"Nas colinas tranquilas de Zagreb, um dos outrora avançados mais temidos da Premier League vive uma rotina improvável dividida entre o balcão do seu café e sessões de guitarra com o filho, muito longe dos holofotes da fama do futebol.
Há jogadores que passam a vida inteira a tentar ser lembrados, mesmo depois de pendurar as chuteiras. Mark Viduka fez o contrário: passou a carreira a marcar golos e, quando tudo acabou, desapareceu com a mesma naturalidade com que se afastava de um defesa depois de o sentar no relvado. Não houve conferência de imprensa, não houve lágrimas, não houve nostalgia. Houve apenas um australiano de ombros largos a fechar a porta do futebol e a abrir outra, bem mais improvável, nas colinas de Zagreb.
O mesmo Viduka que arrastava centrais na Premier League, que levou o Leeds United às meias‑finais da Liga dos Campeões, que no Celtic jogava com serenidade, vive agora num lugar onde ninguém lhe pede autógrafos, apenas café. E ele agradece, mate.
Depois de 2009, Viduka escolheu a vivência que muitos dizem querer, mas poucos têm a coragem de assumir: uma vida pacata. Mudou‑se para a Croácia, terra natal dos pais e da mulher, Ivana, e instalou-se nas colinas a norte de Zagreb, abriu o Non Plus Ultra, um café discreto onde prepara expressos e discute a temperatura da água como quem discute uma final europeia.
Mas a Croácia não é apenas o cenário tranquilo da sua vida atual. Foi também o lugar onde se confrontou com uma realidade dura, quando chegou ao Dínamo Zagreb, em 1995, num período em que o país estava a sair de uma guerra recente. Viduka admitiu anos mais tarde que não tinha noção do que o esperava. O ambiente era pesado, marcado por histórias e cicatrizes que ele, vindo da Austrália, não sabia como processar. Disse que esse choque o marcou profundamente e que foi uma das experiências mais duras da sua carreira.
Já em Inglaterra viveu outro momento difícil. Durante a passagem pelo Middlesbrough, num período em que lidava com lesões, pressão e desgaste emocional, o australiano, que também tem cidadania croata, contou que chegou a pedir ao treinador Gareth Southgate para ir ter com a família porque estava psicologicamente em baixo. O pedido foi aceite, e ele descreveu esse gesto como decisivo para recuperar o equilíbrio. Não dramatizou o episódio, mas reconheceu que precisava parar, respirar e estar com os seus.
Há quem diga que o nome do seu café é uma espécie de piada involuntária: depois de marcar quatro golos ao Liverpool numa só tarde, talvez tenha sentido que já não havia muito mais a provar. Agora, o desafio é outro. Na entrevista ao Daily Mail, em 2021, assumiu que atualmente a sua única pressão é preparar um bom café para os clientes. Alguns deles bem conhecidos. O antigo tenista Goran Ivanišević aparece por lá, Luka Modrić, vizinho e amigo (mas não primo, como muitos pensam), passa de vez em quando e Viduka recebe-os com a mesma calma com que recebia uma bola difícil na área.
Pai de três rapazes, Joseph, Lucas e Oliver, toca guitarra na banda onde o caçula é baterista. “Quando um dos amigos dele não pode ir, eu substituo-o. Usamos a nossa cave. Os vizinhos não estão muito contentes com isso! Eu e os rapazes adoramos os Arctic Monkeys. As letras, meu, são geniais”, confessou na mesma entrevista.
É tudo isto que torna Viduka tão fascinante. Filho de croatas imigrantes na Austrália, deixou a Oceânia aos 19 anos para jogar na Europa e, entre altos e baixos, foi capitão da Austrália no Mundial de 2006. Marcou em Inglaterra como poucos, foi ídolo em Glasgow, Newcastle e Melbourne. Mas nada disso parece ter ficado preso a ele. Não há entrevistas semanais, não há polémicas, não há vontade de regressar ao jogo.
Mark Viduka escolheu uma vida tranquila onde ninguém lhe lembra quem ele foi e isso, curiosamente, parece deixá-lo feliz. Acaba por haver algo de poético na ideia de que um dos avançados mais temidos da Premier League esteja agora mais interessado na torra dos grãos do café ou em tocar guitarra com o filho, do que em ver jogos de futebol."

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