"O anúncio tardio da 33.ª e penúltima jornada é o culminar de uma época de caos logístico. Entre 'feiras' e jogos em pausas de seleções, a Liga 'esqueceu-se' de ser... profissional
Ontem, segunda-feira, dia 5 de maio, a Liga dignou-se, finalmente, a anunciar os horários da 33.ª jornada. O facto de estarmos a meros cinco dias do início da penúltima ronda do campeonato — na qual tanto se decide, da Europa às descidas — e só agora sabermos o calendário oficial é um atestado de incompetência que asfixia a nossa indústria. Esta opacidade logística não é apenas um incómodo; é um desrespeito gritante por quem faz o espetáculo.
Numa época marcada pela renovação das estruturas da Liga, com novas caras e promessas de modernidade, o que vimos foi um retrocesso organizacional sem precedentes. O futebol moderno vive de microciclos de trabalho. Cada hora de treino, cada período de recuperação e cada detalhe nutricional é planeado ao milímetro. Como se pode pedir excelência a treinadores e atletas quando estes vivem na incerteza até à última hora?
O historial desta temporada é um manual de sobrevivência ao caos. Recordamos com amargura o episódio de Arouca, onde o calendário ignorou uma Feira das Colheitas previsível há décadas, obrigando o FC Porto e o clube local a um braço de ferro vergonhoso. Assistimos à revolta legítima do Estoril, forçado a jogar desfalcado em plena pausa de seleções porque «não havia datas». Vimos o Nacional da Madeira ameaçar a falta de comparência por impossibilidades logísticas que a Liga, no seu castelo de vidro, decidiu ignorar.
Se a desculpa é a complexidade das competições europeias ou os direitos televisivos, olhemos para o lado. Na Premier League, o rigor é lei. Em junho, o adepto sabe quem joga com quem; e, com meses de antecedência (normalmente, seis a oito semanas), sabe o minuto exato do pontapé de saída de cada duelo. Lá, entende-se que o futebol é um produto que exige respeito. Aqui, tratamos o calendário como um post-it que se cola e descola ao sabor de conveniências.
A nova estrutura da Liga prometeu profissionalismo, mas entregou amadorismo disfarçado de burocracia. Se a gestão de 34 jornadas ultrapassa a capacidade analítica dos nossos órgãos decisores, o conselho é simples: liguem para Inglaterra. Estudem os modelos que funcionam. Respeitem os microciclos, a logística, os adeptos que viajam e a integridade da competição.
O futebol português não pode continuar a ser gerido com a antecedência de uma marcação de jantar entre amigos. Façam algo, por favor!"

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