"Em 1953, quando Alfredo Di Stéfano foi desviado do Barcelona para o Real Madrid por uma decisão politica apresentada como salomónica mas que acabou, como tantas vezes em Espanha, por favorecer o clube da capital, o franquismo encontrou o seu porta estandarte perfeito contra o republicanismo democrático catalão: o maior clube de Espanha ao serviço da narrativa de uma pátria “una, grande y libre”.
O Real torna-se na montra europeia do regime, confundindo supremacia desportiva com a vocação imperial dos castelhanos sobre o resto da Península. Isso até esbarrar na final de 62 no campeão europeu em título, o Benfica de Eusébio, Mário Coluna, e Bela Guttman que viria a sagrar-se bicampeão europeu precisamente contra o gigante espanhol.
Qual paradoxo de luta de classes, o Sport Lisboa Benfica, clube fundado por um farmacêutico e outros pequeno burgueses numa freguesia periférica de Lisboa do início do século XX, representa precisamente o contrário dessa expectativa nobiliárquica de domínio protegido por um status quo vigente. É certo que é o clube de futebol mais titulado de Portugal, um grande campeão de um país periférico que nunca se confundiu com os grandes organismos que regulam o futebol mundial, mas que fez da bola um idioma próprio, falado em Lisboa, nas aldeias de todo o país e nas antigas colónias. Por seu turno, o Real (de) Madrid revê-se sem ponta de vergonha, numa ideia de centro imperial de poder dentro e fora das 4 linhas. Já o Benfica construiu-se como um clube popular, clube do povo, com lendas vindas de África, que trouxeram para a Luz a prova viva de que o talento não reconhece fronteiras nem hierarquias raciais.
Hoje, quando o maior clube de Portugal jogar contra o maior clube de Espanha, joga-se um choque de imaginários, que se materializaram ao longo da história em vitórias épicas, mas igualmente em enormes injustiças e manobras de bastidores, pelas quais "los blancos" ficaram famosos.
Mas faz algum sentido que a agressão "un puñetazo" de Valverde a Dahl tenha sido sumariamente arquivada, e que Prestianni seja suspenso preventivamente sem culpa provada!?!
Esta noite estará de um lado, o velho centro de poder castelhano, habituado a mandar em tudo e em todos, o clube dos mesmos que apresentam o mapa da península com o nome de España e sem as fronteiras com Portugal, e do outro, um gigante encarnado que cresceu a contrariar fatalismos geográficos, para lembrar que Lisboa também já foi uma capital do mundo, que nunca será uma província de ninguém e que o futebol pode ser, também, uma insurreição silenciosa contra os lobos brancos que se fazem passar por cordeiros e que não hesitam em fazer uso de todos os meios para atingir os seus fins.
Esta noite, contra o Real Madrid, e independente da nossa filiação clubística, temos todos a obrigação histórica ética e moral de apoiar o Sport Lisboa e Benfica!"

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