Últimas indefectivações
quinta-feira, 5 de julho de 2018
França B
"Porque amanhã joga a França, invocamos El Hadji Diouf, a estrela do Senegal que, no Mundial de 2002, foi… França B e já se perceberá porquê. Mesmo sem golos, Diouf foi, aos 21 anos, o mais destacado jogador da selecção no Coreia do Sul / Japão, ainda que bem acompanhado (entre outros) por Khalilou Fadiga, que não acusou o apelido a organizar o jogo dos Leões de Teranga.
Na sua primeira participação Mundial, o Senegal cruzou-se com a França de Zidane, o Uruguai de Forlán e a Dinamarca de Gronkjaer. Venceu o grupo, ultrapassou a Suécia e acordou do sonho nos quartos-de.final.
Antes do torneio, o presidente senegalês antecipou que os seus Leões jogariam pelo Senegal, por África e… pela França. Ideia reforçada por Diouf quando se referiu ao Senegal como… França B. Em 23 convocados, Diouf era um dos 21 que jogavam em França, o que permitiu uma particular conjugação: quando os titulares das duas selecções entraram em campo, o Senegal apresentava 11 jogadores a actuar no território francês, país onde… nenhum gaulês jogava!
O jogo de abertura tornou-se um França A contra França B. A jogar contra os campeões em título, esperava-se que do jogo francófono resultasse um estender de tapete do Senegal à antiga e poderosa metrópole. Pelo contrário: foram os bleus ao tapete numa derrota, por 1-0.
Diouf contribuiu decisivamente para a vitória ao assistir Papa Diop para o golo, festejado no campo também por Aliou Cissé, actual seleccionador senegalês. No jogo entre a metrópole e o seu antigo território, os gauleses levaram balde de fria água… de colónia!
Chegado ao torneio como o Futebolista Africano do Ano de 2001 (à frente de dupla Samuel: Kuffour e Eto’o), as suas exibições garantiram-lhe a renovação do prémio individual em 2002 (Papa Diop foi segundo) e a eleição para a equipa do Mundial. Se, em 1998, o Senegal ‘contribuiu’ com Patrick Vieira (nascido em Dakar) para o título francês, agora um gaulês colaborava para a maior vitória dos Leões de Teranga: Bruno Metsu, seleccionador… senegalês! França B? Há sempre mais do que aquilo que se vê!"
O meu samovar e o Mundial de Mr. Thomas Lipton
"Os ingleses são um povo muito particular e talvez por isso o bom Deus os tenha reunido a todos numa ilha.
Sochi - Há lá algo de mais russo do que chegar ao meu quarto e ligar o samovar para o chá da tarde? Claro que não é um daqueles samovares monumentais, do tempo do Miguel Strogoff, o correio do czar Alexandre II, enviado a Irkutsk, essa cidade à beira do Baical da qual recordo tardes encantadoras. Nem sequer um samovar como o que existia na nossa carruagem do Trans-siberiano, vigiado dia e noite por uma “pravadnika” com cara de esturjão cujo marido deve ter saltado pela janela na hora do casamento, como o Podkoliossin da peça de Nicolai Gogol.
É simples o meu samovar - a palavra é construída, samo (próprio) e varit (cozinhar) -, apenas um bulezinho com uma base que se liga à electricidade e aquece em segundos o Lipton em saquetas.
Ora, a verdade é que, neste caso, Mr. Thomas Johnstone Lipton, um escocês que foi camareiro de navio e adorava velejar, cai aqui tão a propósito como o grande Miguel Strogoff do imarcescível Verne, à mistura com a perseguição dos tártaros, Pigassof, Nadia e o diabo a quatro. Em 1909 já Mr. Lipton tinha uma fortuna colossal graças a uma ideia peregrina: vender chá a pacote para as classe mais baixas a preços suportáveis. Foi quando decidiu organizar, em Turim, um grande torneio internacional de futebol. O troféu para o vencedor tinha o pomposo nome de Crown of Italy World Cup. Ah! Um Campeonato do Mundo! “Tally-ho old chap!”
A pomposidade do nome caiu por terra em menos tempo do que a velha do Mário-Henrique Leiria comeu a nêspera que estava na cama deitada, muito calada, a ver o que acontecia. Ficou simplesmente Lipton Cup, nada de especialmente snobe. Mas Lipton tinha mais com que se preocupar.
Os ingleses são um povo muito particular e talvez por isso o bom Deus os tenha reunido a todos numa ilha. A Football Association não quis nem saber de Lipton, pacotes de chá e Turim incluídos: era o que faltava autorizar equipas britânicas a participar em palhaçadas circenses com gentalha que nem ao certo sabia para que servia uma bola.
Como bom escocês de Glasgow (no meu tempo da primária escrevíamos Glásgua), Lipton era teimoso como um muar. Foi a West Auckland, não longe de Middlesbrough, no condado de Durham, e convenceu uma equipa de mineiros que vegetava nos cafundéus da Northern Amateur League a participar no tal Campeonato do Mundo de Turim, juntamente com os alemães do Stuttgarter Sportfreund, os suíços do FC Winterthur e uma selecção de Turim formada por jogadores do Torino e da Juventus.
Não chegam até hoje ecos da qualidade flagrante dos bravos mineiros de West Auckland, mas sabe-se que bateram o Stuttgarter Sportfreund por 2-0, repetindo o resultado na final, frente ao Winterthur. E foram para casa convictos de que eram, na realidade, campeões do mundo. Convicção que se acentuou dois anos mais tarde, em nova Lipton Cup, dessa vez esmagando a Juventus no jogo decisivo por 6-1.
A Crown of Italy World Cup ficaria, de forma perpétua, nas vitrinas da sede do West Auckland Social Club, não se tivesse dado o caso de algum malandrim resolver levá-la para casa.
Nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima, nem o próprio Thomas Lipton, que não tardou a receber a Royal Victorian Order das mãos da autêntica Victoria Regina, na Capela Savoy, em Londres, por serviços prestados aos negócios a retalho do Britânico Império. Dedicou-se às regatas e desistiu do futebol. Participou cinco vezes na America’s Cup e nunca ganhou. Simpáticos, talvez condoídos, os seus colegas do Royal Ulster Yatch Club ofereceram-lhe um troféu misericordioso: “To the best of all loosers.” Enfim, uma espécie de melhor dos piores.
Não faço ideia se Sir Thomas Johnstone Lipton chegou a ser proprietário de algum samovar. Sei que, se fosse vivo, não lhe emprestava o meu. E dizia-lhe sem grande tartufice que este cházito Lipton não é lá das tais coisas..."
E a tristeza ficava a sul
"De repente, ensinaram-me essa verdade cruel que eu preferia não ter aprendido: cortam-se as pontas das asas aos pássaros para que eles não consigam mais voar.
Sochi - Enquanto a noite cresce vou observando os pássaros. Dizem que esta era uma cidade de pássaros, continuamente migratórios, mas que o betão dos edifícios dos Jogos Olímpicos de Inverno os empurraram para céus que aqui não moram.
