"Queimei a língua, como dizem os brasileiros de quem fez afirmações e logo foi desmentido pela realidade. Escrevi há uns dias, na crónica anterior, sobre a simbiose entre clubes e treinadores e como exemplo fui lembrar-me do Vitória SC. Erro meu e de mais ninguém. Já devia ter percebido pelos antecedentes que desde que António Miguel Cardoso é presidente o comando técnico vitoriano é uma placa giratória de critério insondável.
Quis acreditar que poderia ser diferente desta vez, afinal Luís Pinto projetava miúdos de talento no lugar dos consagrados que debandaram (João Mendes, Manu Silva, Tiago Silva, Handel, por exemplo) e de permeio tinha acrescentado às vitrinas (apenas) o terceiro troféu nacional sénior da história centenária do clube. Como digo, o erro foi meu. O rodízio de técnicos anterior, em que avultam a dispensa apressada de Daniel Sousa e o estranho despedimento de Luís Freire, eram indícios firmes do que se seguiria. Como em tanto da vida, o futuro é impossível de adivinhar, mas não tão difícil de prever.
Valha que também falei do Famalicão, agora encostado ao Gil Vicente no quinto lugar e que, ironicamente, foi a Guimarães nesse pós-chicotada do vizinho reforçar a candidatura europeia. E do Bodo/Glimt também, que, para mal do Sporting e do futebol português, provou de novo que no futebol nada é mais forte que uma ideia de clube feita identidade em campo.
Os leões ainda podem dar a volta, até porque individualmente têm mais argumentos, mas, até por isso, a qualidade de jogo do Bodo, sobretudo nos momentos com bola, é um espanto. Claro que Rui Borges se equivocou no plano de jogo - chegou a ser exasperante ver Berg receber a bola livre e organizar sem pressão toda a primeira parte - mas dificilmente imaginamos qualquer equipa portuguesa fazer aos leões o que os noruegueses conseguiram.
É ver a mobilidade treinada, os alas nas entrelinhas e até no corredor contrário, os laterais recorrentemente em zonas de finalização, a capacidade de ligar o campo à largura e de multiplicar linhas na profundidade, a preocupação permanente em não passar por passar, mas em passar para progredir, para chegar, até que seja fácil finalizar. É um tiki-taka a sério, dos que encantam e valem golos. É bom que haja quem resgate essa ideia, a que mais sucesso garantiu no século em curso, agora que o seu criador, Pep Guardiola, parece crente de outra confissão ou pelo menos agnóstico do belo jogo.
Ver o City entrar em Madrid com Doku, Semenyo e Haaland ao mesmo tempo (mais Savinho, embora este seja diferente), deixando no banco Cherki e Foden, não é apenas entrar nas razões de uma derrota copiosa (frente a um adversário que está longe de empolgar), é sobretudo a desilusão de ver Guardiola render-se, invertendo o que o seu jogo tinha de melhor. Ao render-se ao físico e à aceleração - quando contratou um avançado com o perfil de Haaland, quando quis fazer de Stones médio, quando inventou quatro centrais na linha defensiva - colocou em declínio o projeto mais ganhador (de seis títulos de campeão em sete anos) a que a Premier League já tinha assistido.
Mais uma vez, os sinais estavam lá. O génio de Pep ainda pode ajudar a reverter a eliminatória com o Real, mas já difícil crer que terminará em consagração o incrível trajeto que deixará em Manchester. E os sinais disso já se acumulavam há uns anos.
Em Portugal, perante o impacto imediato de Francesco Farioli no FC Porto, não faltou quem lembrasse o terrível final que viveu na época passada nos Países Baixos. O fantasma do Ajax ainda não se esfumou de vez, mas o título está cada vez mais perto do Dragão. Além da competência do treinador e da coerência com que o plantel foi construído, houve uma decisão mais recente, já de 2026, que marcará o provável (para já só isso, provável) sucesso portista: o reforço do plantel na abertura de mercado.
Quantos clubes, com a época a correr tão bem, não teriam evitado mexer no plantel em nome da estabilidade, da coesão do grupo ou de mais oportunidades para os jogadores da formação? Arrisco que poucos acrescentariam quatro jogadores com ambição de titularidade. Ao juntar ao grupo Thiago Silva, Fofana, Pietuszewski e Moffi não só reforçou a ambição (também europeia) e a competição interna, como acrescentou soluções que faltavam e antecipou a resposta a problemas como a lesão de Samu.
Há uma velha lição da gestão que os portistas levaram à risca e que, se o sucesso se confirmar, também o explicará em boa parte: quando é que é necessário mudar? Antes que seja necessário."

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