Últimas indefectivações
domingo, 7 de junho de 2026
Catar: Akram Afif, um mágico com os pés e com as mãos
"Duas vezes considerado o melhor jogador asiático, o extremo catari é o mais próximo de super-estrela irreverente do país. E faz por isso: na final da Taça da Ásia de 2023, o avançado que foi o primeiro jogador do Catar a jogar na La Liga festejou um golo fazendo um truque de magia para as câmaras de televisão.
Talvez fizesse sentido falar dos dois títulos de melhor jogador da Ásia, conquistados em 2019 e 2023, precisamente os dois anos em que o Catar surpreendeu ao conquistar o campeonato continental de seleções, a Taça da Ásia. Ou dos seis títulos pelo Al Sadd, o principal clube do país peninsular do Médio Oriente, com quem se diz ter um contrato para a vida.
Mas, antes de tudo, Akram Afif, o mais próximo de super-estrela que o Catar tem, é uma espécie de retrato-robô daquele país. Ou pelo menos do que hoje conhecemos como o Catar. O extremo de 29 anos é filho de mãe do Iémen e de pai nascido na Tanzânia, mas futebolista internacional pela Somália, que acabaria a carreira no futebol do emirado, um país de várias confluências, onde mais de 80% da população não é dali originária.
Afif não é só um produto biológico da emigração que chegou ao Catar, é ainda um produto futebolístico da Aspire, a academia de desportos fundada em 2004 para desenvolver atletas do Catar, num projeto estatal que culminou com a organização do Mundial 2022. Afif era a estrela da seleção da casa, mas as coisas não lhe correram particularmente bem: três derrotas em três jogos e apenas um golo marcado.
Seria um baque para os cataris, mas tal não retirou uma centelha de aura à mais importante fonte de talento e repentismo da seleção que agora, por mérito próprio, volta ao Mundial. Porque os dribles de Afif, uma certa fantasia que não retrai, uma rebeldia e inconformismo pouco comuns em países onde tal não é bem visto, não acontecem só com a bola nos pés. Afif também não é um tipo convencional.
Na final da Taça da Ásia de 2023, Akram Afif marcou um pouco habitual hat-trick de penáltis na vitória por 3-1 frente à Jordânia. No primeiro dos remates certeiros ofereceu aos adeptos um festejo também ele excêntrico: retirou das meias algumas cartas e com elas fez um truque de magia em frente às câmaras.
Irreverente, sem dúvida. Uma irreverência que também serve para encarnar o que uns chamarão de competitividade e outros simplesmente de batota. Há uns meses, depois do jogo que valeu a qualificação para o Mundial 2026, Akram Afif assumiu que pediu aos adeptos que estavam nas bancadas do Estádio Jassim bin Hamad, em Doha, para começarem a atirar objetos para o campo, numa altura em que o Catar vencia por 2-1 os Emirados Árabes Unidos, resultado suficiente para recolher o bilhete para o Campeonato do Mundo - em caso de empate, seria o rival a qualificar-se.
“Só mesmo para perder tempo. Disse-lhes para atirarem coisas para o campo para perdemos tempo”, revelou, com um sorriso e sem pejo, aos jornalistas durante uma cerimónia da confederação asiática.
A experiência em Espanha
Fora truques de magia e técnicas pouco ortodoxas para vencer, Akram Afif pode arrogar-se de ter no currículo alguns inéditos importantes. O atacante foi, por exemplo, o primeiro jogador do seu país a jogar na La Liga, com a camisola do Sporting Gijón, em 2016. Antes disso, Afif já tinha feito parte da sua formação em Espanha, no Sevilla e Villarreal, numa parceria com a Aspire.
Depois do Mundial sub-20, de 2015, foi convidado pelo Eupen, da Bélgica, clube do universo Qatar Sports Investment, estreando-se assim como profissional na Europa, antes de voltar ao Villarreal, que o emprestou ao Sporting Gijón. Apesar do talento, Afif nunca se adaptou ao futebol espanhol. Voltaria ao Eupen e por fim seria vendido ao Al Sadd, de Doha, onde finalmente explodiu, com 159 golos em 253 jogos, tornando-se figura incontestada do futebol catari.