Há muitos anos, não sabia que se podia cortar o voo aos pássaros aparando-lhes as asas nas pontas. Há muitos anos, em Águeda, os rouxinóis cantavam de noite no jardim, perdidos por entre as folhas das ameixieiras, e eu ficava absorto na tranquilidade das estrelas, debruçado numa varanda virada a sul. Há muitos, muitos anos, era a sul que ficava a tristeza: era a sul que ficavas tu.
Há mais anos ainda aprendíamos na escola uma canção de pássaros: “Sabiá na gaiola/ Fez um buraquinho/ Voou, voou, voou, voou...”
Aprendíamos com ela a voar também, cada um batendo as suas asas por dentro.
Hoje estou aqui, analisando pardais: o fascínio dos pássaros.
Há muitos anos, eu tinha a certeza: raramente fazemos alguma coisa com a consciência de que é a última vez que a fazemos. Janelas fechadas, perras, resistentes, tão difíceis de abrir. Janelas para lá das quais voam os pássaros: “Sabiá no poleiro/ Foi cantar ao carapeteiro...”
Uma mosca patina com força na vidraça e o céu ganha tons demasiado turvos.
De repente, ensinaram-me essa verdade cruel que eu preferia não ter aprendido: cortam-se as pontas das asas aos pássaros para que eles não consigam mais voar.
A noite, a pouco e pouco. Estou cá no alto, debruçado numa varanda em horizontes de Cáucaso. Um homem de barba grossa enrosca-se em folhas de jornais velhos numa submissão triste de sonos por dormir. A escuridão em redor ignora-lhe a miséria enquanto a polícia não chega e o pombo procura, desajeitado, a protecção confortável dos zimbros. De súbito, como se acordasse de um pesadelo bruto, ergue os braços, aflito, a proteger o rosto de um bando de pássaros invisíveis e de asas por cortar."
Franz Beckenbauere o joelho de Pavarotti
"Sochi - Mais de 30 anos a viajar por Portugal e pelo mundo atrás daquela a que o eterno Torga poderia ter chamado a mágica senhora das paixões, a bola, fez-me cruzar, conhecer e fomentar amizades com os grandes do futebol de todas as gerações, dos meus queridos Eusébio, António Simões e José Augusto a Ronaldo, que será sempre para mim um menino, do senhor Coluna a Pelé e a Bobby Charlton, passando por Platini, Tostão, Cruyff, Di Stéfano, Just Fontaine, Rinnus Michels e um nunca mais acabar de nomes aos quais junto, com um carinho infinito, todos aqueles com quem vivi, na selecção nacional, o Europeu de 2004 e o Mundial de 2006, os dois anos mais competitivos da história daquela que Ricardo Ornellas apelidou de equipa-de-todos-nós.
Mas ia-me perdendo. Vinha para falar de Beckenbauer, Franz, o Kaiser (sem aquele bigode apepinado de Guilherme II), e é dele que vou falar.
Era Janeiro, fazia um frio de rachar, parecia que o mundo inteiro se tinha unido para me tramar, como canta outro benquisto amigo, Rui Veloso, e eu estava em Munique, ruas pejadas de neve.
Um céu sem pássaros.
Ia encontrar-me com Beckenbauer, na altura presidente do Bayern de Munique. Christina Neumann, a responsável pela comunicação do clube, fez questão que, antes da entrevista marcada com Franz, que viajaria a meu lado, no dia seguinte, no avião para Lisboa, víssemos o reinício do campeonato alemão, finalizada que estava a pausa de inverno.
Estádio Olímpico: Bayern de Munique-Hamburgo.
Aos 11 segundos, o brasileiro Élber marcou o golo mais rápido da Bundesliga.
Em cheio!
Beckenbauer sorria um sorriso de anfitrião.
Lá está, seráfico como Beckenbauer…
Franz Anton Beckenbauer tem aquele ar severo de cavalheiro prussiano mas é, como se costuma dizer, um rapaz da porta ao lado. Tranquilo, calado, sem peneiras.
Quase ia a escrever: sem peneiras como aqueles que não precisam delas para acrescentar centímetros ao seu tamanho.
Eu tinha lido o livro de Beckenbauer. Convenci-me, sei lá por que raio de ideia súbita que me brotou dos interstícios do encéfalo, de que seria um bom tema de conversa. Ele amofinou-se. Não comigo, mas com o livro: “Foi um verdadeiro sacrifício. Que ideia tão estúpida. Não tenho o mínimo jeito para algo do género. Nem sei porque resolvi aceitar o projecto da editora.”
Que eu saiba, não chegou a ser traduzido para português: chamava-se qualquer coisa como “Eu Conto Como Foi”, numa liberalíssima versão absolutamente minha. Aliás, convenhamos que a expressão liberalíssimo encaixa perfeitamente em Beckenbauer. Diziam que era um líbero, mas na verdade era, de facto, um liberalíssimo.
Franzi, como alguns dos amigos lhe chamam, contou-me: “Pressionaram-me bastante para publicar histórias que fui acumulando ao longo da minha carreira, episódios que reparti com gente das mais diversas áreas, desde a política às artes. Por exemplo, quando joguei no Cosmos, com Pelé, cada vez que entrava no balneário ficava com a sensação de que estava em Hollywood.”
E, em seguida, falou de Pavarotti, Luciano Pavarotti: “Conheci-o pessoalmente no Metropolitan de Nova Iorque. Um tipo extraordinário! Grande apreciador de futebol. Veio ter comigo, dobrou um joelho até tocar o chão e exclamou: ‘Maestro!’ Claro que aquilo confundiu um bocado os americanos presentes, que percebiam pouco ou nada de futebol e nem sabiam quem eu era.”
Pavarotti e Freni na “Bohème”: nada pode estar mais perto da perfeição.
Os joelhos de Beckenbauer e de Pavarotti nunca lhes terão dado problemas por aí além, segundo sei. Já os corações, alvoroçados, levaram ambos às mesas de operações. Um falava pouco, o outro cantava tanto, tanto. Estremecia com a voz o arcaboiço de um homem. E foram ambos estrelas. Pavarotti, tanto na terra como no céu."
Venham mais dez
"Quando alguma coisa corre mal, o romântico saca sempre da sua explicação preferida: “falta-nos um dez”. O lateral não sobe? Falta-nos um dez. O lateral sobe mas não sabe cruzar? Falta-nos um dez.
Os românticos da bola têm as suas obsessões às quais regressam mesmo quando não querem, por isso são obsessões e não outras formas mais serenas de admiração. De todas elas, nenhuma é tão compulsiva como a do número 10. Para estes românticos (vá, para os que acumulem romantismo com benfiquismo), o futebol morreu há dez anos, no dia em que Rui Costa pendurou as chuteiras e desapareceu nos gabinetes da SAD. Quando alguma coisa corre mal, no clube ou na selecção, o romântico saca sempre da sua explicação preferida: “falta-nos um dez”. O lateral não sobe? Falta-nos um dez. O lateral sobe mas não sabe cruzar? Falta-nos um dez. O ponta-de-lança tem dois tijolos em vez de pés? Falta-nos um dez. Falta-nos um seis? Falta-nos um dez.
