"Já percebemos há muito que Roberto Martinez é um político, no sentido diplomático do termo, de quem explica decisões duras com expressões brandas (e um sorriso, quando possível) e se coloca acima do bem e do mal. Assim aconteceu de novo: não excluiu ninguém, apenas não pôde incluir todos, há quem esteja de fora, mas com pé dentro (se houver lesões), o dia da convocatória era triste (por essas exclusões) mas também feliz (pelo arranque do processo). É tentar unir para reinar, até que os resultados nos dividam.
Por isso, e no concreto das opções, nenhuma surpresa de tomo. Entre os centrais do Benfica escolheu o que tem jogado mais, na opção de Samu ou Palhinha manteve a decisão mais recente, perante os criativos de FC Porto e Sporting (Mora e Pote) preferiu não escolher, na questão dos pontas de lança manteve a tese – que não compro – de que Gonçalo Guedes é a terceira via.
Com a salvaguarda de haver, nos 27 eleitos, opções de qualidade de quase todo o género para lograr opções táticas de sucesso, sublinho duas inconsistências e outras tantas injustiças. No primeiro caso refiro-me aos cinco laterais para quatro centrais e à existência no grupo de dois pontas de lança apenas, sendo a questão de base a mesma.
No centro da defesa há quatro opções, mas duas são de risco por razões físicas: Rúben Dias não joga há meses e Tomás Araújo tem sido de utilização intermitente devido a lesões. Era mais avisado levar um quinto central, quando, ainda por cima, não há um médio defensivo que se adapte facilmente (como podia ser Palhinha e noutros tempos foi Danilo).
No ataque, é fácil perceber que uma pequena lesão ou um hipotético castigo que afaste, mesmo que por pouco tempo, Ronaldo ou Ramos, obrigará a seleção a enfrentar o adversário seguinte sem um número 9 no banco. Também não me parece prudente. A opção seria naturalmente Paulinho, mas o que ficamos a perceber neste 19 de maio é que Paulinho, como Ricardo Horta, nunca foram verdadeiramente opções para a convocatória final. Tê-los incluído, com as idades que têm, na chamada anterior, para depois os descartar, surge-nos hoje mais como uma ilusão para sossegar críticos, mas que apenas adensa a sensação de injustiça, quase crueldade. Nem sempre tentar ser “político” dá bom resultado.
Outro tema da semana é o romance José Mourinho, que vira as costas a uma proposta (tardia) do Benfica para renovar os votos e decide retomar uma relação antiga com o Real Madrid. A minha leitura é linear: Rui Costa não queria verdadeiramente renovar com Mourinho, senão tê-lo-ia tentado mais cedo (e mesmo a contratação inicial foi forçada pelo calendário eleitoral); Mourinho não resistiu à hipótese de voltar ao topo do futebol mundial, o que já lhe parecia vedado depois dos insucessos recentes que acumulou; o presidente do Benfica está preocupado em passar a ideia de que fez tudo para manter um treinador que lhe deu mais fama que proveito, dado haver ainda muita gente no espaço público que se mantém incapaz de criticar Mourinho. E se nunca vão dizer que o técnico (também) falhou, quem foi então? A resposta é óbvia. Ao menos que fique a ideia de que esperou por ele até ao fim.
Acontece que estamos para lá do fim. A época acabou para o Benfica e Mourinho “já está” em Madrid, a definir prioridades e até a sugerir reforços - diz-se em todos os média espanhóis. Enquanto isto, Rui Costa sujeita o Benfica à espera de resposta de um treinador que já não é, enquanto desaguam para os jornais as suas dúvidas sucessivas, fragilizando, desde já, treinadores que tinham tudo para entrar impantes de força na Luz, a começar por Marco Silva. A ser verdade que Rúben Amorim não pretende um regresso imediato à pátria, no que seria outra opção válida e certeira, é do domínio do insondável que Rui Costa não se tenha sentado ainda, ele próprio, com o treinador do Fulham.
Nos tempos que correm, é bem mais um clube como o Benfica – que apesar de toda a sua história não domina sequer o futebol de uma liga periférica - a ter de se esforçar por seduzir um treinador de topo do que o contrário. Acredito que um técnico como Marco, com anos seguidos de sucesso na mais competitiva Liga do mundo, só poderia equacionar tal mudança por estar em fim de contrato e não ter surgido neste momento o emblema inglês que o tornará definitivamente inacessível. Se isto for como os jornais e comentadores deixam perceber, ou seja, a menos que, ao contrário do publicado, Rui Costa esteja a convencer Marco a mudar-se para a Luz, este processo dirá mais do que têm sido as presidências de Rui Costa do que qualquer insucesso nos relvados."

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