Disse, depois da estreia na liga espanhola, estar a viver um momento muito maior que ele próprio: “Estou a representar o meu país, a minha seleção nacional e a academia Aspire. E estou a inspirar a próxima geração de jogadores para que acreditem que podem jogar na La Liga e em outras grandes ligas europeias”. Certo é que, depois de Afif, o futebol catari ainda não produziu qualquer jogador capaz de se impor fora de casa.
Na seleção do seu país, os 133 jogos já o colocam como o terceiro jogador catari com mais internacionalizações, ainda longe das 188 do histórico Hassan Al-Haydos. Mais golos que ele (41) com a camisola grená do Catar só Almoez Ali (60), jogador com um percurso similar, com origens na África Oriental e formação na Aspire."
sábado, 6 de junho de 2026
Génios da lâmpada fundida!!!
JM no Real Madrid arrisca-se a ser a terceira mais cara transferencia de um treinador na historia do futebol. Porém, especialistas em tretas televisivas e gestão de esgotos digitais, dizem que o Benfica anda a ser toureado, desde o inicio do processo. Génios da lâmpada fundida. pic.twitter.com/CMFNt5JjZ6
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) June 5, 2026
Indicador de qualidade dos plantéis...
Interessante...
— OCamisola10 (@OCamisola10_) June 5, 2026
O Porto levou quantos?
O Benfica leva oito a mais 😅😅
Que não venham lesionados. 🤞 pic.twitter.com/2bBPwf4GTf
Ragnar Aursnes, Bjorrn Schjelderup e companhia...!!!
Norway is coming🇳🇴 pic.twitter.com/SjESCYPLMd
— Fotballandslaget (@nff_landslag) June 4, 2026
Mourinho ganha duas eleições e deixa €160 milhões no Benfica
"Ajudou Rui Costa e Florentino no espaço de sete meses. Não deu a partir do banco, tem compensado ao longo do tempo. Ficar com Marco Silva e €15 milhões não é um mau ato de gestão
O famoso vídeo de IA de José Mourinho divulgado em tudo o que era televisão anteontem à noite, em horário nobre, apenas confirmou o que toda a imprensa portuguesa e espanhola foi escrevendo nas últimas semanas: o treinador português é um trunfo eleitoral de Florentino Pérez e a cartada foi jogada num timing cirúrgico. E assim, no espaço de sete meses, Mourinho pode ajudar a eleger os presidentes dos clubes de maior dimensão social de cada um dos países da Península Ibérica: Rui Costa em novembro de 2025 no Benfica (dois meses depois de contratá-lo após o despedimento de Bruno Lage) e Florentino em junho de 2026 no Real Madrid.
Digo-o com convicção, não só pelo que revelam as sondagens mas também pela natureza conservadora dos sócios deste gigante mundial: seria necessário muito mais que contratações sonantes do opositor (com Haaland à cabeça) para tirar do poder o homem que, apesar da idade avançada, ainda representa futuro, inovação e, acima de tudo, segurança.
Mas só um contexto de eleições permite ao magnata que inventou os Galáticos pagar tanto dinheiro ao Benfica para ter o técnico setubalense, cuja contratação será feita quase pelo dobro do valor que custou em 2010, vindo do Inter.
Vale a pena recordar: há 16 anos, Florentino não quis pagar os €16 milhões da cláusula, viajou para Milão e encontrou-se com o presidente Massimo Moratti para obter um desconto. Isto é, o Mourinho acabado de se sagrar campeão europeu pelos nerazzurri, com uma aura absolutamente intacta de vencedor, foi contratado por oito milhões de euros; em 2026, o Mourinho que ficou em terceiro lugar no campeonato português aterra novamente na capital espanhola por €15 milhões, o que faz dele o treinador que mais dinheiro deu a ganhar ao Benfica — €145 milhões em reforços para as suas equipas (de Tiago Mendes a Lindelof) e agora a milionária cláusula. Mesmo que pouco tenha dado ao clube em termos desportivos nas duas passagens pela Luz, o mesmo não se pode dizer no plano financeiro.