E que dez é esse? Pelé? Maradona? Platini? Roberto Baggio? Enzo Francescoli? Zico? Zinedine Zidane? Ronaldinho Gaúcho? Valdo Cândido Filho? Deco? Talvez o Pelé de 1970, naquele estilo mais lento, pré-Cosmos. Talvez o Zidane de 2006, a puxar todos os cordelinhos do jogo, mestre-titereiro incomparável. Sim, e sempre com as feições vagas de um Rui Costa. Eu, que também sou desses românticos, é assim que o imagino no meu ideal platónico, arquetípico: um príncipe rodeado de operários, um aristocrata entre bárbaros. A analogia é inigualitária, bem sei, mas a distribuição do talento também o é, e contra isso de pouco valem os protestos. A única maneira de gerar mais igualdade é pôr os príncipes a carregar o piano. Só não se espere que eles, depois do esforço, toquem como Glenn Gould.
No futebol europeu é isso que tem acontecido. Já nenhuma equipa com ambições sérias se pode dar ao luxo de ter um número dez como os românticos o imaginam. Hoje, o dez tem de partir pedra e tocar bombo como os outros. Depois, se tiver tempo e forças, pede-se-lhe magia. E ele oferece magia suada, magia como se fosse mais uma tarefa, magia cansada. Os “dez” continuam por aí, às vezes disfarçados de “oito”, às vezes descaídos para a ala, às vezes como segundos pontas-de-lança. A fechar espaços, a pressionar, obrigatoriamente solidários.
Modric e Coutinho, Banega e Isco, Herrera, Bernardo Silva e Bruno Fernandes são todos “dez” destacados para outras áreas menos nobres, inclusivamente o banco. Mas nenhuma seleção tem dois “dez” que se aproximem tanto do “dez” ideal como a Colômbia. Enquanto os românticos e nostálgicos se queixam da falta de “dez”, a Colômbia tem-no em duplicado, um dez e um vinte. James e Quintero são a luz a brilhar no exterior da caverna. Agradeça-se a Pekerman não ter optado pela solução fácil de sacrificar um dos dois após o primeiro jogo. Coçou a cabeça e arranjou maneira de os conciliar em campo. Ontem, porém, a lesão de James Rodríguez voltou a deixá-lo de fora. Ficou ele a sofrer nas bancadas e a equipa a sofrer em campo. Há várias diferenças entre James e Quintero. O jogador do Bayern não só tem mais golo como o seu estilo é mais dominador: a equipa parece-se sempre com ele. Contra a Inglaterra, Quintero mostrou que não é capaz de fazer o mesmo. O jogo desenvolveu-se à margem dele, afastando-se das avenidas que um “dez” sempre consegue abrir, encurralando-se em brigas de becos, em rixas de rua.
Talvez o problema de Quintero tenha sido mais de autoridade do que de intensidade, embora esta última o vá perseguir para sempre, como a muitos “dez” que dão a impressão de correr menos do que deviam. A Quintero apontam-se-lhe dois pecados para não ter triunfado na Europa: a falta de compromisso defensivo e o excesso de peso. São duas faces da mesma moeda. Não defende porque é gordo, é gordo porque não corre. É verdade que o jogo de Quintero se define pelo que faz com a bola e não pelo que corre sem ela, mas ele próprio tratou de rebater a acusação: “Não sou gordo, sou ‘nalgón’”, expressão que não só dispensa tradução como recomenda que se mantenha assim no original. Pois bem, com um “dez” esguio, principesco, e um vinte “nalgón”, mais para Sancho do que para Cavaleiro da Triste Figura, a Colômbia era o último reduto, o reduto possível, dos românticos, dos quixotescos, dos que ainda sonham com um “dez” perfeito que, como os gigantes que o outro via, já só existe na imaginação. A Colômbia caiu. Viva a Colômbia!"
90 minutos, com sorte…
"Cavani, avançado uruguaio que atirou Portugal para fora do Mundial, escreveu uma carta a Edinson. O primeiro tem 31 anos, o segundo tem nove. Mas são a mesma pessoa. Vale a pena ler o texto na íntegra (na publicação online "The Players Tribune"). E uma passagem em particular. Diz a estrela de futebol, agora habituado a uma vida de luxo em Paris, ao menino pobre de Montevideu que foi, e a quem faltava quase tudo (que não a bola e o sonho): "Quando és uma criança, tens a sensação de que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem mais coisas. Quando cresces, percebes que a pessoa mais bem-sucedida é aquela que tem a sabedoria de viver a vida. Quando conseguires ser bem-sucedido no futebol, terás tudo aquilo com que podes sonhar. E terás de ser extremamente grato por isso. Mas tenho que ser honesto contigo. Existe apenas um lugar onde podes ter liberdade total. Dura 90 minutos, se tiveres sorte!". O tempo de um jogo. O melhor do futebol. Por oposição ao que tem de pior, que é quase tudo o resto. No futebol português, os últimos meses (como os que estão para vir), são exemplares. Da vulgaridade, da falta de princípios, da violência, da demência. E do crime fiscal, como se lê no mais recente relatório de combate à fraude e evasão fiscal. São pelo menos 90 processos instaurados pela Autoridade Tributária e Aduaneira relacionados com a contratação e transferência de jogadores. Não vale a pena ter ilusões. Mesmo um grande futebolista pode ser um mau cidadão. Veja-se Ronaldo, exemplar dentro do campo, condenado a pena de prisão fora dele. Voltemos à carta que Cavani escreveu a Edinson: "Em muitos aspectos, vives um sonho. Em muito outros, és prisioneiro desse sonho. Não podes sair e sentir o sol. Não podes tirar as chuteiras e jogar na terra. Acontecerão coisas que vão complicar a tua vida. É inevitável". Sobram os 90 minutos. Com sorte..."
Seleção: vá, olhemos para o copo meio... cheio
"Eliminação nos oitavos de final frente ao Uruguai soube a pouco.
Antes de o Campeonato do Mundo começar, o objectivo mínimo para a Selecção seria chegar aos quartos de final.
Com o decorrer do torneio e perante a perspectiva de a equipa, mais uma vez, cair no lado bom do calendário, talvez até tivesse sido possível ter chegado mais além. A oportunidade perdeu-se com o penálti assinalado a Cédric nos descontos, frente ao Irão.
O conjunto de Fernando Santos regressou a casa, e não foram poucos os adeptos que lhe manifestaram apoio. Apesar da eliminação frente ao Uruguai, a empatia entre o povo português e os jogadores campeões da Europa permanece. Não aconteceu nada no Mundial que a tivesse afectado, ou de certa maneira corrompido. Do ponto de vista do adepto, não será improvável que essa ligação emocional tenha saído até reforçada.
