"Afonso Eulálio é um corredor de poucos rótulos. Para o definir, precisamos de pensar duas vezes e não há garantia de que fiquemos convencidos com a resposta. Talvez ele próprio esteja a passar pela fase fascinante em que os limites não existem. Sendo um ciclista em autodescoberta, começou a exploração pelo topo.
Chegado o segundo dia de descanso, há um português a liderar o Giro. Quando o figueirense se colocou em fuga na etapa 5, não sabia no que se estava a meter. Apesar de ter deixado escapar a vitória - seria a sua primeira como profissional - para Igor Arrieta, alcançou a liderança da classificação geral e abriu uma distância substancial para o grupo de favoritos.
A Bahrain-Victorious tem arredado a cortina e mostrado os bastidores da epopeia. Num dos vídeos divulgados, no interior do autocarro-hotel da equipa que o figueirense representa, o experiente colega de 38 anos, Damiano Caruso, explica-lhe que “muitos esperam uma carreira inteira por um dia” a usar a camisola rosa. Eulálio não carregou a responsabilidade durante uma corrida: já vai em quatro.
No início de 2025, Afonso Eulálio anunciou em primeira mão à Tribuna Expresso que ia participar pela primeira vez no Giro. Não era uma prova para a qual estivesse inicialmente escalado, mas os primeiros contactos com o World Tour transmitiram aos responsáveis a confiança necessária à inclusão numa corrida de três semanas. Os receios eram válidos. Até aí, a carreira tinha tido rédea curta e os melhores momentos cingiam-se aos seis dias vestido de amarelo na Volta a Portugal. Acabaria por abandonar a competição ao longo da estreia na Volta a Itália, mas não sem antes deixar a sua marca passando em primeiro lugar no alto do Mortirolo. Mais à frente na época, destacar-se-ia no Mundial do Ruanda, onde terminou no nono lugar.
Eulálio foi contratado para ter um papel secundário na Bahrain-Victorious. O próprio sempre o assumiu sem que lhe fossem detetados sinais de desmotivação. A humildade para aceitar plenamente o trabalho fê-lo evoluir até atingir o nível - ainda assim, não definitivo - em que está hoje. As oportunidades nunca são pequenas demais quando o beneficiado lhes dá o devido valor.
Mais do que ter vestido a rosa, está a defendê-la como algo que verdadeiramente lhe pertence. O apego criado para com a camisola está a fazer Afonso Eulálio superar-se, atingindo patamares competitivos aos quais nunca teria chegado se não estivesse envolvido na acérrima proteção da indumentária.
Precisaria de ganhar asas para chegar a Roma de rosa, mas o feito indelével de Afonso Eulálio deixa-o na companhia de Acácio da Silva e João Almeida na lista de portugueses que vestiram a maglia do líder da classificação geral. Embora tenha estabelecido como objetivo vencer etapas, foi surpreendido com uma conquista tão grande ou maior. A liderança do Giro até pode ser ilusória, ao contrário da realista ambição de terminar numa das posições cimeiras. “É um claro candidato ao pódio”, apontou em análise feita para a Eurosport o vencedor de sete grandes voltas, Alberto Contador.
Antes do Giro retomar com o contrarrelógio de 42 km, Afonso Eulálio tem planos que passam por “parar num bom café e comer um bom bolo”. “Espero que todos os portugueses estejam orgulhosos e, quando chegar o dia de perder a camisola, continuem a acreditar em mim e a apoiar-me.”
O que se passou
Na luta pelo segundo lugar do campeonato, o Sporting não cedeu contra o Gil Vicente e esvaziou o efeito da vitória do Benfica contra o Estoril. Menos feliz ficou o Tondela, que acabou despromovido à II Liga e vai ser rendido por outro clube do distrito, o Académico de Viseu.
O FC Porto limitou-se a cumprir calendário e festejou ainda mais o título conquistado. Lá por fora também se comemorou. O Celtic venceu a liga escocesa e destroçou o Hearts, líder durante 250 dias. Em Inglaterra, o Manchester City levantou a FA Cup.
A novela criada em torno do futuro de Mourinho continua por resolver. O Benfica fez uma proposta de renovação, mas o Real Madrid, um clube no meio do caos, parece ter levado a melhor. No entra-e-sai do futebol português, Otamedi já se despediu dos encarnados. O Sporting também disse adeus a Morita. Em sentido contrário, chegou Zalazar. Já Pizzi terminou a carreira no Estoril.
Se está com problemas em encontrar cromos da Panini, não se preocupe. Por aqui, todos os dias até ao Mundial lhe trazemos um. Na saqueta desta semana, saiu Bebé, Robert Prosinečki, Kevin-Prince Boateng, Thomas Ravelli, Johan Vonlanthen, Yaya Touré e Andy van der Meyde."

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