Só o tempo dirá se foi um bom negócio para o Real Madrid e para o Benfica. As águias desde cedo perderam o controlo da narrativa a ponto de colocar Marco Silva no papel de segunda escolha, mas é caso para dizer que ter o ex-técnico do Fulham e mais €15 milhões no bolso está longe de ser um mau ato de gestão. Se foi programado ou não, daqui a uns tempos poucos se lembrarão. Desde que a bola não comece a bater outra vez na barra."
Seleção: já sonhamos há tempo a mais
"Portugal encara o Campeonato do Mundo com objetivos por cumprir. O talento que juntou nestes anos assim o obriga. Muitos não terão outra oportuwnidade de tocar o céu
O Mundial. Vem aí o M-U-N-D-I-A-L. Fomos crianças e tudo era uma descoberta. Os cromos que colecionávamos, por vezes às escondidas, com o dinheiro do lanche, antecipavam o maior momento das nossas pequenas vidas. Pelo menos até que outros interesses se impusessem, vivíamos a sério apenas de quatro em quatro anos. De dois em dois, por vezes, porém os Europeus nunca foram a mesma coisa.
Era nessas figurinhas estáticas que descobríamos craques que nunca víramos. Só um ou outro, noite dentro, no Domingo Desportivo.
Era com a caderneta ao lado, sentados como pequenos budas à frente do ecrã, que víamos os primeiros jogos. Era ainda de boca aberta que absorvíamos a bicicleta freestyle, saída de rampa imaginária, de um tal de Negrete ou, antes, a capitulação do favorito dos favoritos num sítio chamado Sarriá. O primeiro Maracanazo de que me lembro, ainda por cima bem longe do Rio. O futebol puxava-nos pelos colarinhos e gritava que não era lógico e a surpresa, mesmo para quem jogava, vinha acompanhada de um murro no estômago.
Hoje, sabemos tudo ou quase. É caro, muito caro, mas temos acesso aos campeonatos bons e até a alguns menos bons, disfarçados de algo de jeito. E a maior invenção também a descobrimos rapidamente: podemos viajar na quântica televisiva se não conseguimos ver antes. E repetir. Nada nos escapa, se quisermos. Já sabemos tudo sobre o terceiro guarda-redes e o avançado que não tem hipóteses, só lá está para fazer número. E, para arrancar o nosso espanto, agora o génio tem de nos fintar também a nós, antes de atirar ao ângulo da baliza que defendemos.
Sabemos que vai ser físico, ainda que o calor nos possa dar tréguas. Haverá momentos aborrecidos e jogos que ninguém quererá ver. Iremos soltar aquele ‘já não há bilhetes’ que reflete todo o sarcasmo que temos dentro. Agora, imaginem os ianques. Imaginem onde o futebol mal pega, por mais que o plantem, para desgraça dos capitalistas da FIFA. E antes devorávamos tudo. Mesmo um Uzbequistão-Congo, sem qualquer obrigação. Perdemos a nossa inocência. Retiraram-nos as nossas saudáveis regressões à infância. E, agora, nem os cromos funcionam como antes.
Portugal parte mais uma vez cheio de sonhos para um torneio que já não tem só a elite. Há também a classe média e estreantes de pouca classe. O Mundial já não é o palco dos deuses. É também o dos mortais e o dos de alta taxa de mortalidade. E, mesmo com tanto talento, arranjamos sempre maneira de continuarmos a ser políticos. Vamos bem para lá do politicamente correto. Somos incapazes de tomar decisões difíceis que beneficiem o coletivo e tornem mais firme o caminho. Mesmo que o futebol dominador na Europa seja precisamente esse.
O treinador há muito que percebeu que de nada lhe valia vestir-se de Guardiola porque o fato não lhe servia. O processo normalizou-se por fim, deixou de querer ser disruptivo. Mas nem por isso melhorou. E ele lá continua porque os jogadores saíram em sua defesa e ganharam por si a Liga das Nações, talvez com receio do retrocesso para uma equipa de contra-ataque.