Portugal não envergonhou, e é por isso!
Venceu um jogo, empatou dois, um deles com a Espanha, e lutou até ao fim para a evitar a derrota frente ao Uruguai. A boa segunda parte com a Celeste Olímpica é a última imagem com que todos ficamos, e não é, de todo, uma das más. Entrega, suor, coesão, espírito de grupo, uma equipa unida à volta do seu técnico, isso tudo foi identificável na Rússia.
De um ponto de vista mais crítico, chega-se à conclusão de que Portugal não teria, provavelmente, futebol para mais.
A um posicionamento muito defensivo, somou-se um futebol desligado, desapoiado, demasiado à procura da explosão dos homens mais adiantados. Com alguns elementos em mau momento, casos de Raphaël Guerreiro, João Mário e Gonçalo Guedes, e com outros demasiado presos à linha, como esteve Bernardo Silva, a Selecção Nacional foi muitas vezes inconsequente, sem capacidade de chegar à área contrária e finalizar.
Não se trata apenas do posicionamento conservador. A Selecção não soube construir-se a partir de linhas tão baixas, e teve o seu melhor período em toda a competição no momento em que Bernardo Silva pisou terrenos interiores. Portugal não jogou mal porque foi defensivo, mas sim pelos momentos em que tinha de deixar de sê-lo.
Porque nem tudo foi mau olhemos para o copo meio-cheio.
A próxima Liga das Nações da UEFA encerrará mais desafios para uma Selecção que já tem parte dos seus titulares com mais de 30 anos: Pepe (35), Fonte (34), Moutinho (31), Manuel Fernandes (32) e Bruno Alves (36). O eixo defensivo é um problema e Rúben Dias terá rapidamente de começar a contar, da mesma forma que se esperam sinais de crescimento vindos do Seixal, Alcochete e Olival.
Depois, há outros jogadores já preparados para assumir o desafio, como Bruno Fernandes, que até terá jogado de menos nesta fase final.
Se no que diz respeito às opções mais virão a caminho, na filosofia é preciso crescer para lá da fórmula-Euro. Dificilmente, um raio cai duas vezes no mesmo sítio. Caberá a Fernando Santos pensar fora da caixa, da sua."
quarta-feira, 4 de julho de 2018
De volta à vida e o fim da festança política
"Nestas grandes equipas nota-se o relativo desinteresse por estas competições (...)
1. Começámos o Mundial como acabámos, ainda que, com resultados diferentes. Foram os melhores jogos da nossa selecção, com a particularidade da decisiva importância de um jogador mais do que de um colectivo. No jogo inaugural o resultado foi Espanha 3, Ronaldo 3. No jogo que ditou a nossa eliminação foi Portugal 1, Cavani 2. Acontece que ganha quem é mais eficiente e, neste aspecto, os uruguaios foram letais. Portugal precisava de dez ou mais toques e passes para rondar a baliza contrária, o Uruguai chegava lá em dois ou três passes. Foi assim no primeiro golo, dois toques no nosso meio-campo, Cavani-Suárez e Suárez-Cavani e três toques no estupendo e esteticamente perfeito segundo golo do uruguaio.
Estas primeiras quatro rondas tiveram um desfecho improvável: a eliminação do campeão e vice-campeão mundial, bem como do campeão europeu e da Espanha, ex-campeão do mundial e europeia. Ao mesmo tempo saem os dois melhores jogadores do planeta. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, únicos 'Bola de Ouro' nos últimos 10 anos. Provavelmente estamos no momento em que a obsessão da escolha entre eles, por vezes patética e estimulada mediaticamente, começará a dar lugar a outros jogadores mais jovens. Destas quatro selecções agora eliminadas, Portugal foi a que mais fez por isso não acontecer, ainda que jogando apenas medianamente. A Alemanha foi uma equipa triste, cansada, enfadonha que, no último jogo contra os coreanos, parecia estar a fazer um grande frete e a querer ir rapidamente para férias. Não me recordo de alguma vez ter visto a mannschaft tão abúlica e a renunciar a todo o seu brilhante passado. Nestas grandes equipas nota-se o relativo desinteresse por estas competições no fim de épocas desgastantes e com muito menor retorno financeiro que é a bitola dominante no futebol contemporâneo. A Argentina que ainda está para perceber como chegou aos oitavos de final foi de uma mediocridade a toda a prova. O que se poderia esperar de uma equipa treinada por um tal Sampaoli que mais parece um halterofilista falhado, com tatuagens em todo o corpo e um ar de burgesso futebolístico das pampas? Aliás, a Argentina tem uma federação de futebol que, de ora em vez, escolhe uns artistas para seleccionador, como antes já fora com esse magistral jogador Diego Maradona, mas que como treinador foi a imagem folclórica da degradação e da irresponsabilidade. Absolutamente inconcebível como o actual treinador não aproveitou o prodigioso Dybala e quase não utilizou Aguero e Higuain! A Espanha foi desesperante na frouxidão com que jogou contra uma medíocre Rússia e o incomparável Iniesta merecia bem mais na sua despedida...
2. Portugal não jogou bem, salvo nas excepções atrás referidas. No entanto, viu-se que os jogadores estiveram sempre com muita vontade e sentido profissional. De um modo esquemático, Portugal foi quase apenas Ronaldo + Rui Patrício + Pepe. Podemos juntar a este trio mais influente, Bernardo Silva, um bom jogador que não engana e Quaresma que, como regra, oscila o soberbo com o decepcionante. O resto foi demasiado mediano, com os laterais defensivos a deixar muito a desejar. Por isso, ainda me custa a perceber que Nélson Semedo não tenha sido convocado. Também acho de grande injustiça a não convocação de Éder, o herói da final de Paris. Além de ter feito uma boa época na própria Rússia, merecia esse prémio e o fetiche do golo da final europeia, até porque o escolhido André Silva, uma invenção mediática que muito rendeu ao FCP e que teve uma fraca época em Itália, lhe é inferior e nunca justificou, até ver, a escolha para ponta-de-lança, lugar onde há um evidente défice de talentos.
Portugal acabou, assim, por perder depois de uma notável série de 12 jogos sem derrotas nas fases finais de campeonatos mundiais e europeus. No entanto, não nos iludamos excessivamente. No Europeu 2016 e neste Mundial, nos 90 minutos de jogo e num total de 10 jogos antes do Uruguai, empatámos 8 vezes quase sempre com selecções inferiores (Áustria, Hungria, Islândia, Polónia, Croácia, Irão), para além da França e Espanha, e só ganhámos a Gales e Marrocos. Valeu-nos Ronaldo e... Éder!
