"O Sporting chega a esta altura a depender de terceiros. O Benfica ainda decide o próprio destino. E agora toda a gente quer explicar porque é que isto aconteceu, como se tivesse caído do céu, como se, mesmo com tantos erros de arbitragem, não tivéssemos percebido durante a segunda volta que isto iria acontecer.
Mas pronto. Vamos fingir que foi uma surpresa.
Durante meses, o discurso foi sempre o mesmo. Estrutura. Planeamento. Consistência. Palavras que soavam bem e que eram repetidas com aquela solenidade toda, como se descrevessem algo inédito e absolutamente extraordinário no futebol português. E enquanto o discurso funcionava, enquanto os resultados apareciam, havia silêncio total sobre tudo o resto. Sobre árbitros. Sobre lances. Sobre os jogos na Madeira, no Estoril, nos Açores, onde as coisas correram bem de uma forma que até os mais crentes acharam graça.
Nada. Distância olímpica. Classe total. «Nós não comentamos essas coisas», diziam no Sporting.
Claro que não comentavam. Não havia necessidade.
O problema é que agora há. Nas últimas semanas, o enquadramento mudou. Passaram a existir explicações externas para as perdas de pontos. Uma mudança que não é apenas circunstancial, é reveladora de algo mais profundo. Quando se exige silêncio quando se ganha e se pede barulho quando se perde, deixa de haver coerência. Passa a haver conveniência. E o critério, esse, ficou algures pelo caminho.
E isso tem um custo. Quando o discurso deixa de ser consistente, deixa também de ser credível.
E o Benfica?
O Benfica esteve ali a fazer o que faz um clube que não está bem, mas também não está morto. Errou, perdeu pontos que não podia perder, teve uma época irregular que não é facilmente defensável. Não escondemos o que não está bem, mas o que aconteceu no último fim de semana, em Famalicão, é, no mínimo, vergonhoso. Um penálti evidente por assinalar que podia colocar o jogo num 3-0, matando-o ali. No mesmo jogo, um golo sofrido que nasce de um canto inexistente. Dois momentos, no mesmo encontro, com influência direta no resultado. E não foram exceção ao longo da época.
Houve outros momentos, menos mediáticos, mas igualmente relevantes. Não explicam tudo, nem retiram responsabilidade à equipa, mas ajudam a perceber porque é que o caminho foi mais irregular do que podia ter sido.
Mas mesmo com tudo isso, a equipa foi fazendo.
Sem grandes celebrações, sem comunicados a explicar o quanto estava a somar. Foi acumulando pontos. Trinta e seis na segunda volta. Mais do que qualquer rival direto. Um número que ficou escondido debaixo de toda a conversa sobre o que o Benfica não estava a conseguir fazer.
Porque quando o Benfica joga bem, não é notícia. É obrigação. Quando joga mal, é conversa todos os dias, a toda a hora. É assim que funciona. O Benfica raramente tem direito ao benefício da dúvida. Ou ganha, ou explica.
E o facto é que agora, nesta fase da época onde já não há quase margem para nada, o Benfica ainda decide o que pode salvar. Não o título, que já está entregue. Mas a Liga dos Campeões. E depender de si nesta altura, com tudo o que aconteceu ao longo do ano, com todos os pontos que ficaram pelo caminho em circunstâncias difíceis de engolir, não deixa de ser caricato.
É menos do que o objetivo inicial. Muito menos. Mas é o que resta.
A esta altura, o Sporting deixou de depender de si porque falhou na gestão, falhou na capacidade de fechar jogos, falhou quando deixou de haver margem para falhar. Pode dizer o que quiser sobre o porquê, pode apontar para fora o tempo que quiser, que o resultado não muda.
Do outro lado, o Benfica tem ainda aquilo que o Sporting já não tem: a possibilidade de resolver por conta própria. Chegou aqui com defeitos, com inconsistências, mas chegou. E isso tem uma explicação objetiva que foi sendo secundarizada ao longo da época: a segunda volta. Enquanto os outros começaram a falhar, a equipa manteve um nível suficiente para se manter dentro do objetivo mínimo. Sem grande ruído, sem narrativa construída à volta disso.
Infelizmente, há épocas em que salvar o essencial já é uma forma de evitar males maiores.
Mudando de tema.
A oferta pública de obrigações do Benfica foi um sucesso, com a procura a exceder a oferta em 1,36 vezes. Ou seja, o empréstimo fixou-se nos 65 milhões de euros, o maior de sempre, enquanto a procura atingiu os 88,1 milhões de euros.
Ao todo, ao longo das duas semanas em que decorreu a oferta pública, 4.831 investidores subscreveram a nova linha de obrigações do Benfica. Foram emitidos 65 milhões de euros em dívida, com uma maturidade de cinco anos, o que permite transformar dívida de curto em médio prazo, mantendo a trajetória de descida da dívida líquida.
O valor inicial que o Benfica pretendia alcançar era de 40 milhões de euros, mas ao segundo dia de subscrição esse valor já tinha sido atingido. A decisão de alargar a operação para os 65 milhões não foi um detalhe técnico. Foi uma resposta direta à procura e, acima de tudo, um sinal claro da confiança dos investidores no clube e na credibilidade da sua situação financeira.
Num momento em que dentro de campo há exigência e pressão, fora dele há validação. Não resolve golos falhados, não corrige pontos perdidos, não ganha jogos. Mas diz que, apesar da turbulência desportiva, o Benfica continua a mobilizar confiança, capital e futuro.
O Benfica não está onde queria estar.
Mas continua de pé."

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