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quinta-feira, 16 de abril de 2026

José Mourinho vs. Zé Estraga, ou o insustentável peso da crítica


"Quem me conhece sabe que já usei este exemplo muitas vezes; quem conhece (mesmo) Esgueira, sabe que não estou a inventar.
Há 50 anos, a freguesia onde cresci, nos arredores de Aveiro, parecia uma aldeia: toda a gente se conhecia e muitos tinham alcunhas. Perto da casa dos meus pais havia uma oficina de bicicletas, propriedade do muito competente senhor José – o «Zé Estraga». Que não estragava; com as suas mãos hábeis, resolvia-nos muitos problemas e ainda nos deixava encher as bolas de futebol com o compressor de ar – coisa rara!
O senhor Zé tinha um aviso pendurado na entrada da «loja», uma folha A4 com a singela frase, escrita à mão: «Aceito reclamações de quem faça melhor, não de quem saiba muito».
Parece piada, mas não é. Estava lá – e, para nós, miúdos, fazia sentido. E metia-nos em sentido.
José Mourinho prefere puxar dos (merecidos) galões e dizer que aceita críticas de quem tiver mais títulos do que aqueles que já conquistou: 26. Não é coisa pouca. O problema é que, no futebol, há chavões que continuam a ser verdade. «O futebol é o momento» ou «o passado está nos museus» são regra dura, cruel e implacável para todos. Mesmo para os mais titulados.
Sempre pensei que José Mourinho só voltaria a Portugal para o cargo de Selecionador Nacional. Porque Portugal seria o último reduto, o local onde nunca falhou, onde nunca perdeu – e onde não poderia arriscar a reputação de vencedor num clube, correndo o risco de perder.
Mourinho decidiu voltar às raízes, ao primeiro clube que – corajosamente – apostou nele para treinador principal. Saberia que não seria fácil ganhar; deveria saber que a crítica, em Portugal, é acutilante, independentemente do estatuto (Cristiano Ronaldo que o diga…). Tinha de saber que, no Benfica, se está sempre sob escrutínio.
José Mourinho foi sempre feroz na comunicação. Ficaram famosas algumas frases marcantes em Portugal; entraram para a história as conferências de imprensa em Inglaterra; tornaram-se lendários os duelos verbais com Guardiola em Espanha. A diferença, nesses tempos, é que Mourinho ganhava. Jogos e títulos. Com frequência.
Pelo meio, também ganhou fama de arrogante. Mesmo que «a special one» seja diferente de «the special one», o rótulo ficou, para o bem e para o mal.
Sempre pensei que tem direito a ser vaidoso quem tem um currículo de que se orgulhe (e mais ainda, que encha de orgulho os seus amigos, vizinhos ou compatriotas – esta é mesmo só para os realmente grandes). E sempre desconfiei de quem diz que a sua maior virtude é a humildade…
Mourinho tem todas as razões para ter (muito) orgulho - e vaidade - na sua carreira.
É um dos treinadores que marcaram e mudaram este jogo que amamos!
E também criou, é justo dizer, uma legião de ansiosos à espera que falhasse.
O problema é que agora ganha menos. E os adeptos querem ganhar. Os tempos mudam, a sociedade mudou, os jogadores mudaram, o jogo evoluiu e a comunicação também. E os críticos existem para criticar. E, por terem menos responsabilidade, ganham menos, muito menos, do que um bom treinador.
O Benfica está agora mais longe do topo da classificação do que quando José Mourinho chegou. Facto. Sim, conseguiu um momento épico na Liga dos Campeões – no qual poucos acreditariam – mas arrisca falhar a Champions da próxima época. Mesmo sem derrotas no campeonato.
Já as conferências de imprensa de José Mourinho, essas continuam a ser arrebatadoras, apimentadas, polémicas, épicas.
«Zé Estraga» não estragava bicicletas. Pelo contrário: podia montar uma de raiz a partir de um parafuso. Ainda assim, teria clientes insatisfeitos – ou não teria sentido a necessidade de pendurar o tal aviso num barrote na entrada na oficina. Mas fez a sua vida, dedicado e orgulhoso, até ao fim.
José Mourinho pegou na «bicicleta» a meio da corrida, não dava para a desmontar e refazer de base. Não faltam sinais de que o pretende fazer para a próxima época – e já foi avisando que a pré-temporada será difícil, com o Mundial a decorrer.
Os adeptos do Benfica serão, provavelmente, ainda mais exigentes do que os clientes do senhor Zé.
Mourinho lida mal com a crítica. Outro facto. Mas deve saber viver com ela e diferenciar críticas ao trabalho de críticas à pessoa. Ou ignorar as críticas e focar-se no trabalho – o que o fez grande."

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