Portugal está fora da competição, o que é frustrante para os nossos sonhos. Patriotismo à parte, apenas salientaria uma consequência positiva deste facto. O país vai voltar ao real, os media vão deixar de estar capturados por tudo e o seu contrário a propósito da bola, as televisões deixaram de ter matéria-prima para horas e horas sem fim, sobre o antes e o depois das partidas, acabaram as doses cavalares de patriotismo bacoco, de excitantes entrevistas no Terreiro do Paço e outras paragens e de historietas mais ou menos tontas que nos foram enviadas numa enxurrada inconsequente. Era o pequeno-almoço dos craques, o penteado do fulano ou beltrano (houve até uma reportagem numa barbearia por terem aumentado os «cortes à jogador da selecção»!), era a entrada ou saída excitante no autocarro, eram as insónias de alguém, era a qualidade do bife que os jogadores comiam ou a bavaroise a que aspiravam para o jantar, etc., etc.
A festança política do vaivém, em forma de carrossel entre o Estado-futebol e o futebol de estádio, dos mais altos dignitários da República Portuguesa, do ora agora vai tu, ora agora vai ele, ora agora vou eu, terminou. Nesse aspecto, o Presidente da República ganhou ao Primeiro-Ministro - a quem lhe telefonava antes dos jogos para dar sorte (?) - e ao presidente da Assembleia da República por 2 presenças contra uma. Nessas duas presenças, Marcelo Rebelo de Sousa, falou na flash interview, com um biombo por trás cheio de publicidades patrocinadas, o que, lamento dizer, não me parece adequado ao mais alto magistrado da Nação. Ah, e o ministro da Educação, pois claro, também andou por aquelas bandas da Federação Russa, não para tratar da séria questão das escolas e dos professores, mas para dar a táctica de como, por via do futebol de selecção, se pode procrastinar a resolução dos problemas que tem no seu gabinete ministerial. Acabou, assim, esta via verde de populimo-futebol, em que eram só sorrisos, afectos e optimismos a rodos e compita para ver quem mais endeusava os rapazes da selecção. Literalmente foi tudo entre xutos e pontapés. No Rock in Rio, com a copiosa chuva a proporcionar um ambiente etéreo, lá estava o trio de Estado (e de Estádio) tão amigo a cantar e dança-rolar, num acto de homenagem que - sem por em causa o talento do nosso compatriota falecido em Novembro - jamais vi para outros e bem ilustres portugueses. Um exagero acasalado com a exageração de trazer o futebol para o acervo político.
Contraluz
- Exemplar: Bem bonito e exemplar o gesto de Ronaldo amparando Cavani no seguimento da lesão do uruguaio. O futebol também se faz destes momentos que simbolizam valores inalienáveis do desporto.
- Saboroso: As crónicas de Gonçalo Guimarães em A Bola sugestivamente intituladas 'Salada Russa'. Deliciosos textos escritos com notável sentido de humor e um apurado sentido de observação da sociedade russa e de detalhes de atribulações saborosamente descritas.
- Melhor (I): O quarto golo da França contra a Argentina.
Para mim e até agora o melhor do Mundial, enquanto expressão de uma jogada eminentemente de equipa e finalizada pelo mais sério candidato a melhor jogador do torneio, o ainda menino Mbappé.
- Melhor (II): O Bélgica - Japão, até agora o quase único de futebol puro. Emocionante, rápido, com duas equipas a querer vencer, sem fitas e jogo de relógio. Confesso que tive pena de ver o Japão a perder no última jogada.
- Desrespeito: A FIFA acha bem cortar o hino do Brasil, só porque excede o tempo por ela considerado razoável. Ainda bem que jogadores e público o continuam a cantar até ao fim. Ponho-me a pensar se seria desde modo tão desrespeitoso que cortariam, por exemplo, o hino da Rússia ou de França...
- A bel-prazer: com o penálti assinalado contra a Espanha por mão de Piqué que estava completamente de costas, percebi finalmente que essa coisa antiga de 'mão na bola' é agora uma treta, ao sabor da conveniência e quem sabe de... Putin.
- Formidável: Grande final de Futsal.
Depois de termos sido este ano campeões europeus nesta modalidade, os dois eternos rivais defrontaram-se em 5 jogos, decididos in extremis na felicidade ou infelicidade dos penáltis. Ganhou o Sporting, como poderia ter ganho o Benfica. Aliás, no conjunto dos 5 jogos (com dois empates antes das penalidades) o Benfica venceu em golos 24-21. Ganhou também a modalidade e foi bom ver o desportivismo entre as duas equipas, o que é sempre de enaltecer.
- Categórico: Benfica campeão de futebol em Juvenis, como já o havia sido em Juniores, em ambos os casos sem margem para dúvidas. É o resultado de uma política de formação consequente e estável."
Bagão Félix, in A Bola
Sabe quem é? Ameaçado de morte - Alex Witsel
"Por causa do drama de Wasilewski teve polícia à porta (e não só); O Benfica, os milhões da China e os aviões
1. Filho de um imigrante de Martinica, nas Caraíbas, nasceu no Valónia a 12 de Janeiro de 1989. Aos quatro anos já andava no RRC, clube de Vottem, cidadezinha onde vivia. A escola fê-la em Herstal, com compincha também bom de bola, o Medhi Carcela.
2. Do RRC Votten, saltou para o RCS Vise. Uma vez, ao passar, pela mão do pai, à beira do Stade de Sclessin, disse-lhe, empolgado: «O que mais quero na vida é jogar ali dentro». O destino não tardou a fazer-lhe a vontade: acabara de fazer 10 anos quando o clube que já jogava o chamou para a sua equipa de infantis.
3. Como o pai era de Martinica tinha passaporte francês - pensou-se que o seu futuro talvez fosse ele jogar pela França. Zidane era o seu ídolo, também adorava Anelka.
4. Aos 16 anos, o Sandard deu-lhe o primeiro contrato profissional. Real, Arsenal e Feyenoord tinham pensado contratá-lo, ele achou que era cedo de mais para o salto. Preud'Homme abriu-lhe caminho para a equipa principal, foi campeão. Os golos que marcava, festejava-os à Anelka, a simular o voo de um colibri. Gerets pediu que lho pusessem no plantel do Marselha - o dinheiro pedido pelo passe, afastou-o de lá. E pelo caminho se soube que Manchester United, Manchester City, Inter, Arsenal e Chelsea o tentaram também, igualmente em vão.
5. Preud'Homme deixou Liège - e para o seu lugar foi Lazlo Boloni. O Everton foi lá buscar Fellaini - e, ele, que em 2008 ganhara a Bola de Ouro para Melhor Jogador Belga, foi ainda mais estrela do que já tinha. A Tifo Boys, claque do clube, começou a falar das Lendas de Scessin, uma das lendas era Defour, a outra era ele...
6. DJ continuou a ser com o hobby. O Standard de Boloni e Rolão Preto, em que também jogavam Mangala e Carcela, foi eliminado da Liga Europa 2008/2009 pela SC Braga de Jorge Jesus - e no campeonato desse ano, que o Standard voltou a ganhar, saiu-lhe um drama dos pés.