Sabemos já quase tudo. Que Ronaldo jogará todos os minutos de todos os jogos da fase de grupos, se cumprir na disciplina e fisicamente não capitular. Que, desta vez, a concorrência na equipa até está mais fraca. E que se não mudou quando esta se sentia bem, não será agora que será discutido. Sabemos que serão dez a defender e a atacar até à grande área dos rivais, e que Cristiano vai sentir urticária até tocar a bola junto à lateral, só porque sim. Sem qualquer racional associativo. Sem complemento de alguém na equipa. É apenas o momento de fazer o seu truque. E dar de calcanhar ou de passar sem olhar.
Temos a certeza de que os movimentos que fizer serão a pensar em si, para se libertar a si em vez de algum companheiro. Não será agora, aos 41, que aprenderá novas línguas. E, como tal, andamos longe da máxima força. Mesmo assim, quase todos o colocavam nos convocados e hoje a maioria não tiraria do onze. Oportunidade perdida!
Imaginamos todos a equipa ideal. Aceitemos que só a estratégia e a rotação irão alterar a hierarquia dos laterais e os nomes dos centrais titulares. Que Vitinha e João Neves são um só, embora joguem por quatro, e que não faltará mais ninguém para defender se a equipa alinhar em uníssono. Já que Ronaldo não é um problema para Martínez, haverá quatro nomes para três posições: Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Neto e João Félix. E residirá aqui o equilíbrio e o desequilíbrio, e talvez o segredo do sucesso. Ou a razão do insucesso.
Bruno Fernandes é tão bom que não é fácil entendê-lo como problema. É vítima do contexto. A falta de química futebolística com Vitinha e Neves, sobretudo com o primeiro, é notória. Ambos querem a bola e não jogam no mesmo tom. O diabo vermelho quer acelerar, Vitinha espera pelo momento certo, tanto quanto o faz — e de que maneira — Bernardo Silva. Talvez funcionasse melhor no triângulo do meio-campo. Seria a comunicação perfeita entre o modelo de Luis Enrique e do Guardiola. Entre os melhores interlocutores das duas ideias.
Vitinha-Neves-Bernardo pode ser curto para Martínez, que começou destemido e se tornou inseguro, ao ponto de querer juntar aí outro Neves, o Rúben, ou Samú, o que faria derivar o 15 para lateral direito, como aconteceu na Liga das Nações. Só que, por mais voltas que dê à cabeça, continua a ser criminoso.
Na frente, Bruno Fernandes, já se disse, tem lugar indiscutível. Resta saber onde. Neto tem argumentos se o selecionador quiser manter o 1x1, no entanto, a fortalecida ligação Félix-Ronaldo também carrega peso. Com Neto, Bruno pode alinhar à esquerda. Com o melhor da liga saudita, talvez surja à direita. Em tese, os laterais terão capacidade de chegada, protegidos pelo trio do meio-campo. E com Félix, Bernardo e Bruno a explorar canais e espaço entre linhas, e Ronaldo a colaborar, poder-se-á formar um ataque muito difícil de marcar.
Os sonhos viraram racional. Por defeito profissional, mas não só. Martínez não tem razão. Sonhámos sempre, mesmo quando tudo o que nos sustentava implodiu em Saltillo. É hora agora de cumprir objetivos. E esperar que nos mostrem algo que ainda não tenhamos visto."
Estratégia, essa palavra tão misteriosa
"De vez em quando acontecem fenómenos no desporto que destroem um conjunto de crenças e colocam em causa algumas das nossas certezas absolutas. O Paris Saint-Germain, especialmente desde a chegada do treinador espanhol Luis Enrique e sob a direção desportiva do português Luís Campos, tem sido um desses casos. O clube tem desafiado várias ideias feitas e isso tem-lhe permitido afirmar-se como uma das grandes referências do futebol europeu, apesar de competir numa liga que é considerada a menos exigente entre os chamados Big-5.
Luis Enrique, para lá da sua dramática e inspiradora história pessoal, tem a capacidade rara de nos oferecer autênticas lições sobre liderança, gestão e desempenho sempre que fala. O PSG passou de ser um clube que, durante anos, acumulava eliminações precoces na Liga dos Campeões, apesar de ter estado perto da glória na final disputada durante a pandemia, perdida por 0-1 frente ao Bayern Munique, para uma equipa com uma identidade e cultura completamente diferente.
