"Trabalhou em minas de carvão enquanto adolescente, foi contratado pelo Celtic por 10 libras, muitos opinam que foi o melhor guardião que defendeu as redes dos católicos. No entanto, a sua vida terminou aos 22 anos, na sequência de um choque com Sam English, jogador do Rangers. O multitudinário funeral uniu no luto adeptos dos dois gigantes de Glasgow.
John Thomson cresceu habituado à escuridão. Sabia o que era a claustrofobia do subsolo, a Terra pronta a esmagá-lo, a pouco natural vida a fingir ser uma toupeira.
Vindo ao mundo em 1909, John era de Cardenden, uma comunidade mineira, sítio de gente habituada à dureza que a própria luta pela subsistência implicava. Foi em Cardenden, perto do Mar do Norte, virada para Edimburgo, que se travou o último duelo até à morte registado em solo escocês. Seria em 1826, terminando com um banqueiro, George Moran, morto à custa das feridas de uma bala disparada por David Landela, um mercador.
Naquele local cinzento não havia muito tempo para não se ser adulto. Não ser adulto significava não trabalhar e não trabalhar significava uma despesa adicional. Com 14 anos, John foi para a mina de carvão onde o pai também trabalhava. O dever do adolescente acontecia a 300 metros de profundidade, tendo de desengatar os ganchos das correntes dos vagões que transportavam o carvão da mina para a superfície.
O ofício deu-lhe força nos braços. John não era alto (1,75 metros), a escassez associada ao quotidiano fizeram-no magro, mas o corpo ganhou, lá nas profundezas, calo para outro tipo de desafios.
Quando não estava na mina, Thomson era guarda-redes. A sua mãe, para quem o filho estar a trabalhar na indústria do carvão com 14 anos era algo tão natural como as leis que regem a natureza, não gostava que o rapaz jogasse futebol, muito menos na baliza. Era demasiado perigoso, alegava, preocupada. E premonitoriamente.
A perícia do guardião levou-o a ganhar fama em ligas regionais. Não obstante, seria quase por acaso que chegaria o salto que definiria a carreira de futebolista.
Willie Maley, lendário técnico do Celtic - orientou os católicos de Glasgow durante uns formidáveis 43 anos, entre 1897 e 1940, erguendo 30 títulos -, enviou um olheiro para assistir a um encontro do campeonato local onde John Thomson atuava. A intenção era ver um guarda-redes da equipa adversária, mas seria o talento do rapaz que trabalhava nas minas a fascinar o caça-talentos. Aos 17 anos, o adolescente trocou a vida debaixo da terra por um contrato com o Celtic, que pagou 10 libras ao Wellesley Juniors, modestíssimo emblema, pelo jovem.
Fama e morte
O mineiro feito futebolista rapidamente ganhou estatuto de titular em Glasgow. Na final da Taça de 1927, Thomson ergueria um de dois desses troféus a eliminar que obteria. Eram anos de domínio do Rangers, pentacampeão entre 1927 e 1931, somando a parte protestante da cidade mais um tricampeonato entre 1933 e 1935. Pelo meio o melhor da bola escocesa foi o Motherwell, erguendo um raríssimo título para um conjunto de fora de Glasgow, Edinburgo ou Aberdeen - só sucederia mais uma vez desde o começo do século XX até 2026, com o Kilmarnock em 1965.
A aparente pequena estampa física para defender as redes era compensada por elegância e reflexos. Willie Maley, o dono do banco do Celtic durante 43 anos, sublinhou a “capacidade única de defender os mais potentes remates com suavidade e graciosidade“, agindo sempre com “equilíbrio e beleza“; Desmond White, presidente do clube entre 1971 e 1985 que crescera com John como keeper, classificou-o como “o melhor guarda-redes“ da história dos verde e brancos, realçando a “elasticidade de bailarino“; a imprensa popularizou a alcunha “príncipe dos guarda-redes“ e os adversários várias vezes o aplaudiram, como os ingleses, em Londres, num encontro em 1930.
Já internacional escocês casaria, em 1930, com Margaret Finlay. Os dois planeavam abrir uma loja de vestuário em Glasgow. Nesse mesmo ano, uma espécie de aviso: um embate violento contra um avançado levou-o a perder dois dentes e fraturar o maxilar e várias costelas. A mãe repetiu o pedido dos tempos da adolescência: retira-te, filho.
Thomson continuo a jogar até setembro de 1931. Tinha 22 anos e aí disputaria o 188º e último encontro pelo Celtic. Naquela tarde, 80 mil pessoas deslocaram-se a Ibrox para o Rangers-Celtic. Os tempos eram de enorme agressividade entre os adeptos de ambos os clubes - o Rangers com a sua base protestante, o Celtic, fundado por um padre irlandês, ancorado na comunidade católica -, com violentos conflitos.
Ao começar a segunda parte, um lance fortuito, sem intenção, mancharia o dérbi. Sam English, do Rangers, correu para tentar chegar à bola. No movimento contrário, John Thomson, destemido, saiu aos pés do adversário, cujo joelho acabaria a chorar, com violência, contra a cabeça do guarda-redes.
Há crónicas de jornais que asseguram que, na bancada principal, o impacto gerou um instante de silêncio entre a multidão. No meio do mutismo, escutou-se um grito. Era Margaret Finlay, a mulher daquele jovem de 22 anos, ela própria com apenas 19.
Thomson foi levado de maca. A opinião generalizada, ainda assim, apontava apenas para um choque mais agressivo. No entanto, James Marshall, futebolista do Ranges e estudante de medicina, comentou imediatamente que algo mais sério se passava.
Tinha razão.
A vítima foi levada para o hospital. Sofrera uma fratura do crânio com rotura da artéria temporal direita. Às 17h, sofreu uma convulsão intensa. Foi levado para ser operado de urgência, mas sem êxito. Hora da morte: 21h25.
O funeral do “príncipe dos guarda-redes“ seria um caso raro de união entre adeptos do Celtic e Rangers. Quarenta mil pessoas, muitas do lado protestante de Glasgow, foram às cerimónias fúnebres. O local onde Thomson está sepultado é, ainda hoje, lugar de peregrinação para as gentes do Celtic. Na comunidade onde John cresceu, as crianças de hoje, já sem o hábito de trabalhar em minas quando mal têm barba, disputam, todos os anos, o John Thomson Trophey.
Sam English, protagonista involuntário da tragédia, ficaria profundamente afetado pelo sucedido. Ainda jogaria no Liverpool, sendo dono de um respeitável percurso no futebol. No entanto, ao retirar-se, confessou: “Vivi anos de carreira infeliz e sem alegria a partir daquele momento.”"

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