Últimas indefectivações

domingo, 14 de junho de 2026

Será que o torto se endireita?


"1. Omar Artan
Muito já foi dito e escrito sobre o jovem árbitro da Somália. Um dos melhores valores africanos, com imensa experiência internacional, sobretudo ao nível das competições de clubes da CAF, mas também a mostrar qualidades na fase final da CAN-2025, que se disputou há meio ano em Marrocos.
Sem surpresa designado, há três meses, para integrar o contingente continental de juízes para o Mundial. Repito, há três meses. Um tempo de construir sonhos, respirar futebol, preparar corpo e mente para a exigente tarefa de dirigir encontros nas Américas.
Um sonho tornado realidade, que Artan nunca escondeu ser o objetivo de uma vida e de uma carreira profissional.
A FIFA tem, nos seus oficiais, uma das classes mais importantes e decisivas para dignificar as principais competições e, para mais, um Mundial reforçado em número de equipas, de países organizadores, de cidades e de estádios. Tem obrigação de cuidar dos seus árbitros de modo transversal e inequívoco.
Independentemente da intransigência dos processos de admissão de estrangeiros em território dos EUA, competiria sempre ao organismo gestor do futebol mundial a responsabilidade de assegurar que todos os seus integrantes do setor da arbitragem teriam salvo-conduto para ultrapassar burocracias.
Se é verdade que, em comparação com o que sucedeu há oito anos, na Rússia (Vladimir Putin liberou fronteiras para permitir uma verdadeira festa do futebol mundial), Donald Trump fecha o país a sete chaves e coloca em causa a credibilidade do segundo maior evento desportivo mundial (e, atenção, em 2028 o primeiro terá lugar em… Los Angeles!), é igualmente certo que a imagem de Gianni Infantino sai muito chamuscada desta situação. E ainda estamos apenas no terceiro dia de Mundial…

2. Claudia Scheinbaum
Para muitos, terá sido um incidente diplomático. Para todos, foi uma surpresa. E uma bofetada de luva branca à FIFA: a presidente do México não esteve no Estádio Azteca, para a partida inaugural do Mundial, entre a equipa do seu país e a África do Sul. Preferiu, de acordo com o seu gabinete, juntar-se à população mexicana anónima, vendo o jogo e celebrando a vitória da tricolore num centro desportivo comunitário.
É, evidentemente, um sinal, um poderoso sinal dado por Claudia Scheinbaum, num momento em que as relações entre México e Estados Unidos da América já conheceram melhores dias, e em que o Mundial tem acrescentado pepitas de discórdia entre os organizadores, justamente devido à política diversa de admissibilidade de estrangeiros nos respetivos países, para diversas funções na competição.
Scheinbaum já não gostara da atribuição, à sua frente, em Washington, do FIFA Peace Prize a Donald Trump, manifestando visível desconforto.
Encontrou agora, na legitimidade do seu exercício presidencial, o modo ideal de mostrar à FIFA que há múltiplas formas de celebrar o belo jogo. Infantino, sozinho na primeira fila da tribuna, ganhou mais um motivo para começar a questionar algumas das ações pelas quais se responsabiliza.

3. João Pinheiro
Aproxima-se a estreia do mais cotado árbitro português da atualidade. João, Bruno e Luciano, o trio inseparável, será muito brevemente designado para o seu primeiro jogo. A ansiedade sobe, na exata medida e proporção da dimensão mundial da competição.
É natural que, respeitando a neutralidade continental que tem caraterizado Pierluigi Collina, o primeiro encontro da equipa de arbitragem portuguesa seja entre seleções não europeias, o que fará com que Pinheiro regresse ao Chile, onde apitou, o ano assado, na fase final do Mundial de sub-20.
A presença do árbitro português será, evidentemente, bem recompensada do ponto de vista financeiro. É um ponto alto de carreira para profissionais altamente treinados e especializados, com dimensão e visão mundiais, e de alcance global.
Portanto, e na exata medida das previsões financeiras muito favoráveis já reconhecidas pela FIFA, era só o que faltava que os árbitros não fossem bem pagos.
Terão de o ser, e é muito bom que a tripla lusa ganhe ainda mais, com acréscimos previstos para os juízes que dirigirem partidas da fase a eliminar (a partir dos 16 avos de final), porque isso, evidentemente, significaria o prolongar do trilho de sucesso e competência na fase final do Mundial das Américas.
Tudo o que João Pinheiro já conseguiu ilustra bem o princípio de que o esforço e a dedicação, aliados a um profundo estudo teórico e a uma condição física de atleta de alto rendimento, são referência e caminho. Devem ser motivo de orgulho para os portugueses, exatamente como a sua seleção ou os seus ídolos do pontapé na bola. O apito nunca será menos importante.

4. Cristiano Ronaldo
Portugal, nos últimos anos, tem um problema: confunde gratidão com lucidez.
Cristiano Ronaldo, como já múltiplas vezes escrevi e disse, é, para muitos, o melhor jogador da História do futebol e, para todos, será sempre um dos melhores.
É um atleta de eleição, pelo modo como tem gerido a sua carreira e por chegar aos 41 anos com uma vitalidade que muitos trintões (ou até mais jovens…) já não têm para o alto rendimento.
CR7 é uma marca. No campo, fora dele, no marketing, na publicidade, no planeta futebol, nas redes. Incontornável, única, indissociável de um ícone do desporto mundial.
Ninguém o nega, nem tem como negar. Só temos, enquanto amantes do desporto-rei, de nos sentir recompensados por tudo o que o astro madeirense construiu, ao longo da sua brilhante carreira.
Posto e dito isto, do ponto de vista competitivo, Cristiano já não é a mais-valia que, durante muitos anos, constituiu para o onze português. É um pilar de balneário e uma fonte de agregação e motivação, mas isso não quer dizer que tenha de ser titular.
Fica evidente, em diversos momentos de demasiados jogos, que Portugal é mais fluido e oferece diferentes possibilidades de exponenciar características de outros grandes jogadores, quando o avançado do Al Nassr não está em campo.
Será sempre um ótimo trunfo, uma explosão de alegria para a equipa e de respeito para os adversários, se jogar trinta a quarenta minutos. Sublinho: não creio que se justifique, neste momento e com o grupo à disposição de Roberto Martínez, a sua titularidade.
Tenho, porém, quase a certeza que a terá. Mas gratidão não pode, por si só, rimar com lucidez."

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