Últimas indefectivações

quinta-feira, 19 de março de 2026

O chapéu de Poborský


"Hoje, escrevo-vos sobre a minha primeira memória de vida. Muitas vezes tenho fragmentos soltos, quase como fotografias antigas, um pouco desfocadas nas margens, mas estranhamente nítidas no centro. A minha primeira memória de vida mais nítida remonta ao Verão de 1996. Um pouco incompleta, mas intensa.
Eu nasci em maio de 1992, num sábado à tarde, mas foi a um domingo no ano de 1996 que este momento aconteceu.
Estava na cozinha da minha avó. Lembro-me do espaço como se fosse um refúgio. O sol a entrar pela janela, o cheiro familiar, muita gente junta e aquele ambiente seguro onde tudo parecia tranquilo. Mas há algo de diferente nesse dia. A televisão estava ligada para os quartos de final do Campeonato da Europa. Portugal contra a Chéquia, na altura ainda era a República Checa, e ao intervalo permanecia o nulo no resultado.
Eu ainda não sabia muito bem o que estava em jogo. Só me lembro de colecionar os cromos do Europeu, com a caderneta normal e a caderneta dos repetidos, e de saber o nome de todos os jogadores só pela ponta dos cabelos.
E eis que surge um momento que, mesmo sem o compreender muito bem, nunca mais me abandonou. A bola sobe no ar, num gesto improvável, quase mágico. Vejo a bola a descrever um arco perfeito por cima do guarda-redes Vítor Baía. Mais tarde vou saber que foi Karel Poborský que fez um chapéu histórico, eliminando Portugal do Campeonato da Europa de 1996.
E, ao mesmo tempo, acontece outra coisa.
Estou ali, na cozinha, perto das coisas da minha avó, dos seus tecidos, das suas linhas, dos seus pequenos instrumentos de costura. E sem perceber bem como, pico-me numa agulha. É estranho como estas duas coisas ficam ligadas para sempre.
A cozinha da minha avó tornou-se, para mim, o lugar onde tudo começou na memória. Não apenas um espaço, mas um ponto de encontro. Ali, sem saber, comecei a guardar memórias. Comecei a existir dentro daquilo que acontecia à minha volta.
O jogo acabou, como todos os jogos acabam. Mais tarde aprendi quem ganhou, o que aquele golo significou, o porquê de ter ficado na história. A agulha foi guardada, como sempre, no seu lugar. Mas eu fiquei com aquele instante.
E quando volto a ele, não estou apenas a lembrar-me de um jogo de futebol. Estou a lembrar-me do meu primeiro registo intenso de vida."

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!