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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma questão de terminologia

"Quando oiço os relatos, ou leio os comentários, ou vejo as transmissões televisivas, verifico que é comum o uso de uma terminologia do futebol que, sendo perceptível para quem assiste (ou lê, ou ouve), se baseia em palavras que não existem ou não são correctas, de acordo com as leis de jogo. E se umas nunca sequer existiram, outras foram alteradas e modificadas e já não fazem parte do léxico técnico em vigor. É claro que o importante é que o adepto perceba e identifique aquilo que está a ser dito ou descrito, mas como custa exactamente o mesmo dizer mal ou dizer bem e de forma correcta e assertiva, vou deixar aqui alguns desses termos, ou seja, os que se usam e os que deveriam ser usados de acordo com o guia universal das leis de jogo.
Começando pelas áreas de jogo, normalmente diz-se pequena área e o nome correcto é área de baliza, e a grande área é área de penálti. Quando se diz que a bola saiu pela linha de fundo, deveria dizer-se que saiu pela linha de baliza. "O árbitro assinalou grande penalidade" - este termo já foi eliminado e passou a ser chamado de pontapé de penálti. Muitos dizem árbitros auxiliares e os mais antigos ainda recorrem à expressão fiscais-de-linha, termos que já não existem, já que passaram a ser designados de árbitros assistentes. Já os vulgarmente designados de árbitros de baliza são, na realidade, árbitros assistentes adicionais.
Mas há mais: quando o quarto árbitro levanta a placa, normalmente diz-se que foi dado tempo de desconto. Ora, o árbitro não vai descontar, na realidade, vai acrescentar ou adicionar, por isso não é desconto de tempo, mas sim recuperação do tempo perdido. Outra curiosidade é que quando nos referimos ao videoárbitro e ao seu assistente utilizamos uma palavra que adoptámos como sendo portuguesa e dizemos muitas vezes, o VAR e o AVAR. Esta designação resulta de juntarmos as letras iniciais das palavras em inglês Video Assistant Referee (VAR) e Assistant Video Assistant Referee (AVAR).
Por falar nesta nova e tão útil tecnologia, a do videoárbitro, eis também que surge um novo vocabulário com o qual convém começarmos a ficar familiarizados. Na cidade do futebol temos localizado e centralizado aquilo a que normalmente designamos como a casa do VAR, quando na realidade o termo correcto para essa sala é VOR, ou seja, a designação de Video Operation Room. E à zona onde está instalado o monitor que no terreno de jogo existe para o árbitro verificar os lances que forem passíveis de revogação chama-se RRA, ou seja, Referee Review Area.
Por fim, e dentro da terminologia usada, é de destacar o seguinte: nas leis de jogo, as palavras têm um significado e uma correspondência em termos da sua designação e da sanção disciplinar aplicada. Assim, quando digo que uma infracção cometida por um jogador foi imprudente, em termos de leis estou a dizer que não há sanção disciplinar, apenas técnica; se disser que foi negligente então aqui refiro-me a uma infracção passível de cartão amarelo. Sempre que uso expressões como "uso excessivo de força", "conduta violenta", "falta grosseira" ou "pôr em risco a integridade física do adversário", estou a falar de uma acção penalizada com cartão vermelho.
Estas palavras ou expressões são todas elas muito importantes, sobretudo quando o árbitro faz o relatório de jogo, pois muitas das sanções que são aplicadas aos jogadores e técnicos dependem dos termos usados. E isso pode fazer toda a diferença quer no tempo de suspensão, quer nas multas financeiras.
De resto, quando um árbitro expulsa alguém por palavras dirigidas a ele tem de primeiro enquadrar a decisão no termo técnico correcto. Por exemplo, "o treinador usou de linguagem injuriosa ofensiva ou grosseira". Só depois é que faz a descrição pormenorizada das palavras, expressões e linguagem utilizadas. Por último, o termo mais usado pelos comentadores a propósito das faltas, que é a palavra intencional, já foi abolido e substituído por acto deliberado. São aparentemente idênticos, mas na realidade o vocábulo intencional põe o foco no propósito, no pensamento, na ideia, enquanto acto deliberado põe o foco na acção, na parte mais mecânica. Assim, ajuíza-se não o pensamento, mas sobretudo a execução e, como é sabido, há algumas infracções que têm de ter esta premissa como ponto de partida para serem penalizadas, como é o caso das mãos na bola ou do cuspir num adversário.
A palavra tem um significado, um sentido, uma força e se nós a utilizarmos de forma correcta estaremos seguramente a ser pedagógicos e construtivos."

1 comentário:

  1. Uma boa acção...vale mais que mil palavras!!
    Isto é tudo muito bonito, mas esse senhor deveria preocupar-se mais com a isenção da análise aos jogos, do que à correção dos termos futebolísticos utilizados na narração e comentários aos jogos!!

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