Durante muito tempo, o desafio do clube parecia resumir-se à gestão de estrelas e fazer dinheiro através da sua gestão de imagem. Messi, Beckham, Mbappé, Neymar, Di María, Cavani e tantos outros fizeram parte de um modelo em que a gestão de egos, estatutos e protagonismos era quase tão importante como a gestão de quem marcava o livre ou a grande penalidade. Hoje, o cenário é outro.
O PSG adotou uma estratégia centrada no todo. Defende e demonstra que o treinador deve ser a principal autoridade ao nível da liderança desportiva e construiu um plantel composto por jogadores mais jovens, com enorme vontade de aprender, evoluir e competir. Um grupo que reconhece que há sempre margem para melhorar, que coloca a equipa acima da individualidade e onde até os maiores talentos participam ativamente nos momentos defensivos como se o talento não bastasse para jogarem. Uma cultura organizacional baseada na ideia de que ninguém é insubstituível.
No desporto, sobretudo devido ao impacto imediato dos resultados, as estratégias costumam ter prazos de validade muito curtos. Para manter uma visão quando os resultados não correspondem às expectativas é necessária uma liderança diferenciadora, muita convicção e uma equipa altamente competente à sua volta. Projetos verdadeiramente duradouros são raros. No futebol, um dos exemplos mais fascinantes continua a ser o Manchester United de Sir Alex Ferguson, uma fonte inesgotável de ensinamentos sobre liderança, cultura organizacional e gestão desportiva.
A dupla dos Luíses conseguiu, para já, algo impensável: colocar grande parte da Europa a admirar o trabalho de um clube que não é um underdog. Um clube que reina sozinho na cidade Luz, que durante anos foi visto como arrogante e excessivamente dependente do poder financeiro do Estado que o sustenta.
Hoje, porém, fala-se de uma equipa recheada de jogadores que fazem babar qualquer apaixonado por futebol. Uma equipa liderada por um capitão que, depois de conquistar um feito que poucos alcançaram (vencer duas Ligas dos Campeões consecutivas) teve como primeira reação apoiar um colega de profissão e demonstrar uma visão já projetada para o próximo Mundial de seleções. Um exemplo de liderança que olha para além do momento.
Fala-se também de um plantel construído com jogadores que custaram muito menos do que algumas das estrelas que saíram. Basta olhar para Nuno Mendes, Vitinha ou João Neves, hoje considerados negócios extraordinários face ao impacto que têm na equipa. Um conjunto com atletas que vence mesmo quando os jogos se prolongam para além dos 90 minutos, com atletas a assumirem responsabilidades independentemente do número de minutos que tiveram ao longo da época.
Quando se ganha, tudo parece mais simples. Mas sabemos que o mais difícil raramente é chegar ao topo; é permanecer lá. Tiago Pinto, atualmente no Bournemouth, disse-me uma vez algo que nunca esqueci: «A maioria dos acidentes quando se vai ao topo acontece na descida da montanha, não na subida.» A frase resume na perfeição a dificuldade de manter o foco, a humildade e a exigência depois de se atingir o sucesso.
Luís Campos, como acontece com muitos portugueses que brilham além-fronteiras, recebe mais reconhecimento de fora do que dentro do próprio país. Um paradoxo que continua a caraterizar parte da nossa cultura, a inveja de quem prefere que os outros caiam do que o esforço de ter que chegar lá acima.
Mas regressando ao essencial: a estratégia e a cultura organizacional.
O caso do PSG demonstra que a estratégia não é apenas um documento, um plano ou um conjunto de objetivos que dura 24 horas. Estratégia é a capacidade de definir objetivo com uma mudança estrutural, criar uma identidade clara e garantir que essa identidade se espalha por toda a organização. Do presidente, do CEO à direção desportiva, até à equipa técnica. Da equipa técnica aos jogadores. Dos jogadores à cultura competitiva diária, que se pode resumir no comportamento do staff médico, técnico de equipamentos e por aí adiante.
