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domingo, 19 de abril de 2026

Afinal, nada é por acaso…


"O Sporting Clube de Braga aproveitou da melhor forma os recursos naturais — uma massa adepta incomparável e em crescendo quantitativo — e juntou-lhe chama e estratégia.

Há muitos anos, o futebol português resumia-se a um triângulo de virtudes e intenções, com resultados sistemáticos a coroar Benfica, Sporting e FC Porto, numa lógica de repartição de domínio que se prolongou por décadas e afetou (sim, afetou) todos os que, não se revendo na reverência aos três grandes, lutavam para se manter à tona de água e para conseguirem, em determinado momento, algum protagonismo.
Foi assim com o Belenenses, foi também assim com o Boavista, que, no entanto, e com a necessária evolução estrutural, logística e técnica, não conseguiram, por motivos que agora não vêm à colação, manter-se na crista da onda e criar a dinâmica essencial para discutir, de modo consistente e sistemático, o domínio competitivo do futebol português.
No século XXI, é bem diferente o grau de profissionalismo, de exigência e de formação dos diversos agentes, que resulta, naturalmente, numa predisposição muito distinta e numa obrigação muito mais rigorosa de preparação estratégica. No Minho, o Sporting de Braga e, particularmente, o seu presidente dos últimos largos anos, perceberam as necessidades, identificaram os mecanismos e prosseguiram em caminhos bem definidos, de médio e longo prazo, tentando dotar o emblema de condições de base e de musculatura financeira para trilhar rotas de sucesso, continuando a apaixonar e a cativar os seus adeptos, muito ciosos de um regionalismo que nada tem de pequeno ou bacoco, antes serve para afirmar pelo mundo uma ideia de clube de afeição, projetando a região para o país e este para o estrangeiro, sem perder a noção das dimensões relativas e da responsabilidade social acrescida ao longo dos anos.
O Sporting Clube de Braga aproveitou da melhor forma os recursos naturais (uma massa adepta incomparável e em crescendo quantitativo, uma ligação intergeracional notável, uma capacidade de investimento efetiva e uma indomável vontade de progressão) e juntou-lhe chama e estratégia.
Juntou, por exemplo, a crescente notoriedade do futsal ao incremento do futebol feminino, para construir duas equipas muito competitivas em cada âmbito, sendo ambas referências de qualidade e lutando, em cada quadra ou no relvado do estádio Amélia Morais, pelo melhor para as suas cores.
E no futebol, não cristalizando e, com isso, emoldurando na história a campanha que, há década e meia, o levou à final portuguesa da Liga Europa, em Dublin, frente ao FC Porto, voltou à carga como um corredor de fundo, em crescendo nos últimos anos, ganhando a Taça da Liga (qualquer que seja a interpretação e a importância que cada um de nós possa conceder à competição…), sendo sempre uma pedra no sapato dos tais três grandes quando em compita direta, e conseguindo uma sustentabilidade financeira elogiável (e invejável), que lhe confere moral e capacidade para intervir no mercado, regenerar equipas e manter a verve competitiva que se lhe reconhece.
Por isso, a carreira do Sporting Clube de Braga na Liga Europa 2025/2026 só poderá surpreender quem não esteja atento, nos últimos largos anos, ao percurso estratégico moldado pelo empresário António Salvador, ao leme do emblema minhoto. Secretamente, no remanso do balneário, sabe-se agora que a eventual presença na final da segunda mais importante competição para clubes sob a égide da UEFA foi projetada e serviu de emulação e desafio ao grupo de trabalho logo após a conclusão da brilhante fase de liga, com os bracarenses a assegurarem um dos oito primeiro lugares e, consequentemente, o apuramento direto para os oitavos de final.
Se olharmos para o plano estritamente competitivo, veremos o SC Braga com dezoito jogos já realizados na competição, uma vez que nela entrou na segunda pré-eliminatória. Fará certamente vinte e, idealmente, ainda mais um, se conseguir ultrapassar os alemães do Friburgo e chegar à final de Istambul, com Nottingham Forest ou Aston Villa. Ora isto corresponde a uma componente muito significativa da temporada, se considerarmos que a Liga portuguesa compreende 34 jornadas. Portanto, a equipa de Carlos Vicens avança para mais de 55 jogos, seguramente, o que eleva os patamares de resiliência, programação e capacidade de gestão a um nível superlativo.
Mas tudo isto, que se reflete a cada jogo, a cada golo, a cada festejo, só é possível com um amplo respaldo organizativo e de planeamento, com uma estrutura muito profissional e dedicada, e com metas traçadas atempadamente (com anos de antecedência), e meios adequados para se poder atingir os fins.
O futebol de hoje não se compadece (aliás, rejeita-os…) com amadores, por mais bem intencionados que sejam. As estruturas das equipas profissionais, para lá de multidisciplinares, trabalham com um só foco e obedecem a uma só vocação. O SC Braga é bem o exemplo disso, e em variados aspetos e situações dá lições aos tais três emblemas dominadores de antanho no futebol português, que bem poderiam aproveitar algumas das ideias e das práticas que surgem do norte minhoto.
No futebol, diz-se que, apesar da posse de bola não garantir vitórias no campo, deixa quem mais a tem com melhores condições de ganhar um jogo. No futebol de bastidores, uma estrutura pensada, moldada para as necessidades do clube e das competições e a suscitar empenho dedicação, é certamente meio caminho andado para atenuar distâncias e aproximar glória. Afinal, nada, mesmo nada, é por acaso…

Cartão branco
Conheci o Germano Almeida quando ainda ele exercia as suas funções de jornalista de A BOLA. De perto convivemos quando ambos integrámos a equipa de lançamento do Canal 11. Optando por uma ligação consistente à geopolítica e aos seus contornos, o Germano projetou um novo modelo de abordar a atualidade internacional, na forma e no conteúdo, apresentando, no NOW, Guerra e Paz, um diário que nos aproxima do mundo e dos contornos cada vez mais desafiantes da geopolítica que o molda. O exemplo acabado de um talentoso jornalista que, partindo da especialização no desporto, transita para outros ângulos e temáticas, continua o sucesso e desbrava novos horizontes profissionais.

Cartão amarelo
O triunfalismo sempre foi mau, e é ainda pior quando se aplica a escalões de formação. A equipa do Benfica acaba de apanhar um banho de realidade. À quinta presença na Final Four da UEFA Youth League, não consegue, pela primeira vez, a presença na final, sucumbindo, com um claro 1-3, frente aos belgas do Club Brugge. Sublinha-se a presença dos portugueses, outra vez, entre os quatro melhores do futebol jovem europeu. Mas o ambiente que se criou, nos últimos dias, em torno da equipa, pode ter sido o primeiro passo para a débacle frente ao conjunto belga. É sempre difícil equilibrar entre um razoável compromisso competitivo e as obrigações de representação internacional, ficando a ideia de que, com outra tranquilidade, os encarnados talvez pudessem ter, de novo, chegado à final da verdadeira Champions jovem."

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