Últimas indefectivações

domingo, 3 de maio de 2026

Os envelopes de Villas-Boas


"Pinto da Costa foi um presidente que viveu entre o trono e as masmorras. Entre a competência de escolher grandes treinadores e jogadores e com a capacidade de se mover nas ruas escuras

No filme Traffic, realizado por Steven Soderbergh, existe uma ideia simples que ajuda a explicar o poder. Um governante deixa dois envelopes ao sucessor. No primeiro, a instrução é clara: «Culpa o teu antecessor quando tudo correr mal.» No segundo, ainda mais cínica: «Escreve dois novos envelopes e deixa-os a quem vier depois de ti.» É um ciclo. Uma forma de sobreviver sem nunca resolver verdadeiramente o problema.
André Villas-Boas começou exatamente por aí. Abriu o primeiro envelope. Explicou o presente com o passado. Apontou responsabilidades a Pinto da Costa, falou da herança pesada. Sempre numa tentativa de ganhar tempo e compreensão depois de uma primeira época errante, com dois treinadores despedidos e um plantel que pouco mais podia fazer do que lutar pelo terceiro lugar.
O início foi um labirinto. Escolhas precipitadas, ausentes de tempo, contexto e planeamento, que levaram a uma equipa sem identidade. O poder, quando não tem rumo, transforma-se num eco. E Villas-Boas ecoava dúvidas. A primeira época foi um território de tentativa e erro, onde cada decisão parecia mais um remendo do que uma ideia. Mesmo depois de vencer as eleições, com mais de 80 por cento dos votos, encontrou um clube dividido, desconfiado, preso a hábitos que não se dissolvem com resultados esmagadores nas urnas.
No Porto dizia-se que Pinto da Costa saiu e levou com ele o manual. Os tais mandamentos escritos ao longo dos «40 anos disto», como muitos lhe chamam, que transformaram o clube numa potência nacional e europeia. Um livro secreto, feito de decisões certas no campo e de jogadas subterrâneas fora dele. A verdade é que esse livro nunca saiu do Dragão. Estava lá. Sempre esteve.
Pinto da Costa foi um presidente que viveu entre o trono e as masmorras. Entre a competência de escolher grandes treinadores e jogadores, mas também com a capacidade de se mover nas ruas escuras do futebol português como ninguém. Dominava o jogo e os bastidores. E construiu uma ideia que se tornou cultura.
Villas-Boas percebeu isso. E aprendeu rápido. Muito rápido. De uma época para a outra. Deixou de culpar o passado e começou, aos poucos, a adotar o estilo do seu antecessor. No discurso, na postura, nos sinais. Afinal, é um filho desse Porto. Um herdeiro. Um aluno que não faltava às aulas desde tenra idade. E tudo isso faz com que seja mais continuidade do que rutura.
O Porto será campeão porque foi melhor. Porque acertou no treinador, soube investir bem e construir um plantel competitivo, com mercados, tanto no verão como no inverno, bem superiores aos dos rivais. Mas dentro do clube há a convicção de que isso não chega. De que para ganhar é preciso dominar os dois campos. O relvado e o resto.
Para o bem e para o mal, o Porto voltou. Com toda a sua força. Na qualidade de jogo e nas zonas cinzentas que nunca desapareceram do futebol português. Villas-Boas não alterou o manual. Limitou-se a lê-lo. E a decorá-lo. Ponto por ponto."

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!