Quando existe alinhamento entre visão, liderança, recrutamento (tão importante como quem se repulsa de dentro) e cultura organizacional, os resultados tornam-se uma consequência muito mais provável. Não porque o sucesso esteja garantido, isso no desporto acontece 0,1% na maioria das grandes competições, mas porque todas as peças do puzzle passam a trabalhar na mesma direção.
E talvez seja precisamente aí que reside o verdadeiro mistério da estratégia: não na sua definição, mas na rara capacidade de a executar com consistência (tão difícil) ao longo do tempo."
Risco ou oportunidade, o Benfica decide
"José António dos Santos pode ter trazido ao Clube um bom parceiro. Cabe à Direção converter esta possibilidade num negócio em que o Benfica sai a ganhar.
A entrada da Entrepreneur Equity Partners na Benfica SAD não deveria ser motivo de alarme. É uma oportunidade de reforçar o controlo do Clube, aumentar competências, acelerar projetos estruturais e aumentar receita. Isto dependerá menos do comprador e mais da capacidade negocial da direção do Sport Lisboa e Benfica.
Começando pelo mais importante, o Benfica não deve limitar-se a aprovar a venda integral da posição de José António dos Santos. Deve negociar a aquisição direta de 3,013% da SAD, exatamente o que lhe falta para passar dos atuais 63,65% para os dois terços do capital e dos direitos de voto. A 12 euros por ação, são cerca de 8,32 milhões de euros. É um baixo investimento para um elevado retorno.
Concluída esta aquisição, o novo investidor ficará com aproximadamente 13,37% da SAD. Continua a ser o maior acionista minoritário, o que lhe permitirá procurar representação no Conselho de Administração. Este resultado garante o melhor de dois mundos. O Benfica deixa de depender de um acionista minoritário em matérias que exijam maioria qualificada, como alterações estatutárias, e passa a contar com um parceiro que acrescenta valor. Entre os investidores associados ao veículo comprador encontra-se o fundador e CEO da Acrisure, grupo norte-americano de serviços financeiros, seguros e tecnologia, que já investiu em naming rights como o Acrisure Stadium, casa dos Pittsburgh Steelers, e a Acrisure Arena, na Califórnia.
Garantida a proteção institucional, devemos trabalhar com o novo parceiro. O grupo comprador traz experiência em domínios onde o Benfica enfrenta desafios, como financiamento e exploração de infraestruturas desportivas, hospitalidade, eventos e naming rights. Trocando por miúdos, é uma oportunidade de revisitar o Benfica District para o transformar num motor de crescimento do Clube.
A aprovação desta operação deveria acarretar dois compromissos.
Primeiro, um contrato de patrocínio que inclua os naming rights do Estádio da Luz por dez anos, preservando a sua identidade, num valor de referência de 10 milhões de euros por época.
Em segundo lugar, uma parceria para o financiamento, construção e operação do Benfica District, que contemple o rebaixamento do relvado para utilização de um palco retrátil e permita ter o maior palco de eventos em Portugal todo o ano. Um projeto como o Benfica District só faz sentido se maximizar receitas, melhorar a experiência e reforçar a nossa identidade.
As participações do possível novo acionista em clubes como o Bétis ou o Veneza devem ser analisadas com rigor, mas não dramatizadas. Os regulamentos da UEFA e da FIFA já estabelecem mecanismos de proteção competitiva, e a maioria qualificada do Clube fará o resto.
José António dos Santos pode ter trazido ao Clube um bom parceiro. Cabe à Direção converter esta possibilidade num negócio em que o Benfica sai a ganhar. As decisões importantes não se podem adiar. O futuro do Benfica também se joga nas salas de reuniões."
Quem controlará o futuro do Benfica amanhã?
"O debate em torno da venda da posição de José António dos Santos não deve centrar-se na possibilidade de o Benfica adquirir apenas mais 3% da SAD para atingir os dois terços do capital e dos direitos de voto.
Essa é uma visão curta e insuficiente para a dimensão dos desafios e oportunidades que o Clube enfrenta.
