Últimas indefectivações

segunda-feira, 9 de março de 2026

Atrás do apito, há uma mulher


"Neste Dia da Mulher, este texto é dedicado à árbitra recém-falecida Liliana Coelho, de 35 anos

Nasci menina, ouvi «se fosse um menino, tinha ido para o futebol».
Hoje sou mulher e cresci dentro do futebol, apesar de, muitas vezes, sentir que o futebol não cresceu comigo.
Comecei a arbitrar aos 14 anos e hoje tenho 26, contudo, esta história não é apenas sobre mim. Esta história é sobre todas as mulheres que entram num campo sabendo que vão ser avaliadas duas vezes: pela decisão e pelo género.
Quando um árbitro entra em campo, deixa de ser pessoa e passa a ser função. Isso, por si só, já é duro, mas quando é mulher, muitas vezes, deixa de ser função para passar a ser alvo.
Tinha 16 anos quando ouvi da bancada: «Vai mas é para a cozinha.» E, noutra ocasião: «Isto é o que dá meter mulheres aqui no meio.»
O lance que tinha acabado de decidir deixou de ser analisado tecnicamente, e o problema passou a ser eu e o meu género. Um árbitro «erra». Uma árbitra «prova que as mulheres não percebem de futebol».
E é aqui que a questão deixa de ser desportiva e passa a ser cultural. A arbitragem é exigente por natureza e o erro humano é inevitável, fazendo parte do jogo. Quem veste este papel e assume o apito sabe disso, e aceita a responsabilidade. O que não deveria fazer parte é a desumanização.
Nós, árbitras, aprendemos desde cedo a criar uma armadura. Um ritual ou uma forma de desligar emoções. Não porque somos insensíveis, mas porque sentir demais pode tornar-se insuportável. Quando os insultos deixam de ser sobre decisões e passam a ser sobre quem somos, alguma coisa está errada.
Há balneários onde se entra em silêncio. Há jogos que ficam na memória não pelo resultado, mas sim pelas palavras vindas da bancada. Há viagens de regresso a casa em que o barulho do estádio ainda ecoa na cabeça. Há lágrimas que ninguém vê.
E depois, há o discurso repetido: «Isto faz parte.» «Tens de ganhar estofo.» «O futebol é assim.» Mas desde quando é que a violência verbal faz parte do desporto? Desde quando é que se ensina às crianças que gritar mais alto é sinónimo de ter razão? Desde quando é que humilhar é entretenimento?
Nas bancadas estão adultos. Pais. Mães. Dirigentes. Estão também crianças a aprender como se reage à frustração e que palavras se usam quando algo não corre bem. A aprender se o respeito é valor ou fraqueza. O futebol é paixão, mas paixão não é sinónimo de agressão. Competição não é sinónimo de desrespeito. Comportamentos geram comportamentos e, os adultos de hoje são o exemplo das crianças para o futuro.
Ainda antes do primeiro apito, surgem comentários sobre o nosso corpo e aparência, não sobre a competência, preparação ou Leis do Jogo. E quando comentários machistas vêm também de outras mulheres, a sensação é ainda mais dura. A igualdade não deveria construir-se em conjunto? Não deveríamos ser as primeiras a abrir caminho umas às outras?
Que sociedade é esta que acha normal que uma adolescente, de apito na mão, tenha de lidar com aquilo que muitas mulheres adultas ainda lutam para enfrentar? O campo devia ser um espaço de aprendizagem, crescimento e superação, não um palco onde se testa, demasiado cedo, a resistência emocional de quem ainda está a formar a sua identidade.
Nenhuma jovem deveria ter de escolher entre perseguir um sonho e preservar a sua dignidade. Nós, árbitras, fazemos sacrifícios: fins-de-semana, preparação constante, responsabilidade solitária. Fazemos isto por amor ao jogo. Não pedimos aplausos, pedimos respeito.
Antes do apito, há uma pessoa. Muitas vezes, há uma mulher que trabalhou o dobro para ser levada a sério e provar que merece ali estar. A pergunta é simples: se fosse a tua filha no meio do campo, continuarias a gritar as mesmas palavras?
O respeito não é um favor, é o mínimo.
Sejam melhores. O desporto agradece."

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!