7. O drama que lhe saiu dos pés foi conta Anderlecht - ao entrar, com rispidez, a lance com Wasilewski fracturou-lhe tíbia e perónio. O incidente provocou escaramuças dentro e fora de campo, - e ao longo da viagem de Bruxelas para Liège o autocarro do Standard teve de ser escoltado por 20 carros de polícia. Não foi só: apesar das desculpas pedidas a Wasilewski, da visita que lhe fez ao hospital, recebeu ameaças de morte - de adeptos do Anderlecht e de fanáticos polacos. A polícia teve de lhe pôr guarda à porta de casa durante semanas. Para prestar declarações em inquérito aberto pela federação, 20 gendarmes foram destacados para lhe fazer guarda. Começaram por aplicar-lhe castigo de 11 jogos e multa de 2500 euros, acabaram por comutar-lhe a pena para 8 jogos, considerando que ele sempre afirmara (sem disfarçar emoção a retorcê-lo): que o que sucedeu a Wasilewski fora infeliz causalidade.
8. Em Julho de 2011 o Benfica deu por ele 8 milhões de euros. Na selecção era o que Marc Wilmots dissera: «O meu professor dentro do campo». E ao chegar à Luz, António Simões, o magriço, puxou mais lustro ao elogio: «Faz-me lembrar Jaime Graça que era o tipo de jogador que hoje se diz que é moderno: um médio que atacava e defendia e que nos últimos 20 anos foi desaparecendo». Por ser mesmo assim não fez do Benfica campeão, mas encheu-lhe os cofres - um ano depois foi vendido ao Zenit por 40 milhões de euros.
9. Deixou a Juventus de beiço caído, mas quando todos esperavam que para lá fosse, preferiu o Tianjin Quanjin de Fábio Cannavaro - colhendo só em salários 16 milhões de euros por ano. (A Juve ofereceura-lhe 4,5 milhões, 3 milhões era o que o Zenit lhe pagava). Correu a investir na compra de parte da LindSky, empresa de aviação: «Tenho intenção de a gerir, quando largar o futebol. Já estou a estudar para piloto - e seu piloto quero ser também».
10. Já na Rússia recordou a Luz no seu caminho: «Evolui muito graças ao Benfica, foi importante para chegar onde cheguei». E aventou adeus ao Quanjin: «A liga chinesa não é tão competitiva como na Europa.Tenho de fazer exercícios extra, após os treinos, para compensar a falta de intensidade. Sim, é possível que saia já de lá, tudo depende do que acontecer neste Mundial»."
António Simões, in A Bola
Inacreditável
"1. No dia em que Neymar conseguir ter mais tempo útil de pé, ao invés de o desperdiçar a rebolar-se no relvado, terá todas as condições para destronar Ronaldo e Messi.
2. No espaço de sete dias apenas, o Sporting conseguiu matar e ressuscitar Bruno de Carvalho. Se o primeiro acto foi longo e penoso, o segundo foi rápido e limpo, bastou contratar José Peseiro. Inacreditável. Haverá clube historicamente mais talhado para comer sopa com garfo e bife com colher?
3. «Não tenho medo», disse o novo treinador dos leões. Pois não, caro José Peseiro, mas o mesmo não se pode dizer dos sportinguistas.
4. Pior gestão só mesmo a de Sampaoli na selecção argentina: conseguiu deixar Icardi fora do Mundial e Higuain, Aguero e Dybala no banco no jogo dos quartos de final com a França. Não há Maradona que resista.
5. Se olharmos para as equipas ainda em prova no Mundial da Rússia, podemos perfeitamente confundir com um Mundialito de Futebol de Praia.
6. «Reparei que tenho um registo (de velocidade) próximo de Ronaldo, Bale, Messi e Aubameyang», disse João Amaral numa entrevista, pouco depois de assinar pelo Benfica. Tem tudo, portanto, para ser o novo Candeias ou Salvador Agra das águias.
7. Ou muito me engano ou a passagem de Jorge Jesus pela Arábia Saudita vai dar umas boas conferências de imprensa para o YouTube. É como colocar uma sombrinha de cocktail num copo de whisky.
8. Chateia-me ver recém-nascidos a deixarem o berço antes do tempo, muitas vezes com maus resultados porque o futebol também tem os seus estágios de Piaget. Dalot foi amamentado no FC Porto mas decidiu ir arrotar ao Man. United.
9. A relação com César Boaventura tem sido uma péssima aventura para o Benfica. Mais uma."
Gonçalo Guimarães, in A Bola
PS: Mal qual relação do Boaventura com o Benfica? A forma fácil como se propaga mitos falsos, é realmente extraordinária!!!
A feira das vaidades
"Por um instante, acalentei a esperança de que, no seguimento da admirável votação de 23 de Junho, haveria a consciencialização colectiva de que o Sporting precisava radicalmente de mudar de vida.
Parece elementar a constatação que, face às divisões alimentadas e induzidas no seio dos sportinguistas (já não falo de família sportinguista, porque entendo que Bruno de Carvalho desacreditou esse conceito), se impunha privilegiar determinadas prioridades, no ato eleitoral próximo.
Trocando por miúdos: quem vier a mandar no clube, deve ter um mandato claro dos sócios, traduzido numa votação expressiva. Ou seja, é mais do que desejável que a lista vencedora seja legitimada por mais de 50 por cento dos votos.
O actual e lastimável sistema eleitoral do clube permite que ganhe a lista apenas mais votada, o que pode significar que, em caso de multiplicação de candidatos e fragmentação consequente de votos, se ganhe com percentagens inferiores.
O mesmo é dizer que se pode ganhar, mesmo tendo uma maioria de votos contra. Já aconteceu, como sabemos.
De modo que não sei mesmo o que mais me indigna. Se o desajeitado perdoa-me do presidente destituído, que outro fito não tem que não seja branquear-se, para o deixarem participar nas eleições; se a passarela dos protocandidatos que todos os dias emergem na comunicação social, esticando-se o mais possível, para os seus cinco minutos de glória.
O Manuel João Vieira, dos Ena Pá 2000, quando se candidatava às eleições presidenciais, ao menos tinha graça; estes Vieiras (sem desprimor) do Sporting nem isso.
Com uma agravante: há gente que no Sporting já foi tudo e o seu contrário; mesmo assim, continua a alimentar fumos de candidatura, em puros exercícios de taticismo eleitoral, para não perder outros comboios. Sabem bem do que estou a falar.
Da mesma forma, não passa despercebida a rapidez com que o brunismo arrependido se reciclou e se posicionou.
Confesso que não me entusiasma particularmente o que me é dado ver. Não são as pessoas, é claro, todas estimáveis sportinguistas. É a mentalidade.
A transversalidade, a credibilidade, a solidez financeira, a competência, a equipa, a transparência, o desapego, a solidariedade geracional, a inclusão, a tolerância, o fair play, a esperança e sobretudo a coesão (não gosto da palavra unidade, que está estragada pela política), são estes os valores que nos devem reger no futuro.
Assim consigamos, a bem do Sporting. Afinal, não somos todos uns incorrigíveis optimistas?"
