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sexta-feira, 3 de julho de 2026

Um esquadrão de ronaldetes não esbarra contra um neurónio


"É tempo de Mundial: esplanadas cheias, patriotas de junho, mãos de panado. Guia-nos Cristiano. O portugalinho rende-se-lhe. É mais que Deus: ensinou Deus a amar. É mais do que a água: ensinou-a ser molhada. É mais do que o fogo: ensinou-o a ser quente. Pode tudo. Desculpa-se-lhe tudo. Professoras, engenheiros e mecânicos: todos o desejam num amor pungente.
Ei-la, a portugalite de rissol e t-shirt da seleção. A inultrapassável parolice de sermos «um», «unidos» e «resilientes». Ai de quem critique Ronaldo, aponte falhas à equipa ou evidencie o óbvio. Ai de quem não partilhe da acéfala febre em torno de um atleta expirado que se julga o Sol e a nós sua corte.
No fundo, os portugueses, tão destreinados na arte de ser livres, são incapazes de um juízo racional só porque o tema outrora lhes fornicou o coração. Não aceitam um símbolo seu em causa pois confundem-no com um ataque ao direito a ir buscar frango para ver a bola.
O óbvio não se lhes evidencia porque o coração faz sombra aos olhos; porque «Deus me livre» se deixamos de amar quem um dia nos fez feliz. Atuam em gangue — «não és português», «não o mereces», «respeita-o!» — e são sempre muito homens, muito machos, muito fortes. Além do atraso cognitivo, partilham a incapacidade de dizer um bom motivo para o senhor estampado nas toalhas de praia estar ainda em campo.
Imagine-se: ser adulto, pagar contas, criar filhos e achar que há seres perfeitos. Pior: imagine-se ser isto tudo e ter como exemplo de vida Cristiano Ronaldo: um homem que, depois de conseguir tudo a pulso, teve a ganância de se vender a um regime que esquarteja pessoas; que fez um acordo em dinheiro para silenciar uma alegada violação; que não pensa senão nos seus números; que só é capaz de dar a cara pela equipa nas vitórias.
Um ronaldete é bimbo prepotente. Rasga as vestes pelo seu pastor e evangeliza a aldeia. Não se importa com uma alegada violação ou com o ídolo ser mascote de um regime sanguinário. Gosta «imenso» do país, mas é-lhe indiferente que a sua melhor geração de futebolistas rasteje diante um narcisista catedrático. Tem a personalidade de um pombo: não o chateia que o treinador não o tire; não o aborrece o «respeitinho» que o portugalinho institucional lhe tem. Todo esse mundo ordeiro e surdino não o irrita: nem se apercebe dele — um um esquadrão de ronaldetes à desfilada não esbarra contra um neurónio.
O direito dos ronaldetes a ver a «última dança» de Ronaldo (vomitei) não é superior ao direito dos portugueses a ter uma seleção nacional livre, em que o treinador e os jogadores não se sintam coagidos a orbitar em torno de uma estrela moribunda: a sua luz já não ilumina, o seu calor não queima, a sua utilidade é nenhuma. E nós, portugueses, lá vamos indo: calados, medrosos, guardando uma esperançazinha de que se ninguém arrebitar muito cachimbo, talvez seja desta. Amorosos como nunca, submissos como sempre."

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