"Quando Gianni Infantino sucedeu a Sepp Blatter, apresentou-se como o rosto de uma nova FIFA . Prometeu uma organização mais transparente, mais íntegra, mais independente e mais respeitadora das suas próprias regras.
"Os meus pais são italianos e ensinaram-me a distinguir o bem do mal. Cresci na Suíça alemã, da ordem, da disciplina e da confiabilidade. Depois fui para a Suíça francófona, da liberdade, da igualdade e da fraternidade." Foi assim que Infantino se apresentou aos delegados após a sua primeira eleição, em fevereiro de 2016.
Dez anos depois, é legítimo perguntar: onde está essa FIFA?
O título de um podcast do El País resume melhor do que muitos relatórios aquilo em que a organização se transformou: "A FIFA tem umas regras, mas, se Trump ligar, tem outras."
Já todos conhecemos a história do cartão vermelho mostrado ao avançado "norte-americano" Folarin Balogun e o que se seguiu. O mais irónico é que Balogun é norte-americano apenas por nascimento. Os pais são nigerianos e viajaram para os Estados Unidos quando a mãe estava grávida. Quando quiseram regressar, já não foram autorizados a voar devido ao avançado estado da gravidez. Balogun nasceu, por isso, em Brooklyn, cresceu em Londres e formou-se como jogador no Arsenal.
Ou seja, Trump intercedeu por alguém que por sua vontade, se tivesse nascido hoje, não fosse a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos que rejeitou a sua ordem executiva contra a cidadania por nascimento, nem sequer seria norte-americano.
Outro detalhe adensa o imbróglio em que Infantino se deixou enredar. Reagindo às acusações de parcialidade na decisão, o presidente da FIFA invocou a independência do Comité Disciplinar. Na verdade, porém, esse Comité não se pronunciou nem reuniu.
O Comité Disciplinar é constituído por 18 membros, mas a decisão foi tomada por apenas um: o seu presidente, o advogado emirati Mohammad Al Kamali.
Porque decidiu sozinho? Porque o presidente do Comité Disciplinar pode fazê-lo em "casos especiais". E não há dúvida de que, para a FIFA de Infantino, um telefonema de Trump cabe perfeitamente na definição de "caso especial".
Dez anos depois da chegada de Gianni Infantino à FIFA, a organização continua demasiado parecida com aquela que o suíço-italiano prometeu deixar para trás em 2016."

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