Últimas indefectivações

quarta-feira, 29 de abril de 2026

O momento Aursnes em Alvalade


"1. O último dérbi teve o seu momento inesquecível. Um dérbi, qualquer dérbi, é uma soma de muitos momentos. A escolha do momento dos momentos de um dérbi é uma prerrogativa de cada um de nós. Uns escolherão uma situação com que vibraram especialmente, outros escolherão outra que mais lhe agradará recordar pela vida fora. É também para isto que os dérbis servem, para o compêndio das memórias individuais.

2. Falando por mim, o momento inesquecível do último dérbi não foi o golo de Rafa, que nos deu a vitória, nem foi a vitória propriamente dita. O Benfica nasceu para ganhar. Ganhar ao rival mais antigo é sempre uma beleza, e ganhar ao rival mais antigo na sua própria casa é de inquestionável beleza, sobre isto nem há discussão.

3. No entanto, vencer o Sporting no recinto do Sporting, por muito que seja um motivo de regozijo, não é assim um feito de uma enorme raridade. Daqueles feitos que acontecem muito esporadicamente e que justificam festejos extraordinários.

4. O dérbi do último domingo foi o 92.º Sporting-Benfica jogado para o Campeonato na casa do Sporting e foi a 35.ª vitória do Benfica, que igualou o número de vitórias do Sporting sobre o Benfica. O resto são empates.

5. Ou seja, na qualidade de visitante, o Benfica é o pior adversário com que o Sporting pode sonhar na Liga nacional. Não deixa de ser curioso o Benfica ter atingido estes números no domingo, tendo em conta que uma claque do Sporting aproveitou a visita da nossa equipa a Alvalade para desfraldar um pano com os dizeres “nós somos o vosso maior pesadelo”, quando, na realidade, passa-se exatamente o contrário.

6. Voltemos ao que foi, no meu entender, o momento inesquecível deste último dérbi. Ocorreu ao minuto 35 da primeira parte, quando o árbitro da partida mostrou o cartão amarelo ao capitão da equipa da casa, o dinamarquês Hjulmand. Lembram-se? É natural que se lembrem, até por ser uma raridade vermos Hjulmand a ver um cartão amarelo. Mas viu e foi-lhe muito bem aplicado. O jogador, surpreendido, reagiu à punição, erguendo os braços e gesticulando teatralmente durante alguns segundos, ou para provar a sua inocência ou para provar o seu desacordo, vá lá saber-se…

7. O nosso Fredrik Aursnes a tudo assistiu a curta distância e não resistiu a fazer uma imitação perfeita do esbracejar do capitão do Sporting, reproduzindo-lhe os gestos e a cadência. Foi perfeito. E pronto, será este o meu momento inesquecível do dérbi. Aursnes, a espelhar o jogo de braços de Hjulmand perante uma plateia maioritariamente adversa. Só por isto valeu a pena ter visto o jogo na televisão através da Sport TV."

Leonor Pinhão, in O Benfica

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