘bleus’ não foram atrás das provocações…
CAPA
A maior homenagem aos Tubarões Azuis
A capa do Correio da Baía, do Brasil, mostra bem a consideração do mundo do futebol pelo que Cabo Verde fez no Mundial da América do Norte. Porque o gosto dos caboverdianos pelo jogo tem muito a ver connosco, também porque me sinto grato pelo apoio genuíno que sempre deram à Seleção Nacional, renovo os votos de que a FPF possa ajudar (mais) no desenvolvimento de infraestruras naquele país.
FOTOLEGENDA
DIOGO E ANDRÉ
Há uns meses, no contexto da biografia que escrevi do ‘Forever 20’ dos ‘reds’, foi-me dito pelo Liverpool que pensavam inaugurar o memorial dedicado a Diogo Jota, que não esquecia o irmão, André, por altura do primeiro aniversário do acidente que vitimou ambos em Cernadilla, Espanha. Assim foi. A imortalização, em pedra e bronze, que incorpora camisolas, flores e cachecóis deixados a 3 de julho de 2025 pelos ‘scousers’, está à vista de todos, paredes-meias com Anfield. Confesso que sabia que o Liverpool era um clube grande. Ao longo dos últimos meses aprendi que também é um grande clube."

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