Correr e corromper: vícios do desporto rei
"Se, no plano da Administração Pública, a corrupção sobrepõe os interesses privados ao interesse público, na corrupção do desporto acresce a corrosão do puro prazer desportivo.
Por alturas de efervescência colectiva, estimulada pelo Campeonato Mundial de Futebol FIFA de 2018, que decorre por terras russas, adequado parece voltar ao tema dos fenómenos corruptivos, neste planeta vizinho que é o futebol.
Relembrar-se-á porventura o leitor, dos escândalos em que a organização deste evento, esteve envolvida, desde que em dezembro de 2010 a Rússia, por meios ainda ensombrados quanto à justiça, preteriu o Qatar e surge eleita para acolher o Mundial.
Este fenómeno de massas, como vulgarmente é designado, evoluiu, nas palavras de Álvaro Magalhães expressas num livro editado pela Assírio & Alvim em 2004, da “Idade do Prazer”, que corresponde à difusão internacional do jogo, passando pela “Idade da Razão”, que consistiu nas profissionalizações dos jogadores, até atingir aquela que é hoje a “Idade da Maturidade”, caracterizada pela inovadora textura empresarial das equipas de futebol.
Ao longo dos últimos anos, tem-se verificado um aumento exponencial da importância do futebol no produto interno bruto (PIB) dos países. Estima-se, aliás, que o futebol corresponde à sétima economia do mundo, constituindo cerca de 0,4% a 1% do PIB planetário. Em Portugal, este desporto contribui com 456 milhões de euros para o PIB e gera mais de 2 mil postos de trabalhos, considerando apenas os impactos directos da Liga Portugal e das Sociedades Desportivas que participam nas suas competições.
Este relvado onde aceleram e escorregam milhões floresce propício à acção criminosa. Impelidos por uma crescente moral de êxito, que consiste na constatação dos baixos custos que estas práticas criminosas importam, em causa se colocam os valores associados à prática desportiva. Se, no plano da Administração Pública, a corrupção sobrepõe os interesses privados ao interesse público, na corrupção do desporto acresce a corrosão do puro prazer desportivo.
Veja-se, contudo, que o apetite por viciar resultados, a fim de satisfazer o coração, remonta a tempos atrasados. Nos jogos olímpicos de 338 DC, Eupolos da Tessália não hesitou em subornar três adversários de modo a sair vitorioso dos seus combates.
O que eventualmente mudou de lá até aos dias de hoje, foi porventura a distorção da acção criminosa motivada pela análise de custo benefício, o que significa que as medidas de combate à corrupção no sector desportivo, devem assentar na diminuição dos benefícios e no aumento dos custos directos da acção, de forma a aumentar a probabilidade de se ser punido e diminuir a utilidade deste tipo de práticas para os seus perpretores.
A corrupção no futebol português é caracterizada por uma tendência comum no que respeita às ambições do agente activo. Dos diferentes casos ao longo das últimas décadas: “Calabote” em 1959, “Penafielgate” em 1990, “Bolsos Limpos” em 1993, “Apito Dourado” em 2003, “Colmeia” em 2009, “Jogo Duplo” em 2016, até aos mais recentes escândalos ainda na memória recente de todos, certo é que o futebol tem muitas outras dores de cabeça pelas quais não pode culpar ninguém além de si mesmo, por se ter tornado um alvo de uma cultura de ganância.
Repensemos de que forma poderemos mitigar a impunidade do capital e o eco que faz ressoar na gestão do agora e sempre, desporto rei, a bem do salutar autêntico sentimento desportivo."
PS: Acrescento que a ignorância é uma das principais causas deste estado de coisas, e a inclusão do caso Calabote neste embrulho, prova que a ignorância é generalizada...!!!
Mudança de turno no Mundial
"O tempo exercita a crueldade de uma forma absolutamente democrática. Passa para todos e nem sequer respeita os mais unânimes dos talentos. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi vão continuar a ser os melhores do mundo durante mais algum tempo, mas o calendário já nos atira à cara o princípio do fim. E o primeiro choque com a realidade apareceu no final dos jogos que tiraram à Argentina e a Portugal o sonho da glória russa.
Daqui a quatro anos, quando o futebolisticamente irrelevante Catar receber o próximo Campeonato do Mundo, Ronaldo terá 37 anos e Messi andará nos 35. O horizonte competitivo ainda os coloca na rota desse torneio, mas a roda do tempo vai atirar outros nomes para o patamar mais alto do futebol. Por isso, terá sido na Rússia que vimos os dois melhores jogadores da actualidade ao mais alto nível num Mundial pela última vez.
A partida precoce das duas selecções surge em contextos diferente, por muito que o desfecho tenha sido idêntico e até encostado no tempo (Argentina e Portugal saíram do Campeonato do Mundo no mesmo dia).
A Argentina andou durante quatro jogos a tentar organizar um amontoado de jogadores que Jorge Sampaoli atirava para o campo, mas sempre desalinhados à volta da magia de Messi. Falhou em toda a linha. Não conseguiu potenciar na plenitude a genialidade do astro do Barcelona e acabou até por colocá-lo a rodar pelo campo, em funções diferentes nos vários jogos: mais longe da área, mais perto da linha ou como falso ponta de lança. Por outro lado, o seleccionador argentino pareceu sempre acreditar que alguns dos restantes talentos estariam melhor no banco do que em campo: Éver Banega demorou a entrar na equipa, Paulo Dybala jogou 23 minutos e Giovani Lo Celso nem sequer experimentou a relva russa. O seleccionador da Argentina não conseguiu encontrar a fórmula para juntar em campo a magia que poderia ter prolongado a vida da equipa sul-americana no Mundial. E também a inestimável presença de Messi.
O jogo que afastou o 10 argentino foi o mesmo que apresentou ao planeta futebolístico o próximo nome que este desporto vai tornar global. Kylian Mbappé desmontou a Argentina com uma guarda de honra de talento acima de qualquer suspeita: Pogba, Griezmann e Giroud estiveram todos juntos em campo, num exercício de coabitação pacífica e eficiente, que Didier Deschamps poderia usar para explicar a Sampaoli que sim, é possível juntar qualidade sem perder competências.
No Uruguai x Portugal não saiu da sombra nenhum talento, mas o hino à eficácia de Cavani e Suárez terá sido um castigo pouco merecido na melhor exibição portuguesa dos últimos tempos. No entanto, os franceses terão dito o mesmo do golo de Éder e da final do Europeu de há dois anos, porque no futebol a justiça (ou a injustiça) é mesmo cega.
Frente a um adversário que muitas vezes só quer a bola para a colocar depressa perto da baliza adversária, os campeões da Europa assumiram o jogo durante largos períodos, demonstrando que o caminho para o sucesso nem sempre se constrói com a oferta do controlo das operações ao adversário. A fórmula euro foi demasiado interessante para ser esquecida, mas era dificilmente repetível na passagem de França para a Rússia.
