"FIFA não olhou a meios para ter a prova mais lucrativa de sempre. Futebol vai servir para normalizar a América de Trump. No Qatar, pelo menos, houve menos silêncio...
As imagens de jogadores de futebol, treinadores e membros do staff a serem pormenorizadamente revistados à chegada ao Mundial 2026 repetem-se por estes dias (ainda que uns mais do que outros, aparentemente). Nada de anormal nesta América securitária, por muito que os nossos olhos europeus não estejam habituados a isto (felizmente!).
Claro que não basta ser o melhor árbitro de África para entrar nos Estados Unidos para apitar a maior competição do mundo, é preciso passar no rigoroso controlo de segurança, que não é propriamente conhecido por gostar de africanos, somalis, negros. Aconteceu a Omar Abdulkadir Artan e não convém esquecê-lo, sobretudo perante a inação da FIFA. Das autoridades americanas, só uma fonte a garantir que o árbitro terá ligações a alegados membros de organizações terroristas. Já vimos este filme...
Também aconteceu a Aymen Hussein ser interrogado durante sete horas num aeroporto. Foram precisas sete horas para descobrir que o jogador não era, afinal, um outro cidadão com o mesmo nome de quem as autoridades suspeitavam. Aymen Hussein é iraquiano e não é, de longe, nem o primeiro nem o último iraquiano a ser discriminado, confundido, tratado como suspeito de terrorismo neste país só por ter esta nacionalidade. Mas tinha de acontecer a Aymen Hussein, cujo pai foi assassinado pela Al Qaeda e cujo irmão foi sequestrado pelo Estado Islâmico, estando ainda desaparecido. Digo tinha porque tudo isto parece uma inevitabilidade nesta América tão cruel (e racista).
Os próximos dias vão esbater estas histórias, porque o futebol tem esse dom (será dom? Adiante) de nos fazer esquecer das coisas mais importantes entre as mais importantes.
Também antes do Mundial no Qatar foram lembrados os problemas (perdoem-me o eufemismo) desse país e depois a bola começou a rolar e só aquela final fez-nos esquecer tudo. Com a diferença, noto, que nessa altura os protagonistas foram mais ativos. Agora é mais difícil protestar sobre os Estados Unidos de Donald Trump, logo ele que até recebeu um Prémio da Paz das mãos de Gianni Infantino - um troféu enorme, como os homens pequeninos às vezes precisam de receber para se sentirem os maiores.
Os europeus já foram mais defensores da democracia, agora estão reféns desta gente. Os outros têm mais dificuldade, ou menos peso mediático, porque são africanos ou iraquianos. Resta o Irão, que chegou entretanto ao México para lembrar que 168 crianças morreram no ataque americano a uma escola primária. Para elas não há prémios da paz.
Sucedem-se também as notícias sobre a falta de interesse do público em ir ver os jogos da fase de grupos. Os bilhetes são vendidos ao preço do ouro, porque no final disto tudo não interessam os retidos, os expulsos, os discriminados, os que assistem calados. O que vai contar é o quão lucrativa será esta prova. E o quanto irão ganhar poder Infantino e Trump.
Ainda bem que a bola já começou a rolar. Vamos à coisa mais importante entre as menos importantes."

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