"Brilhou na histórica campanha da sua seleção em 2002, chegou como uma estrela a Liverpool. Mas, em Inglaterra, ficou mais conhecido pela indisciplina — e por uma desagradável tendência de cuspir em pessoas — do que pelo talento.
Talvez o problema sejam as métricas. O modo como avaliamos as coisas. Vejamos.
Fosse um jogador avaliado pelo seu exagero verbal, pelas pouco modestas palavras que profere, e El-Hadji Diouf, capaz de se colocar na mesma frase de Maradona, seria candidato à Bola de Ouro. Ou, por outro lado, fosse um futebolista medido pelos cartões que leva, e não pelos golos que marca, e Cristiano Ronaldo que tomasse nota deste adversário-
Bem, se quisermos ser mais específicos, caso a arte de cuspir estivesse enquadrada dentro dos talentos a levar para um relvado, e então El-Hadji Diouf seria o incontestado rei que ele acredita ser. É possível que seja o resto do mundo a medir mal a realidade.
Eis El-Hadji Diouf. Um olheiro viu-o, jovem, nas ruas de Dacar e levou-o para França, o roteiro habitual do viveiro de talento do Senegal. Após representar Sochaux, Rennes e Lens, fez as malas para Liverpool, aterrando em Anfield cheio de expectativa.
É nos reds que podemos começar a realizar uma contabilidade particular na carreira do avançado. Primeira temporada: seis golos, nove cartões amarelos. Nada mau. Segunda época: zero golos. Nenhum. Amarelos? 13. Vermelhos? Um.
“Deve ser o único número nove da história a ficar um ano inteiro em branco. Ele era sempre o último a chegar aos treinos”, acusa Jamie Carragher, um dos pesos-pesados daquele balneário. Diouf podia ter falta de pontaria em campo, mas não com as palavras, respondendo de forma curta e direta, argumentando, de forma complexa e ponderada, que Carragher é “uma merda”.
Steven Gerrard, a estrela do Liverpool, classificava-o como “egoísta”. Resposta? “Gerrard era um invejoso, porque eu tinha o mundo aos meus pés. As pessoas gostam dele em Liverpool, mas ele nunca fez nada pelo país dele. Eu sou o senhor El-Hadji Diouf, o senhor Senegal. Ele é o senhor Liverpool e o Senegal é maior que Liverpool.”
Saindo de Anfield para o Bolton galático, onde foi companheiro de Hierro, Okocha, Nakata ou Anelka, Diouf foi cimentando o hábito de marcar pouco, mas fazer grandes manchetes. No Sunderland, por exemplo, fez zero golos, mas ameaçou Anton Ferdinand, colega de equipa, de esfaqueamento, na sequência de uma discussão. No Blackburn Rovers, onde apontou quatro golos ao longo de três época — amarelos: 11, vermelhos: um —, não se apresentou para uma pré-época, sumindo, desaparecendo.
Pelo Leeds, onde marcou sete golos, o segundo valor mais alto desde que saiu de França, nunca conseguindo chegar à dezena de festejos, o CV apresenta ser detido após uma cena de pancadaria numa discoteca em Manchester e ser expulso na sequência de gestos obscenos na direção de adeptos do Brighton.
A atribulada carreira apresenta 101 golos, os quais perdem perante os 126 amarelos. A justificação? “Sou um leão, tenho mau perder e não há problema em ter mau perder.”
Ainda assim, a métrica que mais singulariza El-Hadji é mesmo a das cuspidelas. Foi havendo várias para amostra: na direção de um adepto do West Ham em 2002, contra um adepto do Celtic em 2003, forçando a polícia a intervir pelo conflito com as bancadas escocesas, para um jovem de 11 anos do Middlesbrough, para Arjan de Zeeuw, do Portsmouth.
2002 e o rugir dos leões
Claro que houve ocasiões de brilhantismo. El-Hadji Diouf venceu o prémio de jogador africano do ano duas vezes consecutivas, em 2001 e 2002, um triunfo consecutivo só imitado por Abedi Pelé, Samuel Eto'o, Yaya Touré, Mohamed Salah e Sadio Mané.
Foi em 2002, no Mundial da Coreia e do Japão, que se deu o apogeu da carreira. Com 21 anos, era pensamento comum assumir que aquilo não seria um pináculo, mas sim o começo de algo. Não foi.
No Oriente, Diouf apresentou-se veloz, agressivo, voador, com uma certa urgência em campo, levando consigo os sonhos senegaleses. Os leões de Teranga estreavam-se na prova e o primeiro encontro não poderia ser mais simbólico.
Senegal-França. Colonizado contra colonizador. Debutantes contra campeões do mundo e da Europa em título. “A maior parte da economia é gerida por franceses, derrotá-los foi brutal para nós”, recorda Diouf.
Para abrir uma competição de surpresas, um choque: triunfo dos africanos por 1-0. El-Hadji Diouf foi eleito o melhor em campo, aguçando a expectativa dos adeptos do Liverpool, já informados que, na época seguinte, aquela pérola vestiria de vermelho. Na caminhada senegalesa rumo aos quartos de final, Diouf manteve um nível alto, agitando, provocando, impressionando, ainda que, fiel ao que seria o resto da carreira, o número de amarelos tenha superado o de golos (1-0).
Seria aquele o apogeu. “Colocámos o Senegal no mapa. Antes do Mundial ninguém conhecia o Senegal, mas depois toda a gente queria saber onde ficava. O que Maradona fez pelo seu país é o que eu fiz pelo Senegal. Fui um dos grandes nomes do Mundial 2002”, lembrou à BBC.
No pós-carreira, El-Hadji manteve-se altamente influente na sociedade senegalesa. Foi conselheiro do presidente Macky Sall, no cargo entre 2012 e 2024, fundou um jornal e um ginásio. Durante a caótica final da passada CAN, a mediação de Diouf, num raro instante de razoabilidade e sangue frio, ajudou os senegaleses a regressarem ao campo.
Sem modéstias, o homem dos 126 amarelos grita: “Sou o maior atleta senegalês de todos os tempos. Quem fez melhor que eu no desporto senegalês? Quem?”
(A última polémica de El-Hadji Diouf arrisca-se sempre a passar rapidamente ao estatuto de penúltima. Horas antes da escrita deste texto, o senegalês foi condeado a um ano de prisão, com pena suspensa, por incumprir as obrigações financeiras para com a sua ex-mulher, nomeadamente a pensão de alimentos da filha.)"

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