Portugal apareceu várias vezes no Campeonato da Europa com dois "falsos alas" que potenciavam o equilíbrio, um acelerador no centro do jogo e um companheiro de ataque de Cristiano Ronaldo com perfil diferente de André Silva e Gonçalo Guedes. A equipa que Fernando Santos levou ao Olimpo juntou várias vezes a disciplina táctica de André Gomes e João Mário, potenciando os desequilíbrios de Renato Sanches no coração do campo e a eficácia e experiência de um Nani que nunca tremeu. Deste quarteto apenas João Mário demonstrou ter nesta altura as condições suficientes para poder estar nas escolhas do Engenheiro do Euro, mas é muito provável que Fernando Santos não tivesse deixado de fora o André Gomes, o Nani e o Renato Sanches do verão de 2016. Só que as boas memórias não ganham jogos.
Cristiano Ronaldo e Lionel Messi saíram demasiado cedo do Mundial, mas deixaram na Rússia os dois galácticos que lhes vão disputar o trono. Senhoras e senhores, chegou a hora de Neymar e Mbappé. Que vença o melhor."
Mundial, balanço dos ‘oitavos’: Brasil cada vez mais favorito
"Com o treinador Tite, o grande reforço, a equipa do Brasil juntou a força à fantasia, colocou a organização a sustentar a classe do seu trio de luxo: Neymar, Coutinho, Willian. Ataca e defende. Não há maior candidato à vitória
Os oitavos-de-final do campeonato do Mundo de futebol mais equilibrado de sempre afastaram outros três (ex)candidatos (Portugal, Espanha e Argentina, que assim se juntaram à Alemanha) e confirmaram o Brasil como o maior dos favoritos a vencer a prova.
O Brasil tem tudo mas, acima de tudo, tem agora um treinador. Tite é o grande reforço. Não tem nada a ver com o folclórico Scolari, nem sequer com Dunga. É, claramente, um homem do futebol realista, de alta competição. Com ele, o Brasil ataca e defende. Se for preciso, como se vê, senta Marcelo no banco (joga Filipe Luís). Acabou com o equívoco de David Luis, um defesa que (além de chorar demasiado) defende mal. Tem hoje Casimiro a estabilizar e Paulinho a verticalizar no míolo, segurando a ala criativa – e, se for preciso, ainda há Fernandinho (que ficou muito marcado pelos 7-1 da Alemanha, há quatro anos). Com um esquema em que até Fágner (defesa-direito que o treinador conhece bem da passagem pelo Corinthians) suplanta o ex-portista Danilo e faz esquecer Dani Alves (lesionado antes da competição), o Brasil joga em bloco. Miranda, aos 34 anos, chegou finalmente à equipa numa grande prova e para ser um dos capitães, formando uma das melhores duplas de centrais do mundo com Thiago Silva. O guarda-redes Alisson tem muita qualidade e é soberbo a jogar com os pés. Com tudo isto, pode libertar-se o talento. E não é só a ‘estrela’ Neymar. Também Philippe Coutinho e Willian estão o jogar a um nível muito alto no apoio a Firmino, um dos três grandes do ataque do Liverpool (com Salah e Mané).
O Brasil é favorito mas tem dois ossos duros até chegar à final. O primeiro é a Bélgica, que se chegou a assustar com o Japão. O segundo será a França, se esta se desenvencilhar, como se espera, do Uruguai (que não deve ter Cavani recuperado). Gosto da França, pelo equilíbrio de Kanté, a força de Pogba e o ‘foguete espacial’ Mbappé. Falta-lhe, no entanto, fantasia. O jogo é muito linear, musculado e nem todas as equipas são adversários fracturados, como a Argentina. Vêm aí jogos que pedirão outra capacidade de circulação. Veremos… Até se há, ou não, Griezmann.
Do lado contrário do quadro, sem a Espanha, os maiores candidatos a chegar à final são agora a Croácia (que defrontará a Rússia) e a Inglaterra (jogará com a Suécia), que finalmente colocou um ponto final na ‘maldição’ das grandes penalidades e com Eric Dyer, grande jogador formado no Sporting, a cobrar a última, sem pressão.
A ronda em que Portugal saiu (jogando o seu melhor futebol no Mundial, sob a batuta de Bernardo Silva), gerou um grande desconforto na selecção espanhola. Independentemente de ter ficado por assinalar uma evidente grande penalidade sobre Piquet, que talvez desse outro resultado que não a qualificação da Rússia, a sina de Espanha foi cair de rendimento desde a estreia, mostrando como a saída de Lopetegui fragilizou a direção da equipa. Hierro não convenceu – e será substituído, falando-se já em nomes para a sucessão: Luis Enrique, Michel, o ex-benfiquista Quique Flores e até na possibilidade de Xavi Hernandez, jogador de Jesualdo Ferreira no Qatar e que nunca treinou qualquer equipa. Começará agora a última fase de saída dos sobreviventes das três grandes conquistas (dois Europeus e um Mundial). Piquet e Iniesta já o anunciaram, David Silva pode ser o próximo. Sobrará Sérgio Ramos, apenas.
Os grandes jogos desta fase foram dois: o França-Argentina, acima de todos, pela fantástica explosão de Mbappé e o Japão-Bélgica, pela recuperação dos pupilos do catalão Roberto Martinez, que estiveram a perder por 2-0 até mais ou menos um quarto de hora do fim. Para quem conhece o futebol japonês não houve surpresa. Eles jogam melhor a cada ano que passa, mas são sempre leais e demasiado generosos em todos os momentos. A jogada em que sofreram a derrota, nos últimos segundos, é uma amostra dessa generosidade e entrega ao jogo, às vezes demasiado juvenil, que no futuro vai ter de fazer uma parceria com o mundo real para a equipa aspirar a mais do que ser com regularidade a melhor da Ásia.
A competição vai, entretanto, formatando os seus destaques individuais. O Dinamarca-Suécia foi duelo de guarda-redes. Primeiro, brilhou Schmeichel, Kasper, filho de Peter. Tem a personalidade do pai. Mas Subasic, o homem de Leonardo Jardim, no Mónaco, fez-lhe companhia. Dois homens mentalmente fortes para situações extremas.
A Colômbia não anda com muita sorte em fases finais. Em 2014 não teve Falcão. Agora, no jogo mais importante, não teve James. Mas quase ia chegando, sob a liderança do central Mina, suplente de luxo do Barcelona. Três golos em três jogos.
E, depois, há Harry Kane, mesmo que dos seus seis golos três tenham sido marcados de grande penalidade. Entre ele, Mbappé e Neymar deverá sair o MVP desta prova.
Não se deve colocar a Croácia, batida por Portugal no último Europeu, de fora deste filme de suspense em que a maior prova do futebol se transformou na era VAR. Nem a Inglaterra, de futebol chato e previsível mas sempre intenso. De qualquer forma, como já antes da prova começar, o Brasil é o adversário a abater. A equipa mais preparada e melhor apetrechada. Bélgica e França terão a sua oportunidade agora. O jogo da final, visto à distância, parece ser sempre menos atractivo do que esses dois."
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