"A criação da nova Associação Super XV-Rugby Portugal deve ser encarada como um sinal positivo de dinamismo e vontade de evolução dentro do rugby português. Deve ser vista como um contributo que traz ideias interessantes e que evidencia a ambição dos clubes em melhorar o estado actual do rugby português e, mais especificamente, o modelo competitivo. No entanto, considero que talvez o momento não seja o mais oportuno, pensando que no imediato seria preferível canalizar esta energia para uma solução integradora, que potenciasse a estrutura organizativa existente da Federação Portuguesa de Rugby e construindo uma alternativa evolutiva ao modelo actual de competições.
No contexto presente do rugby português, onde os recursos humanos, financeiros e logísticos são naturalmente limitados, o maior desafio não deve ser criar estruturas, mas sim alinhar esforços e reforçar a coordenação entre todos os intervenientes, federação, clubes, associações, jogadores e adeptos. O verdadeiro salto qualitativo poderá surgir de uma visão comum e de mecanismos que promovam convergência, consistência e estabilidade competitiva. A atual realidade demonstra que existe margem clara para evoluir. A constante alteração dos modelos competitivos nacionais, a dificuldade em criar um produto desportivo estável e atrativo e a necessidade de maior previsibilidade são desafios reconhecidos por todos. Neste sentido, a emergência de novas ideias deve ser aproveitada como ponto de partida para uma reforma construtiva e partilhada, e não como um caminho de fragmentação.
Ao mesmo tempo, é importante garantir que qualquer evolução do modelo competitivo não contribua para uma centralização ainda maior do rugby em Lisboa. É verdade que essa centralização já existe, mas institucionalizá-la numa nova estrutura agravará inevitavelmente os desequilíbrios e criará ressentimentos nos clubes de fora da capital. Num país pequeno, com um desporto pouco implementado, não existe dimensão económica, competitiva e geográfica para dividir o rugby português em várias entidades paralelas. A dissociação só enfraquece quem já está a tentar sobreviver com poucos recursos. O rugby português beneficiará sempre de soluções que reforcem a representatividade nacional e promovam o desenvolvimento fora dos principais centros, criando um ecossistema mais equilibrado e sustentável.
Também é compreensível a vontade dos clubes de terem um papel mais ativo na definição das competições em que participam. Essa ambição pode e deve ser integrada numa lógica colaborativa, onde federação e clubes construam, juntos, soluções mais robustas, alinhadas com as necessidades do jogo e com uma estratégia de médio e longo prazo.
Apesar de a associação defender a ideia de potenciar sinergias entre clubes, nomeadamente ao nível logístico e financeiro, como a centralização de compras, até este argumento acaba por ser frágil no contexto atual. Com apenas oito clubes, o potencial de poupança e de negociação é mais limitado, sobretudo quando comparado com uma centralização verdadeiramente nacional que incluísse um número significativamente maior de clubes. Na verdade, essa coordenação alargada é precisamente um dos objetivos da própria Federação, tal como definido no artigo 2.º dos seus estatutos. Criar uma estrutura paralela e restrita reduz esse potencial, divide processos que deveriam ser integrados e impede que o rugby português tire partido do ganho de escala que só uma acção federativa e abrangente poderá garantir.
Mas mesmo reconhecendo todas as vantagens, o problema permanece: o timing e o risco de divisão são demasiado altos. Em vez de unir, esta decisão pode criar divisões e comprometer o desenvolvimento sustentável. Antes de se avançar para novas estruturas, será essencial garantir que o rugby português recupere capacidade de organização, visão estratégica e dimensão. Só assim projetos complementares fariam sentido e teriam impacto positivo.
O timing torna-se ainda menos positivo se considerarmos que estamos na época pré-Mundial, momento em que deveria existir máxima coordenação entre clubes e estrutura federativa. Além disso, as novas regras internacionais de player welfare estipulam um limite de 30 jogos por jogador internacional por temporada, que não pode ser ultrapassado sem comprometer saúde, preparação e elegibilidade. Adicionar uma nova competição às existentes (Campeonato Nacional, Taça de Portugal, Lusitanos, REC, Nations Cup e Mundial), apenas aumenta o risco de conflito entre clubes e federação, que terão de disputar um calendário apertado, e acaba por transferir para os próprios jogadores um ónus que nunca deveria ser deles: o de escolher entre cumprir responsabilidades competitivas entre seleção e clubes ou proteger a sua integridade física e carreira.
Neste enquadramento, lanço uma proposta de terceira via: em vez de substituir o modelo atual, evoluí-lo. Uma sugestão equilibrada poderia passar por um Campeonato Nacional com 10 equipas, mais compacto e competitivo que o actual, garantindo simultaneamente a presença de clubes de diferentes regiões do país. A decisão do título e da descida através de fases finais (meias-finais e final) permitiria criar momentos de maior visibilidade, intensidade competitiva e atratividade mediática, contribuindo para valorizar o produto rugby em Portugal.
Paralelamente, a criação de uma Liga Ibérica representa uma oportunidade estratégica particularmente relevante. Uma competição envolvendo os melhores clubes portugueses e espanhóis, por exemplo, os três primeiros classificados de cada país, à semelhança do que aconteceu em 2008, ainda que com duas equipas, poderia elevar significativamente o nível competitivo e a exposição da modalidade. Mais do que uma competição adicional, esta liga funcionaria como uma plataforma de crescimento, permitindo aos clubes portugueses competir regularmente num contexto mais exigente e estimulante. A Liga Ibérica poderia ainda assumir um formato inovador, com jornadas concentradas em regime de evento, transformando cada ronda num verdadeiro festival de rugby. Este modelo teria potencial para atrair público, patrocinadores e media, criando experiências diferenciadoras e aumentando a visibilidade da modalidade.
Para além da vertente desportiva, esta iniciativa teria também um impacto estratégico ao nível da cooperação internacional. Uma parceria estruturada com a Federación Española de Rugby permitiria ao rugby português beneficiar da crescente capacidade de Espanha na organização e promoção de eventos desportivos de rugby, reforçando a dimensão ibérica como um espaço competitivo e atrativo. Nos últimos anos, Espanha tem vindo a afirmar-se como um parceiro relevante no panorama internacional do rugby, com uma imagem cada vez mais consolidada na organização de eventos e na dinamização da modalidade. Tirar partido dessa dinâmica, através de uma ligação estruturada, poderá acelerar o crescimento do rugby português, aumentar a sua projeção externa e criar novas oportunidades comerciais e desportivas.
Assim, mais do que dividir e criar novas estruturas, o momento parece convidar à construção de uma solução integrada: reforçar o campeonato nacional, criar uma ponte competitiva ibérica e alinhar todos os intervenientes numa estratégia comum. Esta abordagem permitiria transformar a atual vontade de mudança numa evolução sustentada, capaz de fortalecer o rugby português de forma consistente e duradoura.
NOTA — O conteúdo deste artigo vincula apenas o autor e não as instituições nas quais é dirigente ou associado."

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