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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O feitiço dos Jogos


"Os grandes eventos desportivos têm a incrível capacidade de, sendo de duração relativamente curta, parecerem parte fundamental da nossa rotina, um momento que sempre lá esteve, que está, que estará. Enquanto se disputa um Mundial de futebol, achamos que acordar e ver um Uruguai-Gana é o pão nosso de cada dia, por muito que o pão só venha parar à mesa um mês a cada quatro anos.
A magia destes acontecimentos é esta: sendo esporádicos, invadem-nos de tal forma que nos convencemos que são parceiros quotidianos de lavar os dentes ou dormir. Hábitos. Há dois mil anos que se sabe que os Jogos — o circo — têm este potencial, daí serem um instrumento tão apelativo para os poderosos.
Conjuram um feitiço, criam uma bolha, fazem-se passar por nossos vizinhos. Mas não são hábitos, não são o normal.
Porque não é normal acordar e ter Jogos Olímpicos de inverno. O festim é quadrienal e, nestes que agora terminaram em Itália, assistimos a uma edição extraordinária de gelo e neve, com paisagens que nos reconciliam com a ideia desta cimeira de florestas, de bosques, de montanhas, de natureza, longe das imagens pós-apocalípticas de Pequim 2022, com fábricas abandonadas reinando no horizonte, centrais nucleares inutilizadas como pano de fundo de acrobacias e saltos de esqui.
Na verdade, a trilogia Euro 2024 na Alemanha, Jogos 2024 em Paris e Jogos 2026 em Milão-Cortina foi um ganhar fôlego, um respirar para recuperar de onde se vinha e ganhar forças para o que aí vem. Depois do infame trio de Rússia 2018-Pequim 2022-Catar 2022, que se assemelhou a uma guerra por descobrir o pior regime possível para ser anfitrião, os recentes Europeu de futebol e Jogos de verão e inverno suavizaram essa sensação.
Milão-Cortina, obviamente, não foi alheio à controvérsia e à discussão política porque os Jogos são política e política é controvérsia e discussão. Houve o caso do capacete ucraniano, JD Vance assobiado, a noção clara que um regresso da bandeira russa aos Jogos está próximos. Mas, produzindo o seu feito, a montanha italiana encantou-nos com os seus cenários de pequenas vilas alpinas, onde poderíamos imaginar uma Heidi cantando. Ganhou-se fôlego para o que se segue: o Mundial MAGA 2026.
Foram os Jogos de Johannes Høsflot Klæbo, o admirável homem das neves, rei de ouros; do golpe de teatro de Ilia Malinin, tão sobrehumano, tão humano; do reaparecer e morte dos fantasmas de Mikaela Shiffrin; do grito de dor de Lindsey Vonn; do skimo, a novidade, arte em que, além do físico, importa ser rápido na lida doméstica, como se estivessemos atrasados para o trabalho e tivéssemos de nos arranjar velozmente.
Aprendemos que o pénis pode criar casos na busca pela aerodinâmica; que no hóquei no gelo não vale tudo; que a patinagem continua a dar histórias extraordinárias; que há quem traia e decida confessar logo após vencer uma medalha; que é possível roubar uma colega e, meses depois, ganhar o ouro na mesma competição da lesada.
O medalheiro tem, novamente, a Noruega no topo. A tabela permite-nos comprovar que estes Jogos são, sejamos honestos, coisa de ricos: entre os 10 países com mais medalhas, todos estão no top 30 dos territórios com maior PIB per capita do planeta.
A Noruega brilhou, é certo, mas, como o New York Times especificou, há rankings para todos os gostos. A Alemanha reinou nas competições por equipas e em pistas a descer (com o bobsleigh e o luge), os EUA foram os mais fortes nas provas femininas, os Países Baixos dominaram quando se corria em pistas de gelo (olá, patinagem de velocidade). Entre os países cujos territórios ficam entre os 45º norte e os 45º sul de latitude, isto é, longe das zonas mais frias, os melhores foram a Coreia do Sul.
O desfile de glória teve os suspeitos do costume, a tradição e elitismo mantêm-se fortes nos Jogos de inverno, mas houve assomos de novidade. Espanha ganhou o primeiro ouro desde 1972, o Cazaquistão subiu ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez desde 1994, o Brasil e a Geórgia lograram inéditas medalhas.
E acabou. Adeus à rotina que não era rotina porque uma rotina não é rotina se dura duas semanas. Mas todos nos convencemos que era rotina porque é esse o feitiço envolvente do grande desporto.
Até 2030, quando todos voltarmos a acordar para o curling, seguir com o esqui alpino, dar um salto ao biatlo e terminar com a patinagem.

O que se passou
O infeliz caso da semana deu-se no Estádio da Luz: Vinícius acusou Prestianni de insultos racistas, proferidos logo após o golo do brasileiro no 1-0 do Real contra o Benfica. Cumpriu-se o protocolo? Que sanção poderá ter o brasileiro? As reações foram de Mourinho a Infantino, passando pelo governo brasileiro.
No campeonato, as águias bateram sem problemas o AFS, à mesma hora e pelo mesmo resultado do triunfo do Sporting em Moreira de Cónegos. No dia seguinte, o FC Porto respondeu e deixou tudo na mesma.
Lembram-se de quando o Rio Ave perdeu quase todos os seus golos no fim do mercado? O Estrela da Amadora ameaça ir para tribunal contestar a venda de André Luiz ao Olympiacos, clube também detido por Marinakis.
Antes do dérbi de Lisboa em futsal, a PSP deteve 124 adeptos na sequência de uma rixa. Toda a informação, pelo Hugo Franco.
Houve estreia para Miguel Oliveira no Mundial de Superbikes.
João Almeida foi terceiro na Volta ao Algarve, vencida por Ayuso e onde o fenómeno Seixas se estreou a ganhar em elites."

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