"O futebol italiano atravessa uma crise profunda. É difícil acreditar que um país quatro vezes campeão do Mundo se encontre nesta situação, mas não há volta a dar: a Itália vai falhar mais um Mundial.
Há 20 anos, pouco depois de a seleção italiana ter conquistado o Campeonato do Mundo, ninguém diria que aquela final memorável contra a França, marcada pela célebre cabeçada de Zidane a Materazzi, foi o último triunfo da squadra azzurra em eliminatórias do Campeonato do Mundo.
A vitória acabou por vingar Roberto Baggio, cujo falhanço na final de 1994 ainda pesava, mas, por mais simbólica que fosse a vitória, não conseguiu apagar as consequências que se estão a arrastar por décadas.
Em 2010, a Itália voltou a falhar. Ficou na última posição da fase de grupos, grupo esse que até era considerado o mais acessível da prova. Após esse desfecho, Roberto Baggio, juntamente com Vittorio Petrone, elaborou o chamado 'Dossier Baggio'. Considerado um plano ambicioso para reformar o sistema do futebol italiano, a ideia nasceu com a intenção de intervir desde as federações, aos centros de formação. Inicialmente, o projeto recebeu via verde por parte de instituições e dirigentes, mas foi sol de pouca dura.
Baggio queria, mais do que ninguém, contribuir para uma mudança estruturada e necessária. Envolveu profissionais de confiança para garantir que o projeto tivesse solidez durante o processo de renovação. Apesar do parecer favorável, o plano nunca saiu do papel.
Hoje, o Dossier permanece como símbolo de uma oportunidade perdida: a preparação do futebol italiano para o futuro, no investimento da formação e garantir progressivamente que novos talentos pudessem surgir de forma sustentável. Roberto Baggio mostrou assim que queria que o seu legado ia muito além do campo. Muito além da coroação como melhor jogador do Campeonato do Mundo em 1994. Aquele em que apesar de ser o melhor, falhou o lance decisivo.
A Itália não soube cuidar do seu ídolo quando este caiu. E após a sua reforma, também não. E as crianças da altura como eu, adultos de hoje, não foram educados a perceber que os heróis também falham. Quando todos pensavam que este era o pior pesadelo de uma nação, passado poucos anos começaram a surgir os verdadeiros efeitos a longo prazo. A Itália deixou de apostar de forma consistente na formação de jovens talentos, as infraestruturas desportivas ficaram desatualizadas e os clubes passaram a depender cada vez mais de estrelas estrangeiras, em vez de cultivar a base nacional.
A seleção, outrora símbolo de excelência tática, começou a perder competitividade nas grandes competições e entrou num ciclo de desastres. Aliás, a Itália parece que já não é o país de futebol. E a culpa não foi de Baggio, foi de quem não cuidou dele. Alguns adeptos neste momento preferem ténis ao futebol de onze. Os ídolos mudaram. E os novos ídolos de outras modalidades também se queixam.Jannik Sinner já afirmou que trocava um dos seus títulos pelo regresso da Itália ao Mundial.
O tenista lamentou a fase negra da seleção e até já referiu que faria tudo para ver a sua equipa no maior palco do futebol. É impensável que os jovens de hoje nunca tenham visto a seleção jogar um Campeonato do Mundo, chegou a comentar em conferência de imprensa.
O futebol continua a ser o desporto dominante em Itália, mas a sua hegemonia tem vindo a ser desafiada nos últimos anos por modalidades que, lentamente, conquistam novos públicos e consolidam estruturas competitivas. A crise do futebol, abriu espaço para que outros desportos ganhassem protagonismo. Para além do ténis, também desportos como basquetebol, voleibol, ciclismo, automobilismo, atletismo e desportos de combate demonstram que existem alternativas com potencial cultural e profissional.
A ascensão de conquistas olímpicas também tem vindo a crescer e os transalpinos aproveitaram o facto dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano terem sido no país para consolidar essa posição. Mais do que números, os Jogos Olímpicos representaram uma oportunidade única para fortalecer a cultura desportiva do país.
Ao diversificar o foco para modalidades além do futebol, a Itália abriu portas para jovens talentos, incentivou hábitos de prática desportiva e reforçou a noção de que o sucesso nacional depende de uma base ampla, sólida e sustentável. Cada medalha, cada participação, é uma mensagem de que o desporto italiano pode crescer de forma equilibrada, valorizando a técnica, a disciplina e o orgulho nacional.
Outro assunto do momento e que foi sempre uma imagem de marca em Itália, refere-se à longevidade dos jogadores. Enquanto antigamente as principais referências eram praticamente todas italianas, como Francesco Totti, Andrea Pirlo, Paolo Maldini, Alessandro Costacurta ou Giuseppe Baresi, neste momento jogadores como Modric fazem a diferença, já com 40 anos no bilhete de identidade.
Outros craques, como Kevin de Bruyne, estreiam-se em Itália já com uma condição física aquém do esperado. Não faltará muito até ser considerado o campeonato dos reformados.
A gestão de novos talentos é um dos pilares estratégicos para clubes de futebol, influenciando o desempenho desportivo, sustentabilidade financeira e reputação da equipa. Identificar, desenvolver e integrar jovens jogadores exige uma combinação de visão de longo prazo, ciência do desporto e gestão. Nas costas dos outros vemos as nossas e a reflexão também deve ser feita por cá. Em alguns clubes, de forma urgente."

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