"EM 1942, CARLOS BRITO
TORNOU-SE NO PRIMEIRO
MOÇAMBICANO A VESTIR
DE ÁGUIA AO PEITO
Ser o primeiro de uma terra distante a partir para um palco
maior é, ao mesmo tempo, um
ato de coragem e um fardo
silencioso. Não se leva apenas talento
na bagagem, leva-se a esperança de
muitos. Cada passe, cada golo, cada
erro deixa de ser apenas individual
para passar a representar um povo
inteiro. Se resulta, abre-se caminho. Se
falha, fecha-se uma porta que muitos
sonhavam atravessar. É o peso de uma
nação nos ombros de um só homem!
Em 1942, Carlos Brito chegou a Lisboa para desafiar o destino e vestir a
camisola do Benfica. Vinha de Lourenço Marques, onde representava o
Desportivo. Tal foi a honra de ter
atraído o interesse dos encarnados
que “o seu ‘custo’ terá sido o da passagem para Lisboa”.
A estreia não tardou: na 1.ª jornada da segunda volta do Campeonato
de Lisboa, frente ao Atlético. O avançado iniciou o encontro nervoso, querendo desfazer-se da bola rapidamente. Com o passar dos minutos,
ganhou confiança e, antes do intervalo,
apontou o segundo golo do Benfica. Os
encarnados acabaram por vencer por 5-2 e o
moçambicano mereceu elogios por parte da
imprensa: “É batalhador, não fugindo ao
embate com a defesa contrária. Eleva-se
muito bem, pulando com facilidade. Não
tem, contudo, características de avançado-centro.” Nos jogos seguintes, marcou a
todos os adversários distritais: CUF de Lisboa, Fósforos, Sporting e Belenenses.
Manteve o registo nos jogos de preparação
para o Campeonato Nacional, mas só foi
opção para a competição na 4.ª jornada, frente à CUF. Aproveitando a indisponibilidade de Julinho, apesar
da forte oposição do defesa
Lino, marcou o primeiro golo da
vitória benfiquista por 3-2.
Remetido depois para as reservas, apenas voltaria a atuar pela
equipa de honra em jogos oficiais na partida da segunda
volta, novamente frente à CUF.
Esses encontros foram suficientes para integrar a lista de campeões nacionais.
Nas três épocas seguintes,
atuou maioritariamente pelas
reservas, com aparições esporádicas ao serviço da equipa de
honra, que lhe valeram mais um
título em 1944/45. Na temporada
1946/47, ingressou no Futebol
Benfica, onde permaneceu durante três épocas, regressando
depois a Lourenço Marques.
Carlos Brito talvez não tenha
sido a estrela maior, mas foi a
faísca inicial. Foi ele quem mostrou que o talento africano podia
vestir de encarnado e vencer. Por
isso, “quando, na Luz, o público
se levanta para aplaudir o Costa
Pereira, o Coluna, o Eusébio,
algumas dessas palmas também
são devidas, por direito de conquista, a um homem que teve a
coragem” de vir jogar no Benfica.
Saiba mais sobre este e outros jogadores
do Benfica oriundos de Moçambique na
mostra temporária Etnografia do Golo –
O Património Cultural de Moçambique no
Futebol, patente no piso 2 do Museu Benfica
– Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica

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