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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Cabo Verde, o Mundial começou agora


"Magnífica prestação de Cabo Verde é uma das mais belas histórias a tirar deste Mundial, que tem mostrado o aproximar de africanos e sul-americanos aos europeus

A fabulosa epopeia de Cabo Verde, iniciada a 15 de junho com um nulo imposto à campeã europeia em título, a Espanha, que deixou o planeta de queixo caído, terminou ontem, com contornos dramáticos. Muito mais do que o mérito desportivo, já de si notável, porque nenhuma seleção tinha conseguido encostar a campeã mundial em título às cordas como Cabo Verde o fez, foi um trajeto que mostrou organização, talento que era quase desconhecido e trabalho.
Cabo Verde mostrou que o pequeno arquipélago é muito mais do que o local idílico e tranquilo para as férias de inverno dos europeus e este Mundial poderá (e deverá) ser o catalisador para que fenómenos destes se repitam a breve trecho. Para isso, oxalá que a experiência e o mediatismo que foram ganhos possam ser transformados em melhoria de condições no país.
Só nestes 16 avos de final, Paraguai escandalizou a Alemanha, Marrocos mandou os Países Baixos para casa antes do normal, a RD Congo obrigou Harry Kane a vestir a capa de herói pela enésima vez, os Estados Unidos, mesmo com 10, impuseram-se à Bósnia e a Noruega sofreu a bom sofrer para ultrapassar a Costa do Marfim. Na fase de grupos, mais exemplos houve de como as seleções menos cotadas no papel estão a reduzir para os europeus uma diferença que já foi substancialmente maior. É certo que há fatores que pesam para este aproximar, como o clima e o facto de muitas das seleções top terem os jogadores carregados de jogos nas pernas.
O Mundial não começou agora, como Roberto Martínez disse para desvalorizar uma fase de grupos tenebrosa de Portugal, mas parece notório que houve gestão de esforço de algumas seleções na primeira fase, já que este formato a 48, apesar de poder dar palco de Mundial a vários estreantes, possibilita que até sem ganhar qualquer jogo seja possível carimbar o apuramento para as eliminatórias. Enzo Fernández, por exemplo, o motor ao redor do qual a Argentina se construiu rumo à glória no Qatar-2022, chegou ao torneio com 52 jogos pelo Chelsea, e aos 80 minutos do jogo com Cabo Verde já alongava.
O resultado têm sido duelos bastante mais imprevisíveis e, por isso, espetaculares, do que a teoria poderia indiciar. Tive bastantes reservas sobre o alargar do Campeonato do Mundo a 48 seleções, mas a aposta está a ser ganha e estou certo de que, em 2030, mais Cabo Verdes poderá haver."

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