"O nome desta semana é Mehdi Taj. Pode passar ao lado de muitos amantes do futebol, pode não dizer nada à maioria esmagadora dos leitores, mas protagonizou um episódio que coloca em perspetiva e faz questionar toda a estrutura organizativa do Mundial 2026, a apenas 40 dias do seu início.
Trata-se do presidente da Federação Iraniana de Futebol, que procurou viajar, com uma autorização previamente concedida pelas autoridades canadianas, para Vancouver. É lá o 76.º Congresso da FIFA e, por maioria de razão, sendo o principal dirigente de uma das 48 nações cujas seleções estão apuradas para a fase final do Mundial, Taj chefiava a delegação do seu país.
À partida de Istambul, onde iniciou a viagem intercontinental para o Canadá, tudo esteve bem, e a documentação apresentada era a necessária e suficiente para apresentar às autoridades no destino. Porém, à chegada a Toronto (primeira escala canadiana e onde efetuava os procedimentos de fronteira), Mehdi Taj foi barrado.
A sua anterior condição profissional de comandante do IRGC (o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão) incluía o seu nome numa lista de persona non grata no Canadá, considerando-o uma potencial ameaça terrorista à integridade territorial daquele país da América do Norte.
É certo que a segurança nacional é levada muito a sério no Canadá e que qualquer sinal de alerta emitido pelo sistema de fronteira quase funciona como uma decisão final de extradição e, portanto, de regresso à origem.
Estamos, no entanto, a falar de um país que, com os Estados Unidos da América e com o México, vai organizar o maior Mundial de futebol da história, com a previsão de entrada e saída, sobretudo com destino a Toronto (costa leste) e Vancouver (costa oeste), de milhares de cidadãos estrangeiros relacionados com o evento, seja como adeptos, seja como jornalistas ou até – era o caso – como altos dirigentes de uma das federações envolvidas.
A pergunta é simples: se Mehdi Taj possuía uma autorização prévia de viagem, por força da representação do seu país na reunião magna da FIFA, como é possível que os «quase perfeitos sistemas» de imigração de um país com a dimensão e a experiência na matéria, como o Canadá, não tenham refletido essa permissão e tenham criado o primeiro grande embaraço diplomático à FIFA no aquecimento para o Mundial?
Já não bastava a volatilidade discursiva de Donald Trump, também a propósito desta matéria. O presidente dos EUA, ao contrário da tendência de declarações bem recentes, passou agora para o amigo Gianni Infantino a resolução do problema candente relativo à presença da seleção iraniana em competição, a partir de 11 de junho.
Por outro lado, é bom recordar que a equipa iraniana se qualificou há bastante tempo para o grande certame do planeta futebol, sendo uma das apuradas asiáticas de modo direto, sem necessitar (como viria a suceder com o Iraque) do play-off intercontinental. Os jogadores merecem a presença, lutaram por ela onde deviam fazê-lo – nos retângulos de jogo – à volta dos quais o povo do Irão rejubilou com novo apuramento. A equipa asiática, sublinhe-se, esteve nas últimas três fases finais (Brasil em 2014, Rússia em 2018 e Qatar em 2022), treinada por Carlos Queiroz, e é um dos mais poderosos contendores do continente no futebol masculino.
O bloqueio burocrático à entrada em território canadiano do presidente da federação iraniana é muito mais do que um detalhe diplomático atribuível a um lapso do sistema. É o prelúdio do que pode suceder quando, na segunda semana de junho, começarem a chegar adeptos, jornalistas, jogadores, técnicos, staff e dirigentes das quatro partidas do mundo, e é, no essencial, o aquecer ainda mais da batata de Infantino.
Honra lhe seja feita, o suíço que agora é candidato a um terceiro mandato, a começar em 2027, sempre disse (é talvez o seu mais significativo soundbite dos últimos tempos) que o Irão estaria nas Américas para o Mundial, que iria competir e que esse era um direito inalienável do conjunto asiático.
Com o eclodir do conflito no Médio Oriente, as dúvidas, legitimamente, foram-se adensando e o recente período de tréguas no teatro de operações pareceu aliviá-las.
Recordo-me bem do jogo a que assisti em Lyon, no Stade Gerland, entre EUA e Irão, na fase final do Mundial de 1998, em França. A diplomacia do futebol a conseguir o que a diplomacia dos gabinetes jamais pensaria: um encontro direto entre estado-unidenses e iranianos que, mesmo que não se repita este ano por força do alinhamento do sorteio já efetuado, é de novo colocado em cima da mesa sob a forma da inevitabilidade da participação da seleção do Irão no Mundial 2026.
Neste caso, Infantino volta a estar na crista da onda. O embaixador global do futebol que, sem sucesso, tentou um aperto de mão público entre os presidentes das federações de Israel e da Palestina (uma boa tentativa, mas um embaraço de dimensão importante…), terá de pedir desculpas à federação iraniana pela gaffe fronteiriça no Canadá mas, muito mais importante, terá de garantir todas as condições logísticas, competitivas e de segurança à seleção nacional que se deslocará de Teerão.
Não é nada menos do que isso o que o planeta futebol espera, sendo que, neste xadrez geopolítico paralelo, foi o Irão que saiu em vantagem. Está a ganhar por 1-0 e espera a obrigatória reação da FIFA.
CARTÂO BRANCO
Nesta página, que assino há quase dois anos, já algumas vezes critiquei o verbo e a praxis do presidente do Sporting. Desta vez, Frederico Varandas merece uma vénia. A renovação do contrato com Rui Borges e a sua equipa técnica constitui, primeiramente, um ato de gestão que reflete confiança nos homens e no projeto, independentemente do que suceder até ao final da temporada. Mas demonstra também que o médico-presidente sabe que a prevenção pode ser determinante para o tratamento. A montante, blinda a equipa técnica, envia uma mensagem de forte consistência para o balneário, reúne os adeptos em torno de uma ideia, mais do que em volta de um golo ou de uma defesa. Muito bem, Frederico Varandas, esta semana.
CARTÃO BRANCO II
Estão ao rubro as competições europeias. Do lado português, o Sporting de Braga viaja para Freiburg im Breisgau com um golo e muita esperança no regresso à final da Liga Europa.
Mas jogos e eliminatórias com tamanho equilíbrio e qualidade, como as da Liga dos Campeões (Bayern-PSG e Arsenal-Atleti, de resultados imprevisíveis), da Liga Europa (Freiburg-Braga e Aston Villa-Nottingham Forest, com tudo em aberto) e da Liga Conferência (Estrasburgo-Rayo Vallecano e Crystal Palace-Shakhtar Donetsk, onde qualquer desfecho é possível), demonstram a vitalidade das três competições organizadas pela UEFA. E são, evidentemente, uma delícia para os adeptos…"

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