"Dos três ainda na Europa, era o FC Porto aquele que tinha mais obrigações e, por isso, foi o que mais desiludiu. Há algo a crescer em Braga e em Alvalade mora uma equipa a querer ser gigante
O SC Braga está finalmente a fazer-se. Haja paciência, critério e decisões cirúrgicas, e nas próximas épocas poderão ser dados passos definitivos para a mudança de estatuto. Aquela que o seu presidente tanto deseja, mas que, tal como os antecessores, não conseguiu ainda oferecer aos adeptos.
É preciso acertar muito e falhar pouco, pensar além do amanhã, embora o caminho nunca tenha estado tão à vista. Não são só as meias-finais europeias que o provam, são vários momentos altos ao longo da temporada, alguns com resultado visível, outros um pouco mais a apontar para a vitória moral, que somos obrigados a aceitar como provas da força do processo.
Falta consolidação e regularidade — o que é perfeitamente normal num ano de mudança de paradigma —, e profundidade para jogar em várias competições com armas semelhantes e idêntica capacidade de ferir. Vicens trouxe uma ideia que os jogadores abraçaram, houve calma da direção para resistir às primeiras dores de crescimento e manter treinador e modelo.
Houve mérito de se ter conseguido distinguir de outros maus arranques no passado. Há cada vez mais jogadores com talento e que, ainda por cima, encaixam no tecido coletivo, debaixo da liderança de João Moutinho e de Ricardo Horta. Aos 39 anos, resta saber que a linha temporal do médio continuará a ser paralela durante mais algum tempo à nova filosofia bracarense.
No que diz respeito ao futuro mais próximo, vem aí o Friburgo, acabado também de destroçar um conjunto espanhol. Se os minhotos eliminaram o Betis, 5.º classificado da LaLiga, os germânicos não tiveram grandes problemas em bater o 6.º, o Celta, com 3-0 na Floresta Negra e 3-1 nos Balaídos. Uma equipa sólida, treinada com mestria por Julian Schuster, com excelente guarda-redes (Atubolu), centrais sólidos (Ginter e Lienhart), dupla de médios de grande capacidade (Eggestein e o miúdo Manzambi, excelente no transporte e com dimensão física e técnica considerável) e um quarteto feroz no ataque (Beste sobre a direita, Sukuki no apoio ao gigante croata Matanovic no miolo e Grifo na esquerda), que será certamente mais uma montanha enorme para escalar.
Capaz de controlar o jogo com ou sem bola, ser vertical ou mais paciente na organização ofensiva, pressionando de forma agressiva ou baixando mais o bloco para atrair e saltar na transição, o Friburgo é uma equipa adulta e capaz de gerir os vários momentos.
O SC Braga salvou a armada portuguesa, já que em Nottingham, o FC Porto ficou sem o seu xerife muito cedo, com a expulsão de Bednarek, sofreu a seguir o 1-0 e é a grande desilusão dos quartos de final. A eliminatória inclinou-se a favor dos ingleses ainda no Dragão nos minutos que separaram o autogolo de Martim Fernandes e o intervalo, e que permitiram aos Tricky Trees ganhar raízes nos locais certos na defesa, depois de uma entrada que parecia arrasadora dos azuis e brancos.
Uma equipa inglesa nesta conjuntura, pela capacidade física e mental a que obriga a Premier, não é nada fácil de bater, mas estamos a falar do embate entre o líder da Liga portuguesa e o 16.º classificado do principal escalão do seu país. Houve infelicidade com as bolas aos ferros, porém não há outra forma de dizê-lo: o FC Porto era favorito a passar a eliminatória, até a ganhar a prova, apesar do acréscimo das dificuldades naturalmente esperadas numa eventual meia-final diante do Aston Villa, 4.º na Velha Albion.
É a segunda competição que deixa fugir e segue-se a meia-final da Taça com Sporting, em que está em desvantagem. Se o campeonato parece mais ou menos controlado, o cair diante dos leões na prova-rainha tornaria o final de temporada bem menos colorido do que a revolução de Farioli chegou a prometer. Ainda assim, com o objetivo principal conquistado.
Também o Sporting ficou pelo caminho, só que a imagem é bem diferente. Era o underdog e foi penalizado por um erro apenas. Dividiu os dois jogos e, mais uma vez, faltou-lhe ser cirúrgico quando os gigantes o são. Mas acreditou que era capaz de competir e foi o que fez.
A organização defensiva foi exemplar em 99% do tempo e atacou como pôde, não evitando também momentos de infelicidade como a bola na trave de Araújo após a trivela de Diomande e aquela finalização enrolada de Geny ao poste direito de Raya. Rui Borges pode não ter tudo o que adeptos e críticos querem que tenha, mas há-de ter algo e não será tão pouco quanto isso. Isso vê-se na resposta que a equipa tem sempre dado nos momentos mais importantes. Ainda que às vezes fique a meio da frase. Para manter o registo, há que não permitir sangrias no verão, mesmo que se saiba que Hjulmand dificilmente ficará devido a promessas antigas e será o mais difícil de substituir.
O Atlético Madrid-Barcelona voltou a ser tão emocionante como o da Taça e, mais uma vez, os culés ficaram a um golo da remontada. Flick mostra-se um extremista com o posicionamento da linha defensiva e isso poderá estar a roubar-lhe finais, já que o campeonato está ao alcance. Os colchoneros parecem de novo ferozes e uma das suas bestas negras já saiu entretanto do seu caminho. Precisamente o Real Madrid, eliminado pela outra besta negra dos madrilenos, o Bayern (final de 1974, em Heysel) dos madrilenos. Antes terá ainda de ultrapassar o Arsenal. Um à beira da festa ou da agonia.
No Arena, o mais emotivo de todos os jogos. Não foi o instinto de sobrevivência europeia dos merengues ou as individualidades. Neuer foi mesmo amigo do peito. E, mesmo assim, os bávaros festejaram no fim. Já o Real ameaça entrar em ciclo ainda mais negativo. Xabi perdeu a guerra com o balneário e Florentino pensa, sem lógica, num novo Alonso, o também idealista Fàbregas. Na verdade, só Ancelotti e Zidane teriam mão em Mbappés e Vinicius, e ambos têm grandes desafios pela frente. Sobra Deschamps e… Mourinho, não fosse o episódio… Vinicius. O homem que esqueça os treinadores e contrate, na sua vez, um especialista em recursos humanos."

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