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sábado, 2 de maio de 2026

Turquia: Hakan Şükür, o “Touro do Bósforo” que passou de herói nacional a exilado


"Hakan Şükür marcou uma geração inteira de adeptos turcos com golos, títulos e presença. Mas o que construiu nos relvados não o protegeu de uma tempestade chamada Erdogan, que o empurrou para longe do país que o idolatrava.

Nem todos os ídolos desaparecem com o tempo, alguns são empurrados para fora da memória e acabam a viver uma vida tão normal que ninguém acreditaria se não estivesse documentado. Hakan Şükür, que um dia fez a Turquia inteira vibrar, passou de herói nacional a motorista de Uber em Palo Alto, não porque decidiu Hakan Şükür “mudar de ares“ ou fazer um retiro espiritual na Califórnia, mas porque foi perseguido pelo governo de Erdogan.
Comecemos pelo futebol. No Galatasaray tornou‑se sinónimo de golos, títulos e noites europeias que mudaram a perceção internacional do futebol turco. Na seleção, transformou‑se numa referência, autor de momentos que ainda hoje definem a história da equipa nacional. No entanto, tudo o que construiu dentro de campo acabaria por ser engolido por uma vida fora dele que tomou um rumo inesperado.
A alcunha que o acompanhou, “Touro do Bósforo” não nasceu por acaso. Şükür era um avançado que unia força e elegância de forma improvável: 1,91m de presença física, domínio no jogo aéreo, mas movimentos leves, quase subtis, que lhe davam vantagem sobre qualquer defesa. Tornou‑se o maior goleador da história do Galatasaray e do campeonato turco, discutindo números com alguns dos melhores avançados europeus dos anos 90.
O auge internacional chegou no Mundial de 2002, quando a Turquia surpreendeu o mundo ao terminar em terceiro lugar. Şükür assinou o momento mais emblemático dessa campanha, e um dos mais marcantes da história dos Mundiais, ao marcar à Coreia do Sul aos 10,8 segundos, o golo mais rápido de sempre na competição. Há quem demore mais tempo a encontrar as chaves de casa. Fechou a carreira na seleção com 51 golos, em 112 jogos, números que ainda hoje ninguém conseguiu igualar no país.

A fuga e o exílio nos EUA
Mas a vida fora dos relvados seguiu um caminho bem diferente. Depois de se retirar, entrou na política e chegou a deputado pelo partido AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento). Até que, em 2013, desiludido com os escândalos de corrupção e com o rumo político do país, decidiu abandonar o partido de Recep Tayyip Erdogan e tornou‑se deputado independente. Foi o início do fim da sua tranquilidade. “A hostilidade começou aí“, contou em 2020 numa entrevista à revista alemã Focus. A loja da mulher foi apedrejada, os filhos foram importunados na rua e ele próprio recebeu ameaças. Pouco depois, viu todos os seus bens serem congelados.
Muito ativo no outrora Twitter, hoje X, acabou acusado de estar ligado à tentativa de golpe de Estado de 2016, por ter expressado apoio ao clérigo Fetullah Gülen. A Justiça turca indiciou‑o, descreveu‑o como “fugitivo“ e “membro de uma organização terrorista“ e ainda lhe atribuiu uma pena de prisão por “insultos“ a Erdogan. Já não havia retorno.
Saiu da Turquia em 2015 e, no início de 2017, instalou‑se definitivamente nos EUA. A reação do governo turco foi imediata: o pai foi preso durante quase um ano - só foi libertado devido a doença -, e tudo o que lhe restava foi confiscado. “Não me resta nada no mundo, Erdogan tirou‑me tudo“, diria mais tarde.
Nos EUA, tentou recomeçar. Abriu um pequeno café em Palo Alto, mas o negócio durou pouco. Depois de uma fã turca ter sido detida na Turquia por tirar uma fotografia com ele, começaram a aparecer no café pessoas “estranhas“, contou numa entrevista, que tocavam música dombra, um símbolo nacionalista usado pelo partido de Erdogan. O ambiente tornou‑se tão tenso que a polícia e até o FBI chegaram a vigiar o local. O café acabou por fechar. Sem alternativas, passou a conduzir um Uber e a vender livros para sobreviver. Para desanuviar, jogava futebol numa equipa amadora local. E, mesmo ali, continuava a ser o mesmo avançado de sempre: num dos jogos, marcou 11 dos 15 golos da equipa. Há coisas que nem o exílio apaga.
Hoje, é considerado persona non grata até pelo Galatasaray, o clube onde se tornou lenda. Na Turquia, o seu nome foi praticamente apagado do espaço público, como se nunca tivesse existido. Mas ele continua a falar sobre liberdade, política, futebol e tudo o que viveu. “A Turquia é o meu país e eu amo o meu povo“, continua a afirmar. “Sou inimigo do governo, não da nação.“
Vive longe de casa, não renega o passado, mas aprendeu de forma dura que a vida pode mudar tão depressa quanto um avançado turco a marcar num Mundial."

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