"O futebol moderno tem uma estranha incapacidade para lidar com o silêncio. O vazio incomoda-o. Obriga-o a pensar. E pensar é perigoso numa indústria que vive da ansiedade, da urgência e da necessidade permanente de fabricar capítulos novos, mesmo quando a história está parada. Por isso, quando se juntam três elementos explosivos — Benfica, Real Madrid e José Mourinho — nasce automaticamente uma novela. Não interessa se existem provas concretas, negociações avançadas ou decisões tomadas. Basta a possibilidade. No futebol, as hipóteses também fazem manchetes.
E esta hipótese específica tem um combustível emocional poderoso. O Real Madrid olha para Mourinho como os velhos impérios olham para antigos generais: homens que conhecem os corredores do palácio, as guerras internas e a pressão impossível de sobreviver sem cicatrizes. Florentino Pérez pode cometer muitos erros, mas raramente esquece quem lhe deu batalhas dignas do tamanho do clube.
E Mourinho deu.
Num tempo em que o Barcelona de Guardiola parecia uma experiência científica destinada a humilhar o resto da humanidade futebolística, Mourinho foi o homem que devolveu resistência ao campeonato espanhol. Não ganhou sempre. Nem podia. Mas devolveu conflito a uma liga que ameaçava transformar-se num monólogo catalão. O seu Real Madrid teve nervo, fúria, personalidade e uma agressividade competitiva que obrigou o Barcelona a deixar de jogar sozinho. Às vezes, no futebol, há treinadores que ganham títulos. Outros ganham respeito histórico. Mourinho conseguiu as duas coisas.
Depois houve este reencontro europeu. O Benfica esmagou o Real Madrid na Luz, no jogo da fase regular, e a memória voltou a dominar Madrid. Não apenas a memória do treinador vencedor, mas a memória do treinador que sabia transformar equipas em estados emocionais. E isso pesa. Mais ainda num clube traumatizado por decisões erradas recentes.
O problema do Real Madrid não tem sido apenas perder jogos e ver o Barça a dominar novamente. É, mais do que isso, a perda de autoridade. A escolha de Arbeloa revelou-se precipitada e a saída apressada de Xabi Alonso agravou ainda mais a sensação de desorientação. O clube ficou sem liderança técnica, sem estabilidade emocional e sem capacidade para controlar um balneário onde cada ego tem o tamanho de uma multinacional. E quando o Real Madrid entra em desordem, procura sempre figuras capazes de impor hierarquia pelo olhar.
Mourinho pertence a essa categoria. Mas uma coisa é o imaginário. Outra é a realidade. E a realidade, neste momento, é simples: não existe nada além do barulho. Jorge Mendes falou com Florentino Pérez? Naturalmente. Mourinho foi tema de conversa? Claro que foi. Como poderia não ser? Mas daí até existir uma negociação concreta vai a distância entre um rumor elegante e uma decisão estrutural.
Mourinho tem contrato com o Benfica. Tem poder dentro do clube. Tem influência junto dos adeptos. E Rui Costa sabe que, mais do que um treinador, contratou uma figura capaz de devolver músculo político e mediático a um Benfica que, nos últimos anos, tem falado demasiado baixo para o tamanho da sua história.
Ao mesmo tempo, Rui Costa também percebe o perigo. A dimensão de Mourinho nunca permite meios-termos. Se sair para Madrid, Rui Costa perde um treinador para o maior clube do mundo. É aceitável. É até defensável perante os adeptos. Mas se Mourinho ficar e voltar correr mal, então o treinador que foi fator decisivo para Rui Costa ganhar as últimas eleições, pode ser aquele que faz com que o mesmo presidente perca as próximas ou até que haja um ato eleitoral antecipado. Contratar Mourinho foi um grande tiro de Rui Costa, mas uma bala que pode fazer ricochete.
Para já, no entanto, entre os protagonistas, reina o discurso curto ou silêncio. Florentino não fala. Mourinho repete que quer ficar. Rui Costa garante estabilidade. E quando os protagonistas não alimentam a narrativa, entram em cena os figurantes. Um deles é Javier Tebas.
O presidente da La Liga manifestou o interesse no regresso de Mourinho, pensando no peso mediático do treinador e na força comercial que o mesmo poderia voltar a dar ao campeonato espanhol. Mas mete-se num assunto que não lhe diz respeito. É presidente da La Liga, não é presidente do Real Madrid.
No fundo, esta novela vive, sobretudo, daquilo que Mourinho representa. Porque o futebol continua apaixonado por regressos. Especialmente pelos regressos dos homens que já sobreviveram ao inferno e conhecem o caminho de volta."

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