O verdadeiro objetivo estratégico deveria ser outro: recuperar a totalidade dos 16,38% atualmente em alienação e devolver ao Benfica a capacidade de decidir, sem condicionamentos, quem quer ter ao seu lado no futuro.
Comprar apenas 3% pode resolver uma questão estatutária ou de controlo imediato. Comprar os 16,38% resolve uma questão estrutural.
A diferença é enorme.
Mais ainda quando existe informação de que terá sido produzido um parecer jurídico recomendando o veto da operação. Se esse parecer existe e conclui pela necessidade de travar o negócio, então é fundamental perceber porque razão continua a existir pressão para viabilizar a entrada deste veículo na estrutura acionista da SAD.
A questão é simples: quem tem interesse em acelerar esta operação? E porquê?
O Benfica merece total transparência sobre um tema desta relevância.
Ao adquirir a posição integral, o Benfica ganha tempo, flexibilidade e poder negocial para construir uma estrutura acionista alinhada com os seus interesses de longo prazo. Em vez de ficar dependente de um investidor financeiro ou de uma SPV, cuja natureza será sempre maximizar o retorno do investimento, o Clube poderia selecionar parceiros estratégicos e institucionais que acrescentem valor efetivo ao seu projeto.
Uma SPV continuará sempre a ser uma SPV. Não é um parceiro estratégico. Não traz identidade benfiquista. Não garante alinhamento de longo prazo. E quando chegar o momento da saída, o seu objetivo será vender pelo maior valor possível, independentemente das consequências para a estabilidade acionista do Benfica.
O modelo a observar não é o de fundos oportunistas. É o do Bayern Munique.
O Bayern construiu uma estrutura acionista sólida, envolvendo parceiros industriais e institucionais de referência, alinhados com a sua visão estratégica e com o crescimento sustentável do clube. Empresas que não procuram apenas uma mais-valia financeira, mas que reforçam a marca, a competitividade e a projeção internacional da instituição.
Esse deveria ser o caminho do Benfica.
Por outro lado, a tentativa de justificar esta operação através de promessas associadas ao Benfica District merece particular prudência.
O Benfica District continua a apresentar mais perguntas do que respostas. O conceito representa um investimento de enorme dimensão, complexidade elevada e retornos que permanecem por demonstrar.
O risco é evidente: transformar um problema acionista numa oportunidade para ressuscitar um projeto cuja viabilidade económica continua longe de estar consensualizada.
Mais importante ainda, existe uma alternativa muito mais racional e com retorno muito mais previsível: a modernização do Estádio da Luz.
O estádio é já hoje um dos principais ativos do Benfica. Melhorar a experiência dos adeptos, renovar áreas premium e hospitality, aumentar a capacidade, aumentar receitas de matchday, reforçar a oferta comercial, atualizar infraestruturas tecnológicas, instalar piso e cobertura retrateis garantido multifuncionalidade e elevar os padrões de conforto e serviço são investimentos com impacto direto no valor do ativo e na capacidade de geração de receitas.
Ao contrário do Benfica District, que assenta em pressupostos ambiciosos e investimentos de elevado risco, a modernização do estádio representa uma estratégia de valorização patrimonial com retorno mais tangível, mais controlável e mais alinhado com as necessidades atuais do Clube.
O Benfica não precisa de embarcar em projetos megalómanos para crescer. Precisa de fortalecer os seus ativos fundamentais.
O foco deve estar na criação de valor sustentável e não em projetos que podem consumir centenas de milhões de euros, desviar recursos e aumentar o risco financeiro do Clube.
A discussão não deve ser sobre como garantir mais 3%.
Deve ser sobre como recuperar os 16,38%, reforçar a posição do Clube na SAD e construir, com serenidade e visão estratégica, uma base acionista de excelência, composta por parceiros verdadeiramente alinhados com os valores, a identidade e as ambições do Benfica.
Se existe um parecer jurídico que recomenda o veto da operação, então o caminho responsável é simples: suspender qualquer precipitação, esclarecer todas as dúvidas e defender os interesses do Benfica acima dos interesses de qualquer investidor externo.
Porque a questão central não é quem entra hoje. É quem controlará o futuro do Benfica amanhã."
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